Transição energética justa é aposta de projeto na Caatinga

O novo projeto Energia do Roçado fortalece autonomia energética, soberania alimentar e protagonismo comunitário no semiárido baiano

Close focado na mão de uma mulher que segura um papel adesivo azul com o texto escrito "TECNOLOGIAS ADAPTADAS AO SEMIÁRIDO". Ao fundo, aparecem outras pessoas sentadas.
O projeto Energia do Roçado, realizado pela Gaia Social em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), propõe integrar energia solar, captação de água de chuva, reuso de águas residuais e produção de mudas para restauração da Caatinga | Foto: Jacqueline Dias Mousine

De um lado, a expansão das energias renováveis no Nordeste brasileiro, especialmente da solar e da eólica, com a apropriação de grandes extensões de terra e limitada participação popular. Do outro, a busca por mais justiça social, participação comunitária e equidade territorial. 

É nesse contexto que surge o projeto “Energia do Roçado”, apresentado oficialmente no dia 2 de junho, em Irecê, município do Semiárido baiano, durante o seminário “Energia do Roçado: Soluções Agrovoltaicas na Caatinga“, evento que reuniu gestores públicos, representantes de organismos de apoio técnico, pesquisadores de instituições universitárias e lideranças comunitárias da região.

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O projeto Energia do Roçado, realizado pela Gaia Social em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), propõe integrar energia solar, captação de água de chuva, reuso de águas residuais e produção de mudas para restauração da Caatinga. 

Inicialmente, a iniciativa beneficiará quatro unidades produtivas lideradas por mulheres agricultoras vinculadas ao Núcleo Raízes do Sertão – são duas em Irecê, uma em Canarana e outra em Barra do Mendes, na Bahia. Além disso, haverá uma unidade formativa para a formação prática de agricultores, técnicos e educadores. 

Entre os critérios de seleção das quatro unidades, estavam: produção regular, certificação orgânica ou estar em processo de certificação, fornecer produtos nos canais de venda do Núcleo Raízes do Sertão e ter mulheres como protagonistas da produção.

Tecnologia Social

O sistema a ser implantado no âmbito do projeto é baseado na tecnologia social Ecolume, idealizada pela pesquisadora Francis Lacerda e testada no Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), em Pernambuco.

Ele combina geração fotovoltaica, captação e reúso de águas pluviais e residuais, aquaponia, cultivo de hortaliças, irrigação e produção de mudas nativas econômicas e não econômicas para a cadeia de restauração da Caatinga. 

Grupo grande de pessoas posa reunido em uma sala clara, sorrindo para a foto. À frente, no chão, há cartazes com notas adesivas, cestas, cactos e elementos agrícolas.
O projeto prevê o fortalecimento da ciência participativa, mapeamento de mecanismos de financiamento e sistematização de resultados | Foto: Jacqueline Dias Mousine

O desenho desse sistema se fundamentou na abordagem Nexus+, que integra segurança hídrica, alimentar, energética e socioambiental para a resiliência climática do Semiárido.

Francis Lacerda, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Territorial da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e do Instituto de Pesquisa Agronômica de Pernambuco (IPA), lembra da  importância desse avanço: “Estamos falando da sobrevivência do nosso roçado. É sobre garantir água, comida na mesa e energia limpa para a agricultura familiar. A inovação só serve se mudar a vida real de quem está no campo.” 

Mobilização para multiplicar

Lucilene Danciguer, diretora da Gaia Social, destaca que “o seminário realizado, além de mobilizar as organizações no entorno dos potenciais dos sistemas agrovoltaicos para a resiliência climática, já apontou algumas oportunidades de políticas públicas regionais com o potencial de alavancar a ampliação da experiência no território e em outras regiões do semiárido baiano”.

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Liderança do Núcleo Raízes do Sertão, Paula Ferreira concorda e diz que “a sistematização da experiência do projeto Energia do Roçado, de quanto a família economizou em energia e utilizou na produção, possibilitará a ampliação dessa tecnologia social integrada à produção agroecológica no território e no Brasil”. 

Construção coletiva e escuta ativa

O projeto prevê ainda o fortalecimento da ciência participativa, mapeamento de mecanismos de financiamento e sistematização de resultados. Ele tem duração de 24 meses, com previsão de terminar ao final de 2027, sempre pautado por uma abordagem baseada em escuta ativa, valorização do conhecimento local e construção coletiva com os diversos atores do território.

Para além da validação técnica do modelo, ação busca promover a geração de conhecimento e capacidades no território e a construção de bases sólidas para ampliar a iniciativa por meio de políticas públicas e programas de financiamento climático voltados às populações do semiárido.

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