Biomas e saberes se unem no combate à desertificação

Debate reafirma posições políticas de defesa dos saberes territoriais e o respeito ao protagonismo feminino

À esquerda, uma mulher de óculos e camisa roxa fala ao microfone em um pódio de madeira coberto por um pano branco com a sigla ASA. À sua direita, cinco painelistas estão sentados em poltronas cinzas ouvindo a apresentação. Ao fundo, há um grande painel azul com o título em inglês: "Drylands Restoration Through the Recovery of Degraded Areas and the Strengthening of Traditional Communities", acompanhado dos logotipos do governo brasileiro e da ONU. No chão de madeira, em frente aos palestrantes, destacam-se pequenos tapetes artesanais coloridos com identificações de movimentos sociais, como o "Semiáridos" e a "Rede Cerrado"
O debate destacou que a restauração ambiental é indissociável da justiça social e da preservação cultural de povos e comunidades tradicionais | Foto: Maristela Crispim

Ulaanbaatar (Mongólia). No Pavilhão Brasil, o painel “Restauração de terras secas por meio da recuperação de áreas degradadas e do fortalecimento de comunidades tradicionais”, mediado por Ivi Aliana Dantas, da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), expôs a urgência de integrar biomas, valorizar o conhecimento popular e colocar as mulheres rurais no centro das estratégias de combate à desertificação.

Diante de uma crise que afeta ecossistemas em todo o Sul Global, o debate destacou que a restauração ambiental é indissociável da justiça social e da preservação cultural de povos e comunidades tradicionais . A mensagem consensual dos participantes foi clara: não há recuperação sustentável do solo sem o fortalecimento e a autonomia daqueles que historicamente vivem e cuidam do território.

A aliança entre Cerrado e Caatinga

Em um plano médio, uma mulher de pele clara e cabelos castanho-escuros curtos na altura do queixo, com mechas roxas, está sentada em uma poltrona cinza e fala ao microfone que segura com a mão direita. Ela veste uma blusa preta de mangas curtas e transparentes, traz um crachá de evento pendurado no pescoço e usa diversos acessórios, como brincos redondos prateados, pulseiras e vários anéis nos dedos. Sua mão esquerda está levantada e aberta, gesticulando enquanto fala com um sorriso suave. Ao fundo, há um painel digital azul brilhante com detalhes em verde e, no canto inferior direito, vê-se uma pequena mesa de apoio com dois copos de papel
Para Ingrid Silveira, a proteção ambiental necessita de um esforço conjunto que ultrapasse as fronteiras geográficas convencionais, focando na inter-relação e cooperação entre os biomas | Foto: Maristela Crispim

A secretária executiva do GT Cerrado da Frente Parlamentar Ambientalista e representante da Rede Cerrado, Ingrid Silveira, abriu as falas ressaltando que a proteção ambiental necessita de um esforço conjunto que ultrapasse as fronteiras geográficas convencionais, focando na inter-relação e cooperação entre os biomas.

Ela destacou a parceria crescente entre a Rede Cerrado e a ASA, unidas em pautas de incidência política comuns, como a defesa da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 504, que busca reconhecer a Caatinga e o Cerrado como patrimônios nacionais. Segundo Ingrid, essa PEC é uma prioridade política essencial que precisa ser reavivada no Congresso Nacional, visto que a sociedade em geral ainda tende a subestimar a relevância ecológica desses dois biomas em comparação a outros territórios já reconhecidos, como a Amazônia, a Mata Atlântica e o Pantanal.

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Ingrid enfatizou que a degradação acelerada do Cerrado é impulsionada por uma visão de desenvolvimento historicamente equivocada que ignora suas populações locais e tradicionais. “Nos últimos 50 anos, o Cerrado já perdeu 50% da sua vegetação por causa desse pensamento de uma terra sem gente, sem povo”, denunciou a ativista. Ela lembrou que o bioma, longe de ser um vazio demográfico, abriga 83 etnias indígenas e 22 dos 28 segmentos de povos e comunidades tradicionais reconhecidos pela legislação brasileira.

Para ela, a preservação do Cerrado, conhecido por verter água para outros biomas essenciais, está ligada diretamente à identidade cultural de seus habitantes “A gente tem essa pauta que junta de Cerrado e Caatinga, que começa numa incidência política, mas perpassa pela identidade”, explicou, apontando que o combate à desertificação ocorre na prática por meio do intercâmbio de tecnologias sociais comuns, como a Agroecologia e as cisternas.

Intercâmbio de aprendizados
na Cooperação Sul-Sul

Em plano médio, uma mulher jovem de pele clara e longos cabelos pretos lisos está sentada em uma poltrona cinza, virada ligeiramente para a direita, enquanto fala ao microfone que segura com a mão direita. Ela veste uma blusa preta de manga longa com textura de tricô, calça jeans azul e traz cordões com credenciais do evento no pescoço; em seu colo, apoia um bloco de notas aberto com anotações escritas à mão, enquanto gesticula com a mão esquerda erguida ao se expressar. Ao fundo, destaca-se um grande painel digital azul brilhante com a palavra "munities" escrita em letras amarelas na parte superior. À sua direita, vê-se uma pequena mesa de apoio preta com dois copos descartáveis de papel e um par de óculos
Antonella destacou o sucesso da replicação de tecnologias sociais brasileiras de captação de água, como as cisternas, que se tornaram fundamentais para ajudar as comunidades camponesas da região do Chaco a se adaptarem às secas severas, aos efeitos do aquecimento global e ao avanço da degradação das terras | Foto: Maristela Crispim

A dimensão internacional do debate e o valor da cooperação foram trazidos por Antonella Sleiman, jovem representante da Fundapaz e da Plataforma Semiáridos, que compartilhou as experiências de intercâmbio de conhecimentos na vasta região do Chaco Americano, que abrange territórios da Argentina, Bolívia e Paraguai. Antonella destacou o sucesso da replicação de tecnologias sociais brasileiras de captação de água, como as cisternas, que se tornaram fundamentais para ajudar as comunidades camponesas da região do Chaco a se adaptarem às secas severas, aos efeitos do aquecimento global e ao avanço da degradação das terras.

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Para Antonella, a Plataforma Semiáridos funciona como uma rede essencial de solidariedade, aprendizado, cultura e saberes entre diversos países da América Latina, incluindo nações como o México e El Salvador. A jovem ativista relatou como os intercâmbios culturais e técnicos evidenciam desafios compartilhados e estimulam soluções criativas adaptadas a cada localidade.

“Os intercâmbios acontecem quando nos encontramos com outros países com os mesmos problemas e dizemos: ‘mas como pode ser, ele vive em El Salvador e tem o mesmo problema de água?’”, relatou Antonella. Ela destacou que as comunidades rurais desempenham um papel de liderança para além das estatísticas de degradação, ao trazer soluções de resiliência climática que merecem ser divulgadas globalmente.

O protagonismo das guardiãs

Em plano médio, uma mulher de pele clara com cabelos loiro-escuros lisos na altura dos ombros e óculos de armação preta está sentada de pernas cruzadas em uma poltrona cinza, inclinada levemente para a esquerda enquanto fala ao microfone que segura com a mão direita. Ela veste uma blusa de lã branca de gola alta e mangas compridas, calça bege social e traz cordões de credencial com broches coloridos no peito. No assento da poltrona, ao lado da sua perna, há um celular e um par de óculos descansando, enquanto ao fundo destaca-se um painel digital com blocos de cores em tons de azul e verde
Apolônia alertou para as severas limitações estruturais impostas por uma cultura camponesa ainda fortemente patriarcal, na qual as mulheres carecem de autonomia decisória sobre o uso das propriedades rurais | Foto: Maristela Crispim

Apolônia Gomes, representante da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú, de Pernambuco, trouxe ao painel uma contundente reflexão sobre o papel das mulheres na conservação ambiental e as barreiras históricas que ainda limitam sua autonomia socioeconômica no campo.

Pontuou que, no sertão pernambucano, as mulheres estão envolvidas em cerca de 70% das ações de restauração ecológica, atuando de maneira ativa no combate direto à desertificação em seus territórios. Ela explicou que a Rede trabalha continuamente no fortalecimento da identidade dessas agricultoras, quilombolas e catingueiras, que hoje se reconhecem orgulhosamente como “guardiãs das sementes, guardiãs das águas, guardiãs da Caatinga”.

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Entretanto, Apolônia alertou para as severas limitações estruturais impostas por uma cultura camponesa ainda fortemente patriarcal, na qual as mulheres carecem de autonomia decisória sobre o uso das propriedades rurais. Devido a essa barreira, o espaço de atuação feminina muitas vezes restringe-se aos arredores domésticos, tornando os quintais produtivos de base agroecológica o principal refúgio para a prática de recuperação do solo.

“A pauta da restauração não está dissociada à pauta da produção de alimentos porque o que nós temos hoje para que as mulheres façam restauração é um lugar pequeno, é o seu quintal produtivo”, declarou. Além disso, Apolônia criticou a sobrecarga de trabalho que recai sobre as mulheres, que precisam garantir todas as tarefas domésticas prontas antes de participarem de reuniões, mutirões ou coletar sementes. Ela defendeu que as políticas públicas enxerguem as mulheres de forma integral, oferecendo acesso real à terra, crédito e proteção contra as condições de violência no campo.

Ciência cidadã e a defesa
da autonomia camponesa

Em plano médio, um homem negro de pele clara, com cabelos escuros presos para trás e óculos de armação arredondada escura, fala ao microfone que segura com a mão esquerda enquanto olha para a frente. Ele veste uma camisa social branca com o colarinho aberto, um paletó azul-marinho e calças claras; em seu colo está um notebook prata aberto, sobre o qual ele apoia a mão direita no touchpad. À esquerda da imagem, em primeiro plano, aparece a quina de um pódio coberto por um pano branco com o logotipo "ASA" e a frase "Articulação Semiárido Brasileiro". Ao fundo, destaca-se um painel digital azul brilhante com as letras amarelas "itional Co" na parte superior
Aldrin destacou que as ações de conservação não apenas promovem a cobertura do solo e a retenção de carbono, mas também geram impactos socioeconômicos positivos diretos na renda, na biodiversidade produtiva e na segurança alimentar das famílias | Foto: Maristela Crispim

O olhar da pesquisa científica e a defesa de políticas estruturadas foram apresentados por Aldrin Martin Perez-Marin, pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e correspondente científico do Brasil na UNCCD. Aldrin contextualizou que a desertificação é uma “ferida continental” e global, e revelou que 21% do Semiárido brasileiro encontra-se em situação de degradação crítica.

O pesquisador defendeu de forma enfática a tese de que “restaurar a terra é, antes de tudo, fortalecer quem cuida dela”. Ressaltou a importância de uma ciência cidadã construída em parceria direta com a ASA, o movimento de pequenos agricultores e as comunidades locais.

Apoiado em pesquisas que aplicaram a metodologia Lume (método de análise econômico-ecológica), Aldrin apresentou dados que atestam uma melhoria média de 60% nos atributos sistêmicos dos agroecossistemas agroecológicos após a adoção de práticas sustentáveis.

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De acordo com os dados apresentados, as ações de conservação não apenas promovem a cobertura do solo e a retenção de carbono, mas também geram impactos socioeconômicos positivos diretos na renda, na biodiversidade produtiva e na segurança alimentar das famílias.

Ele também quantificou cientificamente o esforço feminino: as mulheres realizam 90% do trabalho de cuidados e produtivo, representando 42% do tempo dedicado a atividades diretamente produtivas e gerando 38% do valor agregado da produção rural. Essa contribuição maciça, no entanto, permanece socialmente invisível. Ao final, Aldrin alertou para os riscos do financiamento climático privado sem salvaguardas que possam marginalizar as comunidades locais e encerrou sua participação com um poema que celebrou a resistência do sertão.

Da tradição à formulação
de Políticas Públicas de Estado

Em plano médio, um homem de pele clara com cabelos escuros levemente grisalhos e barba curta está sentado em uma poltrona cinza, sorrindo suavemente enquanto fala ao microfone que segura com a mão esquerda. Ele veste um paletó azul-marinho sobre uma camisa social bege clara de colarinho aberto, calça jeans e traz cordões de credencial com pins coloridos pendurados no peito. No pulso esquerdo usa uma pulseira de contas verdes e, em seu colo, apoia um bloco de notas aberto, enquanto sua mão direita repousa sobre o braço da poltrona. Ao fundo, vê-se um painel digital azul brilhante com a terminação "es" escrita em letras amarelas no canto superior esquerdo, e à esquerda da imagem há uma pequena mesa lateral preta com um copo descartável de papel
Alexandre manifestou a firme posição do governo brasileiro na defesa da agenda de gênero e da valorização das populações tradicionais e indígenas dentro da COP17 | Foto: Maristela Crispim

Encerrando as discussões do painel, o diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires, conectou os relatos da sociedade civil com as negociações governamentais globais.

Alexandre manifestou a firme posição do governo brasileiro na defesa da agenda de gênero e da valorização das populações tradicionais e indígenas dentro da Conferência. “É impossível a gente pensar que a agenda de combate à desertificação vai conseguir avançar se não for reconhecendo, valorizando e construindo instrumentos de financiamento que aportem nas mãos das mulheres”, asseverou o diretor, apontando que áreas sob gestão e posse de mulheres demonstram maior sustentabilidade ambiental.

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Alexandre criticou severamente os atuais mecanismos internacionais de financiamento climático, como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e o Fundo Clima, alegando que são insuficientes em volume de recursos e falham em priorizar o atendimento direto às populações afetadas pela degradação da terra, que hoje atinge 40% da superfície global.

O diretor defendeu a importância de promover intercâmbios de experiências históricas de resiliência e convivência com a seca – como os conhecimentos acumulados na Caatinga e no Cerrado, biomas que integram o clima semiárido brasileiro – com populações de outras regiões que começam a sofrer crises hídricas severas e sequenciais, a exemplo da recente seca na Amazônia.

Alexandre concluiu reafirmando o compromisso do Ministério em transformar as valiosas experiências locais da sociedade civil em políticas públicas robustas, a exemplo do programa Recaatingamento, garantindo que o fomento e o suporte técnico alcancem efetivamente os territórios mais vulneráveis.

* A jornalista Maristela Crispim viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA)

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