As mulheres que lidam com o fogo na Amazônia maranhense

Na Reserva Biológica do Gurupi e no Território Indígena Governador, no Maranhão, brigadistas relatam o enfrentamento ao preconceito, à maternidade solo e ao avanço do fogo na Amazônia maranhense

Fotografia em plano médio em ambiente de mata fechada, onde três pessoas usam camisas amarelas de manga longa e calças compridas operando a desobstrução de uma trilha de terra coberta por folhas secas. No centro, um grande tronco de árvore caído na horizontal bloqueia o caminho de um lado a outro. À direita do tronco, um homem de perfil ergue um facão sobre a cabeça para golpear a vegetação, enquanto uma mulher ao seu lado observa o tronco. Em primeiro plano, outra mulher curvada observa uma motosserra da marca Stihl posicionada no chão de terra. A vegetação densa e verde envolve todo o cenário, com folhagens espessas ao fundo e nas laterais da trilha
Dayana, Ranielle e Michelle falam sobre satisfação e desafios do trabalho de combate ao fogo na floresta | Foto : Sara Leal / Ipam

Eram seis da manhã quando Dayana Silva e Ranielle Silva, brigadistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), se preparavam para mais um dia de trabalho na Reserva Biológica do Gurupi (Rebio Gurupi), com cabelos impecavelmente arrumados, maquiagem e sorriso largo no rosto. Horas depois, as duas estavam ao lado de Noé de Melo, chefe do esquadrão, empunhando uma motosserra para remover uma árvore caída que bloqueava o caminho até a trilha. A cena resume o tema desta reportagem: mulheres que romperam a expectativa sobre quem pode enfrentar o fogo na Amazônia.

Na Reserva Biológica do Gurupi e no Território Indígena Governador, ambos no Maranhão, atuam mulheres que escolheram um trabalho física e mentalmente exigente: combater incêndios florestais em plena Amazônia. Carregam bombas costais, abrem trilhas, permanecem por semanas em bases isoladas e, ao voltar para casa, encontram tempo e força para exercer outro papel igualmente desafiador: a maternidade, muitas vezes vivida sozinhas. A Eco Nordeste esteve nos dois territórios, a convite do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), e ouviu quatro dessas mulheres.

A primeira brigadista
indígena do Maranhão

Fotografia em plano médio de uma mulher indígena no centro da imagem, posicionada de frente com os braços para trás e olhando serenamente para a câmera. Ela tem cabelos pretos e curtos, pele morena e usa uma camisa amarela de mangas longas da brigada do IBAMA, com faixas refletivas amarelas e cinzas no peito e na cintura, bolsos frontais e identificação bordada com seu nome e o texto "Chefe de Brigada". O cenário ao fundo é de floresta tropical, iluminada por luz natural que atravessa a copa das árvores, destacando folhagens verdes intensas, palmeiras e o solo coberto por folhas secas
Thalia Gavião Pyhcohp Catiji faloa, com orgulho, sobre ter se tornado, há oito anos, a primeira brigadista indígena do Maranhão | Foto : Sara Leal / Ipam

Foi em uma área de reflorestamento do Território Indígena Governador que Thalia Gavião Pyhcohp Catiji falou, com orgulho, sobre ter se tornado, há oito anos, a primeira brigadista indígena do Maranhão. Segundo ela, a visão do próprio povo, na época, era de que brigadista era uma função exclusivamente masculina: “aí eu pensei: não, brigadista também é para mulher”, contou. Enfrentando o preconceito, decidiu participar sozinha do processo seletivo para mostrar que também era capaz.

Hoje, Thalia chefia a brigada do povo Gavião e não está mais só. A equipe conta com quatro mulheres, incluindo ela, além de uma brigada comunitária feminina formada por voluntárias. A Eco Nordeste optou por não entrevistar as demais integrantes da brigada Gavião em respeito ao momento de luto vivido pela comunidade após a perda de um familiar. Thalia contou ainda que, pouco depois de ingressar na brigada, Celiana Krikati, do povo de mesmo nome, também se tornou brigadista, um sinal de que outras mulheres passaram a ocupar esse espaço.

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O conhecimento sobre o fogo chegou à vida de Thalia muito antes de qualquer treinamento oficial. Ela lembra que o aprendizado começou ainda na infância, ao lado da avó: “antes de fazer o fogo é preciso observar o combustível, entender como fazer da maneira certa. Nossos antepassados sabiam encontrar na mata os materiais naturais que facilitavam fazer fogo”. Foi também com a avó que aprendeu outra lição, desta vez sobre ser mulher: “Ela ensinou para nós que precisávamos fazer o dobro para sermos reconhecidas. Antigamente a mulher era muito rebaixada, não podia fazer nada”.

Entre os desafios enfrentados até chegar à posição que ocupa hoje, Thalia destaca a maternidade. Quando o primeiro filho nasceu, ela era mãe solo e precisou escolher entre permanecer com o bebê ou trabalhar para sustentá-lo. Optou pelo trabalho e deixou o menino aos cuidados da própria mãe. “Eu praticamente não acompanhei o crescimento dele”. Com o nascimento do segundo filho, a rotina mudou. Hoje, o marido divide os cuidados com as crianças, embora as viagens continuem longas. “O coração continua apertado, mas fico mais tranquila porque sei que eles estão bem cuidados”, afirma. O filho mais velho, hoje com 14 anos, e o caçula, de cinco, já disseram que, quando crescerem, querem ser iguais à mãe.

Da brigada à gestão do fogo

Um retrato em plano médio de uma mulher branca com cabelos longos e cacheados, de cor castanho-escura, que caem sobre seus ombros. Ela está de frente para a câmera, sorrindo e olhando diretamente para ela, em um ambiente externo com vegetação verde desfocada ao fundo. Ela veste uma camiseta amarela com gola redonda e mangas raglã que cobrem seus ombros, onde há uma pequena bandeira do Brasil na manga esquerda. No peito, está impresso o logotipo do ICMBio em verde: uma forma de folha ou árvore estilizada com a sigla ICMBio em letras maiúsculas e, abaixo, o texto INSTITUTO CHICO MENDES em letras maiúsculas menores e, mais abaixo, MMA em letras maiúsculas ainda menores. Ela usa um colar de contas coloridas que envolve o pescoço. O fundo desfocado mostra arbustos e árvores em tons de verde. A iluminação é natural e brilhante
Michelle Duarte: “desde o início deixamos claro que queríamos aprender de verdade, que não queríamos nenhum tratamento diferente só por sermos mulheres. Pedimos que não aliviassem para nós” | Foto: Sara Leal / Ipam

Se Thalia abriu caminho dentro da própria etnia, Michelle Duarte construiu sua trajetória em outro contexto. Técnica ambiental da Rebio Gurupi e ponto focal do Manejo Integrado do Fogo (MIF) na unidade, ela começou como brigadista no Instituto Brasília Ambiental (Ibram). No esquadrão em que atuava, eram apenas ela e outra colega entre nove homens.

Michelle diz que teve sorte. O grupo sempre a respeitou, mas lembra que esse respeito foi construído desde o primeiro dia: “desde o início deixamos claro que queríamos aprender de verdade, que não queríamos nenhum tratamento diferente só por sermos mulheres. Pedimos que não aliviassem para nós”. Um episódio, no entanto, ficou marcado. Durante um incêndio de grandes proporções, um brigadista de outra unidade perguntou se poderia carregar a bomba costal dela. Michelle respondeu na hora: “se você vai carregar minha bomba costal, o que eu vim fazer aqui? Qual é o meu papel nesse combate?”.

Esta foto em plano médio, com uma profundidade de campo rasa, capta duas mulheres em uma trilha de terra em uma floresta tropical, olhando para a câmera com uma expressão séria. A mulher à direita está em primeiro plano, usando uma jaqueta amarela brilhante de manga comprida aberta sobre uma camiseta da mesma cor, calças cargo verde-oliva com vários bolsos, botas de borracha pretas que cobrem até os joelhos e uma bandana cinza e branca na cabeça. Ela tem cabelos castanhos longos e cacheados que caem sobre seus ombros. A mulher à esquerda está mais atrás, usando uma camiseta amarela, calças cargo verde-oliva e botas de borracha pretas, além de óculos de sol na cabeça. Elas estão rodeadas por uma vegetação densa e exuberante que preenche a maior parte do fundo. A trilha de terra em que estão está coberta por folhas e galhos caídos
Para Dayana, assim como suas colegas, o maior desafio foi conciliar a atividade com a maternidade | Foto

Hoje, como gestora do fogo na Rebio Gurupi, Michelle afirma que encontrou na atividade a profissão que escolheu para a vida: “a gente acaba se apaixonando pelo fogo”. O que a move, segundo ela, é a preservação ambiental: “é proteger o que a gente sabe que é importante para todos. Não é importante só para a gente, é importante para as próximas gerações também”.

O maior desafio de sua trajetória, no entanto, não veio do fogo nem da convivência em um ambiente majoritariamente masculino. Veio da maternidade. Mãe solo de duas filhas, Michelle construiu, longe da família, no Maranhão, a rede de apoio que sustenta sua rotina. “O mais difícil não é trabalhar em um ambiente com muitos homens. O mais difícil é a maternidade”. Emocionada, ela lembra de quando a filha mais nova verbalizou o que sentia com as ausências da mãe: “mãe, eu odeio o seu trabalho”. “Isso dói muito”, admite Michelle. “Eu sempre respondo que amo o meu trabalho, mas amo também ser sua mãe e que vamos encontrar um equilíbrio”. Hoje, abre mão de viagens profissionalmente importantes para permanecer mais tempo com as filhas.

Uma nova geração de brigadistas

Uma mulher parda com cabelo escuro e algumas mechas cinzentas, vestindo uma camisa de uniforme amarela vibrante com tiras refletivas e o logotipo do ICMBio em verde, uma calça de carga verde-oliva e botas de borracha pretas altas, senta-se de pernas cruzadas em um tronco horizontal, olhando pensativamente para o lado em uma floresta densa com solo coberto de folhas secas e troncos de árvores. Ela tem uma bandana cinza no pescoço e uma trança no cabelo, com as mãos cruzadas no colo. Árvores altas de casca grossa emolduram a cena, com vegetação de sub-bosque verde escuro ao fundo. A iluminação é difusa
Dayana Silva afirma que manuseia os mesmos equipamentos utilizados pelos homens e que, até então, nunca encontrou uma atividade que não conseguisse realizar | Foto: Sara Leal / Ipam

Dayana Silva e Ranielle Silva chegaram à brigada do ICMBio há cerca de um ano, vindas de lugares muito diferentes da floresta. Dayana havia trabalhado como bombeira civil, mas em ambiente urbano, e nunca tinha atuado em mata fechada. Ranielle veio do Piauí e trabalhava como frentista em um posto de combustível. Pelo pouco tempo de atuação, nenhuma das duas enfrentou ainda um combate a incêndio florestal. Mas, com o Super El Niño se aproximando, ambas afirmam estar preparadas física e psicologicamente para o que pode vir.

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Perguntada sobre qual foi o maior obstáculo por ser mulher, Dayana respondeu que nenhum. Afirmou que manuseia os mesmos equipamentos utilizados pelos homens e que, até então, nunca encontrou uma atividade que não conseguisse realizar. Orgulhosa, afirma: “uma mulher, nos dias de hoje, para exercer um trabalho braçal como esse, é muito difícil. Graças a Deus, até hoje a gente está dando conta”.

A maternidade também foi um desafio para Dayana. Mãe de dois adolescentes, ela conta que, no início, a maior preocupação era deixar os filhos em casa durante os períodos em que permanecia na base. Com o tempo, a rotina ficou mais tranquila graças ao apoio da mãe, que cuida dos meninos durante as escalas, e à possibilidade de manter contato frequente pela internet disponível nas bases da brigada. “Hoje está super tranquilo”, resume.

Uma foto de plano médio vertical mostra uma mulher em pé em frente a uma caminhonete de cabine dupla coberta de lama em uma estrada de terra sob um céu parcialmente nublado, vestindo uma camiseta amarela, calças cargo verde-oliva com manchas de lama branca e botas de combate pretas. A mulher, que está de frente para a câmera e com a mão direita no quadril, tem cabelos escuros presos e usa óculos de sol, olhando para longe. A caminhonete branca e verde, cujas portas laterais, roda dianteira e para-choque traseiro estão cobertos de lama seca, tem as palavras "ICMBio" e "UNIDADE DE CONSERVAÇÃO" impressas em letras maiúsculas verdes na porta dianteira e lateral, respectivamente. Uma placa de metal verde também é visível no para-lama traseiro, que parece dizer "SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA" em letras verdes. A roda dianteira e o pneu estão cobertos de lama. Ao fundo, uma casa rosa com telhado de telha marrom é visível
Ranielle Silva fala da profissão com mais cautela. Reconhece que ainda encontra dificuldade para manusear alguns equipamentos, mas faz questão de dizer que isso nunca representou uma limitação | Foto: Arquivo pessoal

Ranielle fala da profissão com mais cautela. Reconhece que ainda encontra dificuldade para manusear alguns equipamentos, mas faz questão de dizer que isso nunca representou uma limitação. Ela atribui ao chefe de esquadrão, Noé de Melo, a paciência de ensinar sem pressa e de transmitir os conhecimentos necessários para o trabalho.

Ao falar sobre a importância da profissão, Ranielle interrompeu a resposta por alguns segundos, emocionada. Mãe de um menino de sete anos, contou que uma das mudanças que a brigada trouxe para dentro de casa foi a forma de conversar com o filho sobre o fogo. “Ele ama fogo”, disse. É a partir da experiência na brigada que ela tenta explicar ao menino que fogo não é brincadeira.

Três trabalhadores uniformizados da conservação, vestindo camisas amarelas e calças cargo verdes, estão trabalhando para limpar um caminho florestal de terra. O caminho é bloqueado por um tronco de árvore caído e podre. Um homem, em pé, empunha uma foice em riste para limpar a vegetação ao redor do tronco caído. Duas mulheres estão próximas dele, curvadas e observando atentamente uma motosserra da marca Stihl que está no chão, aos seus pés. O uniforme delas inclui logotipos visíveis nas costas. A floresta ao redor é densa e verdejante
Enquanto algumas precisaram romper barreiras para ocupar espaços historicamente masculinos, outras iniciaram a carreira em equipes onde competência e preparo técnico definem o trabalho | Foto: Sara Leal

As trajetórias de Thalia, Michelle, Dayana e Ranielle retratam diferentes momentos da presença feminina nas brigadas que atuam na Amazônia maranhense. Enquanto algumas precisaram romper barreiras para ocupar espaços historicamente masculinos, outras iniciaram a carreira em equipes onde competência e preparo técnico definem o trabalho. Em comum, carregam a responsabilidade de proteger a floresta sem abrir mão de outros papéis, como o da maternidade, e ajudam a abrir caminho para que outras mulheres também se reconheçam nesse trabalho.

*Esta é a segunda reportagem de uma série de três sobre a imersão da Eco Nordeste na Amazônia maranhense.

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