Falta de planos contra El Niño alarma periferias do N e NE

Especialistas defendem integração entre saúde, gestão da água e políticas de adaptação para reduzir os impactos do El Niño nas periferias

ermômetro de rua digital registrando a temperatura de 43 °C, parcialmente enquadrado entre folhas de árvores.
El Niño pode aumentar as chances de ondas de calor, afetando principalmente comunidades vulnerabilizadas, como as periferias | Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

“A impressão que eu tenho é que a própria gestão está perdida sobre o que fazer”. A fala de Joice Paixão reflete a sua preocupação sobre a chegada do El Niño e seus impactos nas periferias do Recife (PE).

Moradora do bairro da Várzea, na Zona Oeste da Cidade, a presidenta da Associação Gris Solidário e secretária executiva da Rede Por Adaptação Antirracista, acredita que mesmo com os alertas dos especialistas de que esse pode ser o evento climático de maior proporção a atingir o Brasil desde os anos 1950, o Estado ainda está aquém e não apresentou um plano eficaz para mitigar as consequências nas regiões mais vulneráveis e suscetíveis aos desastres climáticos e ambientais. 

Na outra ponta do mapa do País, o paraense, especialista em Direito e Governança Climática, Alex Farias compartilha da mesma preocupação e reforça a importância de que os governos federais, estaduais e municipais passem a estabelecer um maior diálogo com a população, para que as informações cheguem de maneira mais acessível e sejam compreendidas da melhor forma possível por aqueles que sofrerão de forma direta os impactos da chegada do fenômeno. 

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“Os dados do Cemaden [Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais] são muito fortes e impactantes, mas esses dados não estão chegando para a população. São dados que são debatidos por técnicos e especialistas e que muitas vezes ficam só no âmbito do Governo. Então, eu acredito que um passo importante é levar esses dados para as pessoas”, defende Farias. 

Os dados e informações mencionadas por Alex dizem respeito ao alerta que vem sendo feito há meses por meteorologistas e especialistas sobre o El Niño 2026. No dia 11 de junho deste ano, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) anunciava a chegada oficial do fenômeno climático que deve atingir grandes proporções. 

De acordo com o Inmet, “historicamente, episódios de El Niño estão associados à redução das chuvas em áreas das regiões Norte e Nordeste, aumentando o risco de estiagens, redução da umidade do solo e impactos sobre os recursos hídricos. Em contrapartida, a Região Sul tende a registrar precipitações acima da média, elevando a probabilidade de eventos de chuva intensa, alagamentos e cheias de rios em algumas localidades”. 

Globo terrestre focado no Oceano Pacífico e Américas, exibindo dados de temperatura da superfície marítima. Tons intensos de vermelho e laranja dominam a faixa equatorial e a costa oeste da América do Sul, indicando aquecimento acentuado. O logotipo da NOAA aparece no canto inferior esquerdo.
Imagens de satélite mostrando a diferença entre a temperatura média da superfície do mar no Equador, no Oceano Pacífico tropical (representada por vários tons de vermelho e laranja para indicar o calor), durante a primeira semana de junho de 2026, e a linha de base utilizada pelo programa Coral Reef Watch da NOAA | Foto: NOAA Satellites

Piorado pelo aquecimento global, o fenômeno do aquecimento das águas do Oceano Pacífico, conhecido popularmente como El Niño, apresenta uma tendência de ser ainda mais intenso. 

A previsão de um  conjunto de multi-modelos (North American Multi-Model Ensemble – NMME) indica que há 63% de chances do El Niño ficar muito forte durante o trimestre Novembro-Dezembro-Janeiro (de 2026/2027) o que pode classificá-lo como um dos eventos mais fortes nos registros históricos desde 1950.

“O que acontece quando a gente tem esse aquecimento no Pacífico? Essa condição muda a circulação do ar e essa circulação do ar começa a ter correntes descendentes de ar seco e quente sobre a região da Amazônia e boa parte da região Nordeste do Brasil”, explica o meteorologista Humberto Barbosa, fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Mapa térmico de satélite mostrando as Américas e o Oceano Pacífico. O continente americano está delineado em preto. No Pacífico Equatorial, uma extensa faixa horizontal de cor vermelho-escura indica anomalias térmicas elevadas. O restante do oceano exibe tons amarelos e alaranjados dispersos.
Imagem de satélite mostra a extensa faixa de águas acima da temperatura normal no Oceano Pacífico Equatorial | Foto: NOAA

“Essas características começaram a ficar muito nítidas a partir de maio. […] De forma geral, a gente tem claramente grande parte do Nordeste do Brasil sob a influência de um sistema de alta pressão. Isso inibe a formação de nuvens, principalmente no semiárido, na região mais central do Nordeste do Brasil, onde você tem um período de chuva muito curto, de fevereiro a maio, e só chove 800 milímetros.”

Com dados de imagens de satélites, o cientista tem monitorado de forma frequente os impactos do El Niño na atmosfera do Brasil e divulga também quais áreas do país estão mais suscetíveis a enfrentar fenômenos climáticos como secas e queimadas. 

“Há um consenso de que atualmente nós já estamos vivendo sob influência do El Niño, tanto no oceano quanto na atmosfera, mas um El Niño fraco, moderado por enquanto. Precisamos esperar mais algumas semanas para saber se realmente no período de pico – entre os meses de outubro, novembro e dezembro – nós enfrentaremos um El Niño de proporções extremas, para definir melhor qual a probabilidade dessa intensidade”, pontua Barbosa. 


O calor intenso para
o Norte e o Nordeste

Diante deste cenário preocupante, o  Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), criaram um boletim, que será divulgado mensalmente, para apresentar atualizações sobre o monitoramento, previsão e impactos do El Niño no Brasil. 

Mapa-múndi de anomalia da temperatura da superfície do mar para outubro de 2026. Tons de laranja e vermelho escuro cobrem a maior parte dos oceanos, com destaque para uma faixa marrom intensa no Pacífico Equatorial. Áreas em azul indicam anomalias frias abaixo da linha do Equador.
Mapa do modelo climático CFSv2, da NOAA, mostra as anomalias previstas da temperatura da superfície do mar para outubro de 2026, com aquecimento intenso no Pacífico Equatorial associado ao desenvolvimento do El Niño | Foto: NOAA/CPC

O primeiro Boletim, divulgado em 29 de junho, afirma que “a previsão climática para o trimestre julho-agosto-setembro de 2026 indica, de forma geral, chuvas acima da média em áreas da Região Sul do Sul e, chuvas abaixo da média no centro-norte do País”. “Ainda, as previsões indicam alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, que podem aumentar os eventos de onda de calor e a ocorrência de incêndios florestais.”

A falta de chuvas para as regiões Norte e Nordeste deve resultar em um aumento nos incêndios, impacto na agricultura e comprometer a segurança hídrica local. Além disso, o calor extremo causado pela falta de precipitações e um maior aquecimento da atmosfera traz consequências à saúde e ao bem-estar da população. 

“Em termos de impacto, isso significa uma diminuição de chuvas na região da Amazônia. A partir de setembro, outubro, você já começa a estação chuvosa na Amazônia, de um modo geral, e isso vai reduzir, e a Amazônia é muito sensível quando você reduz o volume de chuva”, elucida Humberto Barbosa.

Homem indígena visto de costas usando cocar de penas, observando um leito de rio predominantemente seco com finos filetes de água.
El Niño de 2024 resultou na seca do Rio Negro, na Amazônia | Foto: Alex Pazuello/Secom

“Já a região Nordeste é um pouco mais complexa, porque ela tem diferentes regimes de chuva. Você tem o Oeste do Nordeste, que é muito parecido com a Amazônia, de setembro e outubro começam as primeiras chuvas. Então, toda aquela região do Matopiba [Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia] mais ou menos ali em setembro, outubro, é o período da estação chuvosa”, contextualiza.

“Mas na região central do Nordeste, onde está o Semiárido Nordestino, esse período é seco. Então, ele tende a ficar mais seco, mas praticamente o El Niño não está interferindo no regime de chuva da região do Semiárido, porque já acabou. No entanto, a partir de dezembro é a pré-estação. Isso também começa a afetar, a partir de dezembro e de janeiro, que é o período que começam as primeiras chuvas no Semiárido.”

“Mas, no momento, o El Niño afeta mais a Costa Leste do Nordeste, que pega boa parte de Pernambuco. A gente percebe, no monitoramento de secas, que boa parte da região do sertão dos estados, principalmente da Costa Leste, já estão sob uma condição de estiagem a seca e de situação de abastecimento de emergência por carro-pipa”, finaliza.

A imagem mostra a construção da base de uma cisterna em um terreno escavado de terra clara e arenosa. No centro de uma grande cavidade circular, três homens trabalham na montagem de uma estrutura de ferro: dois deles estão agachados e um está de pé, vestindo uma camisa vermelha de mangas compridas e chapéu de abas largas, segurando vergalhões verticais. A base no chão é formada por uma grade metálica em formato radial e concêntrico, lembrando uma teia de aranha gigante, sobre a terra batida e nivelada. A cena, capturada de um ângulo superior, evidencia o trabalho manual e técnico envolvido na infraestrutura hídrica em áreas rurais.
Construção de Cisterna Enxurrada, em Lagoa do Xavier, RN | Foto: Mickaelly Moreira/ASA

Para quem vive nas periferias, as consequências podem ser variadas, como explica Joice Paixão: 

“Aqui no Recife, uma das políticas públicas mais divulgadas pela prefeitura é a concretagem das barreiras nas favelas. Além disso, são muitas as obras de ruas e parques que destroem diversas árvores, áreas de mangue. Então, a cidade está cheia de ilhas de calor, as áreas verdes são cada vez menores. Juntando isso com o El Niño, imagine como vai ser o próximo verão na cidade.”

Um levantamento publicado na revista científica Sustainable Cities and Society, feito por pesquisadores da Universidade de Oxford, divulgou quais cidades são mais impactadas pelas ondas de calor. Recife é a oitava cidade brasileira no ranking que avaliou 205 cidades com mais de um milhão de habitantes.

Navegue por parte do bairro Várzea, em Recife

Entre as cidades brasileiras analisadas, Manaus aparece como a mais vulnerável. Na sequência, estão Goiânia (46ª posição no ranking global), Belo Horizonte (66ª), Fortaleza (67ª), São Paulo (77ª), Rio de Janeiro (83ª), Brasília (88ª), Recife (89ª), Salvador (93ª), Curitiba (119ª) e Porto Alegre (120ª). 

De acordo com o estudo, os riscos associados ao calor extremo não dependem somente das condições climáticas, mas dizem respeito também a fatores econômicos, sociais e de infraestrutura. 

“Além da falta de áreas verdes e de infraestrutura, quando vamos olhar para as dicas de como enfrentar o calor extremo, nós escutamos coisas como ‘compre um arcondicionado para se refrescar, tome mais banho, use ventilador’, mas quem tem condições de tomar essas medidas? Na favela, as pessoas enfrentam constantemente o desligamento da água, a falta de abastecimento. Fora a questão do gasto com energia. E esse é outro ponto importante pouco falado: a sobrecarga na rede elétrica que esse período pode causar”, reforça Joice Paixão. 

Mulher negra gesticulando ao falar durante uma reunião, vestindo camiseta branca com o logotipo "GRIS espaço solidário".
Joice Paixão, presidenta da Associação Gris Solidário e secretária executiva da Rede Por Adaptação Antirracista | Foto: Rafael Melo / Folha de Pernambuco

Já na Região Norte, a falta de um planejamento para eventos climáticos extremos como El Niño reforça um estigma que fortalece o racismo ambiental enfrentado na região.

“Vemos alguns alertas, mas não vemos nenhuma ação para lidar com os eventos climáticos. E isso está muito ligado a um estigma de que a Amazônia, a região amazônica é um lugar só de florestas. Mas a realidade é que nós temos muitas áreas periféricas que sofrem com esse calor extremo aqui no Norte, mas os investimentos do Estado privilegiam uma determinada região e excluem outras”, conta Alex Farias.

“A COP foi um ótimo exemplo dessa disparidade no investimento na infraestrutura da cidade. Todo o investimento foi feito na área mais central e mais conhecida de Belém, principalmente na área conhecida como Doca, e nada para as periferias. E ainda assim, a área ficou toda alagada quando teve uma forte chuva na cidade. O que eu vejo é que não há mesmo uma preocupação em resolver e ensinar a população o que fazer diante de um evento climático grave”, conclui. 


Quais medidas estão
sendo tomadas para
mitigar os impactos? 

Para o professor Humberto Barbosa, mais importante do que saber agir na emergência de um evento climático extremo, o Estado Brasileiro precisa proporcionar formas e ferramentas para que a população possa conviver com as consequências de um cenário climático adverso. Sempre em articulação entre os poderes federal, estadual e municipal. 

“É preciso criar programas permanentes de educação para que a população saiba como conviver com as altas temperaturas, da mesma forma que, ao longo dos anos, aprendemos a conviver com a estiagem e a escassez de água”, defende. 

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Para ele, a tendência alarmista não nos ajuda a solucionar problemas: “Eu acho que ainda não podemos caracterizar o El Niño como ‘Super El Niño’, porque ele pode ser comparável ao que enfrentamos nos anos de 2023 e 2024. Se ele vai ser mais forte ou não só saberemos nas próximas semanas.”

“Além disso, devemos considerar que não é apenas o Pacífico que está aquecendo, o Atlântico também está aquecendo e isso influencia no regime de chuvas, principalmente para a região Nordeste.”

“Em 2024, por exemplo, as secas foram muito fortes para a região da Amazônia, resultando até na seca de rios, mas no semiárido nordestino nós tivemos que desmentir as previsões porque houve períodos de chuva. Então, isso deve ser considerado também para este ano, precisamos monitorar o Pacífico e o Atlântico.”

Homem de óculos e camisa jeans azul clara sobre camiseta azul-escura, sentado à mesa com as mãos cruzadas.
Humberto Barbosa, meteorologista fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) | Foto: Arnaldo Sete / MZ Conteúdo

Segundo Barbosa, a principal diferença deste El Niño será o aumento das temperaturas, impulsionado pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, “resultado principalmente das emissões da indústria e das queimadas, além do aquecimento do Oceano Pacífico”.

“Mais do que a redução das chuvas, que já são naturalmente escassas no segundo semestre, o problema é que o calor mais intenso, agravado pelo desmatamento e pelas queimadas, acelera a perda de umidade do solo e eleva ainda mais as temperaturas, tornando as condições de seca mais severas”, conclui o diretor do Lapis. 

Barbosa reforça ainda que o aumento das temperaturas representa uma ameaça direta às populações que vivem no Semiárido. A escassez de água compromete o abastecimento humano e a criação de animais, especialmente caprinos e ovinos, importantes fontes de alimento e renda para milhares de famílias da região. 

Foto colorida de rebanho de cabras pastando em área sertaneja ladeada por cerca
A escassez de água compromete o abastecimento humano e a criação de animais, especialmente caprinos e ovinos | Foto: Eduardo Cunha

Segundo o cientista, uma das principais estratégias para reduzir esses impactos continua sendo o fortalecimento de políticas de convivência com o Semiárido: “A palma forrageira tem sido uma reserva importante de água para a pecuária e contribui para garantir uma certa segurança na produção de carne, mesmo em períodos de seca”.

Ele ressalta, no entanto, que episódios recentes de calor extremo também provocaram perdas na cultura, reforçando a necessidade de ampliar ações emergenciais, como o fornecimento de água potável às populações mais vulneráveis.

“O sertanejo já desenvolveu uma grande capacidade de resiliência, mas estará submetido a condições cada vez mais desfavoráveis com as altas temperaturas. Por isso, ações emergenciais, incluindo a atuação do SUS, serão fundamentais”, frisa.

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Um fato importante a ser considerado nesse contexto de seca, muitas vezes não discutido nas ações de saúde promovida pelo poder público, é a piora da qualidade da água durante longos períodos de estiagem. 

Com reservatórios, açudes e rios de pouca circulação permanecendo por muito tempo com água parada, aumenta-se a proliferação de algas e cianobactérias, que podem contaminar a água utilizada pela população. Entre os problemas associados à contaminação estão quadros de diarreia, intoxicações e, em situações mais graves, até mortes. 

Por isso, é fundamental que o Sistema Único de Saúde (SUS) atue de forma integrada com as secretarias de Recursos Hídricos e de Meio Ambiente para monitorar a qualidade da água, acompanhar as comunidades mais expostas ao calor extremo e orientar a população sobre os riscos.

Mapa da América do Sul mostrando a situação da seca em 30/06/2026, com destaque em tons amarelados e avermelhados para áreas afetadas no Brasil.
Monitoramento de Secas realizado pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) | Foto: Reprodução / Instagram

E esse não é apenas um problema do semiárido em momentos de seca. Na Vila Arraes, comunidade da Zona Oeste do Recife, a população passou a consumir água de poços sem regularidade.

“Quando começaram a construir aqui na avenida esses prédios maiores, a comunidade que antes tinha água todo dia, agora não tem. E aí as pessoas começaram a cavar poços”, conta. “Só que aqui é uma Várzea, e o rio está completamente contaminado, então as pessoas estão usando essa água de poço, que a gente não sabe quais são os patógenos que tem nela, para beber, para cozinhar, para lavar roupa, para absolutamente tudo.”

Diante do agravamento dos eventos climáticos extremos, intensificados pelo El Niño, o Ministério da Saúde lançou o AdaptaSUS, um plano de R$ 9,8 bilhões para fortalecer a capacidade de resposta SUS até 2035. A estratégia reúne 27 metas e 93 ações voltadas à prevenção, adaptação e resposta a emergências climáticas, reconhecendo a crise climática como um desafio crescente para a saúde pública.

Entre as principais medidas estão a criação de oito Centros Integrados de Saúde e Clima, a implantação do Painel Nacional de Excesso de Calor (que emitirá alertas com até cinco dias de antecedência sobre riscos associados às altas temperaturas) e a ampliação da Força Nacional do SUS para acelerar o atendimento em desastres. 

Segundo o Ministério da Saúde, a iniciativa busca proteger principalmente as populações mais vulneráveis aos impactos do calor extremo e de outros eventos climáticos, cada vez mais frequentes em decorrência das mudanças climáticas.

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Para Joice Paixão, é fundamental que o governo passe a investir cada vez mais em políticas públicas de saúde para a população periférica relacionadas ao enfrentamento da crise climática, uma vez que pessoas com doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, problemas cardíacos e doenças respiratórias tendem a sofrer agravamentos durante os períodos de calor extremo, aumentando a demanda por atendimento nas unidades básicas de saúde, UPAs e demais serviços de média e baixa complexidade.

“O calor extremo provoca um impacto direto na saúde básica. Pacientes hipertensos, diabéticos, cardiopatas e pessoas com doenças respiratórias entram mais facilmente em crise e procuram com maior frequência os serviços de saúde”, afirma a diretora do Gris Solidário.

Sigla "SUS" escrita em letras azuis em uma parede branca no primeiro plano, com dois profissionais de jaleco branco desfocados ao fundo.
O AdaptaSUS é um plano de R$ 9,8 bilhões para fortalecer a capacidade de resposta SUS até 2035 | Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

Paixão também alerta para a subnotificação dos efeitos do calor sobre a saúde. Na avaliação dela, muitos óbitos registrados como infarto ou Acidente Vascular Cerebral (AVC) podem ter sido desencadeados pelas altas temperaturas, sem que essa relação seja identificada pelos sistemas de vigilância.

Para ela, ampliar a produção de evidências e incorporar esse conhecimento às estratégias governamentais é um passo fundamental para fortalecer a resposta do SUS às mudanças climáticas. “Os estudos precisam sair da academia e chegar aos gestores públicos para que sejam transformados em políticas de saúde capazes de proteger a população diante dos eventos climáticos extremos”, conclui a ativista climática. 

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Além dos impactos físicos, Joice chama atenção para os efeitos das ondas de calor sobre a saúde mental e o comportamento da população. Segundo ela, temperaturas elevadas podem aumentar a irritabilidade, a sensibilidade e a vulnerabilidade emocional, fenômenos que estudos internacionais já relacionam ao crescimento dos índices de violência.

“Existe uma correlação entre o aumento das temperaturas e o aumento da violência. No Brasil, esse debate ainda é pouco aprofundado, especialmente quando se trata da violência doméstica que atinge mulheres e crianças”, reflete.

Homem em pé contra fundo preto, usando terno verde-escuro, camiseta branca e tênis brancos, com as mãos nos bolsos das calças.
Alex Farias, especialista em Direito e Governança Climática | Foto: Arquivo Pessoal

O especialista em Direito e Governança Climática, Alex Farias, ressalta a importância de uma ampliação nos investimentos em saúde como uma medida de mitigação para os eventos climáticos extremos, mas reforça a falta de infraestrutura das unidades básicas de saúde no estado do Pará.

“Acredito que ainda estamos errando em oferecer o básico. Aqui no Pará nós temos lutado para garantir que a população tenha acesso a exames, consultas, que os profissionais estejam presentes nas unidades de saúde. Há um sucateamento muito grande na saúde, então fica ainda mais difícil de tratar os pacientes no dia a dia, imagine então como é em casos extremos”, aponta Farias.

“Infelizmente, o que eu vejo é que falta diálogo entre os poderes [federal, estadual e municipal] e deles com a população também, porque também é importante ouvir o que as pessoas têm a contribuir para a formação das políticas públicas de qualidade. Quem convive com o problema é quem melhor pode apontar a solução”, critica.

Alex reforça a importância da iniciativa da Rede por Adaptação Antirracista e do Observatório do Clima, que protocolaram uma carta endereçada ao Governo Federal cobrando transparência e ações preventivas diante da projeção de formação de um Super El Niño no Brasil. 

O documento, assinado por 77 organizações, traz diretrizes claras de enfrentamento ao fenômeno. “Essa carta é a prova de que há inúmeras soluções que podem ser adotadas e que muitas vezes dependem da ação do poder público”, defende.

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