Em evento de adoção de cães e gatos, o Instituto Pró-Silvestre aproveitou o amor aos pets para alimentar o respeito aos silvestres

Filhotinhos de cachorros vestidos com uniforme de basquete, cadelinhas com as testas decoradas, gatos adultos quietinhos — e, ao fundo, uma mesa de educação ambiental sobre animais silvestres. Esse era o cenário da feira de adoção realizada no Órbita Blue, em Fortaleza (CE).
A barraca de praia localizada na Praia do Futuro, famoso ponto turístico da capital cearense, recebeu os pets resgatados da ONG Patrulha Vira-Lata. Mantida pelo trabalho voluntário de amantes de cães e gatos, a ONG resgata, abriga, trata e busca novos lares para animais em situação de vulnerabilidade.
“Tudo começou com a alimentação diária de cães que viviam no entorno do Tribunal Regional Eleitoral; mas com o tempo a situação tornou-se ainda mais delicada, com casos de violência, mutilações, animais encontrados sem vida e o deslocamento dos cães que viviam naquela região”, destaca a fundadora do Patrulha Vira-Lata, Leka Duarte Pinheiro.

Muitos dos animais resgatados enfrentaram casos de violência, como é o caso de Richard, cãozinho de 9 meses que foi maltratado por um homem. O trauma ficou marcado no comportamento: Richard toma leves sustos quando se aproximam dele e ao ser tocado, especialmente se quem chega perto é do sexo masculino.
No evento, quem ouvia sobre o passado de Richard lamentava. E essa mesma narrativa também se repete com animais silvestres.
Eis que entra na história, ao lado dos pets, a mesa do Instituto Pró-Silvestre (IPS), uma ONG de proteção, resgate, reabilitação e soltura da fauna silvestre cearense. A ideia era aproveitar o engajamento dos amantes de animais domésticos e apresentar o mundo dos silvestres, criando paralelos entre eles.
Os animais silvestres também são vulnerabilizados pela violência, por mutilação e por atropelamentos, casos constantemente observados nos órgãos de resgate.
Entre 2018 e 2024, o Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ceará (Cetas-CE), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), recebeu 7.108 animais silvestres. No mesmo período, 5.313 animais foram destinados. Os dados são do Sistema de Gestão dos Centros de Triagem de Animais Silvestres (sisCetas) do Ceará, obtidos pelo O POVO+ por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
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Entre estes milhares, de tudo um pouco: macacos tratados como pet desnutridos e diabéticos pela péssima alimentação; papagaios com hepatite por serem alimentados apenas com sementes de girassol; aves com penas de voo cortadas; macacos-prego com os dedos feridos ou dentes arrancados; aves e mamíferos com estereotipias — ou seja, comportamentos repetitivos consequentes de estresse e sofrimento psicológico em razão do cativeiro.
“Normalmente, as pessoas que são amantes de pet também vêem a importância da fauna silvestre. (Então, estarmos em um evento de adoção de animais domésticos) ajuda muito porque, quanto mais as pessoas conhecem os direitos dos pets, mais elas acabam conhecendo o direito desses outros animais”, comenta Mellina Façanha, gestora do IPS.
Quais são os direitos
dos animais domésticos
e dos animais silvestres?
A Constituição Federal e a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) são as legislações base para os direitos animais. A primeira diz que é dever do Poder Público proteger a fauna e a flora, “vedando práticas que submetam os animais à crueldade”. A segunda estabelece detenção e multa para “quem praticar maus-tratos a animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”.
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No caso dos animais domésticos, a jurisdição tem avançado no que diz respeito à noção de família multiespécie. Cães e gatos passam a ser reconhecidos como seres sencientes que compõem as famílias humanas, por isso há deveres legais dos tutores de prover alimentação adequada, abrigo, saúde e bem-estar a eles. Inclusive aos animais de rua que são cuidados pela vizinhança.
Tanto é que em abril de 2026 foi publicada a Lei Nº 15.392/2026, que dispõe sobre a guarda compartilhada de animais de estimação em casos de divórcio. Antes, em setembro de 2020, a Lei Nº 14.064/2020 aumentava as penas de “crime de maus-tratos aos animais quando se tratar de cão ou gato”.

Já para os animais silvestres, a noção é de patrimônio natural do Brasil. Na Lei de Proteção à Fauna (Lei nº 5.197/1967), o termo específico é “bem do Estado”, significando que eles não pertencem a uma pessoa particular, mas à sociedade brasileira.
Assim, animais silvestres não constituem famílias multiespécies; pelo contrário, tê-los como “pets” é ilegal. É o que diz a própria Lei de Crimes Ambientais, que considera crime a “caça, a pesca ilegal, o comércio, a exportação, a guarda ou a manutenção de animais silvestres em cativeiro sem a devida autorização dos órgãos competentes”.
Internacionalmente, ainda existe a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, algo similar aos Direitos Humanos. Ela estabelece as cinco liberdades animais:
- Livres de fome e sede;
- Livres de desconforto;
- Livres de dor, ferimentos e doenças;
- Liberdade para expressar o comportamento normal; e
- Livres de medo e angústia.
Educação ambiental
Compreender as diferenças entre os direitos dos animais domésticos e dos silvestres é essencial para garantir que as causas se complementem e ressignifiquem a forma de demonstração de amor a eles.
Na mesa do Instituto Pró-Silvestre, a equipe desenvolveu um quiz para engajar o público. Uma delas questionava o que fazer ao se avistar um sagui. As opções envolviam alimentá-lo imediatamente, se aproximar do animal ou manter a distância e admirá-lo sem toques. A resposta certa, você deve imaginar, é a última.
Nesse sentido, a educação ambiental é o passo mais importante. Do ponto de vista da equipe do IPS, o Ceará ainda é um estado que guarda crendices prejudiciais aos animais silvestres.

“A gente evoluiu em várias coisas já, mas a gente ainda é muito tradicional. Então tem muito conhecimento passado de pai para filho de um animal dar azar, o outro animal trazer sorte, ou um animal fazer mal… Tudo por causa de mitos”, reflete Mellina. A perpetuação dessas falas impulsiona a matança de espécies — como cobras, gambás e corujas —, e dessensibiliza as populações à fauna silvestre.
“E é engraçado como as pessoas se surpreendem com as novas informações. Elas não têm noção do que fazer quando veem um animal (para ser resgatado), para onde ligar, qual órgão”, informa.
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Experiência recente foi em Canindé, a 117 quilômetros de Fortaleza, onde ocorreu a primeira refaunação de papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva) do Ceará. No município cujo padroeiro é São Francisco de Assis, o tráfico de animais praticamente extinguiu os papagaios-verdadeiros locais.
Para evitar o mesmo erro, a equipe do IPS bateu “de porta em porta” para conversar com as famílias. “(A gente falava) tem papagaios aqui, não peguem, respeitem o espaço deles. E realmente teve um resultado incrível, porque essas pessoas respeitam muito. Então, se alguém tentar pegar algum papagaio, a comunidade já fica: ‘ei, não é assim que se faz!”, conta Hayanna Aguiar, médica veterinária e coordenadora do IPS.

“A gente fazia questão de falar com as pessoas porque os papagaios também iam na casa dessas pessoas, né? A gente precisava saber se eles estavam doentes, se eles estavam fazendo ninho… E as comunidades amam, elas ficam encantadas. Elas falam: ‘ai, mal posso esperar a hora de ver os bichinhos voando aqui em cima’. É muito legal”, complementa Mellina.
Segundo a gestora, a educação ambiental permite que as comunidades criem vínculos com a fauna, sem agressividade e possessão. “Eles ficam como os guardiões. A gente diz: ‘Vocês que vão observar, vocês que vão reportar’, e aí a comunidade se sente parte do projeto. E eles são, né? Na verdade, eles são uma das partes mais importantes. Porque o nosso trabalho tem, entre aspas, um limite, que é soltar. Mas quem continua a preservar e conservar são eles”, reforça.
A mensagem é clara: do gato à onça, os animais precisam de proteção e têm direito ao amor, ao respeito e a um lar. Para uns, esses aspectos são cumpridos em quatro paredes, para outros, bem além das fronteiras dos biomas.


