Por séculos negligenciada e rotulada como um bioma “pobre”, a Caatinga se revela o ecossistema de clima seco mais biodiverso do Planeta e um dos sumidouros de carbono mais eficientes da Terra

Neste Dia Mundial da Biodiversidade, os refletores da comunidade científica internacional se voltam para o Semiárido brasileiro. Durante décadas, o senso comum sustentou o equívoco de que o clima severo e as secas prolongadas limitavam a vida no Nordeste. No entanto, uma revolução na produção científica nas últimas duas décadas virou esse cenário do avesso, posicionando a Caatinga como uma joia ecológica global.
Dados consolidados pelo Observatório da Caatinga e Desertificação (OCA), pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e por diversos artigos internacionais revelam que a região abriga a maior biodiversidade entre todas as florestas tropicais sazonalmente secas dos neotrópicos. Trata-se de uma vasta cobertura de aproximadamente 860 mil quilômetros quadrados, o equivalente a cerca de 10% do território nacional.
“A Caatinga é o bioma de clima seco mais importante em todo o mundo, que tem maior biodiversidade. Até agora são conhecidas mais de 3 mil espécies. É uma quantidade muito grande, mais de 700 dessas espécies endêmicas”, destaca Bartolomeu Israel de Souza, geógrafo, professor titular do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e pesquisador da Caatinga desde 1994.

O levantamento divulgado pelo do Observatório aponta o registro exato de 3.347 espécies de plantas, organizadas em 153 famílias e 962 gêneros, sendo 526 exclusivamente endêmicas, ou seja, que ocorrem somente na Caatinga.
O segredo dessa profusão de vida reside também no que há abaixo da superfície: o bioma apresenta uma impressionante riqueza edáfica (do solo e suas características físico-químicas e biológicas), somando cerca de 625 combinações diferentes de classes de solos, que vão desde os Neossolos (mais jovens) aos Latossolos (mais antigos), gerando uma base físico-química extremamente heterogênea.
Diante de tamanha pluralidade de cenários, o professor Bartolomeu defende uma mudança de vocabulário: “Na realidade, a Caatinga poderia ser chamada pelo plural, Caatingas, porque é uma diversidade muito grande de paisagens. Vai desde os climas áridos em pequena escala, ao domínio dos climas semiáridos e também algumas áreas com brejos de altitude, onde tem resquícios de Mata Atlântica por conta da presença de chuvas mais intensas”.
O superpoder invisível
Além de ser uma fortaleza biológica, pesquisas lideradas pelos professores Aldrin Martin Perez-Marin (Insa) e John Elton B.L. Cunha, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), trouxeram à tona uma funcionalidade climática crucial e ainda subvalorizada: a imensa capacidade do bioma como sumidouro de carbono atmosférico.
Por meio do Observatório Nacional da Dinâmica da Água e do Carbono no Bioma Caatinga (OndaCBC), os cientistas monitoram os fluxos de gases e energia utilizando torres de alta tecnologia (eddy covariance). Os resultados são surpreendentes: mesmo sob regimes severos de restrição hídrica e em anos de seca extrema, a Caatinga continua capturando ativamente o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, impedindo que o gás intensifique o efeito estufa.

Em termos práticos, nas áreas de Caatinga mais úmidas (hipoxerófilas), o bioma consegue sequestrar até 5 toneladas de CO2 por hectare ao ano. Nas regiões mais secas (hiperxerófilas), a taxa oscila entre 1,5 e 2,5 toneladas por hectare ao ano.
De forma geral, as pesquisas apontam que a eficiência no uso do carbono (CUE) da Caatinga é superior a de muitos outros ecossistemas do Planeta, incluindo áreas da própria Floresta Amazônica. Em média, 45% de todo o carbono absorvido pela vegetação semiárida é convertido e fixado em biomassa.
O professor Bartolomeu ratifica a descoberta de Perez-Marin e Cunha: “A Caatinga se destaca, notadamente na curta estação chuvosa, como o bioma que mais consegue concentrar carbono, impedindo que esse elemento fique exposto na atmosfera. Isso leva a Caatinga a um patamar de importância extrema no que diz respeito à amenização dos efeitos do aquecimento global”.
Das plantas aos insetos
Compreender o bioma exige enxergar além do que é macroscópico. Carlos Roberto Fonseca, professor titular do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e doutor pela Universidade de Oxford, explica que o endemismo botânico da Caatinga sustenta uma gigantesca engrenagem biológica piramidal.

“Quando se diz que a Caatinga é um bioma 100% brasileiro, o que se quer dizer é que ela contém milhares de espécies de plantas que são típicas ou exclusivas desta região. Mas não é somente isso”, pontua o ecólogo. “Atualmente sabemos que estas plantas estão associadas a milhares de espécies de insetos herbívoros que se alimentam exclusivamente delas, e milhares de insetos predadores e parasitas que se alimentam dos herbívoros”.
Dessa forma, o desmatamento gera uma reação em cadeia catastrófica. “Quando o desmatamento afeta as plantas, um número muito maior de espécies de insetos é afetado indiretamente. Quando conservamos as plantas, estamos também ajudando a conservar toda a biodiversidade”, adverte o professor Carlos Roberto.

Símbolo de resiliência
Questionado sobre qual espécie vegetal melhor sintetiza a riqueza do bioma, o professor Bartolomeu Israel de Souza não hesita: “O umbuzeiro é uma espécie endêmica da Caatinga, fundamental para a sobrevivência das pessoas e também da fauna. Seus frutos são apreciados tanto por pessoas como por animais, inclusive tem um potencial econômico muito grande de produção de polpa, doces e outros produtos”.
Graças às suas batatas subterrâneas (xilopódios), o umbuzeiro armazena milhares de litros de água, mantendo-se verdejante enquanto a floresta ao redor perde as folhas na estiagem, protegendo o solo e alimentando o sertão.

O fantasma da desertificação
Apesar de sua reconhecida eficiência ecológica e importância estratégica para mitigar as mudanças climáticas, o bioma enfrenta um processo histórico devastador de degradação e de desertificação. A exploração predatória de recursos e as queimadas reduziram drasticamente a cobertura original.
“Hoje, grande parte da Caatinga não tem mais a cobertura vegetal original. Virou quase tudo capoeira, como se fala popularmente”, lamenta o professor Bartolomeu. “A população conhece essas áreas onde tem o domínio de espécies arbustivas, ora um pouco mais adensadas, ora um pouco mais separadas e, em consequência disso, também muitas áreas desertificadas”.


