Eco Nordeste vai à Mongólia para a COP17 de Desertificação

A diretora executiva da Eco Nordeste Maristela Crispim fará a cobertura da conferência na capital Ulã Bator com apoio do ClimaInfo

Uma mulher em trajes tradicionais mongóis e adereço na cabeça está montada em um camelo no deserto, sob a luz do sol. Ao fundo, veem-se dunas de areia e um céu azul sem nuvens.
COP17 de Desertificação ocorre entre os dias 17 e 28 de agosto, em Ulã Bator, capital da Mongólia. Em 2026, a UNCCD reforça a pauta das pastagens e dos pastores | Foto: UNCCD / Divulgação

A 14 mil quilômetros e 11 horas à frente no tempo de Fortaleza (CE), a capital da Mongólia Ulã Bator recebe a 17ª edição da Conferência das Partes (COP) da Desertificação, promovida pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês) entre os dias 17 e 28 de agosto de 2026.

O evento reunirá delegações de 197 países, engajadas no lema Restaurando a terra, restaurando a esperança, entre eles o Brasil. O País tem potencial para protagonizar as discussões sobre degradação da terra e desertificação, principalmente pelas experiências no Semiárido brasileiro.

A Caatinga, por exemplo, é o semiárido mais biodiverso do mundo e a maior e mais contínua área do bioma das Florestas e Arbustais Tropicais Sazonalmente Secos (Fatss) do continente americano. Da mesma maneira, o Brasil contribui com o histórico de aprendizados e estratégias socioeconômicas de convivência com a seca e combate à desertificação.

Uma mulher sorridente com óculos e colete bege olha para a câmera enquanto está em uma ponte suspensa de madeira em uma área verde exuberante. Outra pessoa pode ser vista subindo a ponte ao fundo
Maristela Crispim é fundadora e diretora executiva do Instituto Eco Nordeste | Foto: Adriana Pimentel

Você poderá acompanhar os bastidores, as movimentações e demandas da sociedade civil brasileira e os resultados da COP17 de Desertificação aqui na Eco Nordeste. A jornalista Maristela Crispim, co-fundadora e diretora executiva, irá à Mongólia para cobrir o evento, com apoio do Instituto ClimaInfo.

Maristela cobre desertificação há pelo menos 30 anos e participou da cobertura da COP30 do Clima, em Belém (PA), também abordando a relevância da Caatinga como sumidouro de carbono e a urgência de impedir a desertificação.

“Confesso que estou um pouco apreensiva e ansiosa com a iminência de cruzar o Planeta para fazer essa cobertura. Ao mesmo tempo, estou empolgada. Cobrir uma COP de Desertificação é um sonho antigo, já que acompanho a pauta há décadas”, compartilha a jornalista.


Brasil quer reconhecimento
da Caatinga na
COP17 da Desertificação

“Das três grandes convenções da ONU, a da terra é a que menos aparece nos jornais, e talvez seja a mais parecida com a vida de quem nasceu no Nordeste”, reflete Aldrin Martin Pérez-Marín, correspondente científico do Brasil na COP17 da UNCCD. “O clima cuida do ar que respiramos, a biodiversidade cuida das espécies, e a UNCCD cuida da terra que nos dá de comer. O Semiárido guarda uma história que o mundo ainda não ouviu direito”.

Segundo Aldrin, a COP17 é importante por ser uma conferência de “passagem”, decidindo três pontos que pesarão para a próxima década:

  1. a régua com que o mundo vai medir a saúde das terras, que é esse quadro pós-2030 e o indicador ODS 15.3.1;
  2. o dinheiro que vai financiar o combate à seca, tema da decisão sobre advocacia política da seca, o documento ICCD/COP(17)/11;
  3. o lugar dos povos que vivem do pasto e da terra, tratado na decisão sobre pastagens e comunidades pastoralistas, o documento ICCD/COP(17)/10. 
A imagem mostra um homem de pele morena e cabelos escuros e curtos, sorrindo e olhando para a câmera. Ele veste uma camisa de manga longa verde-oliva, com os braços cruzados à frente do corpo. Ao fundo, há uma paisagem ampla e ensolarada: um grande lago de águas azuis, áreas de vegetação verde e algumas casas espalhadas. Montanhas baixas aparecem no horizonte, sob um céu azul claro com poucas nuvens brancas
Aldrin Marín é pesquisador do Insa, coordenador do OCA e correspondente científico do Brasil junto à UNCCD | Foto: Arquivo pessoal

“Como cientista, tem uma coisa que não me sai da cabeça. A Caatinga não está escrita em nenhum dos textos que estão sendo negociados. E isso acontece justamente na conferência em que se decide o conteúdo do próximo Global Land Outlook, o grande relatório científico da terra no mundo”, aponta. “Se a Caatinga não entrar agora, ela some do mapa da ciência por mais dez anos.”

“Há também um alerta que a ciência tem obrigação de fazer em voz alta. Um dos textos em discussão quer transformar a terra e a resistência à seca em uma espécie de aplicação financeira, chegando a falar em reconhecer a terra como ‘classe de ativo’, sem trava, sem garantia de dinheiro novo, sem ouvir quem mora no lugar”, alerta.

“Dinheiro para enfrentar a seca é urgente e bem-vindo. Agora, transformar terra e água em papel de negócio é outra conversa. Recuperar a terra tem que devolver direito a quem vive nela, não transformar esse direito em mercadoria”, ressalta.

Esta imagem captura uma plenária vibrante durante um encontro de agricultores experimentadores. Em um auditório lotado, a cena é dominada por dezenas de pessoas, homens e mulheres de diversas idades, que expressam entusiasmo e união. Muitas delas estão com os punhos erguidos e expressões de quem entoa um grito de guerra ou canção coletiva. A maioria veste camisetas brancas ou amarelas com logotipos do evento e da ASA (Articulação Semiárido Brasileiro), além de bonés brancos e crachás de identificação pendurados no pescoço. Em destaque no centro, duas mulheres negras de óculos cantam com fervor, simbolizando a força da liderança feminina no campo. O ambiente é de mobilização social, refletindo um momento de decisão política ou celebração de conquistas da agricultura familiar.
Plenária do primeiro dia do 3º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores, em 2013, na Paraíba | Foto: Ana Lira / Arquivo ASA

Para a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), a participação da sociedade civil na COP da Desertificação é “essencial”. “São as comunidades que vivem esses impactos de seca e degradação da terra, que conhecem esses desafios, mas também estão nesses territórios encontrando as soluções”, explica Ivi Aliana, coordenadora executiva da ASA e integrante da Comissão Nacional de Combate à Desertificação.

“(Nosso objetivo é) levar essa experiência para os espaços de negociação, fortalecer o debate, apresentar as estratégias que os territórios têm construído por meio de políticas públicas, do fortalecimento da agricultura familiar, da convivência com o Semiárido, do manejo dos nossos recursos naturais”, elenca. “Nosso desejo é que as decisões tomadas no âmbito das conferências estejam conectadas com os territórios”.


Recaatingamento e
avanços do Brasil na pauta

O diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires, destaca que o Brasil chega à COP17 de Desertificação com um conjunto de anúncios de medidas e iniciativas para o enfrentamento da desertificação no Brasil.

“Nesse ciclo de 3 anos e meio de governo, a gente conseguiu avançar na elaboração do Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB Brasil)”, comenta. “Nós estamos elaborando os planos estaduais de combate à desertificação, que fortalecem uma agenda para governança multinível da política de implementação da política de combate à desertificação.”

Placa fixada em galhos de uma árvore com o texto "Recaatingar é preciso! A Caatinga vale mais em pé do que desmatada". A placa traz logotipos institucionais e um selo redondo com ilustração de cactos.
A Comunidade Tradicional de Fundo de Pasto de Malhada da Areia, em Juazeiro (BA), é uma das 40 comunidades baianas que aplicaram o recaatingamento | Foto: Feijão Almeida / Governo da Bahia

A delegação brasileira levará à COP o Programa Recatingar, “como um recorte importante do Brasil para a recuperação socioprodutiva de terras degradadas do bioma Caatinga, com o objetivo de sensibilizar os organismos internacionais e fundos e agências de fomento para o financiamento dessa agenda de restauração”.

A pauta do recaatingamento será fortalecida pelo Consórcio Nordeste. “É importante para mostrar que o Brasil atua em rede nessa agenda e que a agenda climática também é uma agenda tributária, de ações de combate à desertificação e de fortalecimento do recaatingamento”, explica Glauber Piva, articulador de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável do Nordeste.

“O Consórcio Nordeste participará da COP17 da desertificação com o intuito de apresentar projetos, de buscar parcerias, ampliar os diálogos internacionais e aprofundar a perspectiva de termos um fundo da caatinga com recursos nacionais e internacionais. Esse é o coração da nossa participação na cópia da Mongólia”, conclui.

Uma fotografia em plano médio e contraluz destaca um cacto com múltiplos braços verdes e cilíndricos que crescem verticalmente, cobertos por espinhos claros e pontiagudos. A planta ocupa a metade inferior da imagem, com seus gomos projetando-se em direção ao topo, enquanto o fundo é composto por uma vegetação densa e verdejante de árvores com folhas pequenas, criando um efeito de luz filtrada e sombras suaves. A iluminação natural vem de cima, realçando a textura áspera do cacto e o brilho das folhas ao fundo
A Caatinga é a única floresta 100% brasileira e mostrou-se altamente eficiente no sequestro de carbono, mesmo em condições de seca extrema | Foto: Adriana Pimentel

Ainda, o País terá side events para divulgação da meta voluntária para a neutralidade da degradação da terra (LDN, na sigla em inglês) e para divulgar o andamento do relatório sobre o status de degradação das terras dos biomas brasileiros.

“Essa COP também é importante para fortalecer dois outros espaços: a instalação dos grupos de trabalho de povos indígenas e comunidades locais, que foram propostos pelo Brasil na COP16 em Riad; e esse é o ano do pastoralismo, das pastagens e dos pastores”, continua Alexandre.

“Essa é uma oportunidade para a gente dar atenção e importância para as comunidades de fundo e fecho de pasto, geraizeiros, que são as comunidades que se identificam com essa agenda do pastoralismo no Brasil; assim como outras comunidades que estão em outras regiões fora do Semiárido brasileiro, mas que também têm toda uma identidade relacionada ao pastoralismo”, finaliza.

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