Alexandre Araújo Costa, membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, fala sobre os riscos do El Niño, mitigação e adaptação

Temos prognósticos de agências meteorológicas apontando para um El Niño – o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico – de intensidade forte ou muito forte do segundo semestre deste ano até o início de 2027.
Popularmente conhecido como “super El Niño”, esse extremo climático pode impactar diversos setores da sociedade e da economia, “afetando o abastecimento de água, a segurança alimentar, a geração de energia, a mobilidade, a saúde pública e as atividades produtivas em diferentes regiões do País”, segundo nota técnica do governo federal.
Em entrevista à Eco Nordeste, Alexandre Araújo Costa, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), graduado e mestre em Física pela Universidade Federal do Ceará (UFC), doutor em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Estado do Colorado, com pós-doutorado pela Universidade Yale e membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, fala sobre as mudanças no padrão do El Niño, seus riscos, mitigação e adaptação. Confira:

Maristela Crispim – De onde vem e qual é o prognóstico mais atualizado sobre o El Niño?
Alexandre Araújo Costa – Basicamente, existe hoje um consenso virtual entre as agências que trabalham com previsão climática sazonal de que teremos o desenvolvimento de um El Niño de intensidade significativa ao longo dos próximos meses.
O ponto principal que precisamos ponderar sobre a intensidade do fenômeno é que a temperatura de fundo (background) do Oceano já está mais elevada por conta do aquecimento global. A média térmica do Oceano Pacífico na última década não é a mesma de três a seis décadas atrás. Por isso, o ponto de referência para o cálculo das anomalias de temperatura precisa ser deslocado e corrigido, levando esse fator em consideração.

Essa necessidade levou a NOAA (Agência de Administração Atmosférica e Oceânica dos EUA) a adotar dois índices distintos. O tradicional é o Oceanic Niño Index (ONI), que parte de uma referência fixa de temperatura e calcula as anomalias para a região do Niño 3.4 – uma área delimitada entre as latitudes 5º Norte e 5º Sul e as longitudes 120º Oeste e 170º Oeste.
O problema é que, se não considerarmos o aquecimento global, parecerá que estamos em condições permanentes de El Niño, mesmo que o Pacífico Equatorial esteja com a mesma temperatura de sua vizinhança.
Para corrigir isso, a NOAA adotou um índice proposto em 2017: o Relative Oceanic Niño Index (Roni), ou Índice do El Niño Oceânico Relativo. Quando analisamos os eventos de 1982/1983 e 1997/1998, a correção aplicada pelo RONI em relação ao ONI é quase nula.

Contudo, em eventos recentes, como o de 2015/2016 e, principalmente, o de 2023/2024, a diferença chega a 0,5°C ou 0,6°C. Na prática, embora o evento de 2023/2024 tenha sido classificado como um El Niño “forte” pelo ONI tradicional, sob a ótica do RONI ele seria classificado apenas como “moderado”. Compreender essa distinção metodológica é o primeiro passo.
Dito isso, as duas principais fontes e projeções sazonais que valem a pena acompanhar de perto são o programa europeu Copernicus e o conjunto de modelos analisados pelo IRI (Instituto de Pesquisa para Clima e Sociedade da Universidade de Colúmbia).
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MC – A Ciência consegue estabelecer uma relação concreta deste prognóstico com o aquecimento do Planeta?
AAC – Sim, e precisamos analisar essa relação sob dois aspectos. O primeiro deles é o pano de fundo: como todas as bacias oceânicas estão mais quentes em comparação com o período pré-industrial, há mais evaporação e maior disponibilidade de umidade na atmosfera.
Com o ar mais aquecido, as taxas de evaporação aumentam, o que amplifica as secas; ao mesmo tempo, o maior volume de vapor d’água disponível propicia chuvas muito mais intensas. Portanto, o aquecimento global, por si só, já amplifica as consequências do El Niño.

O segundo aspecto é que o próprio comportamento do El Niño é modificado pelo aquecimento global. Estudos apontam uma tendência de diminuição de eventos fracos ou moderados confinados na porção leste-central da bacia.
Em contrapartida, há uma propensão ao surgimento de El Niños intensos que ocupam toda a extensão oceânica, ou de eventos que se formam a partir do meio da bacia, conhecidos como “El Niño Modoki” ou “El Niño do Pacífico Central”.
Por essa razão, não podemos mais avaliar o fenômeno com as ferramentas do passado. Eu descarto, por exemplo, o uso de modelos estatísticos baseados em correlações históricas, pois essas relações antigas deixaram de existir devido às mudanças climáticas. Prefiro confiar nos modelos dinâmicos.

Atualmente, a projeção de modelos dinâmicos do IRI aponta para uma anomalia na região do Niño 3.4 que excede os 2,5°C. Mesmo descontando cerca de meio grau por conta da correção do índice relativo (Roni), o fenômeno ainda se manteria no limiar de um El Niño forte, mas não um “super El Niño” ou um evento histórico.
No entanto, uma parte menor dos modelos projeta que esse aquecimento ultrapasse os 3°C, atingindo cerca de 3,5°C. Se isso ocorrer, mesmo aplicando o índice relativo, estaríamos diante de um El Niño muito forte. Essa possibilidade real é corroborada pelo modelo do Copernicus, cujo valor central projetado para novembro é de 3°C de anomalia, podendo avançar nos meses seguintes.
Descontando o aquecimento de fundo, ainda restaria um El Niño de até 3°C, o que configura um evento de grande intensidade, comparável aos históricos de 1982/1983 e 1997/1998.
MC – Que tipo de consequência um fenômeno como este pode trazer para o Brasil? E mais especificamente para o Nordeste?
AAC – No Brasil, os efeitos do El Niño costumam provocar uma elevação generalizada de temperatura na maioria das regiões, além de causar seca na Amazônia e chuvas acima da média na região Sul, devido ao deslocamento de sistemas meteorológicos.
Na Amazônia, ocorre um movimento descendente das massas de ar (subsidência) para compensar o movimento ascendente de ar que se deslocou para o centro do Pacífico. Já no Sul, o fenômeno represa as frentes frias e posiciona a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) mais abaixo, impedindo que as chuvas avancem para latitudes mais altas e concentrando as precipitações nos estados sulistas.

Além disso, o El Niño gera “teleconexões”, influências climáticas remotas. Alterações na circulação do Pacífico impactam a circulação do Caribe e se propagam para latitudes médias.
No caso do Nordeste, essas teleconexões costumam fortalecer a alta pressão no Atlântico Sul, empurrando a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) – que é o principal sistema produtor de chuvas da região – para uma posição mais ao norte do que sua média climatológica. Por isso, historicamente, a maioria dos eventos de El Niño moderados e fortes resultou em seca no Ceará e em estados vizinhos.
Contudo, precisamos levar em conta as lições do biênio 2023/2024. Naquela ocasião, a maior parte dos prognósticos indicava chuvas abaixo da média, mas alguns modelos dinâmicos já sinalizavam que o cenário real poderia ser diferente.

Isso acontece porque a própria dinâmica das teleconexões do El Niño está mudando com o aquecimento global, exigindo que olhemos mais para o aquecimento relativo do que para o absoluto. Além disso, com a bacia do Atlântico inteiramente aquecida, há maior transporte de umidade e maior convecção, tornando a própria ZCIT mais intensa.
Portanto, embora continue válida a premissa de que El Niños fortes trazem anos mais secos para o Nordeste, cravar esse diagnóstico antes que as condições do Atlântico estejam totalmente configuradas pode ser prematuro.
De qualquer forma, o País precisa de um plano de contingência robusto e estar devidamente preparado para mitigar impactos graves: secas severas na Amazônia e no Nordeste, e grandes enchentes no Sul.
MC – No caso específico do Nordeste, é possível estabelecer consequências de acordo com os diferentes cenários, tipo na costa, em regiões serranas e no sertão semiárido?
AAC – Como o El Niño é um fenômeno de grande escala, a tendência principal é que ele arraste praticamente todas as sub-regiões para cenários de chuva abaixo da média. Obviamente, a disparidade natural de precipitação entre o litoral, as serras e o sertão continuará existindo, mas a redução geral das chuvas trará impactos distintos para cada ecossistema.
Nas regiões serranas, menos chuva se traduz em menor aporte de água para as nascentes e restrição hídrica para os enclaves de Mata Atlântica e vegetações de zonas úmidas, o que pode acelerar a degradação de biomas que já sofrem com o desmatamento.
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Na faixa costeira, a diminuição do volume de chuva reduz a vazão dos rios e a recarga do aquífero dunar, limitando a reposição do lençol freático, o que compromete o abastecimento de comunidades litorâneas.
A preocupação central, contudo, recai sobre a Caatinga e o sertão semiárido. A combinação de temperaturas recordes com baixa precipitação – um cenário bastante factível – pode gerar perdas severas na produção agrícola (especialmente na agricultura de sequeiro) e o esvaziamento dos reservatórios.
Para enfrentar isso, a gestão de recursos hídricos precisa ser repensada. Existe uma pressão constante sobre as águas do Ceará por parte de indústrias hidrointensivas (como as instaladas no Complexo do Pecém) e do agronegócio que tenta avançar pelo Estado. As políticas públicas devem se basear no princípio da precaução para garantir que as demandas econômicas não amplifiquem os riscos de desabastecimento humano.

MC – Há tendência de esse tipo de fenômeno climático passar a se repetir com mais frequência no “novo anormal” climático?
AAC – Não há um consenso definitivo na comunidade científica, mas existem fortes evidências nas projeções climáticas – especialmente para o fim do século e em cenários de altas emissões de gases estufa – de que o sinal do tipo El Niño (El Niño-like) se tornará mais saliente, caracterizado por aquela persistente língua de água quente no Pacífico Equatorial.
Os modelos climáticos atuais ainda encontram dificuldades para simular perfeitamente a intensidade e a frequência histórica do fenômeno. Apesar dessa limitação, os dados indicam uma forte probabilidade de que passemos a enfrentar ou uma frequência maior de eventos, ou episódios significativamente mais intensos no futuro.
MC – Que caminhos podemos seguir para frear o aquecimento e melhor conviver com as mudanças que já estão entre nós?
AAC – O cenário já é alarmante pelo simples fato de que os impactos tradicionais do El Niño são severamente amplificados pelo aquecimento global. Portanto, é urgente sairmos da rota dos piores cenários.
Precisamos cortar drasticamente as emissões globais de gases de efeito estufa nos próximos anos para zerá-las até meados do século XXI. Para alcançar essa meta, precisamos transformar profundamente dois pilares da nossa sociedade: o sistema energético e o sistema alimentar.

No sistema energético, a marcha deve ser acelerada em direção ao fim do uso de combustíveis fósseis, banindo o carvão, o petróleo e o gás da nossa matriz. No entanto, não basta apenas instalar usinas de energia renovável de forma desordenada.
Geração solar e eólica também geram impactos significativos, que vão desde a mineração de matérias-primas e geração de resíduos até a ocupação de grandes extensões de terra, competindo com atividades vitais como a agricultura e a pesca.
Como vivemos em um planeta finito, precisamos aumentar a eficiência, racionalizar o consumo e reduzir a demanda energética global para garantir uma transição rápida, justa e de baixo impacto.

O segundo pilar é o sistema alimentar. Embora na pauta climática ele atue como um coadjuvante em relação à energia – ele não é o Batman, é o Robin -, o modelo atual de produção de alimentos é o principal fator de degradação da biosfera.
Ele acelera a perda de biodiversidade e a extinção de espécies devido ao avanço da fronteira agropecuária; esgota recursos hídricos via irrigação e introduz novas entidades poluentes na natureza, como agrotóxicos, hormônios e antibióticos. Além disso, os fertilizantes rompem os ciclos biogeoquímicos do nitrogênio e do fósforo.
Toda essa estrutura precisa de uma revolução. O modelo atual baseia-se em monoculturas voltadas para a fabricação de ultraprocessados e produção de ração animal para abastecer a bilionária indústria da carne.

Precisamos reduzir urgentemente o consumo de proteína animal, especialmente de carne de ruminantes, para cortar as emissões de metano. Alimentos de origem animal demandam muito mais água e terra por quilograma ou caloria do que os de origem vegetal. Reduzindo essa demanda, conseguiríamos liberar vastas áreas de terra para a regeneração florestal, recomposição de ecossistemas e resgate da biodiversidade.
Por fim, paralelamente à mitigação, precisamos falar seriamente sobre adaptação, pois várias mudanças climáticas já foram “contratadas” e são inevitáveis.
Devemos reduzir a vulnerabilidade da sociedade nas esferas de produção de alimentos, segurança hídrica, defesa civil contra eventos extremos e saúde pública (visto que as mudanças climáticas impulsionam ondas de calor mortais e a proliferação de doenças associadas a enchentes).

Minha palavra final é um alerta: a adaptação tem limites. Em um cenário de emissões baixas a moderadas, ainda há chances de nos adaptarmos e evitarmos as piores consequências.
No entanto, é impossível se adaptar a um mundo cuja temperatura média esteja 3°C ou 4°C acima do período pré-industrial. Isso representaria a ruptura das condições fundamentais que sustentam a vida e a sociedade organizada como a conhecemos.
Precisamos trabalhar obstinadamente nesse binômio: adaptar-se para minimizar os danos dos problemas atuais e mitigar para impedir que o Planeta se torne completamente inabitável.


