Agroflorestas transformam produção no Semiárido

Experiências com café sombreado, carnaúba e produção familiar mostram como a floresta pode gerar renda sem romper com o território

Duas mãos abertas sustentam uma porção acumulada de frutos redondos de café, predominantemente vermelhos maduros, com alguns grãos amarelos.
Entenda como o consórcio de espécies nativas com a produção de alimentos está regenerando solos e fortalecendo a cultura local, com geração de renda sem romper com o território | Foto: Acervo pessoal / Rodrigo Vieira

Sob o sol das três da tarde, Francisco das Chagas Filho caminha pela propriedade como quem conhece cada sombra pelo nome. Aos 70 anos, no Maciço de Baturité, em Acarape (CE), ele fala do Semiárido sem pressa e sem lamento. Não como quem descreve uma paisagem distante, mas como quem apresenta a própria casa. “Falar de Semiárido é muito fácil pra mim. Aqui nasci, me criei, estudei um pouquinho… e trabalhei minha vida”, recorda.

A Geografia de Milton Santos – um dos maiores intelectuais do século 20 – ajuda a entender o que Seu Chagas aprendeu na prática: o território não é apenas chão, mapa ou cenário. É espaço usado, vivido e atravessado por trabalho, técnica, memória, conflito e futuro. No Semiárido, essa ideia ganha corpo quando a produção deixa de disputar lugar com a natureza e passa a se organizar com ela.

A escala desse território ajuda a dimensionar o desafio. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Semiárido brasileiro reúne 1.477 municípios em 11 estados, incluindo o Ceará. Não se trata, portanto, de uma paisagem marginal à vida econômica do País, mas de uma região onde permanência, produção e adaptação precisam caminhar juntas.

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A primeira ferramenta de Chagas veio cedo. Aos cinco anos, em Forquilha, ganhou do pai uma enxadinha de madeira. Depois, saiu de casa, trabalhou em banco, percorreu o País, conheceu outros biomas, passou pelo Cerrado, pela Amazônia e pela Mata Atlântica. Mas a terra de origem nunca deixou de chamá-lo de volta.

Ao fundar a Acarape Agroindústria de Alimentos (Acaragri), uma microempresa de base familiar, decidiu transformar seu pedaço de chão em prova concreta de que o Semiárido não é sinônimo de falta. Dos 33 hectares da propriedade, mais da metade permanece coberta por floresta nativa preservada.

Na área agricultável, a produção segue sem defensivos químicos, em uma lógica que aproxima trabalho, cuidado ambiental e permanência no território. Em 2026, essa trajetória começou a ganhar desenho formal de agrofloresta: um hectare da propriedade foi preparado para receber um sistema agroflorestal.

A agrofloresta tem que responder ao lugar

Francisco Antonio de Sousa, agricultor agroflorestador

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os sistemas agroflorestais (SAFs) combinam árvores nativas ou exóticas com culturas agrícolas, trepadeiras, forrageiras, arbustos e outras espécies, em arranjos planejados no espaço e no tempo. A proposta é otimizar o uso da terra, conservar o solo, reduzir a pressão por novas áreas agrícolas e recuperar áreas degradadas.

Mas nenhuma definição técnica se sustenta sozinha no Semiárido. Para entender o que está em jogo nesse hectare, é preciso ouvir outro Francisco, ou Xico, como é mais conhecido. Enquanto em Acarape o sistema ainda está sendo implantado, em Viçosa, na Serra da Ibiapaba, Xico já mantém uma área agroflorestal em pleno funcionamento.

Planejamento para o agora
e para o futuro

Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador. Em cerca de um hectare e meio, cultiva café, pimenta-do-reino, frutíferas e espécies nativas. Técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia, ele divide o dia a dia entre educação ambiental, produção agroecológica e o manejo da própria agricultura em sistema agroflorestal. Para ele, agrofloresta não é uma receita pronta. “Não é um modelo só”, defende.

A explicação começa antes do plantio. “Quando eu penso em implantar uma agrofloresta, eu tenho que olhar o solo, a água, o relevo, o clima, os recursos disponíveis e a realidade de quem está produzindo”, explica Xico. “O que dá certo numa área pode não dar certo em outra. A agrofloresta tem que responder ao lugar”.

Um homem de óculos e barba rala surge em meio a uma vegetação densa, cercado por grandes folhas verdes em primeiro plano e troncos ao fundo.
Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador, técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia | Foto: Acervo pessoal / Gracilene Pereira

Isso significa pensar em alimento, renda e restauração em tempos diferentes. A própria Embrapa observa que as primeiras receitas podem vir ainda no primeiro ano, com culturas anuais, hortaliças e espécies semiperenes, enquanto frutíferas e espécies de ciclo mais longo se consolidam depois. “Quando se pensa uma agricultura nesse formato, nós estamos pensando para agora e para o futuro”, resume Xico.

Na terra dele, esse planejamento já saiu do papel. O sistema começou com um objetivo direto: produzir alimentos para a família, recuperar espécies da região e gerar trabalho. Com o tempo, passou também a oferecer frutas, geleias, doces e licores. O percurso mostra que a agrofloresta não nasce necessariamente como negócio pronto. Primeiro, recompõe o chão, alimenta a casa e organiza a produção. Depois, quando há excedente e beneficiamento, pode chegar à renda.

É esse caminho que ajuda a olhar de volta para Acarape. No hectare preparado por Francisco das Chagas, o sistema ainda começa a ser implantado. Mas a lógica que sustenta a agrofloresta já aparece antes: na mata preservada, na produção sem agroquímicos, na introdução de árvores nativas e na tentativa de produzir sem romper com o ambiente.

Transformar para permanecer

A solução que Seu Chagas enxerga, portanto, não se sustenta apenas no plantio. Ela depende também de quem colhe, transforma, vende e encontra saída quando a produção ameaça se perder. Na Acaragri, esse papel passa por Rosemeire Eloi, esposa dele e gestora comercial da microempresa.

Durante a pandemia, com as roças mais vazias e a mão de obra escassa, parte dos frutos começou a apodrecer no pé. O problema obrigou o casal a olhar para a propriedade de outro jeito. Se não era possível vender tudo in natura, era preciso aprender a transformar a safra antes que ela se perdesse. Vieram os testes, as receitas, os erros e os primeiros produtos beneficiados: doces, farinha de banana verde e licores artesanais.

Um homem de cabelos grisalhos e camisa listrada sorri ao lado de uma mulher de óculos, enquanto ambos brindam com taças de espumante.
Seu Chagas e a esposa, Rosemeire Eloi | Foto: Acervo pessoal

A mudança não ficou restrita à porteira da família. Para Rosemeire, produzir no território também significa comprar de quem está perto. “A gente sempre busca no nosso território”, conta. Quando falta caju para os doces, por exemplo, ela compra do vizinho. Quando precisa de castanha, paga produtores locais para beneficiar o próprio produto e depois revende. O que não encontra em Acarape, busca em Redenção, cidade vizinha. A capital, Fortaleza, só entra no caminho quando as alternativas próximas se esgotam.

Na prática, a agroindústria familiar passou a funcionar como um pequeno ponto de ligação entre a floresta, a produção e a vizinhança. A fruta que poderia se perder vira doce. A castanha que poderia sair sem valor agregado permanece mais tempo no território. O dinheiro circula primeiro entre agricultores, beneficiadores e pequenos fornecedores do Maciço de Baturité.

Mas esse arranjo ainda depende de uma condição que nenhuma máquina resolve sozinha: gente. É aí que a voz de Rosemeire muda de tom. Ela teme que o trabalho no campo seja cada vez mais visto como falta de opção, e não como possibilidade de vida e renda. “Ah, trabalhar na roça não dá… isso está se perdendo”, desabafa. Para ela, a tecnologia ajuda, mas não substitui a presença humana. “Se não tiver quem plante… a gente tem máquina, mas, de toda forma, precisa do ser humano, do capital humano”.

A volta como futuro

A pergunta que perpassa a fala de Rosemeire – quem vai continuar? – encontra uma resposta possível em outra experiência do Maciço de Baturité. Em Mulungu, Rodrigo Vieira da Silva fez o caminho que muitos jovens do campo são ensinados a desejar: saiu do município nativo para estudar. A diferença é que voltou.

Aos 28 anos, agrônomo, microempreendedor e fundador da Ecoffea, pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal, Rodrigo voltou para uma lavoura que já existia antes dele, do pai e do avô.

Close-up de mãos segurando uma embalagem de café branca com rótulo vermelho e despejando os grãos dentro da abertura de um moedor cilíndrico prateado.
A Ecoffea é um pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal | Foto: Acervo pessoal / Rodrigo Vieira

Na propriedade da família, o café nunca cresceu sozinho. Dividia espaço com ingazeiras, bananeiras e outras plantas que faziam sombra, seguravam umidade e ajudavam a lavoura a atravessar os meses mais quentes. “O café só sobreviveu por causa desse clima de agrofloresta”, conta, resumindo a prática antiga que hoje ganha nome técnico.

No manejo de Rodrigo, a palhada da bananeira cobre o solo, conserva umidade e protege a terra dos raios solares. As árvores criam sombra e ajudam a formar um microclima. O esterco animal e alguns complementos reduzem a dependência de insumos externos. “Uma coisa casa com a outra”, explica.

O café também carrega uma história que Rodrigo tenta compreender com o olhar de agricultor e de pesquisador. Segundo ele, a variedade cultivada pela família é a típica, associada às primeiras linhagens de café que chegaram ao Brasil.

Um homem barbudo veste camiseta verde clara e segura um grande cesto de vime trançado enquanto colhe pequenos frutos em um cafeeiro.
Rodrigo Vieira da Silva é agrônomo, microempreendedor e fundador da Ecoffea | Foto: Acervo pessoal / Rodrigo Vieira

Não houve, afirma, introdução de variedades modernas na propriedade. Hoje, ele participa de estudos para investigar melhor a origem genética desse material. A hipótese é valiosa, mas pede cuidado: mais do que transformar a lavoura em relíquia, Rodrigo quer mostrar que um café do passado também pode ter futuro.

Quando saiu de Mulungu para estudar Agronomia em Fortaleza, em 2018, ele ainda não tinha essa clareza. “O café que eu entendia era o que tinha aqui no quintal, que não era tão valorizado na época”, lembra. Entre as aulas e as idas ao sítio, começou a testar o que aprendia no curso e a olhar para aquela produção familiar com outros olhos. “Essa história ia ficar apagada se eu não fizesse alguma coisa”.

O que poderia ser apenas memória virou marca, produto e modelo de negócio. A Ecoffea vende em pequenas lojas de Fortaleza, mas encontrou nas assinaturas uma forma mais direta de se relacionar com quem consome. O café deixa de ser apenas grão: chega como história, origem e experiência. A cada entrega, Rodrigo não vende só um produto do Maciço. Mostra que um território pode permanecer vivo quando aquilo que nasce dele encontra valor sem precisar abandonar suas raízes.

Quando Rodrigo fala de origem, toca em uma palavra que também aparece em outras experiências agroflorestais: ancestralidade. No caso dele, ela aparece na memória familiar, na variedade antiga de café e no cultivo sombreado que resistiu ao tempo. Mas, nos territórios indígenas, essa palavra ganha outra profundidade.

Agrofloresta e
fortalecimento cultural

Mateus Tremembé, pesquisador, educador e articulador comunitário do povo indígena Tremembé, explica que a agrofloresta é mais do que uma técnica agrícola. Seu trabalho envolve sistemas alimentares tradicionais, recuperação ambiental, quintais produtivos, viveiros de mudas, hortas comunitárias e formação com jovens, agricultores e lideranças indígenas. “Para mim, a agrofloresta é muito mais do que uma técnica agrícola. Ela é uma forma de compreender a vida”, afirma.

A leitura de Mateus desloca o centro da conversa. Os produtos de uma agrofloresta podem chegar ao mercado – frutas, hortaliças, mudas, plantas medicinais e alimentos processados -, mas, para os povos indígenas, essa não é sua principal função.

Homem indígena de barba com grande cocar de penas na cabeça e colar. Outras pessoas aparecem desfocadas ao fundo.
Mateus Tremembé é pesquisador, educador e articulador comunitário do povo indígena Tremembé | Foto: Acervo Idace

Antes da venda, estão a alimentação saudável, o fortalecimento cultural, a autonomia das comunidades e o cuidado com o território. “Para nós, o território não é apenas um espaço físico onde vivemos. Ele é memória, espiritualidade, história, alimento, água, biodiversidade e relação”, afirma.

Vistas em conjunto, as histórias de Rosemeire, Rodrigo e Mateus impedem uma leitura simplista da agrofloresta. Ela não é apenas técnica, nem apenas mercado, nem apenas tradição. Pode ser alimento, memória, recuperação ambiental, permanência, identidade e renda. Mas, para atravessar gerações e se sustentar no tempo, precisa também encontrar caminhos concretos de gestão, comercialização e apoio aos pequenos negócios.

O negócio de permanecer

No caso do café, essa discussão encontra eco em um movimento observado em outras regiões do país. Relatório do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) sobre cafés especiais em sistemas agroflorestais aponta que o consórcio entre árvores e lavouras pode ajudar a enfrentar problemas do solo, diversificar a produção e contribuir para ganhos de qualidade.

Em experiências brasileiras, o modelo aparece associado à valorização do produto, aumento de renda, redução de custos e recuperação ambiental, resultados que variam conforme território, manejo e acesso a mercado.

Um dos exemplos citados no relatório é o Café Apuí Agroflorestal, no Amazonas, com 59 famílias beneficiadas, 200 hectares de florestas recuperadas, aumento de 66% na produtividade do café e ganho de 300% na renda anual dos produtores. O dado não mede a experiência de Rodrigo, da cearense Ecoffea, mas ajuda a mostrar porque o café agroflorestal passou a ser observado como alternativa econômica e ambiental em diferentes regiões.

Close-up de um ramo de cafeeiro exibindo frutos maduros avermelhados e alguns verdes entre folhas verdes sob iluminação natural.
A agrofloresta deixa de ser apenas manejo da terra e passa a tocar diretamente o universo dos pequenos negócios | Foto: Rodrigo Vieira

Entre uma prática bem-sucedida e sua continuidade, no entanto, há um caminho que passa por gestão, identidade, mercado e rede de apoio. A partir daí, a agrofloresta deixa de ser apenas manejo da terra e passa a tocar diretamente o universo dos pequenos negócios.

Em entrevistas exclusivas à Eco Nordeste, Carolina Moraes, coordenadora de Agroecologia do Sebrae Nacional, e Gerd Muller, analista da Unidade de Gestão do Cliente do Sebrae – CE, foram convidados a responder à provocação que orienta esta reportagem: se territórios não são cenários, mas organismos vivos, como os pequenos negócios podem ajudar esses lugares a gerar renda sem perder seus vínculos com a natureza, a cultura e a comunidade?

Para Gerd Muller, os sistemas agroflorestais precisam ser compreendidos para além da técnica. “Quando falamos em sistemas agroflorestais, estamos falando muito mais do que uma técnica de produção”, afirma. Na avaliação dele, o modelo propõe outra forma de enxergar a relação entre pessoas, natureza e desenvolvimento, porque reúne produção de alimentos, conservação ambiental e conhecimentos acumulados por agricultores, povos indígenas e comunidades tradicionais.

Um homem de óculos fala ao microfone em primeiro plano. Ao fundo, um homem de terno e uma mulher com blusa verde o observam.
Gerd Muller, analista da Unidade de Gestão do Cliente do Sebrae – CE | Foto: Paulo Rocha

Essa visão ajuda a explicar por que iniciativas como as de Rosemeire e Rodrigo não cabem apenas na prateleira da sustentabilidade. Elas também pertencem ao campo da economia. Segundo Gerd, o papel do Sebrae é apoiar produtores rurais para que práticas sustentáveis se transformem em oportunidades concretas, com capacitação, gestão, acesso a mercados, inovação e estratégias capazes de gerar renda sem abrir mão da preservação dos recursos naturais.

O ponto central, para ele, está no respeito à vocação de cada lugar. “Não existe uma fórmula única”, resume. Cada comunidade tem sua história, sua relação com a terra, seus saberes e suas próprias respostas aos desafios locais. Nessa perspectiva, o território não é visto como lugar onde projetos simplesmente pousam, mas como ambiente vivo, feito de conexões, identidades e possibilidades de futuro.

Retrato de uma mulher sorrindo, com cabelos longos ondulados, vestindo casaco branco e um lenço azul e verde estampado em volta do pescoço.
Carolina Moraes é coordenadora de Agroecologia do Sebrae Nacional | Foto: Acervo pessoal

Carolina Moraes amplia a escala da discussão. Para ela, os sistemas agroflorestais devem ser vistos como estratégia de desenvolvimento territorial. “Os Sistemas Agroflorestais têm um papel estratégico porque demonstram que é possível produzir alimentos, gerar renda, recuperar áreas degradadas, conservar a biodiversidade e fortalecer comunidades locais simultaneamente”, afirma.

A provocação inspirada em Milton Santos também aparece na leitura da coordenadora. Para Carolina, pensar os territórios como organismos vivos é reconhecer que o desenvolvimento não nasce apenas de investimentos ou tecnologias isoladas.

“Quando afirmamos que os territórios são organismos vivos, reconhecemos que desenvolvimento não acontece apenas por meio de investimentos ou tecnologias isoladas”, diz. Ele se constrói, segundo ela, nas relações entre pessoas, cultura, natureza, conhecimento e atividade econômica.

A escala do tema aparece quando se olha para o Atlas dos Pequenos Negócios. Em 2024, 43,7 milhões de brasileiros dependiam diretamente da renda gerada pela atividade empreendedora. Quando considerados os impactos diretos e indiretos dos pequenos negócios, esse número chegava a 96,7 milhões de pessoas.

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No campo, esses números deixam de ser uma abstração quando encontram histórias como a de Xico, Rosemeire e Rodrigo. A renda que nasce de um hectare em transição agroflorestal, de um doce feito com fruta que antes se perdia ou de um café ancestral vendido por assinatura não resolve sozinha os dilemas do Semiárido. Mas mostra que desenvolvimento territorial também começa em arranjos pequenos, cotidianos e profundamente enraizados.

É justamente aí que os SAFs ganham força: ao mesmo tempo em que ajudam a recuperar áreas degradadas, conservar a biodiversidade e diversificar a produção, também ampliam as possibilidades de agregação de valor. Em outras palavras, a agrofloresta não termina na árvore plantada. Ela continua no beneficiamento, na embalagem, na marca, na feira, na loja, na assinatura e na capacidade de fazer o dinheiro circular mais perto de onde a vida acontece.

Quando a safra não basta,
o território responde
e a agrofloresta abre caminhos

A pergunta que acompanhou as histórias de Xico, Rosemeire e Rodrigo também aparece quando se olha para cadeias produtivas mais antigas do Semiárido. Se o território é feito de gente, trabalho, memória e economia, como sugeria Milton Santos, a permanência no campo não depende apenas de produzir. Depende também de criar condições para que a renda não desapareça quando a safra termina.

Na cadeia da carnaúba, essa tensão fica evidente. A palmeira movimenta trabalho, cultura e exportações, mas a extração ocupa apenas parte do ano. Para muitas famílias, o desafio não é só vender melhor o que já produzem. É enfrentar a entressafra sem romper o vínculo com o lugar onde vivem.

Fotografia de palmeiras com folhagens em formato de leque (carnaúbas), uma delas em destaque ao centro, com uma mata ao fundo
A carnaúba é considerada árvore símbolo do Ceará | Foto: Samuel Portela

A força econômica da carnaúba ajuda a dimensionar o tamanho desse desafio. Segundo o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), em 2024, o Ceará exportou US$ 76,9 milhões em cera de carnaúba, o equivalente a quase 12 milhões de quilos do produto, e respondeu por 71,19% das exportações nacionais.

O mesmo levantamento aponta uma tensão importante: naquele ano, o Estado registrou a menor quantidade produzida da série histórica recente, sinal de que valor econômico e segurança produtiva nem sempre caminham juntos.

É nesse intervalo entre o valor global da cera e a vida concreta de quem depende da safra que surgem as Áreas de Eficiência Produtiva e Sustentável (Aeps). “A extração da carnaúba é um pilar econômico do Nordeste, mas sua safra ocupa apenas parte do ano. Identificamos que muitas famílias dependiam exclusivamente de uma atividade importante, mas sazonal. As AEPS surgem como uma estratégia para ampliar oportunidades de produção e renda ao longo do ano, integrando carnaúba, agricultura familiar e recuperação ambiental”, explica Bruno Filizola, assessor técnico da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ).

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As áreas fazem parte do projeto Carnaúba e Desenvolvimento Sustentável II, que reúne comunidades rurais, empresas do setor e cooperação técnica internacional. A GIZ, agência alemã que atua em projetos de desenvolvimento sustentável, acompanha a metodologia, articula consultores especializados e apoia a implantação das unidades demonstrativas. O protagonismo, no entanto, permanece nas comunidades que vão manejar as áreas e testar, no cotidiano, se a diversificação produtiva consegue reduzir a dependência de uma única safra.

As Aeps estão sendo implantadas em comunidades do Ceará e do Piauí, incluindo os reassentamentos Angicos, em Caucaia (CE); Corredores, em Campo Maior (PI); e Estreito, em Piripiri (PI). O modelo adotado pelo projeto é de aproximadamente 1 hectare, ou 10 mil metros quadrados, pensado como área demonstrativa para manejo, recuperação produtiva e integração de culturas.

Em cada unidade, a carnaúba permanece como espécie principal, mas deixa de estar sozinha. O modelo combina a palmeira com culturas adaptadas ao Semiárido, como cajueiro, milho, feijão, mandioca e, em algumas áreas, urucum, manga e acerola. A escolha considera adaptação local, possibilidade de comercialização, segurança alimentar e interesse das famílias participantes.

A foto mostra uma paisagem natural alagada. Em primeiro plano, há uma palmeira carnaúba de tronco fino e copa aberta em formato de leque. O chão ao redor está coberto por água rasa, refletindo a vegetação. Mais ao fundo, outras palmeiras surgem espalhadas pelo terreno parcialmente inundado. Um pequeno barco de madeira está encostado entre os troncos, quase submerso. O céu é azul, com poucas nuvens brancas
Imagem de apoio ilustrativo. As Aeps estão sendo implantadas em comunidades do Ceará e do Piauí, incluindo os reassentamentos Angicos, em Caucaia (CE); Corredores, em Campo Maior (PI); e Estreito, em Piripiri (PI) | Foto: Camila de Almeida

No Reassentamento Corredores, em Campo Maior, o planejamento técnico prevê uma unidade agroflorestal de 1 hectare, com 625 mudas de carnaúba em espaçamento de 4 x 4 metros, consorciadas com caju, milho, feijão e mandioca. A área integra um território comunitário de 48 hectares, onde vivem 11 famílias e atuam 24 associados.

O desenho parece técnico – espaçamento, mudas, corredores de manejo, adubação, cercamento -, mas a questão por trás dele é humana. Quando a carnaúba é combinada a culturas alimentares, a renda não precisa esperar apenas pela safra.

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O lugar passa a produzir em tempos diferentes: milho e feijão podem gerar alimento e renda no primeiro ano; a mandioca sustenta o médio prazo, com colheita prevista entre 12 e 18 meses; o caju começa a diversificar a renda entre o segundo e o terceiro ano; e a carnaúba permanece como patrimônio de longo ciclo, com produção econômica consolidada a partir do oitavo ano.

Nas Aeps, a mesma pergunta reaparece em escala comunitária: como transformar permanência em renda sem romper com a árvore que estrutura a identidade econômica e cultural de tantas famílias?

Transformar

Do terreno de Seu Chagas ao manejo de Xico, do beneficiamento feito por Rosemeire ao café de Rodrigo, a mesma tentativa aparece em escalas diferentes: fazer da permanência uma possibilidade econômica sem reduzir o território a depósito de matéria-prima. Nas comunidades extrativistas, essa pergunta reaparece na entressafra da carnaúba.

Em comum, essas histórias não prometem uma solução pronta para as condições do Semiárido. Elas deslocam a pergunta: como produzir sem apagar a floresta, gerar renda sem romper os vínculos com o lugar e reconhecer que permanecer também depende de mercado, assistência técnica, memória e gente disposta a continuar?

Uma mão estende-se em meio às folhas verdes de um cafeeiro para colher frutos maduros de cor vermelha intensa fixados nos galhos.
O território não é visto como lugar onde projetos simplesmente pousam, mas como ambiente vivo, feito de conexões, identidades e possibilidades de futuro | Foto: Rodrigo Vieira

A essa altura, a imagem que acompanha a reportagem volta ao chão de onde partiu. Se o território não é cenário, mas organismo vivo, a agrofloresta aparece como uma forma de fazer circular alimento, renda, sombra, trabalho e futuro. Não como fórmula, nem como resposta mágica. Mas como possibilidade concreta de reorganizar a relação entre produção e vida.

É por isso que a última palavra retorna a Acarape. Aos 70 anos, depois de ter saído de casa, trabalhado em banco, percorrido o País e conhecido outros biomas, Francisco das Chagas Filho não fala do Semiárido como quem ficou por falta de opção. Fala como quem foi, viu outros mundos e aprendeu a reconhecer valor no lugar de onde veio.

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Para ele, permanecer não é se conformar. É aprender a trabalhar com inteligência no território que se conhece.

“Aqui é uma oportunidade de vida boa, de qualidade de vida e econômica também”, diz. No fim da conversa, o agricultor volta ao ponto central de sua experiência: empresas e grandes grupos já enxergam o Semiárido como oportunidade. A pergunta que ele deixa aos sucessores já carrega a própria resposta: se quem vem de fora reconhece valor nesse território, por que os pequenos produtores, os que nasceram e cresceram ali, deveriam sair?

“Basta trabalhar com inteligência para a gente poder se dar muito bem aqui.”

Expediente
Texto: Jessika Sampaio
Edição: Ariane Cajazeiras

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