Jararaca-da-seca, a cobra que fala ‘oxente’ e traduz a Caatinga

No Dia da Caatinga, convidamos animais endêmicos para compartilhar suas rotinas e como eles se relacionam com o único bioma totalmente brasileiro

Retrato frontal da serpente em posição defensiva. O foco está nos olhos e no "focinho" arrebitado. As cores avermelhadas nas laterais do corpo são vibrantes, destacando-se sobre a superfície rochosa.
O nome científico da jararaca-da-seca, Bothrops erythromelas, vem do grego erythros (vermelho) e melas (manchas), em referência aos tons vermelhos da pele | Foto: Francisco Rogério Nascimento

Subvertendo a imagem popular, eu gosto mesmo é da Caatinga noturna. Gosto da sensação da temperatura caindo no entardecer, quando o tom do céu que dizem ser laranja e vermelho – eu não poderia saber, são cores que meus olhos não traduzem – é substituído pela escuridão crepuscular. O Sol dessa terra me castiga, mas a Lua me favorece.

Foi neste paraíso que escolhi viver. Nele, os pequenos são grandes e eu adoto para mim a característica que virou sobrenome do bioma: resiliente. Da Caatinga, ganhei o apelido jararaca-da-seca, mas, assim como ela, sou muito mais do que uma pequenina cobra, de aproximadamente 60 centímetros, fadada à secura. 

“Essa é uma questão de adaptação climática. A jararaca-da-seca é uma das menores espécies de jararacas, adaptada à aridez”, explica John Andrade, biólogo e mestrando pela Universidade Federal do Ceará (UFC), um dos estados humanos em que vivo. 

A jararaca-da-seca é um animal noturno crepuscular. Elas vivem em afloramentos de rochas, em macambiras e em arbustos | Foto: John A. Andrade Oliveira

Percebe? Eu sou muito mais do que o estigma. Sou peçonhenta, noturna, predadora, endêmica. Como a Caatinga, sou paciente e floresço quando chove. Garanto à minha prole o melhor momento para nascer, quando a chuva corta o sertão em verde, e,, a depender da natureza, decido se virão ao mundo muitos meninos ou poucos, mas robustos. 

Para os experts que gostam de me procurar nos livros, sou Bothrops erythromelas, representante catingueira da família das víboras; mas não se assuste, não. Eu sou muito melhor do que você pensa. 

A cópula das jararacas-da-seca pode demorar de 6 a 8 horas em média. Os filhotes nascem 6 a 7 meses depois. As ninhadas têm quatro a seis filhotes | Foto: Francisco Rogério Nascimento

“As jararacas são a espécie de víboras mais comum do Brasil. Elas colonizaram praticamente todos os biomas do País”, conta Alexandre Simeone, um biólogo que, na graduação no Laboratório de Herpetologia do Instituto Butantan, estudou os comportamentos reprodutivos da minha espécie. “É incrível a resiliência desse bicho. Eu digo que a jararaca-da-seca é a cobra que não sibila, fala oxente”.

Pelas minhas companheiras, soube que Alexandre não gostava tanto de jararacas no início da graduação. Mas nós rapidamente o conquistamos; como não? Para ele, a nossa fosseta loreal, um órgão localizado entre nosso nariz e nossos olhos, é coisa de cinema.

Ela é crucial para nossa sobrevivência, pois nos permite enxergar o calor. Não que meus olhos não sirvam para nada: apesar dos mitos, nós enxergamos bem, mas nunca é demais ter um sentido aguçado. À noite, a visão térmica é mais conveniente no momento da caça, e durante o dia ela me permite escolher esconderijos mais frescos para descansar. 

Curiosidade: não há consenso se as cobras dormem. “O que elas podem fazer é entrar em um estado de repouso mais profundo e a gente pode interpretar como ‘dormir’”, comenta Alexandre Simeone | Foto: Francisco Rogério Nascimento

Eu já disse, não gosto do calor excessivo. Sou bicho de sangue frio e sou incapaz de suar, portanto dependo de refúgios que evitem o superaquecimento. É por isso, também, que a noite é minha companheira. Não vou mentir, também gosto do status de “secretiva” e misteriosa; gosto de dar trabalho àqueles que teimam em me procurar.

Mas é fato que o sangue que corre em minhas veias define meu ritmo. É como a água para as árvores, imagino eu. Quando chove, quase posso sentir pelo tremor da terra as raízes trabalhando, os caules crescendo, as folhas abrindo e as flores desabrochando. E quando a chuva é substituída pelos ventos, pelo céu sem nuvens, percebo o ronco silencioso das árvores dormindo.

Nós somos pacientes, porque assim nosso corpo pede. “Ela está no top 3 bichos mais pacientes”, ri Alexandre. O biólogo John Andrade chegou a me definir na brincadeira como “preguiçosa”, já que prefiro a estratégia de caça “senta e espera”. Eu prefiro me chamar de sábia

Dardejar é o movimento de sobe e desce da língua das cobras, para capturar partículas químicas no ar e transformá-las em cheiros | Foto: Francisco Rogério Nascimento

Em vez de passear quilômetros como uma suçuarana (Puma concolor) na tentativa de capturar uma única grande presa, eu permito que o cheiro me guie. Lanço minha língua bifurcada para fora e a balanço de cima para baixo, capturando partículas e informações químicas de cheiro no ambiente. Aprendam, isto se chama dardejamento

Quando percebo o cheiro marcante de pequenos répteis, anfíbios e roedores no entorno, fico quieta e espero, enquanto gasto minha energia produzindo a peçonha do ataque. Eles hão de passar por ali novamente: nós somos bichos de hábitos, afinal. Viu só? Sabedoria.

Ela nos ensina muito. Na natureza, há víboras que esperam horas, dias, meses e, às vezes, até anos para conseguirem uma determinada presa ou para se reproduzir”, elogia-me Alexandre. “Ela tá sempre por ali, tem o cantinho dela, por que ela sairia? Correndo o risco de ser predada, de se ferir… As serpentes são animais muito fracos, nesse sentido de lutarem pela sua sobrevivência. Mas quando a gente vê o ponto de vista comportamental, ela apresenta um repertório fabuloso.”

Defendo meu lar contra
o preconceito e a destruição

Apesar de ser amada por alguns, e nesse caso devo agradecer aos biólogos Alexandre e John, que representam tantos outros que tomam prazer em nos observar, há uns quantos humanos que nos desprezam. 

Fiquei sabendo por John que um dos motivos de alguns apoiarem a matança indiscriminada da minha família é “religioso”. Uma serpente falante retratada na Bíblia seria a responsável por definir todas as cobras como seres cruéis e ardilosos, mas eu sequer entendo o conceito destas palavras. Como religiões podem apoiar a o extermínio de seres vivos que ajudam no equilíbrio da vida?

Jararacas-da-seca são cobras vivíparas. Isso significa que elas não botam ovos, mas dão à luz filhotes já totalmente formados. A mãe passa alguns minutos ao lado dos filhotes após o nascimento e, quando certifica-se que estão bem, cada um segue seu próprio caminho | Foto: Francisco Rogério Nascimento

Posso dizer, no entanto, que os humanos deveriam agradecer pela minha existência. Os roedores e insetos que me nutrem poderiam transmitir doenças a eles, ou então destruir as plantações que eles levantam com tanta dedicação por aqui. 

Além disso, muitas de nós vivemos em laboratórios – muito bem tratadas, claro – para doar nossas peçonhas, então utilizadas na produção de remédios para hipertensão arterial, para promover a coagulação em cirurgias, e até para fazer o soro que neutraliza a nossa própria peçonha. 

Por sinal, se alguma vez piquei um ser-humano, foi por autodefesa. Posso ser mortal, mas sou pequena e reservada. Não gosto quando ultrapassam meus limites, não gosto da sensação de ameaça. Se fugir deixa de ser uma opção, o bote é a próxima escolha.

As jararacas-da-seca já nascem com veneno. Aliás, é um mito que o veneno de filhotes é mais potente | Foto: Francisco Rogério Nascimento

Apesar do preconceito, sigo relativamente em segurança. Nas listas de extinção dos biólogos, sou de “pouca preocupação”. Mas nenhum lugar é totalmente seguro no mundo em que vivemos. 

Já senti o fogo se alastrar incontrolavelmente pelos arbustos e pelas árvores; já presenciei gigantes de metal serem transportados e plantados na rota do vento, balançando o mundo quando acordados. Senti o cheiro da devastação quando placas ocuparam o lugar das plantas, e quando o solo foi substituído por cimento e asfalto – quentes, sempre quentes, com bichos de rodas acelerando sem pudor. 

Leia também:
Sem salvaguardas, energias renováveis viram ameaças

Pelas redes de fungos no subsolo, as árvores conversam. Contam do avanço dos prédios de concreto e do cheiro do gado. Enquanto aguardo entre as pedras e folhas caídas ao chão, as mães-da-lua (Nyctibius griseus) lamentam o sumiço de tantos outros moradores da Caatinga, como a nunca mais vista onça-pintada (Panthera onca). 

As jararacas também balançam a cauda quando sentem-se ameaçadas. Apesar de não terem o chocalho (como cascavéis), o fato de viverem rodeadas de folhas secas permite que o movimento provoque um som de alerta | Foto: John A. Andrade Oliveira

Eu sigo aqui, mas não sei até quando. Não sei se “pouco preocupante” traduz para os humanos que minha amada Caatinga noturna pode acabar. Entre 1985 e 2023, a Caatinga perdeu 8,6 milhões de hectares de cobertura vegetal nativa (14,4% do total), segundo um projeto chamado MapBiomas

Até então, restavam 51,4 milhões de hectares (59,6%) do bioma, mas outros 32,9 milhões de hectares (38,2%) já são áreas com intervenção humana. Nesse período, a área dedicada à agricultura expandiu 1,8 milhão de hectares; mas a chegada dos empreendimentos eólicos e solares também virou vetor de tanto desmatamento.

Leia também:
Estudo visa transição energética justa no Nordeste

É uma transformação rápida. Veja bem, eu vivo em média 9 a 12 anos, e nesse curto período de tempo já vi muito acontecer. Nos 39 anos avaliados pelo MapBiomas, foi justamente a Caatinga savânica, a que confere a mim o meu nome, que mais sofreu:  8,3 milhões de hectares (15% da região savânica) perdidos. 

Cobras não têm ouvido externo. Elas sentem o mundo a partir de vibrações pelo corpo | Foto: John A. Andrade Oliveira

Não entendo como minha Caatinga azul, verde e branca pode sofrer tanto. Talvez algo parecido a uma cobra falante motive o avanço da destruição? Sei que seca e semiaridez são palavras que os humanos julgavam como dignas de se combater; somente em meados dos anos 1990 e começo dos 2000 o “combater” virou “conviver”. Só não sabia que conviver poderia ser isso. 

O que me motiva é que eu e a Caatinga somos pacientes e sabemos encantar. Com certeza, existem por aí humanos que nos enxergam com carinho e nos entendem, do movimento do meu corpo ao ritmo firme do bioma. Seria você um deles?

Quer a apoiar a Eco Nordeste?

Seja um apoiador mensal ou assine nossa newsletter abaixo: