Experiências com café sombreado, carnaúba e produção familiar mostram como a floresta pode gerar renda sem romper com o território
Entenda como o consórcio de espécies nativas com a produção de alimentos está regenerando solos e fortalecendo a cultura local, com geração de renda sem romper com o território | Foto: Acervo pessoal / Rodrigo Vieira
Atualizado às 13h30min do dia 8 de junho de 2026
Sob o sol das três da tarde, Francisco das Chagas Filho caminha pela propriedade como quem conhece cada sombra pelo nome. Aos 70 anos, no Maciço de Baturité, em Acarape (CE), ele fala do Semiárido sem pressa e sem lamento. Não como quem descreve uma paisagem distante, mas como quem apresenta a própria casa. “Falar de Semiárido é muito fácil pra mim. Aqui nasci, me criei, estudei um pouquinho… e trabalhei minha vida”, recorda.
A Geografia de Milton Santos – um dos maiores intelectuais do século 20 – ajuda a entender o que Seu Chagas aprendeu na prática: o território não é apenas chão, mapa ou cenário. É espaço usado, vivido e atravessado por trabalho, técnica, memória, conflito e futuro. No Semiárido, essa ideia ganha corpo quando a produção deixa de disputar lugar com a natureza e passa a se organizar com ela.
A escala desse território ajuda a dimensionar o desafio. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Semiárido brasileiro reúne 1.477 municípios em 11 estados, incluindo o Ceará. Não se trata, portanto, de uma paisagem marginal à vida econômica do País, mas de uma região onde permanência, produção e adaptação precisam caminhar juntas.
A primeira ferramenta de Chagas veio cedo. Aos cinco anos, em Forquilha, ganhou do pai uma enxadinha de madeira. Depois, saiu de casa, trabalhou em banco, percorreu o País, conheceu outros biomas, passou pelo Cerrado, pela Amazônia e pela Mata Atlântica. Mas a terra de origem nunca deixou de chamá-lo de volta.
Ao fundar a Acarape Agroindústria de Alimentos (Acaragri), uma microempresa de base familiar, decidiu transformar seu pedaço de chão em prova concreta de que o Semiárido não é sinônimo de falta. Dos 33 hectares da propriedade, mais da metade permanece coberta por floresta nativa preservada.
Na área agricultável, a produção segue sem defensivos químicos, em uma lógica que aproxima trabalho, cuidado ambiental e permanência no território. Em 2026, essa trajetória começou a ganhar desenho formal de agrofloresta: um hectare da propriedade foi preparado para receber um sistema agroflorestal.
A agrofloresta tem que responder ao lugar
Francisco Antonio de Sousa, agricultor agroflorestador
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os sistemas agroflorestais (SAFs) combinam árvores nativas ou exóticas com culturas agrícolas, trepadeiras, forrageiras, arbustos e outras espécies, em arranjos planejados no espaço e no tempo. A proposta é otimizar o uso da terra, conservar o solo, reduzir a pressão por novas áreas agrícolas e recuperar áreas degradadas.
Mas nenhuma definição técnica se sustenta sozinha no Semiárido. Para entender o que está em jogo nesse hectare, é preciso ouvir outro Francisco, ou Xico, como é mais conhecido. Enquanto em Acarape o sistema ainda está sendo implantado, em Viçosa, na Serra da Ibiapaba, Xico já mantém uma área agroflorestal em pleno funcionamento.
Planejamento para o agora e para o futuro
Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador. Em cerca de um hectare e meio, cultiva café, pimenta-do-reino, frutíferas e espécies nativas. Técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia, ele divide o dia a dia entre educação ambiental, produção agroecológica e o manejo da própria agricultura em sistema agroflorestal. Para ele, agrofloresta não é uma receita pronta. “Não é um modelo só”, defende.
A explicação começa antes do plantio. “Quando eu penso em implantar uma agrofloresta, eu tenho que olhar o solo, a água, o relevo, o clima, os recursos disponíveis e a realidade de quem está produzindo”, explica Xico. “O que dá certo numa área pode não dar certo em outra. A agrofloresta tem que responder ao lugar”.
Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador, técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia | Foto: Acervo pessoal / Gracilene Pereira
Isso significa pensar em alimento, renda e restauração em tempos diferentes. A própria Embrapa observa que as primeiras receitas podem vir ainda no primeiro ano, com culturas anuais, hortaliças e espécies semiperenes, enquanto frutíferas e espécies de ciclo mais longo se consolidam depois. “Quando se pensa uma agricultura nesse formato, nós estamos pensando para agora e para o futuro”, resume Xico.
Na terra dele, esse planejamento já saiu do papel. O sistema começou com um objetivo direto: produzir alimentos para a família, recuperar espécies da região e gerar trabalho. Com o tempo, passou também a oferecer frutas, geleias, doces e licores. O percurso mostra que a agrofloresta não nasce necessariamente como negócio pronto. Primeiro, recompõe o chão, alimenta a casa e organiza a produção. Depois, quando há excedente e beneficiamento, pode chegar à renda.
É esse caminho que ajuda a olhar de volta para Acarape. No hectare preparado por Francisco das Chagas, o sistema ainda começa a ser implantado. Mas a lógica que sustenta a agrofloresta já aparece antes: na mata preservada, na produção sem agroquímicos, na introdução de árvores nativas e na tentativa de produzir sem romper com o ambiente.
Transformar para permanecer
A solução que Seu Chagas enxerga, portanto, não se sustenta apenas no plantio. Ela depende também de quem colhe, transforma, vende e encontra saída quando a produção ameaça se perder. Na Acaragri, esse papel passa por Rosemeire Eloi, esposa dele e gestora comercial da microempresa.
Durante a pandemia, com as roças mais vazias e a mão de obra escassa, parte dos frutos começou a apodrecer no pé. O problema obrigou o casal a olhar para a propriedade de outro jeito. Se não era possível vender tudo in natura, era preciso aprender a transformar a safra antes que ela se perdesse. Vieram os testes, as receitas, os erros e os primeiros produtos beneficiados: doces, farinha de banana verde e licores artesanais.
Seu Chagas e a esposa, Rosemeire Eloi | Foto: Acervo pessoal
A mudança não ficou restrita à porteira da família. Para Rosemeire, produzir no território também significa comprar de quem está perto. “A gente sempre busca no nosso território”, conta. Quando falta caju para os doces, por exemplo, ela compra do vizinho. Quando precisa de castanha, paga produtores locais para beneficiar o próprio produto e depois revende. O que não encontra em Acarape, busca em Redenção, cidade vizinha. A capital, Fortaleza, só entra no caminho quando as alternativas próximas se esgotam.
Na prática, a agroindústria familiar passou a funcionar como um pequeno ponto de ligação entre a floresta, a produção e a vizinhança. A fruta que poderia se perder vira doce. A castanha que poderia sair sem valor agregado permanece mais tempo no território. O dinheiro circula primeiro entre agricultores, beneficiadores e pequenos fornecedores do Maciço de Baturité.
Mas esse arranjo ainda depende de uma condição que nenhuma máquina resolve sozinha: gente. É aí que a voz de Rosemeire muda de tom. Ela teme que o trabalho no campo seja cada vez mais visto como falta de opção, e não como possibilidade de vida e renda. “Ah, trabalhar na roça não dá… isso está se perdendo”, desabafa. Para ela, a tecnologia ajuda, mas não substitui a presença humana. “Se não tiver quem plante… a gente tem máquina, mas, de toda forma, precisa do ser humano, do capital humano”.
A volta como futuro
A pergunta que perpassa a fala de Rosemeire – quem vai continuar? – encontra uma resposta possível em outra experiência do Maciço de Baturité. Em Mulungu, Rodrigo Vieira da Silva fez o caminho que muitos jovens do campo são ensinados a desejar: saiu do município nativo para estudar. A diferença é que voltou.
Aos 28 anos, agrônomo, microempreendedor e fundador da Ecoffea, pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal, Rodrigo voltou para uma lavoura que já existia antes dele, do pai e do avô.
A Ecoffea é um pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal | Foto: Acervo pessoal / Rodrigo Vieira
Na propriedade da família, o café nunca cresceu sozinho. Dividia espaço com ingazeiras, bananeiras e outras plantas que faziam sombra, seguravam umidade e ajudavam a lavoura a atravessar os meses mais quentes. “O café só sobreviveu por causa desse clima de agrofloresta”, conta, resumindo a prática antiga que hoje ganha nome técnico.
No manejo de Rodrigo, a palhada da bananeira cobre o solo, conserva umidade e protege a terra dos raios solares. As árvores criam sombra e ajudam a formar um microclima. O esterco animal e alguns complementos reduzem a dependência de insumos externos. “Uma coisa casa com a outra”, explica.
O café também carrega uma história que Rodrigo tenta compreender com o olhar de agricultor e de pesquisador. Segundo ele, a variedade cultivada pela família é a típica, associada às primeiras linhagens de café que chegaram ao Brasil.
Rodrigo Vieira da Silva é agrônomo, microempreendedor e fundador da Ecoffea | Foto: Acervo pessoal / Rodrigo Vieira
Não houve, afirma, introdução de variedades modernas na propriedade. Hoje, ele participa de estudos para investigar melhor a origem genética desse material. A hipótese é valiosa, mas pede cuidado: mais do que transformar a lavoura em relíquia, Rodrigo quer mostrar que um café do passado também pode ter futuro.
Quando saiu de Mulungu para estudar Agronomia em Fortaleza, em 2018, ele ainda não tinha essa clareza. “O café que eu entendia era o que tinha aqui no quintal, que não era tão valorizado na época”, lembra. Entre as aulas e as idas ao sítio, começou a testar o que aprendia no curso e a olhar para aquela produção familiar com outros olhos. “Essa história ia ficar apagada se eu não fizesse alguma coisa”.
O que poderia ser apenas memória virou marca, produto e modelo de negócio. A Ecoffea vende em pequenas lojas de Fortaleza, mas encontrou nas assinaturas uma forma mais direta de se relacionar com quem consome. O café deixa de ser apenas grão: chega como história, origem e experiência. A cada entrega, Rodrigo não vende só um produto do Maciço. Mostra que um território pode permanecer vivo quando aquilo que nasce dele encontra valor sem precisar abandonar suas raízes.
Quando Rodrigo fala de origem, toca em uma palavra que também aparece em outras experiências agroflorestais: ancestralidade. No caso dele, ela aparece na memória familiar, na variedade antiga de café e no cultivo sombreado que resistiu ao tempo. Mas, nos territórios indígenas, essa palavra ganha outra profundidade.
Café como território
A aposta de Rodrigo não surge isolada. No Maciço de Baturité, o café sombreado já vinha sendo olhado de novo desde 2013, quando teve início um trabalho de revitalização da cultura do café de sombra na região.
Gerd Müller, analista da Unidade de Gestão do Cliente do Sebrae/CE, atuou por 12 anos no território e acompanhou esse processo de perto. Ele lembra que plantações com mais de cem anos estavam abandonadas e que muitos produtores haviam sido esquecidos. “Os melhores resultados surgem quando se respeita a vocação de cada território”, afirma.
Gerd Muller, analista da Unidade de Gestão do Cliente do Sebrae – CE | Foto: Paulo Rocha
O passo seguinte, segundo Gerd, foi qualificar o produto e ressignificar a produção, aproximando o café do turismo de experiência. Desse movimento nasceu a Rota do Café. “Foi um trabalho realizado a várias mãos, mas que mudou o ambiente econômico e o sentimento de identidade e pertencimento da população”, completa.
A experiência ajuda a entender por que transformar uma produção tradicional em negócio não depende apenas da lavoura. Passa por gestão, identidade, mercado, qualificação e rede de apoio. Segundo Gerd, é nesse ponto que o Sebrae pode ser acionado por produtores rurais e empreendedores que buscam orientação. No Ceará, o atendimento ocorre pelo telefone 0800 570 0800, pelas 12 regionais da instituição ou pelas Salas do Empreendedor, presentes em 168 municípios.
Nesse sentido, a trajetória de Rodrigo se aproxima de outras experiências acompanhadas pelo Sebrae: quando o território deixa de ser visto apenas como origem do produto e passa a ser parte do valor que ele carrega.
Agrofloresta e fortalecimento cultural
Mateus Tremembé, pesquisador, educador e articulador comunitário do povo indígena Tremembé, explica que a agrofloresta é mais do que uma técnica agrícola. Seu trabalho envolve sistemas alimentares tradicionais, recuperação ambiental, quintais produtivos, viveiros de mudas, hortas comunitárias e formação com jovens, agricultores e lideranças indígenas. “Para mim, a agrofloresta é muito mais do que uma técnica agrícola. Ela é uma forma de compreender a vida”, afirma.
A leitura de Mateus desloca o centro da conversa. Os produtos de uma agrofloresta podem chegar ao mercado – frutas, hortaliças, mudas, plantas medicinais e alimentos processados -, mas, para os povos indígenas, essa não é sua principal função.
Mateus Tremembé é pesquisador, educador e articulador comunitário do povo indígena Tremembé | Foto: Acervo Idace
Antes da venda, estão a alimentação saudável, o fortalecimento cultural, a autonomia das comunidades e o cuidado com o território. “Para nós, o território não é apenas um espaço físico onde vivemos. Ele é memória, espiritualidade, história, alimento, água, biodiversidade e relação”, afirma.
Vistas em conjunto, as histórias de Rosemeire, Rodrigo e Mateus alargam a leitura da agrofloresta. Antes de chegar ao mercado, ela pode ser alimento, memória, recuperação ambiental, permanência, identidade e renda. Mas, quando precisa se sustentar no tempo, também exige condições concretas para produzir, vender e acessar apoio sem perder o vínculo com o território.
Em experiências brasileiras, o modelo aparece associado à valorização do produto, aumento de renda, redução de custos e recuperação ambiental, resultados que variam conforme território, manejo e acesso a mercado.
Um dos exemplos citados no relatório é o Café Apuí Agroflorestal, no Amazonas, com 59 famílias beneficiadas, 200 hectares de florestas recuperadas, aumento de 66% na produtividade do café e ganho de 300% na renda anual dos produtores. O dado não mede a experiência de Rodrigo, da cearense Ecoffea, mas ajuda a mostrar porque o café agroflorestal passou a ser observado como alternativa econômica e ambiental em diferentes regiões.
A agrofloresta deixa de ser apenas manejo da terra e passa a tocar diretamente o universo dos pequenos negócios | Foto: Rodrigo Vieira
Entre uma prática bem-sucedida e sua continuidade, no entanto, há um caminho que passa por gestão, identidade, mercado e rede de apoio. A partir daí, a agrofloresta deixa de ser apenas manejo da terra e passa a tocar diretamente o universo dos pequenos negócios.
Em entrevista exclusiva à Eco Nordeste, Carolina Moraes, coordenadora de Agroecologia do Sebrae Nacional, aproxima os sistemas agroflorestais de uma discussão mais ampla sobre desenvolvimento territorial. Para ela, os SAFs podem reunir produção, conservação ambiental, saberes tradicionais e oportunidades econômicas para pequenos negócios rurais.
“Eles contribuem para aumentar a resiliência climática das propriedades, diversificar fontes de renda, reduzir riscos produtivos e ampliar oportunidades de agregação de valor para pequenos negócios rurais”, afirma.
Carolina Moraes é coordenadora de Agroecologia do Sebrae Nacional | Foto: Acervo pessoal
A provocação inspirada em Milton Santos também foi apresentada a Carolina. Ao comentar a ideia de que territórios não são cenários, mas organismos vivos, ela pondera que o desenvolvimento não nasce apenas de investimentos ou tecnologias isoladas. “Ele ocorre a partir das relações construídas entre pessoas, cultura, natureza, conhecimento e atividade econômica”, diz.
Essa leitura ajuda a aproximar as experiências narradas nesta reportagem de um dado nacional. Segundo o Atlas dos Pequenos Negócios, em 2024, 43,7 milhões de brasileiros dependiam diretamente da renda gerada pela atividade empreendedora. Quando considerados os impactos diretos e indiretos dos pequenos negócios, esse número chegava a 96,7 milhões de pessoas.
No campo, esses números deixam de ser abstração quando encontram trajetórias como as de Seu Chagas, Xico, Rosemeire e Rodrigo. O hectare em transição em Acarape, o manejo agroflorestal em Viçosa, o doce feito com fruta que antes se perdia e o café ancestral vendido por assinatura não resolvem sozinhos os dilemas do Semiárido. Mas mostram que desenvolvimento territorial também começa em arranjos pequenos, cotidianos e profundamente enraizados.
Em outras palavras, a agrofloresta não termina na árvore plantada. Continua no beneficiamento, na embalagem, na marca, na feira, na loja, na assinatura e na capacidade de fazer o dinheiro circular mais perto de onde a vida acontece.
Gerando renda
Mas, para que esse caminho se sustente, há uma etapa menos visível do que a paisagem verde: a conta. A agrofloresta pede paciência antes de devolver renda. Há o tempo da muda, do solo, do manejo, da colheita e do mercado. Nesse intervalo, uma opção para quem deseja seguir esse caminho pode ser o crédito, que se torna parte das condições de permanência no território.
Nesse contexto é que entra o Banco do Nordeste (BNB), instituição financeira pública federal voltada ao desenvolvimento regional. Segundo dados divulgados em maio de 2026, o BNB aplicou, em 2025, R$ 1,6 bilhão em operações para agricultores familiares que atuam em atividades produtivas de base agroecológica, em sua área de atuação, que inclui os estados nordestinos e parte de Minas Gerais e Espírito Santo. O montante, financiado com recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), foi distribuído em mais de 124 mil operações.
A leitura de Mario Eduardo Fraga da Silva, gerente da Célula de Gestão Ambiental do Banco do Nordeste, ajuda a entender o sentido desse investimento. Ele situa a agroecologia dentro da agropecuária de baixo carbono incentivada pela instituição. “A agroecologia impacta na saúde das pessoas com a disponibilização de alimentos mais saudáveis e livres de agrotóxicos”, afirma.
No ambiente, acrescenta, ela contribui para “recuperar e conservar solos e nascentes, preservar os elementos florestais e reduzir emissões de gases do efeito estufa”. Para Mario, “a agropecuária do futuro terá essas características”.
No Ceará, esse recorte ganha escala própria. Segundo dados do BNB, o estado recebeu cerca de R$ 206 milhões em crédito para atividades produtivas de base agroecológica em 2025, distribuídos em 14.849 operações. Na comparação com 2024, o volume contratado cresceu 450%.
No caso dos sistemas agroflorestais, ele resume o ponto de partida em uma frase direta: “Sistemas agroflorestais conseguem aliar produção com conservação ambiental”. Segundo Mario, o BNB incentiva esse tipo de produção por meio de linhas voltadas à agropecuária de baixo carbono, como os Pronafs Floresta, Agroecologia e Bioeconomia, além do Programa FNE ABC.
O financiamento, no entanto, não olha apenas para a intenção de plantar árvores em meio à lavoura. Mario explica que a análise considera a regularidade ambiental do empreendimento, a escolha de espécies adaptadas à região e os “fluxos financeiros de gastos e receitas estimadas calculados para a viabilização econômica do projeto”. Traduzida para a vida de quem produz, essa exigência diz algo simples: a agrofloresta também precisa caber na conta de quem planta.
Quando a safra não basta, o território responde e a agrofloresta abre caminhos
A pergunta que acompanhou as histórias de Xico, Rosemeire e Rodrigo também aparece quando se olha para cadeias produtivas mais antigas do Semiárido. Se o território é feito de gente, trabalho, memória e economia, como sugeria Milton Santos, a permanência no campo não depende apenas de produzir. Depende também de criar condições para que a renda não desapareça quando a safra termina.
Na cadeia da carnaúba, essa tensão fica evidente. A palmeira movimenta trabalho, cultura e exportações, mas a extração ocupa apenas parte do ano. Para muitas famílias, o desafio não é só vender melhor o que já produzem. É enfrentar a entressafra sem romper o vínculo com o lugar onde vivem.
A carnaúba é considerada árvore símbolo do Ceará | Foto: Samuel Portela
A força econômica da carnaúba ajuda a dimensionar o tamanho desse desafio. Segundo o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), em 2024, o Ceará exportou US$ 76,9 milhões em cera de carnaúba, o equivalente a quase 12 milhões de quilos do produto, e respondeu por 71,19% das exportações nacionais.
O mesmo levantamento aponta uma tensão importante: naquele ano, o Estado registrou a menor quantidade produzida da série histórica recente, sinal de que valor econômico e segurança produtiva nem sempre caminham juntos.
É nesse intervalo entre o valor global da cera e a vida concreta de quem depende da safra que surgem as Áreas de Eficiência Produtiva e Sustentável (Aeps). “A extração da carnaúba é um pilar econômico do Nordeste, mas sua safra ocupa apenas parte do ano. Identificamos que muitas famílias dependiam exclusivamente de uma atividade importante, mas sazonal. As AEPS surgem como uma estratégia para ampliar oportunidades de produção e renda ao longo do ano, integrando carnaúba, agricultura familiar e recuperação ambiental”, explica Bruno Filizola, assessor técnico da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ).
As áreas fazem parte do projeto Carnaúba e Desenvolvimento Sustentável II, que reúne comunidades rurais, empresas do setor e cooperação técnica internacional. A GIZ, agência alemã que atua em projetos de desenvolvimento sustentável, acompanha a metodologia, articula consultores especializados e apoia a implantação das unidades demonstrativas. O protagonismo, no entanto, permanece nas comunidades que vão manejar as áreas e testar, no cotidiano, se a diversificação produtiva consegue reduzir a dependência de uma única safra.
As Aeps estão sendo implantadas em comunidades do Ceará e do Piauí, incluindo os reassentamentos Angicos, em Caucaia (CE); Corredores, em Campo Maior (PI); e Estreito, em Piripiri (PI). O modelo adotado pelo projeto é de aproximadamente 1 hectare, ou 10 mil metros quadrados, pensado como área demonstrativa para manejo, recuperação produtiva e integração de culturas.
Em cada unidade, a carnaúba permanece como espécie principal, mas deixa de estar sozinha. O modelo combina a palmeira com culturas adaptadas ao Semiárido, como cajueiro, milho, feijão, mandioca e, em algumas áreas, urucum, manga e acerola. A escolha considera adaptação local, possibilidade de comercialização, segurança alimentar e interesse das famílias participantes.
Imagem de apoio ilustrativo. As Aeps estão sendo implantadas em comunidades do Ceará e do Piauí, incluindo os reassentamentos Angicos, em Caucaia (CE); Corredores, em Campo Maior (PI); e Estreito, em Piripiri (PI) | Foto: Camila de Almeida
No Reassentamento Corredores, em Campo Maior, o planejamento técnico prevê uma unidade agroflorestal de 1 hectare, com 625 mudas de carnaúba em espaçamento de 4 x 4 metros, consorciadas com caju, milho, feijão e mandioca. A área integra um território comunitário de 48 hectares, onde vivem 11 famílias e atuam 24 associados.
O desenho parece técnico – espaçamento, mudas, corredores de manejo, adubação, cercamento -, mas a questão por trás dele é humana. Quando a carnaúba é combinada a culturas alimentares, a renda não precisa esperar apenas pela safra.
O lugar passa a produzir em tempos diferentes: milho e feijão podem gerar alimento e renda no primeiro ano; a mandioca sustenta o médio prazo, com colheita prevista entre 12 e 18 meses; o caju começa a diversificar a renda entre o segundo e o terceiro ano; e a carnaúba permanece como patrimônio de longo ciclo, com produção econômica consolidada a partir do oitavo ano.
Nas Aeps, a mesma pergunta reaparece em escala comunitária: como transformar permanência em renda sem romper com a árvore que estrutura a identidade econômica e cultural de tantas famílias?
Transformar
Do terreno de Seu Chagas ao manejo de Xico, do beneficiamento feito por Rosemeire ao café de Rodrigo, a mesma tentativa aparece em escalas diferentes: fazer da permanência uma possibilidade econômica sem reduzir o território a depósito de matéria-prima. Nas comunidades extrativistas, essa pergunta reaparece na entressafra da carnaúba.
Em comum, essas histórias não prometem uma solução pronta para as condições do Semiárido. Elas deslocam a pergunta: como produzir sem apagar a floresta, gerar renda sem romper os vínculos com o lugar e reconhecer que permanecer também depende de mercado, assistência técnica, memória e gente disposta a continuar?
O território não é visto como lugar onde projetos simplesmente pousam, mas como ambiente vivo, feito de conexões, identidades e possibilidades de futuro | Foto: Rodrigo Vieira
A essa altura, a imagem que acompanha a reportagem volta ao chão de onde partiu. Se o território não é cenário, mas organismo vivo, a agrofloresta aparece como uma forma de fazer circular alimento, renda, sombra, trabalho e futuro. Não como fórmula, nem como resposta mágica. Mas como possibilidade concreta de reorganizar a relação entre produção e vida.
É por isso que a última palavra retorna a Acarape. Aos 70 anos, depois de ter saído de casa, trabalhado em banco, percorrido o País e conhecido outros biomas, Francisco das Chagas Filho não fala do Semiárido como quem ficou por falta de opção. Fala como quem foi, viu outros mundos e aprendeu a reconhecer valor no lugar de onde veio.
Para ele, permanecer não é se conformar. É aprender a trabalhar com inteligência no território que se conhece.
“Aqui é uma oportunidade de vida boa, de qualidade de vida e econômica também”, diz. No fim da conversa, o agricultor volta ao ponto central de sua experiência: empresas e grandes grupos já enxergam o Semiárido como oportunidade. A pergunta que ele deixa aos sucessores já carrega a própria resposta: se quem vem de fora reconhece valor nesse território, por que os pequenos produtores, os que nasceram e cresceram ali, deveriam sair?
“Basta trabalhar com inteligência para a gente poder se dar muito bem aqui.”
Expediente Texto: Jessika Sampaio Edição: Ariane Cajazeiras e Catalina Leite