Experiência pernambucana foi destaque da Caatinga Climate Week, evento que posiciona a Caatinga como território de inovação, resistência e futuro

Quem chega à propriedade da família de Dona Cilene e Seu Zé Bocão, no Sítio Caruá, em Vertentes, no Agreste pernambucano, encontra um exemplo vivo de como as tecnologias sociais de convivência com o Semiárido transformam a realidade de quem vive na região. Ali, cada solução foi pensada para respeitar a Caatinga e aproveitar as potencialidades do bioma.
O resultado é um sistema produtivo integrado que garante água para beber, produzir e viver, além de alimento na mesa e geração de renda.
Nesse sistema integrado cuidadosamente planejado e colocado em prática, a água chega pelas cisternas, passa pelo sistema de dessalinização, abastece a casa e a produção e, antes de completar seu ciclo, segue para o Sistema de Reuso de Águas Cinzas, que irriga o Sistema Agroflorestal (SAF) da família. Cada gota é aproveitada para maior segurança alimentar e hídrica.

Mais do que um conjunto de tecnologias, o sistema demonstra que a convivência com o Semiárido pode fortalecer a produção, conservar a Caatinga e ampliar a autonomia das famílias a partir de saberes e práticas capazes de inspirar outros territórios diante da crise climática e da necessidade de adaptação.
Em frente à cisterna de placas de 16 mil litros, que armazena a água utilizada para o consumo da família, Seu Zé compartilha sua experiência com a integração de diferentes tecnologias de convivência com o Semiárido para produzir, gerar renda e viver com qualidade. Por fim, ele fala da alegria de fazer parte da Caatinga, o único bioma exclusivamente brasileiro:
Sistemas integrados
e Caatinga em pé
E se tem água, fica mais fácil ter alimento. No SAF de Seu Zé e Dona Cilene são cultivados, por exemplo, milho, feijão, abóbora, mandioca, coentro, alface, couve, rúcula, salsa, beterraba, cebolinha, espinafre, ervilha e abacaxi.
Para otimizar ainda mais os recursos do bioma, a família conta também com um biodigestor, tecnologia social que gera economia, reduz a necessidade de buscar lenha e, consequentemente, o desmatamento, além de produzir biofertilizante para retornar ao solo. Esse ciclo sustentável promove qualidade de vida e autonomia, além de contribuir para manter a Caatinga em pé.
Mas nem sempre foi assim.

Seu Zé lembra da chegada da cisterna calçadão, em 2018, e de como a partir dali a vida começou a mudar. “Antes de a gente receber a cisterna aqui, tivemos a visita de um técnico para um curso sobre como tratar a água, como ela ia chegar e o que a gente ia poder fazer com ela. E esse conhecimento veio com a proposta de cuidar da terra e plantar”, conta.
Com os novos saberes e a tecnologia voltada ao armazenamento de água, o quintal, antes sem cor, foi ficando cada vez mais verde.
A partir da recuperação do solo e do plantio, chegaram as hortaliças e outros cultivos. Com uma renda extra que recebeu, o casal também investiu na criação de galinhas e na tecnologia de reuso da água cinza, fundamental para o melhor aproveitamento da água.
Outra boa prática na propriedade é a cobertura adequada do solo. No vídeo a seguir, Seu Zé mostra a diferença na absorção da água a partir do manejo adequado:
Soberania alimentar
Seu Zé e Dona Cilene criam peixes, galinhas e abelhas sem ferrão, garantindo mel para consumo e venda. Tudo isso em meio a um quintal cheio de vida, com solo bem cuidado e experimentações constantes.

Para completar, o casal mantém um banco de sementes crioulas, adaptadas ao solo e ao clima da região. Além de fortalecer a diversidade da produção, essa iniciativa, que atravessa gerações, contribui para a soberania alimentar da família, que também realiza trocas de sementes com outros agricultores e organizações para preservar a diversidade das variedades cultivadas.
Conhecimento fortalece
a convivência
com o Semiárido
Não foi só a paisagem que mudou. Em meio às soluções inspiradas nas potencialidades da Caatinga, Dona Cilene, por exemplo, deixou para trás o trabalho exaustivo da costura, pelo qual chegava a receber apenas centavos por peça, e passou a cultivar a terra.

Essa mudança, conta, foi viabilizada por capacitações do Centro Sabiá: “com a costura era 10 centavos, 5 centavos. Mas, depois que a gente teve acesso a outros conhecimentos, eu fui deixando a costura aos poucos para tomar conta das hortas, do quintal. A máquina hoje está aposentada”, diz.
Veja outras tecnologias sociais presentes na propriedade da família:



*Essa foi uma das experiências visitadas durante a 2ª edição da Caatinga Climate Week, realizada no Agreste pernambucano. A iniciativa foi promovida pelo Centro Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA) entre os dias 1º e 3 de julho. A repórter Andréia Vitório participou do evento a convite da organização.
Saiba mais sobre a Caatinga Climate Week e inspire-se com a força do bioma e de sua gente.


