Livro da UFPE ensina crianças a proteger recifes de coral

Iniciativa da UFPE integra pesquisa, extensão e divulgação científica para levar às escolas públicas livros sobre conservação marinha

Visão por cima do ombro de uma pessoa de máscara mexendo em um notebook. Na tela do computador, há um software de edição aberto com uma animação colorida de fundo do mar.
Universidade une ciência e educação ambiental para engajar comunidade | Foto: Rony Severiano

“O ambiente não respeita a gaveta de disciplina. Recife de coral é bioquímica, clima, economia e narrativa ao mesmo tempo.” Com essa reflexão, Ranilson de Souza Bezerra, professor titular do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e acadêmico da Academia Pernambucana de Ciências, resume a essência interdisciplinar do projeto Um Mar de Histórias, iniciativa da qual é coordenador, que reúne Ecologia, Comunicação e Ciência da Computação para fortalecer a conservação marinha na região. 

Sobre a importância de converter o saber acadêmico e científico em instrumento prático para a sociedade, ele destaca o tripé Ensino, Pesquisa e Extensão: “Para nós, a Extensão Tecnológica é essencial. É transferir o que desenvolvemos na UFPE para fora dos muros. Não basta publicar artigo. Tem que virar livro infantil, podcast, muda de coral no mar.” Para ele, um dos principais papéis da pesquisa é investir nas pessoas e produzir conhecimento capaz de gerar impactos positivos na sociedade

Leia também: Conheça as jubartes recordistas que cruzaram o Oceano

E tem sido justamente esse o caminho percorrido pelo projeto Um Mar de Histórias, iniciado na pandemia, dentro do Laboratório de Enzimologia (Labenz), no Departamento de Bioquímica da UFPE. 

Prova disso é o lançamento do livro infantil Uma Aventura nos Recifes de Coral, que apresenta a história das crianças Nalu e Cauã e da professora Marina, personagens que embarcam em uma aventura para descobrir por que os corais de Porto de Galinhas, no litoral pernambucano, estão perdendo suas cores. 

“Os olhos das
crianças brilharam”

Ao longo da narrativa, conceitos relacionados às mudanças climáticas e como isso se relaciona à rota das tartarugas e ao branqueamento dos corais, são apresentados de forma lúdica ao público infantil. 

Homem sorridente de camisa clara segura um livro infantil azul intitulado "Uma aventura nos Recifes de Coral". À sua frente, há várias pilhas do mesmo livro sobre uma mesa.
Ranilson de Souza Bezerra acredita que a produção científica precisa ser ferramenta de transformação social | Foto: Divulgação

No último 8 de junho, Dia Mundial dos Oceanos, exemplares da publicação foram distribuídos para estudantes da rede pública de ensino de Ipojuca, município no litoral sul de Pernambuco, passando a integrar o acervo da instituição. Foram contempladas crianças do Ensino Fundamental I da Escola Municipal Integral Governador Eduardo Campos e da Escola Municipal Maria José Ferreira de Oliveira.

A ação marcou o início da distribuição dos materiais produzidos pelo projeto. Ao todo, mais de 130 livros foram entregues durante as atividades realizadas pela equipe da UFPE. Além disso, outros 500 exemplares serão distribuídos pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Pernambuco (Secti) para escolas públicas dos municípios de Ipojuca e Recife, ampliando o acesso ao material.

“Nossa missão é plantar sementes ambientais no público infantil. Isso ficou claro no lançamento do livro na escola em Ipojuca. Os olhos das crianças brilharam. Ali a gente viu a ciência virando encantamento”, conta o coordenador do projeto, Ranilson Bezerra. 

Conhecer para
proteger o território

“Ao chegar às escolas da rede pública, o livro se torna uma oportunidade de despertar a curiosidade e aproximar as crianças de temas que fazem parte do seu próprio território, ao mesmo tempo em que cumpre seu papel fundamental de incentivar a leitura”, comenta Thalia Santana, comunicóloga, especialista em divulgação científica e uma das autoras do livro Uma Aventura nos Recifes de Coral.

Segundo ela, a história convida os leitores a compreender as relações entre os seres vivos e o ambiente, “porque acreditamos que a conscientização começa pelo conhecimento e pela conexão emocional”. “Então, quando a criança entende por que os corais estão perdendo suas cores e por que eles são importantes para o território, ela passa a enxergar também o seu papel na conservação daquele ambiente”, explica.

Quatro pessoas de máscara conversam em um palco durante um evento. Ao fundo, uma tela projeta a imagem "Um Mar de Histórias". Em primeiro plano, a plateia assiste sentada.
Um Mar de Histórias aproxima comunidade de demanda reais do território com foco em proteção oceânica, especialmente dos recifes de corais | Foto: Victor Juca

Nesse sentido, a iniciativa busca despertar o sentimento de pertencimento e incentivar o cuidado com os ambientes naturais que fazem parte da realidade dessas crianças.  Além do livro, foi desenvolvida uma cartilha digital para educadores, com atividades pedagógicas, recursos de acessibilidade, sugestões de dinâmicas e materiais complementares. 

“Ações como essa fortalecem toda a nossa parte pedagógica, enriquecendo o desenvolvimento do aluno, a parte cognitiva e de conscientização”, ressalta Toninho Silva, gestor da Escola Municipal Integral Governador Eduardo Campos. “Esse projeto fortalece ainda muito mais, com o propósito de que essa informação não fique apenas dentro da escola, mas que perpasse os muros, levando a conscientização para a família e toda a sociedade.”

Como a história começou

Tudo começou em 2019, com o desenvolvimento dos corais “mascotes” Mille e Mussi, no âmbito do projeto Biofábrica de Corais, do Laboratório de Enzimologia Luiz Accioly (Labenz), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 

O objetivo era aproximar as pessoas dos corais, animais frequentemente confundidos com plantas ou pedras, e conscientizar sobre sua importância para o equilíbrio dos ecossistemas marinhos e para a economia de Porto de Galinhas, em Ipojuca, onde os recifes são responsáveis por sustentar grande parte da atividade turística local.

No fundo azul do mar, parte de uma colônia de corais da espécie Millepora alcicornis embranquecida. Uma outra parte preserva a cor laranja original. Dois peixes nadam dentro da colônia
Corais branqueados da espécie Millepora alcicornis | Foto: Carlos dos Santos / Biofábrica de Corais

Na época, durante o verão de 2020, um intenso evento de branqueamento de corais atingiu o Nordeste brasileiro e comprometeu parte importante da biodiversidade local. 

“Esse cenário reforçou a necessidade de ampliar as ações de divulgação científica, inclusive para o público infantil. Foi então que começamos a criar um universo lúdico para contar histórias a partir dessas e de outras personagens, surgindo assim o projeto Um Mar de Histórias”, lembra a comunicóloga Thalia Santana. 

O livro Uma Aventura nos Recifes de Coral  é resultado da parceria entre o Labenz, coordenado pelo professor Ranilson Bezerra, a Plataforma Tecnológica Pescado Mais e a Chié Comunicação, em conexão com programas estratégicos da pós-graduação da UFPE e o Centro Acadêmico da Vitória (CAV), com colaboração da EcoAssociados e a Biofábrica de Corais. 

A obra integra o Programa Aventura da Ciência, iniciativa do Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de Pernambuco, com apoio da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), no âmbito do Edital nº 09/2025 – Sensibilização à Ciência.

Acesse aqui o livro e a cartilha digital para educadores!

Aprendizado prático 

O projeto Um Mar de Histórias desenvolve ações de divulgação científica voltadas à conservação dos ecossistemas marinhos, com foco na produção de materiais educativos acessíveis para crianças, educadores e comunidades.

A iniciativa busca transformar conhecimentos científicos em experiências de aprendizagem criativas e significativas, contribuindo para a formação de uma cultura de valorização dos oceanos.

Em 2023, Um Mar de Histórias foi reconhecido como um dos 500 melhores projetos ibero-americanos da X Edición dos Premios Verdes.

Mais informações na rede social da iniciativa. 

Quer a apoiar a Eco Nordeste?

Seja um apoiador mensal ou assine nossa newsletter abaixo: