Os equipamentos servirão para monitorar os impactos das mudanças climáticas nos territórios do Povo Tremembé e auxiliar estratégias de enfrentamento e adaptação às alterações do clima

Em uma ação pioneira em territórios indígenas no Ceará, as terras do Povo Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca (CE), e de Queimadas, em Acaraú (CE), receberam instalações de estações meteorológicas, uma em cada território.
A ação, que reuniu lideranças indígenas, integra o Projeto Resiliência Comunitária Tremembé no Ceará, desenvolvido pela Associação de Desenvolvimento Local Co-produzido (Adelco), e foi coordenada pelos pesquisadores Evan Bowness, da Universidade de Western, no Canadá, e Magali Nehemy, da Universidade da Colúmbia Britânica.
As estações meteorológicas são compostas por instrumentos e sensores capazes de monitorar e registrar as condições da atmosfera, coletando dados sobre temperatura, umidade, ventos, chuvas e pressão atmosférica.

Essas informações são fundamentais para os estudos climáticos e para o fortalecimento de estratégias de prevenção de eventos extremos, em um cenário de urgência, em que os efeitos das mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes e prejudiciais.
Segundo Mateus de Castro Tremembé, pesquisador e liderança indígena, as mudanças climáticas já fazem parte da realidade das Terras Tremembé e já afetam diretamente a agricultura, os recursos naturais e a forma de viver de seu povo.
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Por isso, acredita que as estações meteorológicas são ferramentas importantes para acompanhar as mudanças no clima e gerar informações que apoiem o planejamento e a proteção nas terras indígenas do Povo Tremembé.
“Ao mesmo tempo, esses dados precisam caminhar junto com os conhecimentos tradicionais do nosso povo”, destaca Mateus. “Há gerações, aprendemos a observar os sinais da natureza para compreender o tempo e cuidar da terra.”
“A união entre a tecnologia e os saberes ancestrais fortalece nossa autonomia, valoriza nossa cultura e amplia nossa capacidade de enfrentar os desafios das mudanças climáticas, sempre respeitando nossa relação com o território e com a natureza”, reforça.
As estações meteorológicas
A instalação das estações meteorológicas nos territórios Tremembé é um primeiro passo para apoiar o planejamento de adaptação às mudanças climáticas com dados produzidos diretamente nos territórios.
De acordo com Evan Bowness, pesquisador da Universidade de Western (Canadá), esse trabalho também pode abrir caminho para, no futuro, desenvolver formas mais amplas de monitoramento eco-hidrológico, caso seja útil e viável para as comunidades.

O objetivo é que os dados possam ser colocados em diálogo com os conhecimentos e observações do Povo Tremembé e contribuir para as próprias prioridades de adaptação climática e gestão territorial.
“As estações utilizadas são ATMOS 41 Gen 2 e permitem monitorar variáveis como chuva, temperatura e umidade do ar, vento, radiação solar e pressão atmosférica. A instalação das estações é uma etapa inicial de um trabalho de pesquisa sobre monitoramento ambiental, mudanças climáticas e gestão dos territórios Tremembé”, ressalta Bowness.
As mudanças
climáticas no Ceará
Por se tratar de um estado inserido em uma região de clima semiárido, o Ceará está entre os mais vulneráveis às mudanças climáticas, é o que aponta o Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2022).
Isso porque o estado conta com baixas e irregulares ocorrências de de chuvas, o que resulta na limitação dos recursos hídricos. Nesse cenário, a emergência climática agrava os problemas de degradação do solo e vulnerabilidade das atividades agrícolas, base econômica de muitas comunidades tradicionais.

Além disso, o aquecimento global, impulsionado pela emissão de gases de efeito estufa, tem provocado alterações profundas no regime de chuvas, com períodos prolongados de seca intercalados por eventos extremos de precipitações intensas.
Isso indica que o Ceará pode experimentar um aquecimento entre 4ºC e 5,3ºC até o final do século, caso as emissões de gases de efeito estufa permaneçam nos níveis atuais.
Esse cenário pode trazer consequências devastadoras para a agricultura, o abastecimento hídrico das cidades e a conservação dos ecossistemas locais.
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De acordo com o Levantamento das Vulnerabilidades Socioambientais para as Políticas de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas do Estado do Ceará, produzido pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Ceará (Sema) e Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), por meio do Programa Cientista Chefe Meio Ambiente, a proteção dos ecossistemas, em especial da Caatinga, será crucial para sustentar o equilíbrio ambiental.
Ao mesmo tempo, a promoção de práticas agrícolas sustentáveis e o uso de energias renováveis podem transformar o Ceará em um exemplo de adaptação climática e desenvolvimento sustentável para o Brasil e o mundo.
Resiliência Climática
Tremembé no Ceará
O projeto Resiliência Comunitária Tremembé no Ceará: Fortalecimento de Sistemas Agroecológicos e Segurança Hídrica em Territórios Indígenas existe justamente para fortalecer a resiliência climática e a soberania alimentar das comunidades indígenas Tremembé, no Ceará.
A iniciativa responde aos impactos das mudanças climáticas, como irregularidade das chuvas, escassez de água e enfraquecimento dos sistemas alimentares tradicionais, que ameaçam a saúde, a cultura e a autonomia territorial dessas populações, afetando especialmente mulheres e jovens. O projeto é financiado pelo Fundo Canadense para Iniciativas Locais (CFLI) no Brasil.

“Os povos indígenas já monitoram o clima há bastante tempo a partir das observações da natureza. É a partir dessas observações que se sabe o tempo de plantar e colher”, enfatiza Adelle Azevedo, coordenadora geral da Adelco.
“O trabalho realizado pela Adelco é de aliar esse saber tradicional com o saber científico para juntos discutir estratégias e soluções de mitigação e adaptação dos efeitos das mudanças climáticas sobre os territórios, biodiversidade e segurança hídrica e alimentar.”
Para enfrentar esses desafios, o projeto promove a implementação de sistemas agroflorestais, soluções sustentáveis de gestão da água e intercâmbios de saberes entre comunidades. A isso soma-se as instalações de estações meteorológicas, em parceria com instituições acadêmicas canadenses, para monitorar dados climáticos e subsidiar estratégias de adaptação.
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Desenvolvido entre 2025 e 2027, o projeto estrutura-se em três eixos principais: planejamento e capacitação; implementação de infraestrutura e intercâmbios comunitários; e monitoramento, avaliação e compartilhamento de conhecimentos.
Entre os resultados esperados estão a ampliação do acesso à água, o fortalecimento da produção alimentar local, a valorização das práticas culturais e a promoção da liderança de mulheres e jovens indígenas.


