É consenso científico que o valor da Caatinga está na sua biodiversidade e variadas vertentes do conhecimento sobre conservação estão reunidas em publicação lançada na COP17

Ulaanbaatar (Mongólia). A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, enfrenta hoje um de seus maiores desafios históricos: o avanço silencioso da desertificação. Longe de ser um deserto homogêneo e sem vida, o Semiárido brasileiro abriga uma riqueza biológica que desafia as expectativas globais.
Funciona como uma engrenagem ecológica complexa que depende crucialmente de sua biodiversidade para se manter de pé. A conservação deste ecossistema e o avanço das pesquisas científicas têm se mostrado as ferramentas mais eficazes para conter a degradação do solo, proteger as comunidades locais e desenhar novas estratégias de convivência com o clima semiárido.
Riqueza inestimável
Para compreender a urgência de sua conservação, é preciso desconstruir a imagem de uma Caatinga sem recursos ou de vegetação monótona. O biólogo Renato Garcia Rodrigues, professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e doutor em Ecologia e Conservação da Natureza, destaca que o Semiárido brasileiro é o mais biodiverso e também o mais populoso do Planeta.

“É um semiárido mega diverso, como se fosse a Amazônia dos semiáridos”, afirma. Segundo o biólogo, se considerarmos as manchas úmidas que existem imersas no Semiárido, o bioma chega a abrigar mais de 4 mil espécies vegetais, variando de 3.500 a 4.500 espécies em sua totalidade.
Na área de atuação do pesquisador – que abrange desde o oeste de Pernambuco até o oeste da Paraíba, o leste e sudoeste do Ceará, e a região do Araripe até Cajazeiras -, encontram-se catalogadas 1.650 espécies vegetais, sendo 229 espécies de árvores.
A título de comparação, Renato menciona que o semiárido português possui apenas duas espécies arbóreas nativas. Essa imensa biodiversidade é o que sustenta a densidade populacional da região, seguindo a regra ecológica global de que locais ricos em vida e recursos atraem a presença humana.

A sobrevivência dessa vegetação depende de estratégias evolutivas refinadas para lidar com o déficit hídrico severo. Conforme explica o pesquisador, a aridez é calculada pela relação entre a entrada de água por chuvas e a perda por evapotranspiração potencial.
No Semiárido brasileiro, o índice de aridez varia de 0,21 a 0,68. Em regiões com índice próximo a 0,20, a perda de água por evaporação é cinco vezes maior do que a entrada de chuvas.
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Nesse limiar extremo, a vegetação lança mão de adaptações históricas para vencer a seca: “a vegetação tem estratégias para vencer, que é perder as folhas, é acumular água nas suas raízes, fazer fotossíntese com caule, ter folhas bem pequenininhas que caem”.
Renato acrescenta que, muitas vezes, as plantas abortam ramos inteiros e geram novos brotos assim que a chuva retorna, o que demonstra uma fantástica capacidade de resiliência evolutiva.
A engrenagem da vida
e o ponto de não retorno
No entanto, essa resiliência está sendo testada por mudanças climáticas e pela ação antrópica ( do ser humano). O estudo “Changes in the aridity index across Brazilian biomes” (Alterações no índice de aridez nos biomas brasileiros), conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) revela que, no miolo da região semiárida do Brasil, o índice de aridez baixou de 0,20, e ultrapassou a fronteira para uma aridez ainda mais severa.
Renato alerta que esta é uma situação nova e que não se sabe ainda como as plantas se comportam nesse cenário. Para decifrar essa dinâmica, os cientistas utilizam o conceito de diversidade funcional, analisando as plantas não apenas por suas espécies, mas por seus “tipos funcionais”, como vegetais de raízes profundas com folhas pequenas, ou de folhas grandes com raízes longas. Quanto mais árido o ambiente, maior tende a ser essa diversidade funcional, garantindo que o ecossistema continue operando.
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O grande perigo reside na perda dessa diversidade biológica. Embora a Caatinga possua uma enorme variedade de funções ecológicas, há poucas espécies que desempenham cada uma dessas tarefas específicas. “Se a gente perde uma espécie, duas, se perde biodiversidade, pode perder uma função inteira do ecossistema”, adverte o professor.
Quando uma função ecológica crucial desaparece, o ecossistema pode entrar em colapso e atingir o chamado ponto de não retorno, que caracteriza o processo de desertificação. Na prática, isso desencadeia um ciclo vicioso de degradação.
Normalmente, as folhas que caem no solo são decompostas por microrganismos e disponibilizam nutrientes de fácil assimilação quando chove. No entanto, sem a microbiota do solo, essa matéria orgânica não se decompõe, acaba degradada pelo sol e é levada pelo vento.
A biodiversidade faz o ecossistema funcionar, não é uma coisa dissociada da outra
Renato Garcia Rodrigues
Com o solo desprotegido de vegetação, as chuvas arrastam os sedimentos e os poucos nutrientes restantes para os leitos dos rios, assoreando-os e transformando rios que eram intermitentes em rios efêmeros.
Este caminho de autodegradação contínua é o cenário mais caro, complexo e emergencial que a ciência tenta combater. Renato resume com clareza: “A biodiversidade não é só um cenário… ela faz o ecossistema funcionar, não é uma coisa dissociada da outra.”
Conservar e restaurar
Atualmente, cerca de 50% da cobertura vegetal da Caatinga permanece de pé, mas essa vegetação não é homogênea. Ela consiste em um mosaico complexo de áreas em diferentes estados de conservação e uso histórico. Por meio de análises de imagens de satélite desde a década de 1980, pesquisadores conseguem rastrear a história de cada porção de terra.
Enquanto algumas áreas mantiveram a cobertura florestal contínua, outras passaram por ciclos repetidos de desmatamento e regeneração. Há também áreas de solo exposto que permanecem degradadas desde os anos 1980, sem conseguir se recuperar sozinhas mesmo após o abandono das atividades econômicas.

Isso ocorre porque certos ciclos agrícolas históricos, como o plantio de algodão no Cariri paraibano ou a pecuária extensiva de gado na região baiana de Curaçá, deixaram marcas profundas e degradação severa no solo.
Diante desse cenário, a prioridade máxima defendida pelos especialistas é a preservação do que ainda resta de pé. O pesquisador argumenta que a restauração florestal jamais deve ser vista como uma licença para desmatar. “A restauração não é uma salvaguarda para a degradação, ela não pode ser. A gente tem que pegar os conhecimentos que existem para trabalhar com a Caatinga com ela de pé, com ela manejada, com ela sustentada”, enfatiza.
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Ele pondera que, embora existam muitos esforços e pesquisas avançando, a ciência ainda não tem total certeza sobre o retorno concreto da vegetação em longo prazo após processos de degradação severa.
Evitar novos desmatamentos por meio de políticas públicas, criação de unidades de conservação, planos de manejo sustentável e incentivo à convivência econômica harmoniosa com o bioma é a medida mais segura e barata para conter o avanço do deserto.
Virada científica
Apesar das dificuldades, a pesquisa científica sobre a recuperação da Caatinga vive um momento de amadurecimento sem precedentes. Há dez anos, existia um verdadeiro vazio científico na área de restauração ecológica do bioma, com escassez de publicações, de profissionais dedicados e de investimentos quando comparado a outras regiões brasileiras.
Essa realidade começou a mudar drasticamente com o acúmulo de conhecimento científico de ponta, somado ao já muito bem consolidado conhecimento tradicional das comunidades locais

Pedro Sena, biólogo e coordenador técnico do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), relata essa transformação ao descrever a construção de uma nova e abrangente publicação voltada para a restauração da Caatinga, gestada ao longo de dois anos e meio.
O livro reuniu 51 autores de 15 instituições diferentes, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); a Univasf, por meio do Núcleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental (Nema), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN); e o Instituto Nacional do Semiárido (Insa).
Essa cooperação multi-institucional reflete a consolidação de uma rede de troca de saberes que se opõe ao antigo estigma de escassez de dados na região. De acordo com Pedro, a publicação demonstra que a Caatinga não é mais aquele lugar de terra arrasada de conhecimento: “A gente já está acumulando muito conhecimento científico.”
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A obra aborda desde as dimensões humanas da restauração até técnicas inovadoras de campo, como o uso de mudas de raízes longas desenvolvido pela pesquisadora Gislene Ganade (UFRN), e o manejo de sementes nativas liderado pela pesquisadora Bárbara Dantas, da Embrapa Semiárido.
Além disso, o livro analisa a viabilidade econômica de modelos de restauração integrados, como Sistemas Agroflorestais (SAFs) e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), mostrando que a recuperação do bioma pode gerar renda para as populações locais. Pedro destaca o impacto desse avanço coletivo: “A gente não pode mais repetir esse discurso de que não sabe como restaurar a Caatinga, que não tem conhecimento e que precisa de gente de fora para vir aqui ensinar.”
Redes de cooperação
O grande motor dessa revolução científica tem sido a articulação em redes de cooperação, com destaque para a Rede de Restauração da Caatinga (Reca), que há quatro anos integra universidades, governos, comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil.
Essa rede funciona como um filtro de experiências que compartilha acertos e evita a repetição de erros. Instituições do terceiro setor e da sociedade civil, como a Associação Caatinga, a Fundação Araripe, o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), o Cepan e o Nema/Univasf, têm testado ativamente metodologias de restauração ativa em larga escala.
No caso do Nema/Univasf, os testes de restauração ativa já alcançaram mais de 2 mil hectares em áreas de obras públicas de infraestrutura e, recentemente, foram expandidos para 600 hectares de propriedades agrícolas privadas em regiões altamente degradadas do Semiárido.

Para os pesquisadores, o grande desafio atual não é mais a falta de técnicas, mas sim a necessidade de dar escala aos projetos bem-sucedidos por meio de “vitrines de restauração”. Renato Garcia defende que, em vez de pulverizar esforços de curto prazo que correm o risco de falhar e desmotivar as comunidades, o foco deve ser a criação de áreas modelo permanentes ao longo do bioma.
“A pior coisa que a gente pode ter é espalhar esforços de curto prazo porque depois que você vai num lugar, mobiliza, faz e aquilo dá errado, como é que você convence a pessoa de novo a ir pro sol, a plantar, a ter esperança?”. Ele propõe separar setores onde já há redes de sementes e capacidades consolidadas e focar em vitrines regionais para que sirvam de escola de replicação
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Pedro também projeta as próximas etapas pós-lançamento do livro: “O que vem depois do lançamento do livro é divulgar, fazer com que ele seja disseminado, as pessoas utilizem, quem sabe colocar à prova alguns conhecimentos, algumas inovações que podem ser já testadas.”
É esse modelo de cooperação redesenhada e ciência aplicada que promete guiar a Caatinga rumo a um futuro de sustentabilidade, provar que o sertão, além de forte, tem os caminhos científicos traçados para vencer a aridez.
O livro pode ser acessado na seção de publicações do Cepan.
* A jornalista Maristela Crispim viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA)


