
Ulaanbaatar (Mongólia). Presente em sete painéis da COP17, a trajetória de Bárbara França Dantas é marcada pelo pioneirismo, rigor acadêmico e uma profunda conexão com a flora do Semiárido brasileiro. Engenheira Agrônoma formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Bárbara consolidou sua especialização em Fisiologia Vegetal com um mestrado pela Universidade Federal de Lavras (Ufla) e doutorado em Agricultura pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mais tarde, expandiu suas fronteiras científicas com um pós-doutorado no prestigiado Royal Botanic Gardens, Kew (2015), na Inglaterra, um dos maiores centros de referência em botânica e sementes do mundo.
Contratada pela Embrapa Semiárido em outubro de 2001, ela inicialmente foi designada para atuar na fisiologia de videiras devido à sua sólida formação em fisiologia de plantas cultivadas. Contudo, sua paixão de longa data pelo universo das sementes – cultivada desde a graduação – e a percepção de um imenso vazio de pesquisas sobre a conservação do bioma local a impulsionaram a traçar um novo caminho.
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Além de sua atuação na pesquisa e na docência – como professora convidada nos programas de pós-graduação da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Bárbara une ciência e sensibilidade estética. Desde 2023, atua também como CEO da Bbta Aquarelas e Artes, iniciativa na qual retrata com precisão e beleza a fauna e, em especial, a flora nativa da Caatinga. Nesta entrevista, ela resgata o início desse trabalho científico tão necessário, explica os mistérios biológicos das sementes nativas e detalha o diálogo horizontal entre a academia e os saberes tradicionais.

Maristela Crispim – Como nasceu sua decisão de migrar da fisiologia de cultivos comerciais para o estudo das sementes nativas da Caatinga?
Bárbara Dantas – Eu fui contratada pela Embrapa na área de sementes, mas, ao identificarem minha formação em fisiologia vegetal, me direcionaram para trabalhar com fisiologia de videira, sem qualquer relação com sementes nativas. Só que eu sempre tive uma paixão profunda por sementes, que vinha desde a minha graduação, passando pelo mestrado e doutorado. Quando cheguei aqui, percebi que não queria focar em videiras; eu queria trabalhar com o ecossistema que estava ao meu redor. Havia uma lacuna imensa de estudos sobre sementes da Caatinga; a pesquisa da época focava quase que exclusivamente no manejo, e não na semente em si. Diante disso, no início dos anos 2000, propus e aprovei um dos meus primeiros projetos na Embrapa focado em ecofisiologia básica, apenas para entender o funcionamento inicial de como essas sementes germinavam.
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MC – A partir desse projeto pioneiro, como foi estruturada a rede de pesquisas na região?
BD – Fomos gerando conhecimento progressivamente com o apoio de bolsistas e pesquisadores em pós-doutorado. Sentimos a necessidade de agregar mais pessoas e passamos a realizar eventos para convidar colegas de outras instituições que estavam começando a tatear a área, como a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e a Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Esse movimento de integração culminou na realização do primeiro Workshop de Sementes e Mudas da Caatinga, em 2005.

MC – O que as pesquisas revelaram de mais surpreendente sobre a biologia das sementes desse bioma?
BD – O achado mais fascinante é que as sementes da Caatinga são altamente tolerantes a estresses ambientais. Na teoria geral da botânica, convenciona-se que a semente representa uma das fases de vida mais vulneráveis e menos tolerantes de uma planta. Na Caatinga, nós descobrimos o oposto: a semente é justamente uma das fases mais resistentes aos estresses do ecossistema. A partir dessa constatação, nossa pesquisa evoluiu: passamos a estudar como superar a dormência daquelas espécies que apresentam germinação difícil e compreender quais mecanismos as tornam tão adaptadas e quais limites de estresse elas suportam.
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MC – Qual é o foco das tecnologias que a Embrapa desenvolve hoje para essas sementes?
BD – Hoje, nós já dominamos a ecofisiologia básica da germinação e sabemos o momento ideal de colheita para assegurar a viabilidade da semente. O foco atual está na construção de tecnologias para avaliação da qualidade das sementes, voltadas para viabilizar processos de venda, comercialização e troca segura. Isso engloba o desenvolvimento de protocolos eficientes de armazenamento, beneficiamento e manutenção dessa qualidade ao longo do tempo.

MC – De que maneira o conhecimento científico dialoga com as práticas tradicionais de conservação de sementes crioulas e nativas?
BD – Esses saberes correm de forma paralela e complementar. Os agricultores realizam um melhoramento tradicional primoroso ao plantar suas sementes crioulas, colhendo as plantas mais adaptadas e produtivas para estocar e plantar novamente no ciclo seguinte. Ao mesmo tempo, esse agricultor necessita que o ecossistema nativo ao redor seja preservado para manter a qualidade do solo, garantir água e oferecer pasto para os animais.
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A beleza dessa integração é que a ciência frequentemente encontra a explicação exata para soluções que o produtor já adota intuitivamente. Por exemplo, eles costumam adicionar cinzas nas garrafas PET onde guardam as sementes. Cientificamente, explicamos que a cinza é um material higroscópico que absorve a umidade, mantendo o ambiente seco e conservando a semente por mais tempo. O mesmo ocorre quando colocam um pedaço de algodão em chamas dentro da garrafa antes de fechá-la: a queima consome o oxigênio e gera um vácuo parcial. Com menos oxigênio disponível, a semente respira menos, desacelera seu envelhecimento e se mantém viável. É um diálogo muito rico.

MC – Onde a pesquisa científica consegue intervir diretamente para aperfeiçoar o manejo prático dessas comunidades?
BD – Um exemplo claro está no manejo de coleta. Muitos produtores costumavam recolher as sementes diretamente do chão, o que as expõe a patógenos e sujidades. Nós orientamos a utilização de lonas sob a copa das árvores durante a dispersão para evitar que a semente entre em contato com o solo. Esse pequeno ajuste técnico evita contaminações e agrega um enorme valor comercial ao produto final.
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MC – Como esse conjunto de tecnologias e resgates se traduz em impacto socioambiental para as populações locais?
BD – Traduz-se em autonomia, sentimento de pertença e geração de renda. Comunidades tradicionais, como povos indígenas e quilombolas, já possuem uma relação intrínseca de integração com o meio ambiente. Quando eles dominam essas técnicas de coleta e conservação, passam a enxergar um valor econômico sustentável em um recurso que a Caatinga produz espontaneamente todos os anos. A nossa transferência de tecnologia ocorre sem imposições, de forma muito horizontal e baseada no diálogo, garantindo que essas famílias tenham sustento ao mesmo tempo em que se tornam as principais guardiãs da conservação do bioma.

MC – Para finalizar, como nasceu Bbta Histórias e Aquarelas?
BD – Esse lado começou na pandemia. Eu precisava de algum escape, alguma coisa para eu parar de trabalhar porque eu estava trabalhando de 8h à meia-noite naquela ansiedade de pandemia. Daí eu comecei a procurar alguma coisa mais de arte, bem diferente do trabalho que eu estava fazendo, fui fazendo um curso disso, um curso daquilo, um de lettering. E eu achei essa escola de aquarela online. E comecei a participar das coisas, participar dos workshops.
Eu fiz um workshop dos grandes mestres impressionistas, pintei “meu primeiro Monet”, e falei, “pronto! Agora o céu é o limite!”. É assim que pinto. O sentimento, o que gosto, o que vejo, o que enxergo. E no meu caso, eu enxergo tudo em forma de árvores e sementes. Então, eu comecei a pintar as árvores. Uma amiga jornalista, também da Embrapa, falou, “por que que você não bota essas árvores nessas suas publicações técnicas?” Eu aceitei o desafio e coloquei. Eu tenho várias publicações de folders sobre as espécies. Daí eu continuei e não parei nunca mais de pintar. Eu sou excelente? Não sou não, mas e daí? A gente faz o que pode.
* A jornalista Maristela Crispim viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA)


