Entenda o que é a desertificação, processo de degradação do solo em áreas secas causado pela ação humana e pelas mudanças climáticas

A desertificação é um processo multifatorial de degradação do solo que ocorre exclusivamente em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas. Essa degradação ocorre após o uso inadequado do solo por atividades humanas, como o desmatamento, as práticas agropecuárias predatórias e o uso inadequado dos recursos hídricos. O cenário é, então, impulsionado pelas mudanças climáticas.
O processo ocorre de forma rápida em regiões secas porque os recursos hídricos já são naturalmente escassos e os solos frequentemente são frágeis, o que amplifica os efeitos da degradação do solo. É diferente do que ocorre em regiões tropicais e temperadas, onde a degradação pode ser mais lenta e facilita intervenções corretivas.

Na desertificação, o solo perde funções e qualidades essenciais, como:
- capacidade de reter água e nutrientes;
- capacidade de sustentar a vegetação;
- capacidade produtiva e de fertilidade;
- resistência à erosão;
- capacidade de regulação de ciclos biológicos.
Dessa forma, as áreas desertificadas, nas qual o solo fica compactado ou arenoso, ficam especialmente vulneráveis à erosão do solo, o que também está diretamente relacionado ao assoreamento de corpos hídricos. Isso porque, ao perder a capacidade de reter água, a terra é totalmente arrastada pelas chuvas, desembocando em rios e lagos.

Segundo o Boletim Temático sobre Desertificação, do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e órgãos parceiros, cerca de 18% do território brasileiro está sujeito ao processo de desertificação, boa parte localizada na região Nordeste. Essas áreas são chamadas de Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD) e Entorno.
Quem são os mais afetados
pela desertificação
Nas ASD e Entorno, vivem aproximadamente 39 milhões de pessoas. Nos primeiros vinte anos do século XXI, o território suscetível à desertificação expandiu 170 mil km², alcançando regiões onde tradicionalmente encontram-se biomas úmidos, como a Mata Atlântica e o Pantanal.
Em 2020, o norte do Rio de Janeiro e o Mato Grosso do Sul foram classificados como ASD. Isso ocorre porque regiões úmidas estão sendo transformadas em áreas com característica de terras secas, em um processo chamado aridificação.

O Insa destaca que as comunidades indígenas, quilombolas e agricultores familiares são especialmente vulneráveis à desertificação, “pois dependem diretamente da terra não apenas para sua subsistência econômica, mas também para a preservação de seus modos de vida, conhecimentos tradicionais e práticas culturais”.
No Brasil, 6,6 mil km² de territórios quilombolas (20,7% do total) e 5,6 mil km² de territórios indígenas (0,5% do total) estão localizados nas ASD e Entorno. É sabido que as taxas de conservação nessas localidades são altas, mas a expansão do processo de desertificação ameaça-os.
O Insa atribui a pressão às “frequentes invasões para exploração ilegal de madeira, garimpo, agropecuária extensiva e a grilagem de terras”. “Essas alterações, que muitas vezes ocorrem sem o consentimento das comunidades, contribuem para o desmatamento e o uso inadequado do solo intensificando a desertificação.”

Dessa forma, ao prejudicar a produtividade dos solos e a sobrevivência da biodiversidade relacionada, a desertificação afeta:
- a segurança alimentar;
- a economia rural;
- a qualidade de vida das populações locais;
- a resiliência e existência de biomas relacionados, principalmente a Caatinga.
Como combater a desertificação
O Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil) é o responsável por um conjunto de ações voltadas para enfrentar os desafios da desertificação, degradação da terra e dos efeitos da seca no Brasil.
O PAB-Brasil trabalha não apenas estratégias de combate à desertificação focadas no manejo do solo, mas também em ações para a governança social, a melhoria de condições de vida das comunidades e o fomento a pesquisas científicas.

De forma geral, a desertificação pode ser combatida com estratégias como:
- redução do desmatamento;
- criação de unidades de conservação;
- estímulo ao manejo sustentável e à agroecologia, como com quintais produtivos;
- tecnologias sociais, como água de reuso, fogões ecoeficientes, cisternas e minhocários;
- intervenções físicas, como como barragens subterrâneas (para retenção de água), barramentos de pedra, terraceamento, sulcamento, escarificação do solo e aplicação de material orgânico e serrapilheira;
- restauração de áreas afetadas;
- ampliação de saneamento básico nas comunidades;
- redução da desigualdade e ampliação de serviços educacionais nas comunidades;
- estímulo econômico para conservação.
Para determinar as áreas prioritárias de atuação, o governo brasileiro vai além do critério climático baseado no Índice de Aridez inferior a 0,65. Ele considera, principalmente, os municípios incluídos no bioma Caatinga — por ser um marcador biológico natural de regiões secas no Brasil — e a delimitação oficial do Semiárido brasileiro, estabelecida pela Sudene (Resoluções Condel no 150/2021 e n° 176/2024).
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Plano de ação brasileiro de combate à desertificação e mitigação dos efeitos da seca [recurso eletrônico]. Brasília, DF: MMA, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/povos-e-comunidades-tradicionais/pab-brasil.pdf. Acesso em: 9 maio 2026.
INSTITUTO NACIONAL DO SEMIÁRIDO (INSA). Boletim Temático Desertificação. Campina Grande: INSA, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/insa/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes-do-insa/desertificacao/boletim-tematico-desertificacao/view. Acesso em: 9 maio 2026.









