Sistema integrado transforma agricultura familiar no Agreste

Experiência pernambucana foi destaque da Caatinga Climate Week, evento que posiciona a Caatinga como território de inovação, resistência e futuro

Um casal, Seu Zé e Dona Cilene, está em pé em um caminho estreito no quintal. O homem usa camisa polo azul e a mulher regata rosa. Ao lado deles, há uma grande cisterna de placas de concreto branca, cercada por arbustos e flores alaranjadas brilhantes. O céu está azul com nuvens brancas.
No Sítio Caruá, agreste de Pernambuco, Seu Zé e Dona Cilene mostram na prática por que a Caatinga é um bioma de soluções | Foto: Andréia Vitório

Quem chega à propriedade da família de Dona Cilene e Seu Zé Bocão, no Sítio Caruá, em Vertentes, no Agreste pernambucano, encontra um exemplo vivo de como as tecnologias sociais de convivência com o Semiárido transformam a realidade de quem vive na região. Ali, cada solução foi pensada para respeitar a Caatinga e aproveitar as potencialidades do bioma. 

O resultado é um sistema produtivo integrado que garante água para beber, produzir e viver, além de alimento na mesa e geração de renda.

Nesse sistema integrado cuidadosamente planejado e colocado em prática, a água chega pelas cisternas, passa pelo sistema de dessalinização, abastece a casa e a produção e, antes de completar seu ciclo, segue para o Sistema de Reuso de Águas Cinzas, que irriga o Sistema Agroflorestal (SAF) da família. Cada gota é aproveitada para maior segurança alimentar e hídrica. 

Três homens e uma mulher estão em pé em um caminho de terra, observando uma estrutura metálica que sustenta várias caixas de madeira empilhadas, identificadas como colmeias de abelhas. Uma caixa d'água azul está à esquerda, perto de arbustos floridos com flores rosa.
Visitantes e agricultores observam a criação de abelhas sem ferrão na propriedade, que gera mel para consumo e renda em meio a um sistema produtivo integrado na Caatinga | Foto: Andréia Vitório

Mais do que um conjunto de tecnologias, o sistema demonstra que a convivência com o Semiárido pode fortalecer a produção, conservar a Caatinga e ampliar a autonomia das famílias a partir de saberes e práticas capazes de inspirar outros territórios diante da crise climática e da necessidade de adaptação.

Em frente à cisterna de placas de 16 mil litros, que armazena a água utilizada para o consumo da família, Seu Zé compartilha sua experiência com a integração de diferentes tecnologias de convivência com o Semiárido para produzir, gerar renda e viver com qualidade. Por fim, ele fala da alegria de fazer parte da Caatinga, o único bioma exclusivamente brasileiro:

Sistemas integrados
e Caatinga em pé

E se tem água, fica mais fácil ter alimento. No SAF de Seu Zé e Dona Cilene são cultivados, por exemplo, milho, feijão, abóbora, mandioca, coentro, alface, couve, rúcula, salsa, beterraba, cebolinha, espinafre, ervilha e abacaxi.

Para otimizar ainda mais os recursos do bioma, a família conta também com um biodigestor, tecnologia social que gera economia, reduz a necessidade de buscar lenha e, consequentemente, o desmatamento, além de produzir biofertilizante para retornar ao solo. Esse ciclo sustentável promove qualidade de vida e autonomia, além de contribuir para manter a Caatinga em pé.

Mas nem sempre foi assim.

Uma mulher vestindo uma blusa rosa e calça jeans caminha ao lado de uma grande cisterna de placas de concreto branca, semi-enterrada no solo. A cisterna é cercada por vegetação verde densa, incluindo um mandacaru em primeiro plano. O céu é azul com nuvens.
Dona Cilene caminha perto da cisterna calçadão, uma das tecnologias sociais que, a partir de 2018, começou a transformar o quintal da família em Vertentes (PE) | Foto: Andréia Vitório

Seu Zé lembra da chegada da cisterna calçadão, em 2018, e de como a partir dali a vida começou a mudar. “Antes de a gente receber a cisterna aqui, tivemos a visita de um técnico para um curso sobre como tratar a água, como ela ia chegar e o que a gente ia poder fazer com ela. E esse conhecimento veio com a proposta de cuidar da terra e plantar”, conta.

Com os novos saberes e a tecnologia voltada ao armazenamento de água, o quintal, antes sem cor, foi ficando cada vez mais verde.

A partir da recuperação do solo e do plantio, chegaram as hortaliças e outros cultivos. Com uma renda extra que recebeu, o casal também investiu na criação de galinhas e na tecnologia de reuso da água cinza, fundamental para o melhor aproveitamento da água.

Outra boa prática na propriedade é a cobertura adequada do solo. No vídeo a seguir, Seu Zé mostra a diferença na absorção da água a partir do manejo adequado:

Soberania alimentar

Seu Zé e Dona Cilene criam peixes, galinhas e abelhas sem ferrão, garantindo mel para consumo e venda. Tudo isso em meio a um quintal cheio de vida, com solo bem cuidado e experimentações constantes.

Uma mesa coberta por uma toalha estampada com frutas está repleta de produtos agrícolas. Em primeiro plano, várias espigas de milho seco. Atrás, garrafas PET com grãos e sementes, e potes plásticos transparentes cheios de mel líquido dourado e favos de mel.
Milho, sementes e mel expostos em uma mesa: a produção diversificada do Sítio Caruá garante alimento na mesa e geração de renda para a família | Foto: Andréia Vitório

Para completar, o casal mantém um banco de sementes crioulas, adaptadas ao solo e ao clima da região. Além de fortalecer a diversidade da produção, essa iniciativa, que atravessa gerações, contribui para a soberania alimentar da família, que também realiza trocas de sementes com outros agricultores e organizações para preservar a diversidade das variedades cultivadas.

Conhecimento fortalece
a convivência
com o Semiárido

Não foi só a paisagem que mudou. Em meio às soluções inspiradas nas potencialidades da Caatinga, Dona Cilene, por exemplo, deixou para trás o trabalho exaustivo da costura, pelo qual chegava a receber apenas centavos por peça, e passou a cultivar a terra. 

Um casal sorridente, Seu Zé e Dona Cilene, está em pé sob a sombra de árvores em um ambiente de quintal. O homem, à esquerda, usa óculos e camisa polo azul e segura um quadro de colmeia cheio de favos de mel coberto por plástico. A mulher, à direita, usa óculos e uma regata estampada rosa.
Dona Cilene deixou o exaustivo trabalho de costura para se juntar ao marido nos cuidados com a terra e manejo da Caatinga para melhor aproveitar as potencialidades do bioma | Foto: Andréia Vitório

Essa mudança, conta, foi viabilizada por capacitações do Centro Sabiá: “com a costura era 10 centavos, 5 centavos. Mas, depois que a gente teve acesso a outros conhecimentos, eu fui deixando a costura aos poucos para tomar conta das hortas, do quintal. A máquina hoje está aposentada”, diz.

Veja outras tecnologias sociais presentes na propriedade da família:

Um grupo de pessoas está reunido ao ar livre. Um homem com barba e camisa preta está em pé ao lado de um equipamento de dessalinização de água, coberto por um telhado de vidro inclinado. Próximo a ele, uma grande caixa d'água azul redonda está montada em uma base de concreto.
O sistema de dessalinização é parte do ciclo hídrico integrado da propriedade, garantindo água potável para a casa e produção antes de ser reutilizada na irrigação | Foto: Andréia Vitório

*Essa foi uma das experiências visitadas durante a 2ª edição da Caatinga Climate Week, realizada no Agreste pernambucano. A iniciativa foi promovida pelo Centro Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA) entre os dias 1º e 3 de julho. A repórter Andréia Vitório participou do evento a convite da organização.

Saiba mais sobre a Caatinga Climate Week e inspire-se com a força do bioma e de sua gente.

Quer a apoiar a Eco Nordeste?

Seja um apoiador mensal ou assine nossa newsletter abaixo: