Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo) falam com a Eco Nordeste sobre o impacto do fenômeno no Nordeste brasileiro, região que concentra quase 45% da faixa litorânea do País

É inverno no Brasil, mas a sensação não corresponde ao que se espera nessa época. A combinação entre as mudanças climáticas e um El Niño excepcionalmente intenso, classificado por especialistas como um Super El Niño, ajuda a explicar essa percepção. Para traçar um panorama sobre o que podemos ter pela frente, especialmente no Nordeste do Brasil, e quais soluções despontam como caminhos possíveis, conversamos com dois especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Documentado há séculos, o El Niño é essencialmente um fenômeno oceanográfico, com fortes desdobramentos meteorológicos, uma vez que o Oceano e a atmosfera estão intimamente conectados. Embora o fenômeno seja principalmente ligado ao Oceano Pacífico, o pesquisador da rede Inpo, Nils Edvin Asp, que investiga há décadas a dinâmica sedimentar e a evolução da zona costeira brasileira, afirma que o impacto climatológico no Brasil é grande e varia de região para região, com aumento das chuvas no Sul-Sudeste, redução das chuvas no Norte-Nordeste e tendência de temperaturas mais elevadas em geral.

A oceanógrafa Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), membro da rede de pesquisadores do Inpo e uma das autoras do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), destaca que este El Niño começou um pouco mais cedo do que os outros e muito mais forte, já atingindo temperaturas altas no início: “a tendência é que esse fenômeno se torne mais intenso e frequente com o avanço da mudança climática”.
Super El Niño
Os pesquisadores explicam que tem se falado de um Super El Niño porque as anomalias de temperatura superficial do Oceano Pacífico já ultrapassaram 2°C, e esta é a referência para classificar o fenômeno como “super”. Com o Oceano já aquecido pela emissão de gases de efeito estufa decorrente da queima de combustíveis fósseis, o fenômeno e seus impactos para a sociedade, acreditam, tendem de fato a piorar.
Nils Asp lembra que, desde a Revolução Industrial, o Oceano tem absorvido grandes quantidades de gás carbônico e calor, ampliando o aquecimento global. Porém, “essa capacidade dá indícios de ter chegado ao limite”.
El Niño no Nordeste

Nove dos 17 estados costeiros do Brasil estão no Nordeste, que concentra quase 45% da faixa litorânea do País. Preocupa o fato de que, em anos de El Niño, há um aquecimento maior das águas no Atlântico Sul, o que pode impactar especialmente a biodiversidade marinha da região, que abriga ecossistemas marinhos de grande riqueza biológica, como os recifes de Abrolhos (BA), Fernando de Noronha (PE) e o Atol das Rocas (RN), que já sofrem impactos da crise climática.
Nils Asp, que também é professor do Instituto de Estudos Costeiros (Iecos) da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenador do Observatório para a Foz do Amazonas, destaca que “esses ecossistemas estão no limite da adaptabilidade e um aquecimento adicional deve, infelizmente, levar a episódios intensos de branqueamento de corais e perda de diversidade”.
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Como o aquecimento global é um problema de escala mundial, “a principal medida deve ser também em escala global, com a redução de emissões e o aumento do sequestro de carbono por meios naturais ou mesmo artificiais”, aponta.
No âmbito regional, defende que é preciso garantir a proteção rígida das áreas recifais, inclusive para permitir uma eventual recuperação em relação à acidificação e ao aquecimento do Oceano, com seus consequentes eventos de branqueamento.
A vida fora d’água também sofre. Se as temperaturas e a duração da seca se exacerbarem no Nordeste, espécies nativas podem não suportar e uma crise hídrica e agrícola pode se estabelecer. No espaço urbano, as populações podem sofrer intensamente com a concentração de calor, realidade que impacta ainda mais as parcelas mais vulneráveis.
Soluções Baseadas na Natureza
Regina Rodrigues reforça que ambientes como os recifes de corais e os manguezais protegem as cidades costeiras da erosão e das ressacas, além de ajudarem a evitar enchentes, porque absorvem melhor a água. Nesse contexto, a solução passa por “preservar esses ambientes e restaurar aqueles que já estão degradados”. Outro ponto, segundo ela, é que “com as Soluções Baseadas na Natureza (SbN), que são as mais baratas, você está fazendo a mitigação e a adaptação juntas”.
Para Nils Asp, pela intensidade dos impactos, tem se tornado extremamente complicado e caro “combater” as mudanças globais com soluções de engenharia convencional, especialmente se pensarmos na combinação de carência de sedimentos para a zona costeira e elevação do nível do mar por aquecimento global.
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“Acredito que o maior potencial das Soluções Baseadas na Natureza está no favorecimento da retenção de sedimentos em áreas costeiras e no aumento da geodiversidade e, consequentemente, da biodiversidade”, frisa.
Entre os exemplos de Soluções Baseadas na Natureza apontados estão a conservação e restauração desses ambientes, a expansão de áreas de manguezal como “estrutura” natural de proteção costeira, a proteção de áreas recifais naturais e a implantação de recifes artificiais.

Oceano e Políticas Públicas
Os pesquisadores são enfáticos ao dizer que o Brasil tem um déficit histórico de investimento em ciência e concordam ainda que o país precisa de mais investimentos nas ciências do mar, campo que convive, por exemplo, com a falta de monitoramento abrangente e duradouro dos parâmetros oceanográficos e meteorológicos.
Outra reivindicação é uma rede efetiva de bóias oceanográficas com monitoramento constante de aspectos como salinidade, temperatura, oxigênio dissolvido. “Existem avanços importantes, como a aprovação da ‘Lei do Mar’ (Projeto de Lei 6.969/2013) e parcerias do MCTI e Marinha do Brasil, mas é preciso avançar até mesmo para poder determinar o que é de fato ‘sustentável’ em termos de usos como pesca e turismo”, conclui Nils Asp.


