Em Caucaia, no litoral cearense, uma área de vegetação nativa que há décadas recebe crianças e jovens para atividades de educação ambiental ganha proteção permanente como reserva particular

Em meio à expansão urbana no litoral de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), um fragmento de Mata Atlântica continua servindo de abrigo para a biodiversidade e de espaço de aprendizagem para crianças e jovens. Ali, o contato com plantas, animais e outros elementos da natureza ultrapassa os conteúdos apresentados em sala de aula e ganha forma em trilhas ecológicas, oficinas e experiências de educação ambiental.
Em 4 de setembro de 2026, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) reconheceu oficialmente 12,51 hectares do Sesc Iparana como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).
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A decisão, publicada no Diário Oficial da União, concluiu um processo iniciado em 2008 pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) Ceará e estabeleceu proteção permanente para parte da vegetação nativa preservada dentro de um imóvel de aproximadamente 32 hectares.
O reconhecimento representa uma nova etapa para um território que já recebia atividades educativas muito antes de se tornar uma unidade de conservação. Além de assegurar a permanência da vegetação, a reserva reúne histórias de pessoas que cresceram, aprenderam e construíram novas perspectivas de futuro a partir da convivência com aquele ambiente.
Uma escola
sem paredes
O supervisor de educação ambiental do Sesc Iparana, Francisco Moreira Cardoso, acompanha há 14 anos as atividades desenvolvidas no espaço. Engenheiro agrônomo, com mestrado em Agronomia, ele integra a equipe do Centro de Educação Ambiental (CEA) e, desde que ingressou na instituição, em 2012, presenciou mudanças na maneira de aproximar os visitantes da natureza.
“Ao longo desses anos, o trabalho deixou de focar apenas em transmitir conhecimentos pontuais sobre meio ambiente e passou a estimular mais a experiência, a prática, o diálogo, o senso crítico e a corresponsabilidade, relacionando as questões ambientais com a vida das pessoas, com o território e os desafios sociais”, explica.

Essa proposta orienta as atividades desenvolvidas no CEA, inaugurado em março de 2026. O espaço reúne trilhas ecológicas, oficinas e experiências de campo voltadas principalmente a estudantes, mas também a grupos comunitários e outros visitantes.
Nas trilhas do Sagui, Camaleão e Beija-flor, as atividades começam com uma conversa sobre o percurso e o ambiente que será explorado. Durante a caminhada, os participantes são estimulados a perceber mais elementos além da paisagem.
“Durante a trilha, os participantes são convidados a observar o ambiente, percebendo os sons, as plantas, os animais, o solo e as relações entre esses elementos. Ao longo do percurso, surgem perguntas, curiosidades e conversas que ajudam a relacionar o que está sendo observado com questões ambientais presentes em nosso cotidiano”, afirma Francisco.

A proposta não se encerra com a caminhada. Oficinas e rodas de conversa permitem relacionar as descobertas aos hábitos cotidianos, como o descarte de resíduos e o cuidado com os espaços naturais.
No minhocário, por exemplo, os estudantes observam o papel das minhocas na decomposição da matéria orgânica e na formação do húmus, utilizado para melhorar a qualidade do solo. A atividade também abre espaço para discutir a separação dos resíduos orgânicos e o volume de materiais encaminhados aos aterros sanitários.
O alcance dessas experiências ajuda a dimensionar o trabalho realizado no local. Somente em 2025, a Fazendinha Educacional do Sesc Iparana recebeu mais de 10 mil alunos de escolas públicas, particulares e instituições sociais da Região Metropolitana de Fortaleza.
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Segundo Francisco, o público atendido cresce, em média, 10% ao ano. O educador explica que algumas escolas retornam para novas atividades, enquanto outras participam pela primeira vez. O número informado não permite distinguir quantos alunos são visitantes únicos ou estabelecer a quantidade exata de instituições atendidas.
Os registros ajudam a dimensionar o alcance das iniciativas, mas não mostram, por si só, o que permanece depois de uma visita. Essa dimensão aparece nas experiências dos participantes e na maneira como eles se relacionam com o ambiente quando retornam à escola, à família ou à comunidade.
Da infância à
profissão
As atividades de educação ambiental no Sesc Iparana não começaram com a inauguração do CEA, em 2026. Mais de duas décadas antes, o espaço já recebia a Brigada da Natureza, iniciativa que nasceu da mobilização de moradores de Iparana, no litoral de Caucaia.
O projeto surgiu entre praticantes de surfe que buscavam incentivar a participação de crianças e adolescentes em atividades esportivas. Com o tempo, a presença de lixo nas praias despertou a preocupação dos participantes e deu origem a ações coletivas de conservação ambiental.
A iniciativa se aproximou da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), que já atuava na região. Em 2002, a organização estabeleceu uma parceria com o Sesc Iparana para desenvolver atividades voltadas a crianças e adolescentes de comunidades em situação de vulnerabilidade social no entorno, conforme explica Larissa Batalha, atual coordenadora da Brigada da Natureza.

Atualmente, a Brigada atende 15 estudantes de escolas públicas, com idades entre 12 e 15 anos, moradores de Iparana e de comunidades próximas. Segundo Larissa Batalha, as atividades combinam arte, educação ambiental, música, poesia, artes visuais e cidadania, com incentivo ao cooperativismo.
A coordenadora relata resultados que ultrapassam o aprendizado sobre o meio ambiente. Entre antigos participantes, há jovens que concluíram a educação básica e ingressaram no ensino superior, inclusive em cursos relacionados à área ambiental. São trajetórias que, segundo Larissa, ganham relevância diante dos relatos de evasão escolar na região.
Uma dessas histórias é a de Jameson Jeiel, que chegou à Brigada em 2016, aos oito anos. Morador da comunidade de Iparana, ele soube da existência de um projeto que imaginava ser uma espécie de escolinha de surfe. Não conhecia exatamente a proposta, mas a curiosidade o levou a participar das atividades de música e educação ambiental.

Criado em uma comunidade litorânea, Jameson cresceu em contato com práticas como a pesca, mas conta que nem sempre se preocupava com os impactos de suas atitudes sobre o ambiente. A participação na Brigada começou a mudar essa relação.
“Já tive o hábito de jogar lixo na na rua, no chão, na praia, mas com tempo isso foi mudando. Fui tendo consciência e o que me ajudou nesse amadurecimento foi o projeto”, relembra.
As mudanças também alcançaram suas perspectivas de futuro. Nos primeiros meses, as atividades despertaram um interesse pela conservação ambiental que, até então, não fazia parte de seus planos profissionais.
“Como muitas crianças, eu não sabia muito bem o que queria para o futuro. Sonhava em ser jogador de futebol, como tantos outros meninos. Mas, logo nos primeiros meses do projeto, comecei a enxergar outras possibilidades. Foi ali que decidi que queria trabalhar com a natureza”, comenta Jameson.
Dez anos depois, Jameson continua na Brigada da Natureza, agora como educador ambiental. O antigo participante passou a compartilhar com outras crianças os conhecimentos que adquiriu durante a própria formação, em uma trajetória que também abriu portas para diferentes atividades.
A passagem de participante a educador trouxe uma experiência particular: reconhecer nas crianças que acompanha hoje a curiosidade e as expectativas que marcaram sua própria infância.

“Foi uma honra muito grande receber essa oportunidade de ensinar a outras crianças tudo o que aprendi no projeto. Foi relativamente fácil compartilhar esse conhecimento, porque existe uma sensação de nostalgia, de voltar ao passado e me colocar no lugar delas. Até alguns anos atrás, eu era uma dessas crianças e, agora, sou eu quem está ensinando tudo aquilo que aprendi. É muito importante e prazeroso viver essa experiência”, pontua.
A trajetória de Jameson exemplifica como a educação ambiental pode ultrapassar a transmissão de conhecimentos sobre a natureza e influenciar escolhas profissionais. De participante a educador, ele encontrou na Brigada da Natureza oportunidades de formação que agora ajuda a oferecer a outras crianças e adolescentes.
Sua história também revela a dimensão de uma parceria construída ao longo de mais de duas décadas entre a comunidade de Iparana, a Aquasis e o Sesc, mostrando como um espaço dedicado à educação ambiental pode contribuir para a formação de novas gerações.
O que resta da
vegetação costeira
Enquanto crianças e adolescentes aprendem sobre conservação dentro do Sesc Iparana, a vegetação nativa do litoral cearense enfrenta uma pressão crescente.
Entre 2023 e 2024, o Ceará concentrou 76% da supressão de restinga registrada na Mata Atlântica brasileira, segundo o relatório Restinga sob pressão: Análise da supressão da vegetação costeira da Mata Atlântica no litoral do Ceará, desenvolvido pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com a Eco Nordeste.

No período, foram suprimidos 345 hectares de restinga no Ceará, de um total de 453 hectares identificados no levantamento nacional. A formação vegetal, associada ao bioma Mata Atlântica, desempenha funções importantes na proteção do solo, no equilíbrio dos ecossistemas costeiros e na manutenção da biodiversidade.
O avanço de loteamentos, empreendimentos turísticos e estradas está entre os fatores que ajudam a explicar a perda desses ambientes, segundo o pesquisador Samuel Trajano Rabelo, Cientista Ambiental e Pesquisador do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar/UFC).
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A retirada da vegetação e o isolamento dos fragmentos remanescentes somam-se a problemas como poluição, queimadas, descarte de resíduos e circulação de veículos sobre dunas e áreas vegetadas.
Mas a destruição também está relacionada à maneira como esses ecossistemas são percebidos. “Existe uma dificuldade de reconhecer o valor desses ambientes. Quando se fala em natureza no litoral, muita gente pensa no mar e na praia, mas pouco na vegetação que existe ali”, reforça o pesquisador.
Samuel explica que a restinga não se resume à vegetação rasteira. Ela reúne diferentes formações, incluindo campos, arbustais e áreas florestais. Mesmo espaços de vegetação baixa ou aberta podem abrigar grande diversidade de plantas e animais.

É nesse contexto que os 12,51 hectares reconhecidos como RPPN no Sesc Iparana ganham relevância. Cercado pela urbanização, o fragmento permanece como área de abrigo e alimentação para espécies, além de manter funções ecológicas importantes.
“Em uma região com forte pressão da ocupação urbana, como a Região Metropolitana de Fortaleza, conservar uma área como essa é uma grande conquista. Pode parecer pouco quando a gente olha apenas o número de hectares, mas é preciso considerar o que já foi perdido ao redor e o que esse remanescente ainda pode abrigar”, comenta Samuel.
A vegetação também contribui para a proteção e a permeabilidade do solo, a infiltração da água da chuva e a redução da temperatura local. Animais que utilizam esses ambientes participam de processos como a polinização e a dispersão de sementes.
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A existência da reserva, contudo, não significa que o ecossistema esteja livre de ameaças. O isolamento provocado pela ocupação urbana dificulta a circulação de espécies e pode comprometer a permanência deles em áreas pequenas.
“Claro que esse isolamento tem consequências. Nem todas as espécies conseguem se manter em uma área pequena ou atravessar ruas e outros espaços urbanizados para chegar a outro fragmento”, explica.
Para Samuel, conservar o espaço de Iparana é importante, mas também é necessário proteger outros remanescentes e recuperar, quando possível, as conexões entre eles. A criação de uma unidade de conservação privada representa uma contribuição, sem substituir a necessidade de ações mais amplas de proteção do território.
Onde estão as RPPNs do Ceará?
Explore as reservas cadastradas no CNUC. Clique nos pontos ou na lista para consultar nome, área e município.
Fonte: CNUC/MMA, exportação de 30/10/2026. Os marcadores indicam o ponto central de cada reserva; muitas áreas são pequenas demais para aparecer na escala estadual, por isso use o zoom. O contorno do estado e os limites municipais usam a malha do IBGE quando disponível; o município da reserva selecionada fica destacado. Os dados apresentados são as unidades cadastradas, não necessariamente todas as existentes.
Uma proteção que
deve atravessar gerações
A criação da RPPN Sesc Iparana acrescenta uma garantia jurídica à conservação do fragmento. Diferentemente de outras formas de proteção que podem sofrer alterações conforme a destinação de um imóvel, a categoria estabelece uma restrição permanente de uso, mesmo que a propriedade mude de dono.
O processo de reconhecimento começou em 2008, mas só foi concluído em setembro de 2026. Segundo Luiz Fernando Bittencourt, presidente do Sistema Fecomércio Ceará, a demora esteve relacionada à necessidade de atualizar documentos e regularizar informações sobre a área.

“Ao longo desse período, foi necessário atualizar uma série de informações e documentos relacionados à área. Entre as principais etapas, tivemos a realização de um novo georreferenciamento e, na sequência, ajustes na matrícula e na escritura do terreno”, descreve.
Com a formalização, a instituição pretende ampliar as atividades educativas e as possibilidades de visitação, além de estruturar novas trilhas.
Entre as próximas etapas, Luiz Fernando aponta a elaboração do plano de manejo, documento responsável por orientar a gestão da unidade de conservação e estabelecer diretrizes para atividades de pesquisa, educação ambiental e visitação.
A proteção legal estabelece novas condições para o futuro da área. Sua conservação, entretanto, também dependerá de como o território continuará sendo utilizado, das pressões externas e da capacidade de manter as atividades educativas que lhe deram uma função social antes mesmo do reconhecimento.
Para Jameson, essa história já atravessou diferentes etapas da vida. Ainda criança, entrou em um projeto sem saber exatamente o que encontraria. Aos poucos, descobriu um interesse pela conservação que influenciou suas escolhas e o levou a trabalhar com a educação ambiental.
Hoje, a experiência se repete sob outra perspectiva. Diante dele estão crianças que também chegam com curiosidades, dúvidas e expectativas sobre o futuro. Algumas podem seguir profissões relacionadas à natureza. Outras, caminhos completamente diferentes. A oportunidade de conhecer novas possibilidades, porém, permanece no centro da proposta educativa.
A proteção chegou ao papel agora. A sala de aula já estava ali.


