Na Terra Indígena Governador e na Reserva Biológica do Gurupi, no Maranhão, indígenas, brigadistas e pesquisadores usam a queima controlada e saberes tradicionais para prevenir grandes incêndios e recuperar o território

Nem todo fogo que arde na Amazônia é incêndio. Na porção da Floresta Amazônica que se estende pelo Maranhão, o fogo também é usado para preparar roçados, proteger áreas vulneráveis e reduzir a vegetação seca que poderia alimentar incêndios de maior intensidade. Entender quando ele é ameaça e quando pode ser ferramenta faz parte do trabalho de indígenas, brigadistas e pesquisadores que tentam proteger a Amazônia maranhense.
Na Terra Indígena Governador, em Amarante do Maranhão, os Gavião Pyhcohp Catiji conhecem as duas faces dessa relação. O território tem cerca de 42 mil hectares e, no período de fogo de 2015/2016, segundo os brigadistas, aproximadamente 90% da área foi atingida. Animais se afastaram, locais de produção e coleta foram afetados e nascentes foram perdidas ou tiveram a vazão reduzida. A dimensão da destruição levou a comunidade a buscar novas formas de prevenir incêndios e proteger o território.
Hoje, uma brigada indígena com 17 integrantes atua para evitar que o fogo volte a assumir aquelas proporções, combinando monitoramento constante com o uso do próprio fogo para reduzir material combustível. É nesse encontro entre conhecimentos transmitidos pelos anciãos e técnicas incorporadas ao manejo que os Gavião tentam manter sob controle um elemento que faz parte da vida no território, mas que também pode destruí-lo.
Nem todo fogo é igual

Diante da destruição provocada pelos incêndios florestais, pode parecer contraditório que o fogo também possa trazer benefícios. Essa diferenciação está entre os princípios do Manejo Integrado do Fogo (MIF), abordagem que considera os aspectos ecológicos, culturais e socioeconômicos relacionados ao seu uso. Para Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), é preciso abandonar a ideia de que todo fogo produz necessariamente o mesmo resultado.
“Quando a gente demoniza o fogo, esquece que ele também é uma ferramenta e um elemento da natureza. Ele tem benefícios e prejuízos”, explica Ane. Segundo a pesquisadora, os efeitos dependem do chamado regime do fogo, determinado por características como frequência, intensidade, época de ocorrência, extensão atingida e intervalo entre as queimadas.
A diferenciação é especialmente importante na Amazônia. Segundo Ane, a floresta amazônica é sensível ao fogo e incêndios sucessivos podem desencadear um processo de degradação. “A primeira vez que o fogo entra na floresta, ele mata um monte de árvores. Essas árvores viram combustível para o próximo fogo”, explica. Com a perda de árvores e a abertura do dossel, acrescenta a pesquisadora, aumenta a entrada de luz e calor e diminui a umidade no interior da floresta, criando condições para que uma nova ocorrência encontre mais material disponível para queimar.

Na Terra Indígena Governador, os brigadistas relatam que o trabalho para reduzir os riscos começa antes dos meses de maior ocorrência de incêndios (agosto a dezembro, com picos entre setembro e novembro). A equipe conversa com os caciques, identifica áreas com maior quantidade de material combustível e locais que a comunidade deseja proteger e, a partir dessas informações, organiza um cronograma. Durante as queimas, os brigadistas dizem observar fatores como umidade, temperatura, vento e as condições do combustível antes de decidir se há segurança para realizar a ação.
Os integrantes da brigada explicam ainda que nem toda a vegetação é queimada. Partes são mantidas intactas para formar mosaicos e preservar locais onde os animais possam encontrar alimento. Segundo eles, a estratégia também considera as características de cada área do território, já que o comportamento do fogo muda conforme a vegetação e a quantidade de material disponível para queimar.
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O uso planejado do fogo, no entanto, não começou com a estruturação da brigada. Durante a apresentação aos jornalistas, os indígenas relataram que os anciãos já realizavam práticas semelhantes ao que atualmente conhecem como queima prescrita, embora não utilizassem essa denominação. “Eles faziam queima prescrita, só que não tinham aquela palavra”, conta Thalia Gavião Pyhcohp Catiji, chefe da brigada indígena. De acordo com o relato apresentado pelo grupo, a escuta dos mais velhos ajudou a identificar períodos considerados adequados para realizar as queimadas.
Thalia também explica a relação dos Gavião com as chamas a partir da diferença entre o “fogo bom” e o “fogo ruim”. Segundo a brigadista, essa é uma das formas utilizadas para conversar sobre o tema com crianças, jovens e anciãos. O fogo usado para cozinhar, preparar o roçado ou de maneira controlada no manejo é apresentado de forma diferente daquele que foge ao controle, entra na mata e pode atingir animais, moradias e nascentes.
Um período de maior atenção

O manejo ganha ainda mais importância diante das condições climáticas previstas para 2026. O El Niño já está configurado e a atualização divulgada em julho pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), por meio do Centro de Previsão Climática (CPC), elevou para 81% a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade “muito forte” entre outubro e dezembro. Segundo a própria agência americana, o evento pode ficar entre os mais intensos registrados desde o início das medições, na década de 1950, e deve persistir até o início de 2027.
No Nordeste, a preocupação está relacionada à combinação entre redução das chuvas e temperaturas elevadas. O primeiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por instituições como Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), aponta maior probabilidade de precipitação abaixo da média em grande parte da Região entre julho e setembro. O documento alerta que a combinação de temperaturas acima da média e menor volume de chuvas aumenta o potencial para queimadas.
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Pesquisador do Ipam, Celso Henrique Leite chamou atenção para a intensidade projetada para o fenômeno e para a necessidade de acompanhar seus efeitos sobre a Amazônia e o Nordeste nos próximos meses. Os dados mais recentes do Programa Queimadas do Inpe já mostram uma condição de atenção na região onde está a Terra Indígena Governador. Em junho, o risco meteorológico de fogo apresentou aumento em relação à climatologia de 2001 a 2025 principalmente no Matopiba, região formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Segundo o instituto, essa elevação esteve associada à redução das chuvas.
Na Terra Indígena Governador, os próprios brigadistas dizem perceber mudanças nas condições enfrentadas neste ano. Durante a apresentação à equipe de pesquisadores e comunicadores, relataram alterações no comportamento do vento, na umidade e na temperatura e demonstraram preocupação com a chegada dos meses de maior risco. Agosto e setembro são apontados por eles como um período em que a equipe já chega à base preparada para a possibilidade de um incêndio e para permanecer mais de um dia em campo, caso seja necessário.
Proteger o fogo para proteger a vida

Na Terra Indígena Governador, impedir que grandes incêndios avancem pela vegetação também significa proteger as fontes de alimento das comunidades. Os efeitos do período de fogo de 2015/2016 são lembrados pelos Gavião não apenas pela extensão da área atingida, mas pelo que desapareceu depois das chamas. Os indígenas relatam que animais se afastaram, frutos ficaram mais escassos e nascentes foram afetadas. Com o avanço das ações de prevenção e manejo, afirmam ter observado o retorno da caça e de espécies vegetais utilizadas na alimentação.
Essa relação com o fogo também é transmitida entre gerações. Thalia conta que aprendeu com o pai a observar o comportamento das chamas e recorda um ensinamento para os momentos em que um fogo de grande intensidade se aproximava. “Ele falava: ‘conversa com o fogo’”, relata. Segundo a brigadista, a orientação era falar com as chamas, por meio de um assobio, para que baixassem. Hoje, ela diz transmitir esse conhecimento às crianças e continuar observando o fogo como forma de aprender com ele.
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A proteção do território passa ainda pela recuperação de áreas degradadas. Durante a visita à Terra Indígena, os Gavião apresentaram um brejo que começou a secar depois da implantação de um roçado. Em 2021, a área recebeu mudas de buriti e açaí e passou a ser protegida. Segundo os indígenas, existem cinco áreas de reflorestamento no território.
“A gente sobrevive da terra”, resumiu um dos indígenas durante a visita. A frase dimensiona a relação entre a conservação do território e atividades das quais as comunidades dependem. Maycon Melo, antropólogo, etnólogo e professor de Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), relaciona as ações de manejo e restauração à soberania alimentar, à caça e aos conhecimentos tradicionais e chama atenção para os diferentes efeitos que uma intervenção sobre o território pode produzir na vida das comunidades.
Melo também situa essas ações em um território submetido a pressões nas áreas de entorno. Na avaliação do antropólogo, discutir manejo do fogo e restauração sem considerar essas relações deixa de fora dimensões que envolvem proteção territorial, alimentação e os conhecimentos construídos pelos próprios indígenas sobre o lugar onde vivem.
Quando o fogo entra na floresta

Se entre os Gavião o fogo pode ser ferramenta de manejo, na Reserva Biológica do Gurupi (Rebio Gurupi) a preocupação está principalmente em impedir que as chamas avancem sobre a floresta. Com cerca de 273 mil hectares, a unidade de conservação federal protege um dos últimos grandes remanescentes de Floresta Amazônica no Maranhão e integra um conjunto de áreas conectadas a terras indígenas da região.
A dimensão do que um incêndio pode representar naquele território apareceu em 2015, quando cerca de 133 mil hectares foram atingidos, o equivalente a 49% de toda a reserva. Em 2024, outro grande incêndio alcançou aproximadamente 30 mil hectares, cerca de 10% da Rebio, segundo dados apresentados durante a imersão.
Michelle Duarte, técnica ambiental e ponto focal da brigada da Rebio Gurupi, explica que a unidade é formada predominantemente por floresta ombrófila densa, vegetação sensível ao fogo. Segundo ela, os impactos não terminam quando as chamas são apagadas. “Os incêndios afetam a biodiversidade, os estoques de carbono, a qualidade do ar e da água e o microclima e podem contribuir para a fragmentação da paisagem”.
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O desafio, explica, se torna maior porque nem todo fogo que chega à reserva tem a mesma origem. Michelle explica que agricultores familiares utilizam as chamas para limpar áreas destinadas aos roçados, enquanto pecuaristas recorrem a elas para renovar pastagens. Há ainda ocorrências relacionadas à exploração ilegal de madeira. Além disso, a técnica ambiental relata episódios em que incêndios teriam sido provocados como retaliação a operações de fiscalização.
A presença de famílias dentro dos limites da Rebio acrescenta outra camada ao problema. Por ser uma Reserva Biológica, a unidade pertence à categoria de Proteção Integral, na qual o uso direto dos recursos naturais é restrito. Michelle explica, porém, que há moradores que dependem do fogo para atividades de subsistência. Assim, compreender quem usa o fogo, por que usa e em quais condições também integra a análise necessária ao manejo na unidade.
É nesse cenário que o planejamento do fogo precisa considerar mais do que a resposta aos incêndios. Em sua apresentação técnica, Michelle explicou que entram nessa avaliação o histórico das ocorrências, o regime do fogo, os aspectos ecológicos e socioeconômicos, os diferentes atores relacionados ao território e os protocolos necessários para o acionamento da brigada em uma emergência.
Quando a prevenção não basta

Mesmo com planejamento e ações preventivas, há momentos em que o fogo escapa ao controle e a resposta passa a depender diretamente da brigada. Na Rebio Gurupi, 15 brigadistas atuam no combate aos incêndios em um território onde a vegetação fechada e as dificuldades de acesso estão entre os desafios enfrentados pela equipe.
Chegar ao fogo é apenas o começo. Noé de Melo, chefe de esquadrão da brigada, explica que uma operação exige avaliar o comportamento das chamas, as condições do terreno e a segurança da equipe antes de decidir como será feito o combate. Para Melo, o preparo emocional dos brigadistas é tão importante quanto o condicionamento físico e o domínio das ferramentas. “Em uma ocorrência que pode atravessar horas ou dias, manter o equilíbrio é parte da segurança de quem está em campo”, destaca.
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As marcas deixadas por incêndios anteriores também ajudam a contar a história daquela floresta. Durante a imersão, pesquisadores e comunicólogos percorreram, junto aos brigadistas, uma área atingida pelo fogo, onde árvores ainda carregam cicatrizes das chamas. Ane Alencar mostrou em campo como esses sinais permitem reconhecer a passagem do fogo e identificar árvores atingidas mais de uma vez.
Na brigada, a preparação antecede a emergência. Treinamentos, organização das equipes, equipamentos e protocolos de acionamento compõem a resposta para os momentos em que as chamas avançam pela floresta e precisam ser combatidas.
O tempo da floresta
Depois do fogo, a recuperação não significa necessariamente o retorno da floresta às mesmas condições de antes. Ane Alencar explica que algumas espécies podem ser favorecidas enquanto outras desaparecem, alterando gradualmente a composição daquele ambiente. Ainda assim, ressalta a capacidade de regeneração da Amazônia. “A floresta é resiliente, ela é forte, mas ela tem o tempo dela. Ela vai se recuperar”, finaliza
* Esta é a terceira e última reportagem da série sobre a imersão da Eco Nordeste na Amazônia maranhense. A repórter viajou ao Maranhão a convite do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).


