Inspirado em experiências comunitárias do Semiárido nordestino, o MMA lança o Programa Recaatingar como ação de combate à desertificação

“Com toda a sinceridade, eu nunca pensei que a gente precisava cuidar (da Caatinga). A gente cresceu vendo fogo, vendo as pessoas tirarem a madeira para vender, e na minha cabeça isso era muito normal. Até o momento que a gente percebeu que a nossa Caatinga estava indo embora”.
O relato de Iracema Lima, 48, moradora da Comunidade Tradicional de Fundo de Pasto de Malhada da Areia, em Juazeiro (BA), se mistura com o de muitas outras experiências caatingueiras. Na infância de Iracema, as cerca de 35 famílias da comunidade viviam na lógica da sobrevivência, de retirar porque era preciso, em um contexto de falta de acesso a empregos.
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Nesse processo de degradação e consequente desertificação, aliado aos períodos de seca sem manejo, a Caatinga da área comunitária de 400 hectares de Malhada da Areia foi sumindo aos poucos. “Tinha lugares que estavam quase no deserto, já”, descreve.
O cenário piorou quando, em 2013, eles descobriram que a terra na qual a comunidade criava animais havia sido grilada. Quem se chamava de dono passou a ocupar o terreno e a desmatá-lo. Mal imaginavam os moradores que a solução para os problemas estava em uma metodologia há pouco desenvolvida: o recaatingamento, que agora vira política pública pelo Programa Recaatingar, do Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB).

A metodologia surgiu a partir da observação de mulheres extratoras de umbu de outras comunidades de fundo de pasto da Bahia, na região de Curaçá, Uauá e Canudos. Assim como Iracema, elas perceberam que a Caatinga estava sumindo após não encontrarem mais umbuzeiros jovens na região, devido ao sobrepastoreio. Foi quando determinaram: “É preciso recaatingar”.
O processo de conceitualização do recaatingamento durou dez anos, entre o fim dos anos 1990 e começo dos anos 2000, com apoio técnico do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa).

Segundo Luís Almeida, engenheiro agrônomo do Irpaa, a metodologia fundamenta-se na convivência com o Semiárido e no entendimento de que não são as pessoas ou os bodes que degradam o ambiente, mas todo um contexto fundiário que pressiona os recursos naturais.
“Se os territórios estão sofrendo ameaças, se há um avanço da disputa territorial e da concentração de terra, naturalmente essas comunidades ficam mais vulnerabilizadas e com menos porção de terra”, descreve.
O que é o recaatingamento
O recaatingamento é uma metodologia focada na restauração das Caatingas. O plural, segundo Luís Almeida, existe para externar as diferentes faces do bioma que devem ser levadas em consideração para o sucesso da ação:
- Caatinga social: aquela que abrange as comunidades humanas que vivem na e com a Caatinga
- Caatinga ambiental: referente à fauna, à flora e a todos os recursos hídricos e geológicos do bioma
- Caatinga produtiva: com enfoque nas atividades produtivas realizadas na e a partir da Caatinga
- Caatinga cultural: aquela que se traduz em modos de vida, expressões culturais e artísticas
Nesse sentido, o recaatingamento ultrapassa a lógica de replantio e abrange outras demandas socioeconômicas dos povos caatingueiros. Para isso, ela se associa a diversas tecnologias sociais, como fogões ecoeficientes, cisternas, sistemas de reúso de água e bioágua.
Tecnologias Sociais aplicadas no Semiárido
Assim, ele é uma metodologia, não uma tecnologia em si, por ser capaz de se adaptar às demandas específicas das comunidades envolvidas.
“Por exemplo, aqui toda família ganhou um fogão ecoeficiente”, aponta Iracema sobre a experiência com o recaatingamento em Malhada da Areia. “Esse fogão foi uma revolução, ajudou muitas famílias economicamente, porque aquele botijão de 120 passou a durar quatro, cinco meses, em vez de um.”

O recaatingamento chegou à Malhada da Areia a partir de uma sugestão do Projeto Pró-Semiárido, responsável por ajudar as famílias a reaverem o território grilado. “Nós percebemos que o recaatingamento era uma forma de mostrar que aquilo era nosso”, rememora Iracema.
Segundo o Irpaa, “o recaatingamento é realizado em 40 comunidades de Fundo de Pasto, Quilombolas, Indígenas e Assentamentos de Reforma Agrária, em 14 municípios baianos, com envolvimento direto de mais de 900 famílias”.
Como funciona o recaatingamento
Foi assim que, em 2019, Malhada da Areia começou o trabalho coletivo de cercamento de 50 ha, do total de 400 ha, destinados para a restauração ambiental. As organizações garantiam o cimento e arame, mas a força de trabalho vinha das 21 famílias que se engajaram no processo.
“Com isso a gente viu uma coisa que a nossa comunidade não sabia que existia: a nossa união e força. Fortaleceu demais a comunidade”, emociona-se Iracema. Ela relembra da mobilização de idosos, crianças e mulheres, cada um ajudando como podia.




“Naquela época, a gente até parava e pensava: ‘Será que a comunidade vai conseguir?’ Porque até mesmo na Associação a gente tinha dificuldade de fazer as pessoas se associarem”, contextualiza.
“E dava muito trabalho para construir, porque era no meio da mata, precisava de moto para levar o material. Mas então foi nessa hora que a gente viu o quanto a comunidade era unida, porque eram os idosos, as crianças, as mulheres, as pessoas de moto carregando pedra ali por dentro do mato mesmo, sabe? Criando estrada dentro do mato, fazendo calo na mão, levando comida”, conta.
O cercamento é a primeira de três etapas, que envolvem a identificação e cercamento da área comunitária em maior estado de degradação; a elaboração de um plano de uso e manejo da área; e a manutenção contínua da cerca e das práticas de regeneração.
Conheça as três etapas de recaatingamento
Mesmo com uma pausa nos trabalhos em razão da pandemia, a cerca ficou pronta em 2023. De lá para cá, a paisagem se transformou quase milagrosamente.
Em Malhada da Areia, poucas mudas foram plantadas na área destinada para recaatingamento. A comunidade tentou cultivar algumas plantas normalmente bem sucedidas em quintais produtivos, como a goiabeira e a palma, em torno de um sistema de irrigação movido à energia solar, mas lá elas não vingaram. “Não deu certo. Só ficou o que nasce da Caatinga: ficou pé de umbuzeiro, faveleira. Só planta nativa da Caatinga”, ri Iracema.
Era como se a terra determina-se que, ali, o recaatingamento seria levado ao pé da letra, com o apoio integral da fauna jardineira. Aliás, qual foi a surpresa das famílias ao identificar o retorno de uma planta medicinal “quase extinta” na região: a canela-de-ema (Vellozia squamata).

“É uma dessas histórias muito engraçadas, que a gente não sabe como acontece. Só a natureza explica”, reflete Iracema. “Só tinha essa planta na serra, que é um pouco bem distante daqui, e por incrível que pareça os meninos encontraram o pé dessa planta lá na nossa área. Ela serve para inflamação; e se você colocar ela em um ferimento, serve também como analgésico.”
Segundo relatórios desenvolvidos pela comunidade com a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) da Bahia, o número de espécies vegetais na área recaatingada saiu de 20 para 35, com a quantidade de plantas aumentando de 246 para 585 em apenas quatro anos. Já a captura de carbono foi quantificada em 42 toneladas em um período de um ano.
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“A Caatinga vem demonstrando que sequestra carbono como nenhum outro bioma brasileiro”, explica Aldrin M. Perez Marin, pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e coordenador do Observatório de Caatinga e Desertificação (OCA). Nas regiões úmidas, o bioma sequestra até 5 toneladas de CO2 por hectare ao ano, enquanto nas mais secas, o sequestro está entre 1,5 e 2,5 toneladas por hectare ao ano.
Por isso, a forma mais eficiente de combater a desertificação é promover o recaatingamento. “A desertificação é um espelho de nosso modo de viver, de produzir e de se relacionar com a natureza, consigo mesmo e com o próximo”, pontua o pesquisador. “A terra não se degrada sozinha. Recaatingar é a garantia dos saberes passando de geração em geração”.
“A Caatinga não é branca, nem cinza, nem verde; ela é verde esperança”, reflete Aldrin. “Porque ela lança luzes de esperança contra as mudanças climáticas”.
Programa Recaatingar será
lançado dia 8 de junho
Inspirado no recaatingamento, o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA) lança o Programa Recaatingar neste 8 de junho de 2026.
O Programa constitui uma das 175 ações estratégicas estabelecidas pelo PAB, desenhado após dois anos de debates técnicos e participativos com 500 representantes da sociedade civil.
O objetivo é, até 2045, recuperar 10 milhões de hectares de áreas degradadas na Caatinga. Para isso, serão priorizadas ações com povos e comunidades tradicionais (PCT), agricultores familiares e assentados de reforma agrária, principalmente por serem nesses territórios em que a Caatinga tem mais chances de ser preservada.

“O Programa Recaatingar é o esforço do governo de olhar para as experiências concretas da sociedade civil e transformá-las em política pública, para valorizar aquilo que já está sendo feito e que está dando certo”, aponta Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação do MMA.
O Programa pode ser fortalecido pelo Projeto de Lei 1990/2024, que institui a Política Nacional para a Recuperação da Vegetação da Caatinga, aprovado em 19 de maio de 2026 pelo Senado Federal. O texto cria instrumentos para a restauração imediata e produtiva da vegetação nativa da região e segue para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
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De autoria da senadora Janaína Farias (PT/CE) e elaborado com apoio técnico do Instituto Escolhas, o PL estabelece quatro objetivos: recuperar áreas desmatadas na Caatinga; ampliar a produção sustentável de alimentos; aumentar a segurança hídrica e a melhorar a qualidade de água no bioma; e estimular a bioeconomia e o manejo florestal sustentável.
“O que identificamos (durante os encontros para a construção do PAB) foram diferentes locais com a prática de reconstituição da Caatinga. Não usando o conceito de recaatingamento, mas aplicando a metodologia já”, frisa o engenheiro agrônomo Luís Almeida. “Ou seja, ele não surge única e exclusivamente do Irpaa. Surge de um conjunto de organizações e também de comunidades”.


