Única, a arara-azul-de-lear pinta a Caatinga do norte da BA

No Dia da Caatinga, convidamos animais endêmicos para compartilhar suas rotinas e como eles se relacionam com o único bioma totalmente brasileiro

Arara-azul-de-lear em voo lateral contra um céu nublado, com o bico levemente aberto e montanhas desfocadas ao fundo.
A população de arara-azul-de-lear tem pouco mais de 2 mil indivíduos, que em sua maioria vivem na Estação Ecológica do Raso da Catarina – entre o Rio São Francisco e o Rio Vaza-Barris, na Bahia | Foto: Fábio Nunes

Eu sou rara; na verdade, uma das aves mais raras do mundo. Sou endêmica do Brasil, o que significa que aqui é meu único lar natural. Sou a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), também conhecida como arara-azul-menor. Somos apenas cerca de 2.548 indivíduos, número estimado no censo de 2024.

O tráfico de animais silvestres e a destruição do meu habitat (lugar onde vivo) estão entre as principais ameaças que enfrento. Mas o avanço da civilização sobre o meu território traz outros riscos. A expansão da rede de linhas de energia elétrica é necessária para abastecer populações humanas ainda sem acesso à eletricidade, um direito inquestionável, no entanto, a expansão mal planejada dessas linhas pode representar riscos para os meus, que têm morrido vítimas de descargas elétricas.

Duas araras azuis em um paredão de rocha avermelhada sob luz solar direta. Elas observam o horizonte a partir da borda do penhasco.
A arara-azul-de-lear mede entre 70 e 75 cm, e pesa em torno de 900 gramas. O bico é negro, sem dente e a cauda é comprida | Foto: Fábio Nunes

“Apesar do crescimento populacional da arara-azul-de-lear observado nos últimos anos, a espécie ainda enfrenta ameaças significativas”, comenta Thatiana Andrade, bióloga e coordenadora de Educação Ambiental do Grupo de Pesquisa e Conservação da Arara-azul-de-lear. “Entre elas, destacam-se a remoção de indivíduos para o tráfico internacional, a destruição do hábitat e a caça retaliatória, motivada pelos prejuízos causados às lavouras de milho. Além disso, novas pressões vêm se intensificando, como a eletroplessão em linhas de distribuição de energia e a competição por cavidades naturais com abelhas exóticas, fatores que podem impactar diretamente sua sobrevivência. Nesse contexto, torna-se evidente que, embora os avanços na conservação sejam relevantes, a manutenção e ampliação de estratégias integradas de proteção são essenciais para garantir a persistência da espécie a longo prazo”, detalha.

Para tentar reverter esta situação, foi elaborado o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Arara-Azul-de-Lear: Anodorhynchus leari (PAN Leari), vigente até 2011, que teve várias ações de conservação, pesquisa, fiscalização e Educação Ambiental.

Em 2012, este plano foi revisado e passou a ter como objetivo geral manter o crescimento da minha população até 2017, garantindo e incrementando a qualidade do lugar onde vivemos e envolvendo as comunidades humanas da área na nossa conservação.

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O PAN Leari encerrou em maio de 2017 com 37% das ações concluídas, 29% das ações iniciadas e não concluídas no prazo e 34% não iniciadas no período previsto. Com o encerramento deste PAN, fui incluída no Plano de Ação Nacional para Conservação de Aves da Caatinga (PAN Aves da Caatinga).

O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave) realiza o nosso monitoramento populacional desde 2001, em parceria de diversas instituições e pessoas. Este monitoramento é feito por censos simultâneos nos nossos dormitórios em árvores e nos paredões rochosos. A gente vem se recuperando nos últimos anos, graças às ações do programa de conservação e de ações das comunidades locais.

História

Nós fomos descobertas pelos colonizadores em 1823, quando diversos dos meus antepassados foram enviados para zoológicos da Europa. No entanto, nada se sabia sobre a nossa procedência e área de ocorrência, descrita apenas em 1856, por meio de uma pele no acervo de um museu, cuja origem era somente descrita como do Brasil, sem localização precisa. Por isso minha área de ocorrência permaneceu desconhecida por mais de um século.

Vista panorâmica mostrando quatro araras voando próximas a uma grande formação circular esculpida na rocha de um cânion.
O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave) faz o monitoramento populacional desde 2001, em parceria de diversas instituições e pessoas | Foto: Fábio Nunes

A minha “redescoberta” foi por volta de 1950, quando o ornitólogo brasileiro Olivério Mário de Oliveira Pinto, conhecido como “pai da ornitologia brasileira”, em uma expedição pelo Nordeste, encontrou um de nós cativo no município de Juazeiro (BA) e, por pesquisas, indicou uma certa região do Nordeste brasileiro como sendo a provável área da gente, desvendando um dos maiores enigmas da ornitologia sul-americana.

Mas, foi somente em dezembro de 1978 que a nossa população foi realmente localizada pelo ornitólogo alemão Helmut Sick e sua equipe. Seguindo as indicações de Olivério Mário, eles fizeram uma expedição partindo de Euclides da Cunha à nossa procura.

A cerca de 11 quilômetros da cidade de Canudos (BA), encontraram 21 de nós na região da Toca Velha. Também encontraram a área de Serra Branca, onde coletaram um de nós que se encontra depositado no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Hoje, parte da nossa população encontra-se dentro da Estação Ecológica do Raso da Catarina – entre o Rio São Francisco e o Rio Vaza-Barris, na Bahia, uma lindeza de se ver.

Registro frontal de uma arara em voo com asas totalmente estendidas, aproximando-se da câmera contra o fundo de rocha avermelhada.
A arara-azul-de-lear é endêmica da Caatinga e ocorre exclusivamente na Bahia | Foto: Fábio Nunes

Distribuição geográfica

Vivemos numa região extremamente restrita, no sertão baiano, na Ecorregião do Raso da Catarina, nos municípios de Canudos, Euclides da Cunha, Jeremoabo, Glória, Paulo Afonso, Monte Santo, Sítio do Quinto, Santa Brígida e Rodelas e na Ecorregião da Depressão Sertaneja Meridional, no entorno do Parque Nacional Boqueirão da Onça, onde há uma população dependente de manejo (reintrodução), nos municípios de Campo Formoso e Sento Sé, todos localizados no centro-norte do estado da Bahia

Nome

Se o nome que os humanos me deram despertou a sua curiosidade, Anodorhynchus leari, aqui vai a explicação: Meu nome científico vem do grego anodön = sem dente, desdentado; e rhunkos = bico; e de leari, learii = homenagem ao artista, escritor e explorador inglês, Edward Lear  (1812-1888), que fez o primeiro desenho que evidenciou as nossas diferenças e características. Ou seja, meu nome científico significa (ave) de lear com bico desdentado.

Par de araras em voo sincronizado diante de um imenso paredão de arenito vermelho repleto de cavidades naturais e texturas.
O nome científico vem do grego anodön = sem dente, desdentado; e rhunkos = bico; e de leari, learii = homenagem ao artista, escritor e explorador inglês, Edward Lear (1812-1888), que fez o primeiro desenho da espécie | Foto: Fábio Nunes

Características

Muita gente me confunde. Sou, sim, parecida com a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), mas sou bem menor, minha plumagem é menos brilhante e a minha mancha amarela junto ao bico é maior. Será que vai saber a diferença quando me encontrar?

Minha altura fica entre 70 e 75 cm e peso em torno de 900 gramas. Meu bico é negro, possante, sem dente e minha cauda muito longa. Minha cabeça e pescoço são azul-esverdeados, minha barriga azul-desbotada, minhas costas e o lado superior das asas e da cauda azul-cobalto.

Uma Arara-azul-de-lear pousada em um galho seco com as asas abertas, pronta para alçar voo. O fundo é suave em tons terrosos.
Enquanto um grupo se alimenta, ao menos uma arara-azul-de-lear vigia os arredores em um galho alto | Foto: Fábio Nunes

Meu anel perioftálmico (pele nua ou coberta por pequenas penas ao redor dos olhos das aves) amarelo-claro, pálpebra azul clara, branca ou levemente azulada, barbela quase triangular em forma de nódoa amarela-enxofre-clara, situada de cada lado da base da mandíbula.

Alimentação

Amo comer os cocos da palmeira licuri (Syagrus coronata), que apanho pousando nas folhas ou até mesmo no chão. Consigo consumir mais de 100 cocos num só dia. Enquanto um grupo se alimenta, ao menos um de nós permanece pousado em galhos mais altos de árvores grandes, em revezamento na função de vigilância. 

“O licuri é o principal alimento da arara-azul-de-lear e também atua como fonte de água. Quando o fruto ainda está verde, a ave consome o líquido presente no coquinho; há registros de indivíduos abrindo mais de 35 frutos de uma só vez para se hidratar”, explica a bióloga Thatiana Andrade.

Uma curiosidade: usamos ferramentas para abrir os duros cocos de licuri, pequenos pedaços de madeira, folhas da própria palmeira ou gravetos, que são usados como cunha para facilitar a abertura dos frutos descascados e alcançar o que interessa, uma delícia!

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Meu cardápio inclui também outros 30 itens, entre sementes e frutos da Caatinga como os frutos da braúna (Melanoxylon brauna), e frutos de cactos como o mandacaru e o facheiro.

De vez em quando também comemos pinhão (Jatropha pohliana), umbu (Spondias tuberosa), mucunã (Dioclea sp.), baraúna (Schinopsis brasiliensis) e até milho verde (Zea mays).

Reprodução

Em geral, com a chegada das chuvas no fim do ano, em outubro, é quando começo a minha época reprodutiva. Neste período, me separo do bando com meu par. Escolhemos entre as cavidades, formadas pela erosão da água da chuva e vento, já presentes nas paredes de arenito dos desfiladeiros do Raso da Catarina. Eles são locais praticamente inacessíveis para os humanos.

Close de duas araras espiando de dentro de um pequeno nicho escuro em um paredão de pedra rústico e alaranjado.
Araras-azuis-de-lear são monogâmicas e costumam formar casais para a vida inteira | Foto: Fábio Nunes

Colocamos até três ovos por ano, que são incubados por 28 dias. Quando os filhotes nascem, ficam sob nossos cuidados por até três meses, e ao saírem dos ninhos, continuamos os cuidados com alimentação e proteção, até que eles aprendam a comer o licuri e reconheçam outros alimentos.

Hábitos

Vivemos na Caatinga arbórea do nordeste da Bahia. Saímos da nossa área de dormitório ao amanhecer, partimos para as áreas de alimentação distribuídas nos municípios de Paulo Afonso, Santa Brígida, Euclides da Cunha, Monte Santo, Sento Sé e Campo Formoso. Nós podemos nos deslocar diariamente por mais de 50km para comer.

No fim da tarde, é bonito de se ver, voltamos em bandos de diversas direções, vocalizando e sobrevoando o paredão e árvores até nos acomodarmos para dormir.

Duas araras azuis abrigadas em uma fenda horizontal de uma encosta rochosa alaranjada, destacando o contraste de cores.
A arara-azul-de-lear está atualmente classificada como Em Perigo (EN) pela IUCN e pela lista brasileira de espécies ameaçadas | Foto: Fábio Nunes

“Conservar a arara-azul-de-lear é também proteger a Caatinga e as pessoas que vivem nesse território. Sua conservação envolve a relação entre biodiversidade, uso do ambiente e saberes locais. No sertão baiano, onde a espécie ocorre, é possível observar essas conexões na prática. Conhecer a arara em seu habitat natural e as comunidades da região é uma forma de compreender melhor os desafios para a sua conservação”, conclui a pesquisadora Thati Andrade, que, com outros, tem se esforçado para garantir que a gente continue cumprindo as nossas funções para o equilíbrio ecológico e embelezando a Caatinga.

Com informações do WIKI AVES

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