Do Recôncavo ao encontro com a Floresta Amazônica

Em imersão com brigadistas e pesquisadores do Ipam na Reserva Biológica do Gurupi e Território Indígena Governador, no Maranhão, descobri que o fogo pode proteger a Amazônia e reencontrei, na floresta, afetos da infância no Recôncavo Baiano

Uma mulher de perfil, vestindo camiseta azul-clara de mangas compridas dobradas até o cotovelo, calça jeans azul e botas pretas de cano alto, abraça afetuosamente o tronco robusto de uma grande árvore no meio de uma floresta. Ela está levemente inclinada para a frente, com o rosto e as mãos apoiados na casca áspera e marrom da árvore, enquanto exibe no antebraço direito uma tatuagem com a palavra "Gratidão". Ao fundo, a vegetação densa é composta por folhagens verdes e um chão coberto por folhas secas e pedaços de madeira, destacando-se à esquerda uma estrutura elevada de madeira, semelhante a uma passarela ou plataforma em meio à natureza
Líliam Cunha: “Durante a caminhada abracei três árvores. Gosto de abraçá-las e costumo escolhê-las pelo caule. A primeira era enorme, com um diâmetro que não permitia um abraço completo” | Foto: Noé de Melo

Cresci cercada de árvores e foi nos quintais, da minha casa e os dos vizinhos, que nasceram as primeiras de muitas aventuras que vivi e ainda pretendo viver em meio à natureza. Trago essa história porque ela ajuda a explicar o que a menina nascida e criada no Recôncavo Baiano sentiu ao entrar na Floresta Amazônica pela primeira vez. Ao receber o convite do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) para acompanhar o trabalho de brigadistas e pesquisadores na gestão do fogo e saber que deveria viver essa experiência para contá-la aos leitores da Eco Nordeste, decidi pesquisar apenas o essencial: tipo de vestimenta, equipamentos, calçados, repelente e dados que mostrassem como a região poderia ser afetada pelo Super El Niño que se aproxima.

As imagens do local estavam a um clique de distância. Mas decidi que, para viver de fato as experiências propostas pela organização, elas deveriam permanecer apenas no meu imaginário, construído pelos livros e pelas telas. Do convite ao embarque para Imperatriz, no Maranhão, foram 13 dias. Tempo suficiente para providenciar tudo o que precisaria levar na bagagem e atualizar o cartão de vacinação. Reforço da antitetânica garantido (viva ao SUS), foi hora de planejar a mala: roupas claras, zero perfume, bota, rede, boné, carregador portátil, cobertores e casacos.

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Me informaram que na reserva poderia fazer frio. Eu acreditei. Afinal, minhas referências eram as trilhas da Chapada Diamantina, onde, mesmo com sol forte, basta entrar na mata para a temperatura cair. O que eu não acreditei foi quando a inteligência artificial sugeriu enrolar a bagagem em sacos para protegê-la da poeira. Levei os sacos, mas, ao ver que ninguém havia protegido as malas, concluí que ela devia estar exagerando. Não estava. A densa poeira vermelha da estrada até a Reserva Biológica do Gurupi (Rebio) tratou de provar isso.

Às 11h10 do dia 25 de julho, embarquei em Salvador com destino a Brasília. A malha aérea brasileira tem dessas coisas: saí do Nordeste, passei pelo Centro-Oeste e voltei ao Nordeste para desembarcar, por volta das 17h, em Imperatriz, recepcionada por um belo pôr-do-sol e “agradáveis” 35 graus. Na manhã seguinte seguimos para a sede do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e, de lá, iniciamos a viagem até a Rebio. Foram cerca de 4h30 de estrada, aproximadamente duas delas atravessando uma extensa área de eucalipto.

Uma grande quantidade de troncos de madeira finos e cortados está empilhada em uma longa extensão ao longo de uma estrada de terra avermelhada, sob um céu azul ensolarado com poucas nuvens brancas à direita. A pilha de lenha se estende do canto esquerdo em direção ao fundo da imagem, revelando as extremidades arredondadas dos troncos cortados, intercaladas por galhos e folhagens secas. Na base do monte, ao lado do caminho de terra, cresce uma vegetação alta e verde que se mescla ao tom terroso do solo
Líliam Cunha: “Diante dos meus olhos estava todo o ciclo da produção de madeira: toras empilhadas, áreas recém-plantadas, árvores jovens e outras prontas para o corte” | Foto: Líliam Cunha

O sol estava lindo e a floresta de eucalipto tinha trechos bonitos, em alguns momentos assustadores por conta da poeira e da falta de visibilidade. Mas o sentimento predominante era de tristeza. Eu sabia exatamente por quê. Diante dos meus olhos estava todo o ciclo da produção de madeira: toras empilhadas, áreas recém-plantadas, árvores jovens e outras prontas para o corte. Quase não vimos animais. Eu vi um pássaro apenas.

Chegamos à Rebio já à noite. A escuridão escondia completamente a floresta e aumentava a curiosidade de todos nós. Havia camas, mas escolhi montar minha rede na varanda. Se eu estava ali para viver aquela experiência, queria vivê-la por inteiro. Naquela primeira noite descobri duas coisas. A primeira é que os mosquitos, que esperávamos encontrar, simplesmente não apareceram. A segunda foi que o frio que me disseram que poderia fazer também não.

Acordei com o canto dos bem-te-vis e, logo depois, com o piado e o cacarejo de uma galinha acompanhada pelos pintinhos. Passei alguns minutos observando um deles se desgarrar da mãe e correr para alcançá-la. Onde eu iria imaginar que eu ia acordar na Floresta Amazônica com uma galinha e seus pintinhos? Ao lado da casa, uma enorme mangueira me lembrou novamente a menina que levei para lá. Havia pés de manga nos quintais por onde vivi.

Em um Pátio de terra batida avermelhada e cercado por uma densa mata verde ao fundo, estão estacionados dois caminhões antigos e em mau estado de conservação, sob um céu claro e nublado. À direita, um caminhão grande e branco carrega na sua carroceria de madeira uma pilha organizada de pranchas e vigas grossas de madeira serrada, enquanto um monte idêntico de blocos de madeira está empilhado no chão, logo ao lado de sua lateral. À esquerda e ligeiramente atrás, há um caminhão azul menor, com marcas visíveis de ferrugem no teto e na cabine, também estacionado na área descampada
Líliam Cunha: “outra cena me intrigou. Havia sucatas de carros, motos e caminhões espalhadas pelo local. A resposta só veio horas depois, durante a apresentação do Plano de Manejo Integrado do Fogo (PMIF), quando a equipe explicou que aqueles veículos foram apreendidos em operações de fiscalização do ICMBio” | Foto: Líliam Cunha

Outra cena me intrigou. Havia sucatas de carros, motos e caminhões espalhadas pelo local. A resposta só veio horas depois, durante a apresentação do Plano de Manejo Integrado do Fogo (PMIF), quando a equipe explicou que aqueles veículos foram apreendidos em operações de fiscalização do ICMBio. Também me chamou atenção a estrutura montada para garantir energia elétrica e internet em um lugar tão isolado.

Seguimos então para a Trilha do Jatobá. Antes mesmo de iniciarmos a caminhada foi preciso parar para que a brigada do ICMBio abrisse passagem. Enquanto eles trabalhavam, senti um cheiro bom e familiar. Era cheiro de araçá, outro símbolo que me remeteu à infância.

Uma mão aberta com a palma voltada para baixo repousa sobre uma camada densa de folhas secas no chão da floresta. A mão, de pele clara e unhas bem cuidadas, estende-se do canto inferior esquerdo em direção ao centro da imagem, deixando ver parte do antebraço com o final de uma tatuagem. Abaixo da mão e por todo o fundo, sobressaem-se folhas caídas em vários tons de marrom, bege e amarelado, com nervuras bem visíveis, intercaladas por pequenos galhos e pedaços de terra
Líliam Cunha: “Quando finalmente entrei na floresta, a primeira surpresa foi perceber que ela era muito mais quente do que eu imaginava. O solo, porém, era úmido, coberto por uma espessa camada de folhas”

Quando finalmente entrei na floresta, a primeira surpresa foi perceber que ela era muito mais quente do que eu imaginava. O solo, porém, era úmido, coberto por uma espessa camada de folhas. Havia borboletas, formigas enormes, uma lagarta branca, aranhas, pássaros e árvores tombadas pelo vento, segundo explicavam os pesquisadores. Outras pareciam ter sido derrubadas pela ação humana.

Durante a caminhada abracei três árvores. Gosto de abraçá-las e costumo escolhê-las pelo caule. A primeira era enorme, com um diâmetro que não permitia um abraço completo. A segunda também era grande, mas parecia perfeita para aquele momento. Pedi que registrassem a foto, fechei os olhos e a abracei de verdade, tentando sentir a árvore e me conectar com aquele ambiente. Foi quando percebi uma energia pulsante, uma vibração que nunca havia sentido em nenhuma outra árvore. Talvez porque nenhuma delas estivesse em uma floresta preservada como aquela.

Um grupo de cerca de dez pessoas está reunido ao redor de uma mesa longa e rústica de madeira no meio de uma floresta densa. À esquerda, três integrantes usam uniformes amarelos de brigadistas ou agentes ambientais e calças escuras, enquanto permanecem de pé em conversa com os demais. Outras pessoas estão sentadas no chão ou em pequenos bancos em volta da grande bancada de madeira, vestindo roupas casuais de campo em tons claros e neutros. Ao fundo e nas laterais, a vegetação é composta por árvores altas e folhagens verdes vibrantes, com o chão totalmente coberto por folhas secas marrons sob a iluminação natural da mata
Líliam Cunha: “Na parada da Casa da Árvore, onde há uma grande mesa, bancos e um mirante, conversávamos sobre a proposta da Trilha do Jatobá e seu futuro uso em atividades de educação ambiental com crianças do Assentamento Aeroporto” | Foto: Líliam Cunha

Na parada da Casa da Árvore, onde há uma grande mesa, bancos e um mirante, conversávamos sobre a proposta da Trilha do Jatobá e seu futuro uso em atividades de educação ambiental com crianças do Assentamento Aeroporto. Foi ali que chegou a minha vez de me apresentar ao grupo. Contei aos brigadistas e pesquisadores que, embora estivesse ali a trabalho, aquela viagem significava mais do que uma cobertura jornalística. Expliquei que, além das pautas técnicas, escreveria esta reportagem e que, por isso, havia optado por não ver fotografias da reserva antes da viagem. Trouxe comigo a menina que cresceu explorando quintais e construiu com a natureza uma relação de afeto muito antes de fazer dela também uma pauta.

Ao me ouvir contar ao grupo o que havia sentido ao abraçar a árvore, Noé, chefe de esquadrão da brigada do ICMBio, revelou que até então nunca havia abraçado uma árvore. Mas, ao me observar e ouvir descrever o que senti, ainda que envergonhado, resolveu experimentar. Contou que, ao abraçá-la e fechar os olhos, imaginou crianças fazendo o mesmo. A Trilha do Jatobá ainda não havia sido inaugurada e Noé, que participou da sua criação, enxergou naquela cena exatamente o que imaginava para o futuro do lugar. Após nossos relatos, Sara, coordenadora de Comunicação do Ipam e responsável pelo convite à Eco Nordeste, também quis experimentar. Ela disse que não sentiu a vibração que descrevi, mas percebeu “uma energia muito boa”. Cada um viveu aquele encontro de uma forma.

Líliam Cunha: Ao observar troncos retorcidos que pareciam verdadeiras obras de arte, me peguei pensando em como a natureza consegue ser perfeita até nas suas imperfeições” | Foto: Líliam Cunha

Ainda durante a imersão, os pesquisadores do Ipam nos ensinaram a estimar a quantidade de carbono armazenada em uma árvore. Ao observar troncos retorcidos que pareciam verdadeiras obras de arte, me peguei pensando em como a natureza consegue ser perfeita até nas suas imperfeições. Em determinado momento, fomos convidados pela chefe da brigada a fazer um exercício simples: permanecer em silêncio e apenas escutar a floresta. Foi quando, além do canto dos pássaros, ouvi o craquelar da mata. Eu não estava apenas conhecendo a Amazônia. Estava vivendo aquele ambiente com a consciência do privilégio e da bênção de estar ali.

Quando a ciência
aprende a ler a floresta

É impossível conhecer um novo bioma sem compará-lo àqueles que fazem parte da nossa história. Nasci e cresci cercada pela Mata Atlântica e passei boa parte das férias da infância no sertão baiano, onde a Caatinga também se tornou parte de mim. Ao ouvir os pesquisadores falarem sobre os efeitos do fogo na Amazônia, era inevitável lembrar das imagens da Chapada Diamantina em chamas que tantas vezes vi pela televisão. Sempre ouvi que a vegetação levaria anos para se recuperar, mas, nas vezes em que estive na Chapada, nunca consegui identificar visualmente essas cicatrizes. Foi na Rebio que comecei a entender o porquê.

Esta foto de plano médio horizontal, colorida, de ângulo ligeiramente de baixo para cima, mostra uma mulher de pele morena, com cabelos grisalhos na altura dos ombros, em uma floresta tropical, olhando para cima e para a direita com um sorriso. Ela está no meio da imagem e usa uma jaqueta marrom aberta, por cima de uma camiseta verde, e um colar de miçangas vermelhas ao redor do pescoço, com uma alça de câmera preta visível no ombro esquerdo. Ela é ladeada pelo tronco largo de uma grande árvore, de casca escura, coberta de musgo. No plano de fundo, uma floresta densa de árvores, trepadeiras e folhas é vista, com a luz do sol brilhando através das copas das árvores no canto superior direito. O chão da floresta é coberto de folhas marrons e galhos entrelaçados
Líliam Cunha: “Ver Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam e uma das principais pesquisadoras do País sobre o uso do fogo na Amazônia, em campo era uma aula silenciosa. Hoje chego à conclusão de que olhávamos para a floresta com a mesma paixão. Eu buscava conexão com aquele ambiente. Ela buscava informações capazes de transformá-lo em conhecimento para protegê-lo” | Foto: Sara Leal / Ipam

Eu não tenho o olhar de quem estuda a floresta. Tenho o olhar da jornalista que identifica uma boa pauta, um bom personagem e, acima de tudo, de alguém que se encanta pela natureza. Enquanto eu admirava a grandiosidade das árvores, os pesquisadores do Ipam observavam detalhes que meus olhos jamais perceberiam. Eles buscavam cicatrizes nos troncos, marcas deixadas por incêndios antigos, indícios da intensidade do fogo e da frequência com que ele havia passado por aquele lugar. Ver Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam e uma das principais pesquisadoras do País sobre o uso do fogo na Amazônia, em campo era uma aula silenciosa. Hoje chego à conclusão de que olhávamos para a floresta com a mesma paixão. Eu buscava conexão com aquele ambiente. Ela buscava informações capazes de transformá-lo em conhecimento para protegê-lo.

Um enorme tronco de árvore caído na horizontal cruza a parte superior da imagem, suspenso sobre uma trilha inclinado em meio a uma floresta densa e verdejante. No canto inferior direito, duas pessoas caminham de costas ao longo da trilha coberta de folhas secas, passando por baixo do grande tronco suspenso; uma delas veste uma camisa amarela de mangas compridas e calça escura. A vegetação ao redor é abundante, com árvores finas, folhagens verdes e troncos mais largos ao fundo, sob a luz natural que se infiltra pelas copas da mata
Líliam Cunha: “As aulas não aconteciam apenas quando os pesquisadores falavam. Elas também estavam na rotina da brigada do ICMBio” | Foto: Líliam Cunha

As aulas não aconteciam apenas quando os pesquisadores falavam. Elas também estavam na rotina da brigada do ICMBio. Michelle conduzia a equipe com firmeza e tranquilidade. Noé nos ensinou que o equilíbrio emocional é um dos principais fatores para o sucesso de uma operação. Dayana e Ranielle, também brigadistas, chamavam atenção. Era bonito vê-las sempre sorridentes e impecavelmente fardadas. Mas bastava surgir um tronco impedindo a passagem para estarem ao lado de Noé, abrindo caminho com a mesma competência. Foi convivendo com eles que percebi que proteger a floresta exige muito mais do que conhecimento técnico. Exige preparo, disciplina, sensibilidade e um profundo compromisso com aquilo que se escolheu defender.

Um pedaço retangular de madeira bastante carbonizado e negro, com textura porosa de carvão, repousa na diagonal sobre a folhagem seca e a terra do chão da floresta. Logo atrás dele, atravessando horizontalmente a imagem, há um tronco longo e cilíndrico com a casca acinzentada e rachaduras ao longo de sua extensão. O solo ao redor é coberto por folhas secas em tons de marrom e bege, pequenos galhos finos e pedaços de madeira em decomposição, além de uma ponta de calçado visível no canto inferior direito
Líliam Cunha: “Foi ali que compreendi, de forma prática, por que um novo foco de incêndio encontra condições muito mais favoráveis para se espalhar. As árvores carregavam marcas das queimadas, mas também da ação humana. Havia troncos cortados e, pela primeira vez, comecei a enxergar na floresta sinais que até então passariam despercebidos aos meus olhos” | Foto: Líliam Cunha

No dia seguinte fomos a uma área atingida pelas queimadas. A diferença aparecia logo nos primeiros passos. O solo era mais seco, as folhas também. A mata era mais aberta, dava para ver o céu e sentir o vento. Foi ali que compreendi, de forma prática, por que um novo foco de incêndio encontra condições muito mais favoráveis para se espalhar. As árvores carregavam marcas das queimadas, mas também da ação humana. Havia troncos cortados e, pela primeira vez, comecei a enxergar na floresta sinais que até então passariam despercebidos aos meus olhos.

No retorno para a base, mais um reencontro com a infância. Paramos para chupar geladinho e, ao lado, havia pés de caju. Outra árvore que fez parte dela. Foi também o dia de saborear pela última vez a comida de dona Rosa, sempre acompanhada por Simone. Em meio a tantos aprendizados, elas cuidavam diariamente de quem passava o dia cuidando da floresta.

O fogo também pode proteger

No último dia da imersão seguimos para o Território Indígena Governador. Fomos recebidos pela brigada do povo Gavião, que nos mostrou, na prática, um conceito que os pesquisadores do Ipam tinham repetido diversas vezes ao longo dos dias em campo: o fogo nem sempre é sinônimo de destruição. Quando utilizado da forma correta, no tempo certo e com conhecimento, também pode ser uma ferramenta de proteção da floresta.

Visitamos um viveiro de mudas que preserva espécies ameaçadas de extinção no território, conhecemos uma área em processo de reflorestamento e acompanhamos uma demonstração de aceiro queimado. Mais uma vez ficou evidente como o conhecimento científico e o conhecimento tradicional dialogam quando o objetivo é conservar a floresta.

O povo Gavião nos recebeu mesmo vivendo um momento de luto pela perda de um familiar. Ainda assim, fez questão de compartilhar seus conhecimentos, sua cultura e sua relação com a floresta. Foi um gesto de generosidade que tornou aquele encontro ainda mais significativo.

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Em um dos momentos mais marcantes da viagem, uma anciã iniciou um cântico tradicional. Fechei os olhos e apenas senti. Vieram os arrepios. Os olhos lacrimejaram. Era uma sensação muito parecida com a que havia experimentado ao abraçar a árvore na Trilha do Jatobá. Pela segunda vez na viagem, a conexão com a floresta chegou antes das palavras.

E adivinha qual foi o primeiro cheiro que senti ao entrar no território? Araçá. O antropólogo que nos acompanhava comentou que havia percebido o mesmo aroma. Não encontramos pés de araçá por ali, mas o cheiro estava presente.

No retorno para Imperatriz, antes mesmo de avistar o primeiro foco de incêndio, abri a janela do carro para fotografar a paisagem e senti o cheiro da fumaça. Minutos depois o fogo apareceu. Vimos três focos ao longo do caminho, todos fora da Rebio. A viagem terminou como começou: contemplando um pôr-do-sol inesquecível.

Voltei para casa com a poeira vermelha ainda impregnada na mala. Mas trouxe comigo muito mais do que isso. Trouxe novas pautas, novos aprendizados e um olhar diferente sobre a Amazônia. Continuo enxergando nela a exuberância que sempre imaginei encontrar. A diferença é que agora também consigo perceber as pessoas que dedicam a vida a protegê-la. Talvez seja essa a maior lembrança que levo da floresta. Não apenas as árvores gigantes, os sons, os cheiros ou os pôres-do-sol, mas a certeza de que conservar esse patrimônio depende, todos os dias, de gente que escolheu fazer da floresta a sua própria casa.

*Esta é a primeira reportagem de uma série de três sobre a imersão da Eco Nordeste na Amazônia maranhense.

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