A jornalista Maristela Crispim compartilha bastidores da cobertura da COP17 de Desertificação, na Mongólia, e comenta os resultados da conferência

Vivenciar a viagem a Ulaanbaatar e a COP17 entre 14 e 30 de agosto foi uma experiência única como pessoa e jornalista. Já tinha participado da cobertura de duas conferências internacionais antes, a Rio + 20 com uma bolsa da Internews, em 2012, no Rio de Janeiro; e da COP30, em Belém, em 2025, com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), na Casa do Jornalismo Socioambiental. Ambas as experiências de cobertura e trocas com pessoas de todo o Planeta foram incríveis.
Mas a COP17 reuniu uma série de outros fatores. Não foi apenas fora do Brasil, foi do outro lado do Planeta, noutro hemisfério, noutro meridiano, a 14 mil quilômetros de onde vivo, 11h horas na frente, um lugar seco e de clima siberiano na maioria das estações. Felizmente, quando fomos era verão.

Ladeada pelo imenso deserto de Gobi, a capital mongoliana é um lugar cheio de peculiaridades. Para começar, devido a influências históricas e políticas, utiliza tanto o alfabeto cirílico (oficial na Mongólia moderna devido à era soviética) quanto a escrita mongol tradicional (um sistema vertical originado do uigur, escrito de cima para baixo).
Por isso, e pela esmagadora maioria da população falar apenas mongol, a comunicação foi um grande desafio. Imaginei que as pessoas que trabalham em hotéis falassem inglês. Me enganei. Como eu e Diana Silva, a outra jornalista que viajou a convite do Instituto ClimaInfo, ficamos num hotel fora do circuito oficial do evento, portanto mais afastado, os funcionários do hotel não falavam inglês.
Neste caso, é preciso dedicação para encontrar um ATM em inglês para ser utilizado por um estrangeiro. Ainda, um celular com internet é essencial para traduzir cardápios e rótulos e tentar descobrir o que se está consumindo. E esta não é uma técnica 100% infalível.

Por falar em sinal. Meu plano é internacional (teoricamente funciona em qualquer lugar do mundo; na ida não falhou em Paris e nem em Beijing. Mas, adivinhem. Não na Mongólia. Lá tive que contratar um pacote de internet virtual ilimitado por 15 dias para me comunicar (minimamente) e também me locomover (outro desafio).
Quer mais desafios? O clima! Era fim de verão, daí passamos calor, frio, sol escaldante e banho de chuva, e que chuva! Lembram que comentei sobre a localização do hotel? Para ir do aeroporto ao hotel precisei “chorar muito” para não deixarem uma mulher na chuva às 2h da madrugada a 15 minutos a pé do hotel sozinha, e sim na porta do meu hotel.

Depois encaramos, durante 15 dias, uma caminhada nem sempre tão agradável devido ao clima e por ser descida na ida e subida na volta até o hotel credenciado mais próximo. Tudo para alcançar o hotel credenciado Castella e pegar o ônibus COP3, um dos 17 ônibus destinados para o público da conferência e nosso transporte básico durante 15 dias até a nossa ida de volta ao aeroporto. Na ocasião, fomos a pé com as bagagens, outro desafio que vencemos juntas.
O transporte, aliás, foi um desafio à parte. Não tem táxi nem Uber na Mongólia. Nada identificado. Até existem dois sistemas de aplicativo, mas é preciso ter um número da Mongólia para cadastrar e, ainda assim, não é fácil ou garantido.
Pegamos duas vezes. Uma delas, pedido pelo hotel e outra quando tentamos ir a um mirante nos arredores da cidade; desistimos no caminho porque estava anoitecendo e fazendo muito frio para quem estava pouco agasalhada. Demos com a mão na rua e conseguimos por 22 mil tugriks (31,70 reais, aproximadamente) chegar ao hotel.
Fora isso, teve dia que chegamos a percorrer cinco mil passos por falta de alternativa de transporte. Em um deles, chegamos 23h30 ao hotel. Em outro, a chuva nos pegou no caminho e nos molhamos muito, mesmo com sombrinha.

E, pelos caminhos, surpreendeu a quantidade de CU, famosa rede de lojas de conveniência da Coreia do Sul. O nome vem do inglês “See You” (Vejo você) e do slogan “Nice to CU” (Bom te ver). E de Karaokês (ou Kapaokês). Depois entendi que eles misturam o R e o P.
Outra descoberta é que, apesar da delicada e estratégica política de neutralidade e equilíbrio entre seus dois gigantescos vizinhos, a China e a Rússia, parte da população nutre uma simpatia pela Rússia e uma antipatia pela China, a ponto de chamar alguém de chinês ser uma ofensa para eles.



A comida é um capítulo à parte. Após 15 dias, não via a hora do nosso arroz com feijão… Muita carne de carneiro, inclusive frango sabor carneiro, fritura e pimenta. Fora as iguarias como sorvete de leite de camela e o famoso leite fermentado de égua. Fui fornecedora de extrato de boldo para alguns colegas que sentiram o impacto na saúde digestiva. Mas eu escapei dessa.
Por outro lado, nenhum desses desafios superou o maior: o jetlag! Levei cinco dias para conseguir dormir uma “noite inteira”. E enquanto escrevo estas palavras, da minha casa, preciso confessar que acordei às 4h40 e não dormi mais (ainda na adaptação do retorno).
Mas vamos falar do
motivo da viagem?
Após duas semanas de negociações intensas, a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD COP17) foi encerrada, estabelecendo novos marcos para a resiliência contra a seca e a restauração de solos degradados.
O evento culminou no anúncio de uma carteira de investimentos de US$ 1,3 bilhão direcionada a 23 países em cinco continentes, colocando as pastagens do Planeta no centro da agenda de conservação global.
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Do montante anunciado para a restauração de terras e resiliência contra a seca, cerca de US$ 644,5 milhões foram identificados como novos recursos, sendo que US$ 216,4 milhões já estão confirmados para aplicação imediata.
Atualmente, o Planeta enfrenta um déficit severo de financiamento na área: estima-se que sejam necessários US$ 355 bilhões anuais até 2030 para cumprir as metas de restauração global, contra apenas US$ 77 bilhões investidos hoje, do qual o setor privado representa apenas 6% do total.
Parcerias contra a seca
Entre as principais ferramentas de fomento viabilizadas durante a COP17, destacam-se:
- Iniciativa Emblemática para Pastagens (Rangelands Flagship Initiative): reúne US$ 1,2 bilhão distribuídos em 45 projetos. Trata-se da maior mobilização de recursos direcionada especificamente a pastagens na história da Convenção.
- Fundo de Investimento em Resiliência contra a Seca (DRIF): lançado de forma conjunta pela UNCCD e por Luxemburgo, o mecanismo visa mobilizar até US$ 400 milhões em capitais públicos e privados para impulsionar a segurança hídrica, soluções baseadas na natureza e agricultura sustentável.
- Parceria Global de Riade para Resiliência contra a Seca: lançada originalmente na COP16, a parceria avançou em direção à sua operacionalização prática com a proposta de um fundo comum para apoiar cerca de 70 países vulneráveis de baixa e média-baixa renda com capacitação e projetos prontos para investimento.
O papel do Brasil
Durante a conferência, o Brasil apresentou sua meta voluntária para a Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) até 2030, estruturada em 17 submetas que abrangem aproximadamente 3,67 milhões de km².
O plano nacional inclui o compromisso de recuperar ou restaurar mais de 163 mil km² por meio da regeneração de vegetação nativa e de sistemas agroflorestais, além de ações para evitar a degradação em outros 3,51 milhão de km² por meio de manejo sustentável.

Paralelamente, os países da Ásia Central anunciaram que já atingiram metade de suas metas voluntárias de LDN. Esses compromissos ocorrem em um cenário onde até 40% das terras do planeta estão degradadas, enquanto as nações do globo assumiram o compromisso de restaurar mais de 1 bilhão de hectares até 2030.
As pastagens terrestres – que cobrem 54% da superfície da Terra e sustentam cerca de 2 bilhões de pessoas – ganharam relevância após análises econômicas indicarem que geram entre US$ 21 e US$ 47 trilhões anuais em serviços ecossistêmicos (quase metade do PIB mundial).
Cada dólar investido na recuperação de pastagens gera um retorno econômico de US$ 4 a US$ 6, podendo chegar a US$ 36 se computados os benefícios públicos mais amplos, como o fornecimento de água.
Inclusão histórica
de Povos Indígenas
A COP17 também marcou um avanço democrático dentro da Convenção com a realização das primeiras reuniões oficiais do Caucus de Povos Indígenas e do Caucus de Comunidades Locais da UNCCD. O encontro reuniu a maior representação de povos tradicionais da história das conferências da UNCCD.
Suas lideranças reivindicaram maior acesso direto a financiamentos para ações locais, garantia de direitos territoriais e de mobilidade, além do reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais no manejo sustentável do solo. Isso apesar de os Estados Unidos se contraporem a essa participação, a agenda de gênero e a integração das três COPs, Clima, Biodiversidade e Desertificação.
Rumo ao Egito
Com o encerramento dos trabalhos em Ulaanbaatar, a presidência mongol reforçou a diretriz de transição “das promessas para a implementação rápida”. A próxima conferência ordinária, a COP18, está programada para ocorrer no Egito em 2028, onde a gestão proativa da seca foi estabelecida como um item permanente e independente das próximas agendas de negociação.
* A jornalista Maristela Crispim viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA)


