Super El Niño: ‘o Oceano já está com excesso de calor’

Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo) falam com a Eco Nordeste sobre o impacto do fenômeno no Nordeste brasileiro, região que concentra quase 45% da faixa litorânea do País

Fotografia subaquática na horizontal mostra um ecossistema marinho vibrante, dominado por formações de recifes de coral e um grande cardume de peixes nadando em águas azuis e cristalinas. Na parte inferior e central, erguem-se estruturas de corais de tom amarelo-ouro com ramificações verticais pontiagudas, semelhantes aos galhos de uma árvore. À direita e na base, há aglomerados de corais em forma de cérebros arredondados com texturas sulcadas em tom cinza-claro. À esquerda, a base do recife é formada por rochas e corais incrustantes em tons de marrom e avermelhado. Acima e ao redor dos corais centrais, dezenas de pequenos peixes prateados com listras amareladas na horizontal nadam sincronizados da esquerda para a direita. A iluminação natural vem do topo da imagem, e a água azul-clara se torna mais escura e profunda ao fundo
O Oceano absorve aproximadamente 90% do excesso de calor provocado pelo aquecimento global, aponta o Inpo | Foto: Athila Bertoncini / Projeto Coral Vivo

É inverno no Brasil, mas a sensação não corresponde ao que se espera nessa época. A combinação entre as mudanças climáticas e um El Niño excepcionalmente intenso, classificado por especialistas como um Super El Niño, ajuda a explicar essa percepção. Para traçar um panorama sobre o que podemos ter pela frente, especialmente no Nordeste do Brasil, e quais soluções despontam como caminhos possíveis, conversamos com dois especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Documentado há séculos, o El Niño é essencialmente um fenômeno oceanográfico, com fortes desdobramentos meteorológicos, uma vez que o Oceano e a atmosfera estão intimamente conectados. Embora o fenômeno seja principalmente ligado ao Oceano Pacífico, o pesquisador da rede Inpo, Nils Edvin Asp, que investiga há décadas a dinâmica sedimentar e a evolução da zona costeira brasileira, afirma que o impacto climatológico no Brasil é grande e varia de região para região, com aumento das chuvas no Sul-Sudeste, redução das chuvas no Norte-Nordeste e tendência de temperaturas mais elevadas em geral.

Fotografia horizontal em ambiente interno mostra um homem em pé, no lado esquerdo, realizando uma apresentação durante um evento. Ele é um homem adulto de pele clara, cabelos curtos e escuros com franja caindo levemente sobre a testa, e usa óculos de grau. Veste um blazer cinza-escuro, camisa de botão clara por baixo, calça bege e carrega um crachá pendurado no pescoço. Ele segura um microfone preto próximo à boca com a mão esquerda e um passador de slides na mão direita, olhando para a direita com a boca levemente aberta. À sua frente há um púlpito de acrílico transparente com um microfone fixo de haste fina e o logotipo do evento impresso na parte frontal. Ao fundo, no lado esquerdo, há um painel decorativo com ripas de madeira verticais em tom alaranjado iluminadas; no lado direito, há um grande painel branco onde se destaca o logotipo de uma onda em tom azul-escuro com o texto "oceano do amanhã", seguido pelo slogan "CIÊNCIA PARA UM PLANETA EM EQUILÍBRIO", além do texto "Magna2026" e ícones de redes sociais
Nils Edvin Asp, pesquisador do Inpo: “O Oceano e a atmosfera já estão com excesso de calor.” | Foto: Mario Marques / Academia Brasileira de Ciências (ABC)

A oceanógrafa Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), membro da rede de pesquisadores do Inpo e uma das autoras do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), destaca que este El Niño começou um pouco mais cedo do que os outros e muito mais forte, já atingindo temperaturas altas no início: “a tendência é que esse fenômeno se torne mais intenso e frequente com o avanço da mudança climática”.

Super El Niño

Os pesquisadores explicam que tem se falado de um Super El Niño porque as anomalias de temperatura superficial do Oceano Pacífico já ultrapassaram 2°C, e esta é a referência para classificar o fenômeno como “super”. Com o Oceano já aquecido pela emissão de gases de efeito estufa decorrente da queima de combustíveis fósseis, o fenômeno e seus impactos para a sociedade, acreditam, tendem de fato a piorar.

Nils Asp lembra que, desde a Revolução Industrial, o Oceano tem absorvido grandes quantidades de gás carbônico e calor, ampliando o aquecimento global. Porém, “essa capacidade dá indícios de ter chegado ao limite”.

El Niño no Nordeste

Fotografia horizontal de uma paisagem costeira com um farol no topo de uma ilha rochosa sob um céu azul-claro e limpo. No lado esquerdo, no ponto mais alto da elevação de terreno rochoso e acentuado, ergue-se um farol alto pintado com faixas horizontais intercaladas em preto e branco, com cúpula escura e uma pequena estrutura com telhado avermelhado na base, além de antenas ao fundo. O relevo é composto por rochas escuras dispostas em camadas horizontais visíveis, cobertas por uma vegetação baixa e rasteira em tons de verde e marrom. A base da falésia estende-se em direção ao centro e à direita até encontrar o mar de águas em tom azul-turquesa, onde formações rochosas rasas e escuras emergem perto da superfície
Aquecimento das águas do Atlântico Sul impacta Abrolhos, berço de uma das maiores biodiversidades marinhas do Brasil | Foto: Andréia Vitório

Nove dos 17 estados costeiros do Brasil estão no Nordeste, que concentra quase 45% da faixa litorânea do País. Preocupa o fato de que, em anos de El Niño, há um aquecimento maior das águas no Atlântico Sul, o que pode impactar especialmente a biodiversidade marinha da região, que abriga ecossistemas marinhos de grande riqueza biológica, como os recifes de Abrolhos (BA), Fernando de Noronha (PE) e o Atol das Rocas (RN), que já sofrem impactos da crise climática.

Nils Asp, que também é professor do Instituto de Estudos Costeiros (Iecos) da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenador do Observatório para a Foz do Amazonas, destaca que “esses ecossistemas estão no limite da adaptabilidade e um aquecimento adicional deve, infelizmente, levar a episódios intensos de branqueamento de corais e perda de diversidade”.

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Como o aquecimento global é um problema de escala mundial, “a principal medida deve ser também em escala global, com a redução de emissões e o aumento do sequestro de carbono por meios naturais ou mesmo artificiais”, aponta.

No âmbito regional, defende que é preciso garantir a proteção rígida das áreas recifais, inclusive para permitir uma eventual recuperação em relação à acidificação e ao aquecimento do Oceano, com seus consequentes eventos de branqueamento.

A vida fora d’água também sofre. Se as temperaturas e a duração da seca se exacerbarem no Nordeste, espécies nativas podem não suportar e uma crise hídrica e agrícola pode se estabelecer. No espaço urbano, as populações podem sofrer intensamente com a concentração de calor, realidade que impacta ainda mais as parcelas mais vulneráveis.

Soluções Baseadas na Natureza

Regina Rodrigues reforça que ambientes como os recifes de corais e os manguezais protegem as cidades costeiras da erosão e das ressacas, além de ajudarem a evitar enchentes, porque absorvem melhor a água. Nesse contexto, a solução passa por “preservar esses ambientes e restaurar aqueles que já estão degradados”. Outro ponto, segundo ela, é que “com as Soluções Baseadas na Natureza (SbN), que são as mais baratas, você está fazendo a mitigação e a adaptação juntas”.

Para Nils Asp, pela intensidade dos impactos, tem se tornado extremamente complicado e caro “combater” as mudanças globais com soluções de engenharia convencional, especialmente se pensarmos na combinação de carência de sedimentos para a zona costeira e elevação do nível do mar por aquecimento global.

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“Acredito que o maior potencial das Soluções Baseadas na Natureza está no favorecimento da retenção de sedimentos em áreas costeiras e no aumento da geodiversidade e, consequentemente, da biodiversidade”, frisa.

Entre os exemplos de Soluções Baseadas na Natureza apontados estão a conservação e restauração desses ambientes, a expansão de áreas de manguezal como “estrutura” natural de proteção costeira, a proteção de áreas recifais naturais e a implantação de recifes artificiais.

Fotografia horizontal em plano médio de uma mulher de pele clara em um painel de discussão, vista de perfil e ligeiramente virada para a esquerda. Ela tem cabelos escuros, longos e ondulados, usa óculos de grau com armação escura e veste um blazer azul-marinho. Ela segura um microfone preto com a mão direita próximo ao queixo, enquanto estende o braço esquerdo para a frente e para o alto com a mão aberta e os dedos espalmados, gesticulando expressivamente enquanto fala. No pulso esquerdo, sobressai um relógio de pulseira escura. Ela está sentada em uma cadeira estofada de tom claro e, ao fundo, há um painel de madeira com ripas verticais iluminadas em tom amarelo-alaranjado
Oceanógrafa Regina Rodrigues: “as áreas de manguezais são super importantes, mas sofrem uma pressão muito grande da especulação imobiliária em todas as cidades do litoral” | Foto: Mario Marques / Academia Brasileira de Ciências (ABC)

Oceano e Políticas Públicas

Os pesquisadores são enfáticos ao dizer que o Brasil tem um déficit histórico de investimento em ciência e concordam ainda que o país precisa de mais investimentos nas ciências do mar, campo que convive, por exemplo, com a falta de monitoramento abrangente e duradouro dos parâmetros oceanográficos e meteorológicos.

Outra reivindicação é uma rede efetiva de bóias oceanográficas com monitoramento constante de aspectos como salinidade, temperatura, oxigênio dissolvido. “Existem avanços importantes, como a aprovação da ‘Lei do Mar’ (Projeto de Lei 6.969/2013) e parcerias do MCTI e Marinha do Brasil, mas é preciso avançar até mesmo para poder determinar o que é de fato ‘sustentável’ em termos de usos como pesca e turismo”, conclui Nils Asp.

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