Proposta brasileira na ONU quer conectar áreas marinhas

Brasil propõe fortalecimento da conectividade ecológica internacional na COP da Biodiversidade, beneficiando rotas migratórias das baleias-jubarte

Vista subaquática da cauda de uma baleia-jubarte nadando no azul do oceano acompanhada por mergulhador.
A conectividade ecológica é a capacidade de paisagens e ecossistemas permitirem a circulação de organismos, genes e manutenção dos processos naturais entre diferentes áreas | Foto: François Baelen / Ocean Image Bank

O Brasil apresentou proposta de ampliar a proteção dos corredores ecológicos, durante  discussões na 17ª Conferência da ONUda Biodiversidade (COP17 da Biodiversidade), que ocorre na Armênia até o dia 30 de outubro. A medida geraria um fortalecimento no caminho percorrido pelas espécies migratórias, como o é o caso das baleias-jubarte no habitat marinho.

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As baleias-jubarte se alimentam nos oceanos da Antártida, mas buscam águas mais quentes e rasas para se reproduzirem, darem à luz e amamentarem os filhotes. A espécie encontra essas águas ideais no Banco dos Abrolhos, entre o litoral sul da Bahia e o norte do Espírito Santo, entre junho e novembro de todos os anos.

No Brasil, já existem políticas públicas de conservação das baleias-jubarte, mas a proteção do local de destino não elimina os riscos durante o deslocamento. Nesses trajetos, as baleias passam por áreas oceânicas de diferentes países e estão sujeitas a políticas diferentes, além da colisão com embarcações, poluição, ruídos submarinos e enroscamento em redes de pesca. Por isso, a necessidade de estabelecer e proteger os corredores ecológicos. 

Plateia atenta assiste a painel sobre água e biodiversidade durante conferência da ONU em auditório com grande tela ao fundo.
A COP17 de Biodiversidade determinou o 24 de outubro como dia da Água e da Biodiversidade, focando as discussões na temática | Foto: COP17 Yerevan/YantsImages

Marina Corrêa, analista de Conservação e líder dos Oceanos do WWF-Brasil, aponta que a importância da proteção das baleias-jubarte no litoral do Nordeste vai muito além do turismo. “As baleias redistribuem nutrientes que ajudam a sustentar a produtividade do oceano, favorecendo o fitoplâncton, que absorve carbono. Proteger a rota da baleia é cuidar da saúde do oceano, nosso aliado no enfrentamento da crise climática e essencial ao nosso bem-estar”, diz.

Durante a COP da Biodiversidade, as propostas de novas políticas de implementação internacional para proteger a biodiversidade são debatidas pelos países e, depois de entrarem em consenso, os textos seguem para a adoção na plenária final. 

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Para Michel Santos, gerente de Políticas Públicas do WWF-Brasil, o principal ponto em discussão é como incorporar a conectividade ecológica de maneira concreta ao Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas e Conservadas. É preciso estabelecer um elemento específico de trabalho que ajude os países a avançar na proteção.

“No caso da conectividade ecológica, esperamos que os países apoiem a proposta brasileira de criar um quinto elemento no Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas e Conservadas. Não basta proteger áreas isoladas: precisamos garantir que elas funcionem como redes conectadas, permitindo o deslocamento das espécies e a manutenção dos processos ecológicos”, esclarece.


O que são
corredores ecológicos

A conectividade ecológica é a capacidade de paisagens e ecossistemas permitirem a circulação de organismos, genes e manutenção dos processos naturais entre diferentes áreas. 

No Oceano, ela envolve, entre outros aspectos, as rotas utilizadas por espécies que percorrem grandes distâncias ao longo de seu ciclo de vida. O corredor ecológico é a política física para que essa conectividade entre fauna e flora aconteça.

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Anna Carolina Lins, analista de Conservação do WWF-Brasil, explica que um corredor ecológico é uma área natural ou manejada que vai conectar duas ou mais áreas conservadas, que sem esse corredor estariam isoladas. 

Um corredor ecológico terrestre pode ser de uma faixa contínua de vegetação nativa até propriedades rurais com práticas sustentáveis e compatíveis com conservação.

Baleia-jubarte desponta verticalmente da superfície do oceano sob céu claro.
Durante trajetos de migração, as baleias passam por áreas oceânicas de diferentes países e estão sujeitas a políticas diferentes, além da colisão com embarcações, poluição, ruídos submarinos e enroscamento em redes de pesca | Foto: Michele Roux / Ocean Image Bank

Já no caso marinho, não vai ser uma faixa física visível, mas uma área de Oceano identificável e gerida para manter processos ecológicos. Pode ser implementado nas rotas migratórias das baleias ou na conexão de recifes de corais com manguezais, por exemplo.

“Um corredor ecológico vai, literalmente, atuar como passagem que permite com que animais se movimentem entre esses ambientes. Garantindo, então: o deslocamento da fauna, a migração para que cumpra seus ciclos de vida, dispersão de sementes,  aumento  da resiliência das espécies (que têm a possibilidade de se deslocar em casos de emergência), e a reprodução (que reduz os riscos de extinção e a perda da variabilidade genética)”, esclarece Anna. 

Ela também explica que essas áreas precisam ter uma regulamentação do que pode e o que não pode ser feito naquele corredor. Segundo a analista, o manejo compartilhado e equitativo é necessário porque, muitas vezes, não se tratam apenas de áreas protegidas pelo Estado, mas de propriedades privadas e terras de povos tradicionais.

*Redigido por Gabriele Soares, estagiária de Jornalismo da Agência Eco Nordeste, sob supervisão da editora-chefe Catalina Leite.

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