Para os sapos do Semiárido, a luz urbana é uma armadilha

Ao analisar hábitos noturnos de anuros, pesquisa da UFPI e da ONG Bioma vê impactos negativos da poluição luminosa

Pequena perereca de dorso marrom-claro e patas amarelo-esverdeadas sobre uma grande folha verde de planta.
Registro de anuro durante o monitoramento noturno. A pesquisa acompanhou as espécies por 13 meses consecutivos para entender a relação desses animais com a luminosidade | Foto: Mauro Sérgio Cruz Souza Lima via Agência Bori

Aos olhos do sapo-cururu (Rhinella diptycha), o poste luminoso parecia um banquete. Um buffet de insetos alheios à sua aproximação, atraídos pelo poste de energia que quase igual à Lua. Era um cenário irrecusável e atraente, até o anuro chegar ao asfalto — então, veio a tragédia, frequente em áreas urbanizadas. 

Uma pesquisa da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e da ONG Bioma, publicada em junho de 2026 na revista Brazilian Journal of Biology, identificou que a poluição luminosa de Floriano (PI) está desorientando os anfíbios mais tolerantes à luz e levando-os a áreas de alto risco de atropelamento. 

“De fato, sabe-se há muito que a poluição luminosa afeta a riqueza e diversidade de espécies, altera seus comportamentos, muitas vezes expondo os indivíduos a riscos. É sem dúvida uma das grandes causas da erosão da biodiversidade atualmente”, comenta à Eco Nordeste o biólogo Jonas Pederassi, doutor pelo Museu Nacional/UFRJ, pesquisador da ONG Bioma e um dos autores do estudo.

Homem à noite com lanterna de cabeça segura uma pequena cobra esbranquiçada. Ele usa mochila, camiseta azul e carrega uma câmera Nikon no pescoço.
O biólogo Jonas Pederassi, pesquisador da ONG Bioma e um dos autores do estudo que identificou os riscos da poluição luminosa para os anfíbios no Piauí | Foto: Acervo pessoal

“Além dos próprios insetos que são prejudicados ali (por caírem por exaustão), os sapos ficam expostos a atropelamentos e não é incomum encontrá-los atropelados pelas ruas de cidades pequenas”, descreve.

A observação foi consequência de um estudo de campo de 13 meses consecutivos para analisar como são os hábitos dos anuros — grupo dos sapos, rãs e pererecas — do Semiárido em relação à luz da lua. 

Segundo Jonas, a ideia da pesquisa surgiu como continuação à tese defendida por ele no Museu Nacional. Nela, o biólogo identificou que a maioria das espécies de anuros nas serranias da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, preferiam as fases mais escuras da Lua para suas atividades.

“Nós quisemos verificar se o padrão se repetia para o ecótono Caatinga/Cerrado”, aponta, justificando a escolha de Floriano, município piauiense, como foco da análise. 

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“Por muito tempo o Semiárido teve sua biodiversidade subestimada e isso parece ter atrasado o início de pesquisas mais aprofundadas nesse ecossistema”, pontua Jonas. “Atualmente, embora a riqueza do Semiárido seja bem conhecida, existem lacunas nesse conhecimento motivadas principalmente por desafios logísticos.”

“Isso faz com que muitos pesquisadores prefiram fazer estudos em unidades de conservação, enquanto muitos ambientes desprotegidos permanecem pouco ou nada estudados. E quando pensamos em espécies noturnas, há um pouco mais de dificuldade e riscos também, principalmente em estudos fora da segurança de unidades de conservação”, analisa.

Os pesquisadores registraram 1.921 indivíduos de 12 espécies diferentes no local estudado e cruzaram as aparições com a taxa de albedo lunar, índice que mede a quantidade de luz solar refletida pela Lua para a superfície da Terra. 

Quantidade de indivíduos identificados no monitoramento, por espécie

Com isso, Jonas e os pesquisadores da UFPI doutor Mauro Sergio Cruz Souza Lima, idealizador e coordenador do estudo, e a mestre Joara de Souza Andrade, confirmaram que a maioria das espécies analisadas (60%) “preferem agir nas noites mais escuras”. 

“Embora a fuga de predadores seja uma hipótese plausível (para a preferência), ainda precisamos de testes experimentais isolados para afirmar categoricamente se a causa principal é a predação ou outros fatores”, explica Jonas.

Poluição luminosa confunde
até os mais tolerantes 

“Compreender os mecanismos de interação das espécies de anuros com o ciclo lunar sinódico nos permitirá promover ações para mitigar a interferência antrópica, favorecendo a conservação da comunidade de anuros”, descrevem os autores na pesquisa. “Mesmo espécies habitualmente presentes em ambientes antrópicos demonstraram tendência a uma maior ocorrência durante a fase de menor luminosidade lunar.”

Dentre os anuros observados no decorrer do ano da pesquisa, a perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus) mostrou-se uma exceção à regra dos anfíbios da escuridão. Infelizmente, por isso mesmo ela acaba vivendo o cenário descrito no começo da reportagem. 

Rã de coloração marrom com manchas escuras e listras longitudinais no dorso, camuflada no chão entre folhas secas e folhas de capim verde.
Rã observada durante o estudo de campo em Floriano (PI); dados apontam que 60% das espécies locais preferem agir nas noites mais escuras | Foto: Mauro Sérgio Cruz Souza Lima via Agência Bori

“No primeiro momento, podemos achar que isso é benéfico, já que ela é um predador natural de insetos. O que se observa comumente, no entanto, é o aumento da taxa de atropelamentos, além da exposição a gatos e cachorros das espécies atraídas para ambientes periurbanos e urbanos”, comenta Jonas.

No Brasil, há uma lacuna de dados sobre atropelamentos de animais silvestres. A existência e exatidão da informação depende de projetos de pesquisa de instituições estaduais e do método de pesquisa; em geral, quando há dados sobre atropelamentos, mamíferos e aves configuram como os grupos mais afetados. 

No entanto, um estudo de 2024 publicado na revista científica Austral Ecology, realizado em uma área protegida da Amazônia paraense, observou que anfíbios são as principais vítimas de atropelamento, ainda que subnotificados tanto por serem menores — e, portanto, mais difíceis de ver — e por serem considerados de menor importância por voluntários na produção dos dados. 

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Em dois anos de monitoramento, os pesquisadores registraram 2.795 animais atropelados em uma área protegida no oeste do Pará, ainda que o número real possa ser até 40 vezes maior, já que muitas carcaças desaparecem por condições climáticas e ambientais.

Os anfíbios foram a maioria dos casos de atropelamento (54%), seguidos de répteis (22%), mamíferos (17%) e aves (8%).

A importância de
pesquisas sobre anfíbios

Ainda que o objetivo fosse produzir ciência básica, os resultados da pesquisa podem ser utilizados para embasar políticas de monitoramento e conservação das espécies, como planos de manejo de rodovias para reduzir atropelamentos da fauna silvestre. 

“Se a maior parte das espécies concentra sua atividade nas fases mais escuras da lua, os planos de manejo de rodovias podem implementar ações direcionadas, como alertas sazonais para motoristas em painéis eletrônicos e intensificação do monitoramento de fauna nesses picos de movimentação”, descreve Jonas.

Perereca de coloração amarelada com grandes olhos escuros pousada sobre uma superfície de madeira cinzenta e rugosa.
Anfíbios são essenciais para o equilíbrio ecológico e controle de pragas | Foto: Mauro Sérgio Cruz Souza Lima via Agência Bori

Ainda, o estudo coloca os anuros no protagonismo, auxiliando no combate ao preconceito ainda vivido por esses animais. “Eles são considerados ‘asquerosos’ e muitas pessoas chegam a ter medo deles, mesmo sendo inofensivos”, lamenta o biólogo.

Sapos, rãs e pererecas são importantes controladores de insetos, muitos dos quais são potenciais vetores de doenças e outros considerados como pragas agrícolas. A manutenção de suas populações também é essencial para manter o equilíbrio da cadeia alimentar, servindo de presas a animais maiores.

“Isso para darmos um ‘valor’ (dos anuros) efetivo para os humanos. Mas (a importância de conservar e preservar esse grupo) também vem do simples fato de que eles existem em nosso planeta pelo mesmo acaso que nós”, reflete. 

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Cada espécie importa pelo simples fato de existirem, mas se isso não é o bastante para as questões econômicas, talvez importe que a cada espécie que perdemos, muitas vezes sem nem as conhecermos direito, estamos perdendo também diversidade genética. Genes que nem sabemos que existem e que podem ser a fonte de enzimas ou outros componentes que futuramente poderiam ser sintetizados e transformados em cura para doenças, por exemplo.”

*Com informações da Agência Bori

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