Trabalho de monitoramento e restauração coralínea em Itaparica (BA) passa por implantação de colônias, manejo de espécie invasora e educação ambiental

Nem só de golfinhos, baleias e peixes das mais diversas espécies vive o ecossistema marinho. Lá no fundo do mar, onde os olhos não alcançam, estão o que podemos considerar “termômetros” importantes da saúde do Oceano: os corais.
E é para protegê-los que o Projeto Mares, iniciativa da Organização Socioambientalista PRÓ-MAR, acaba de retomar suas atividades em prol da restauração coralínea na Ilha de Itaparica. O nome em tupi significa “cerca feita de pedras”, fazendo referência direta aos recifes de corais que contornam a Ilha, próxima a Salvador (BA), e que funcionam como barreira natural contra as ondas.

Nesta nova fase do Projeto, que será executada ao longo de quatro anos e prevê o cultivo e a implantação de 5 mil colônias da espécie Millepora alcicornis, popularmente conhecida como coral-de-fogo, o Mares amplia sua atuação ao fortalecer a integração entre ciência e comunidade por meio da abordagem de ciência cidadã, envolvendo diretamente moradores nas ações de monitoramento e restauração.
Como parte desse processo, já estão previstos cursos formativos com início no mês de maio, voltados tanto à qualificação técnica em restauração de corais quanto à formação de gestores e educadores para atuação em Educação Ambiental.
A retomada, com a continuidade da parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, ocorre depois de atividades intensas em 2023 e 2024. Nesse período, além do monitoramento e da restauração coralínea em uma área de 1,5 km² no Recife das Pinaúnas, com o cultivo e a implantação de mais de 1,6 mil colônias, também foram realizadas ações contínuas de Educação Ambiental.
Mais corais, mais biodiversidade
O coordenador geral do Projeto Mares, José Roberto Pinto, conhecido como Zé Pescador, recebeu a equipe de reportagem da Eco Nordeste na sede do PRÓ-MAR e falou, enquanto voltava de um mergulho segurando em uma das mãos um coral restaurado, sobre a relevância desse trabalho: “Itaparica já tem naturalmente esses corais que prestam um grande serviço ecossistêmico, e que pode envolver também a comunidade local, para que ela possa ter renda a partir da conservação”.
Ele explica que o coral fornece abrigo e alimentação para diversos crustáceos, moluscos e peixes. “Você vê isso em cada colônia de coral, quando você coloca no recife, o peixinho já fica ali, já toma conta, aquilo traz o alimento para ele”, descreve.
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“Além de fortalecer a biodiversidade, tem o sequestro de carbono, a redução dos efeitos dos gases do efeito estufa, porque boa parte do carbono é dissolvido no mar e os corais retiram esse carbono que está dissolvido no Oceano. O coral é um sumidouro muito importante do carbono”, completa.
A tridimensionalidade, em formato que parece uma árvore, é uma das características marcantes da Millepora alcicornis. Quem explica sobre essa e outras curiosidades da espécie, uma das mais sensíveis à crise climática, é o coordenador científico do Projeto Mares, o biólogo e doutor em Ecologia, Ricardo Miranda:
Perigos que vêm de fora
Ao contrário do que muitos podem pensar, corais não são plantas, mas animais, e enfrentam muitas ameaças. Entre elas, estão:
- Problemas de saneamento básico que levam o esgoto para o mar
- Alterações climáticas com aumento da temperatura do Oceano, que provocam o branqueamento e a morte dos corais
- Presença de espécies invasoras transportadas pela navegação, incrustadas em embarcações

Até mesmo a proliferação excessiva de algas pode prejudicar os corais. Por isso, o controle de algas, bem como a retirada das espécies exóticas, são algumas das ações de manutenção dos recifes do coral-de-fogo em Itaparica.
Problema que virou solução
O coordenador científico Ricardo Miranda explica que o Projeto Mares começou fazendo ações para controle desses corais invasores, especialmente o chamado coral-sol (Tubastraea spp.). No entanto, surgiu o questionamento de como destinar esse material, devolvendo-o para o mar de alguma forma.
“As estruturas dos esqueletos dos corais são úteis para o Oceano, porque sequestram carbono, então é importante a gente manter esse material (do coral invasor) no mar de alguma forma, mas não vivo, para não ameaçar os corais nativos”, aponta. “Então, uma forma foi utilizar essa matéria-prima para retornar ao mar servindo de base para a sementeira dos corais nativos. Ou seja, é transformar o problema em uma solução.”
No vídeo a seguir, ele mostra na prática essa metodologia, resultado da experimentação exitosa do Zé Pescador:
O fundo do mar não é lixeira
Outra ameaça que não pode ser ignorada é o excesso de lixo que vai parar no fundo do mar. De fraldas a pneus, são muitos os objetos descartados que poluem o Oceano.
Na passagem para acompanhar as atividades do Projeto Mares, em Itaparica (BA), a equipe da Eco Nordeste viu de perto o lixo recolhido em mais uma limpeza de mar e praia, promovida pela Organização Socioambientalista PRÓ-MAR.
Em parte de uma manhã, foram retirados 155 kg de resíduos. O volume costuma ser ainda maior após grande movimentação de pessoas nas praias, como é comum em feriadões.

Entre os materiais recolhidos, garrafas de vidro e PET, tampinhas, canudos e outros plásticos, além de solas de chinelos e tecidos, evidenciando a presença de resíduos de uso cotidiano descartados de forma inadequada.
Geraldo Fonseca, coordenador de Educação Ambiental do Projeto Mares, é categórico ao dizer que “80% do que a gente recolhe com as equipes em ações assim são de plástico”.
Sobre a importância de envolver a comunidade, em especial as crianças e os adolescentes em ações desse tipo, diz que precisamos falar “da Economia Azul, das famílias que sobrevivem do mar. Além de falar para não poluir e sobre a importância de protegermos o oceano e sua biodiversidade, abordamos as relações com o mar, que passa por moradores da região, pescadores, marisqueiras, povo de santo e turistas, por exemplo”.


