Impressão 3D do crânio de homem de 60 anos que habitou a região há 1.300 anos AP é devolvida às comunidades da Serra do Evaristo (CE)

Há cerca de 1.296 e 1.400 anos antes do presente (AP), viveu e morreu um homem. Não é possível dizer que ele vivia no Ceará — naquele espaço tempo, estávamos alheios à colonização e à construção de um Brasil e um Nordeste —, mas mil anos depois ele foi encontrado nesse contexto fronteiriço. Mais especificamente no Sítio Arqueológico Evaristo, em Baturité (CE).
O que significa anos antes do presente? Essa é a escala de tempo usada pela arqueologia e pelas datações com radiocarbono. Como a técnica surgiu em 1950, este é o ano referência, ou seja, a datação é de 1.296 ~ 1.400 anos antes de 1950.
Este Homem tinha um nome, mas não o conhecemos. Tinha parentes, um lar, um fazer e uma relação com o ambiente, por sua vez muito parecido com o que presenciamos hoje em dia. Uma caatinga arbustiva densa, com floresta úmida. Uma caatinga fria quando chove, quente quando não.
Foi esse conjunto de fatores que culminou no que temos certeza sobre o Homem: ele morreu com impressionantes 60 anos de idade (quem sabe mais) e teve uma vida boa. “É uma idade muito avançada para a época”, confirma o arqueólogo cearense Igor Pedroza, um dos coordenadores da escavação que encontrou, em 2012, o crânio do Homem.
A arqueóloga Cláudia Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) também coordenou as investigações, financiadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Isso demonstra que ele vivia muito bem, se alimentava muito bem”, destaca o pesquisador pós-doc do Laboratório de Radiocarbono da Universidade Federal Fluminense (UFF), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Geociências (Geoquímica/UFF), e membro da Rede Brasileira de Reprodutibilidade (RBR).
Na dieta do Homem, mandioca, batata doce, abóbora, caju e palmeiras, que conferiram a ele mais ou menos 1,70 metro de altura e um corpo robusto. Tudo evidência apontada pelo primeiro estudo de arqueobotânica do Ceará, publicado em 2014, demonstrando o manejo de diversos tipos de cultivo de plantas de matas úmidas e do semiárido.
Após 14 anos, o crânio do Homem volta à Serra do Evaristo como um modelo impresso em 3D, durante o final de semana de 18 e 19 de julho, em excursão de divulgação científica promovida por Igor. O resto do esqueleto original, encontrado em ótimas condições em um conjunto de três vasilhas com função funerária, ficou depositado na reserva técnica do Museu Comunitário da Serra do Evaristo.

No entanto, com autorização das comunidades indígenas e quilombolas da região e do Iphan, Igor levou o crânio e a mandíbula para Fortaleza, a fim de realizar uma tomografia do material na Clínica Sonimagem, do doutor Francisco de Assis Cordeiro. Após o exame, os vestígios retornaram ao museu.
Ocorre que, com as tomografias em mãos, Igor refletiu que não poderia ficar com elas: “Eu tenho que devolver”. Assim surgiu a ideia de fazer uma impressão 3D do material e entregá-la à comunidade; o que fariam com o material seria decisão da comunidade.

“Receber a reprodução em 3D do crânio representa um marco para nós. Antes de tudo, esse gesto simboliza respeito, reconhecimento e cuidado com nossos parentes ancestrais, reafirmando que eles não são só objetos de estudo, mas pessoas que integram nossa história, nossa memória e nossa continuidade como povo”, comenta Gleidison Karão Jaguaribaras, pesquisador indígena doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia, com concentração em Arqueologia, da Universidade Federal do Pará (PPGA UFPA).
“Durante muito tempo, a arqueologia brasileira afastou os povos indígenas de seu próprio patrimônio. Corpos, objetos e artefatos eram retirados dos territórios e levados para museus e universidades, enquanto as narrativas sobre eles eram construídas quase exclusivamente pelos pesquisadores. Isso criou uma relação desigual entre ciência ocidental e povos indígenas”, reflete. “A devolução da réplica rompe, ainda que simbolicamente, com essa lógica.”

Indígena Karão Jaguaribaras, Gleidison explica que seu povo habita o território de Baturité há muitos séculos. “Por isso, os chamados ‘sítios arqueológicos’ não representam, para nós, um passado distante ou uma civilização desaparecida. Eles são vestígios da história de um povo que continua vivo. São lugares que conectam nossos ancestrais às gerações atuais e futuras”, pontua.
Para ele, descobrir que o ancestral viveu mais de 60 anos foi “marcante”. “Além de revelar aspectos importantes sobre a saúde e as condições de vida da população na época, reforça que estamos diante da história concreta de pessoas que viveram, construíram relações, envelheceram e deixaram descendentes”, orgulha-se.
Mais sobre arqueologia
na Eco Nordeste:
Uma oportunidade
de refletir sobre o
respeito aos mortos
Você deve ter percebido que em nenhum momento da reportagem o crânio do Homem é visível. Nas fotos, ele aparece pixelado. A razão é uma discussão ética no mundo da arqueologia: é necessário expor corpos para aprender sobre eles?
“Eu sou da opinião de que a gente deve evitar a exposição de vestígios humanos”, defende Igor Pedroza. O principal motivo é compreender que esses materiais eram pessoas com histórias, com nomes próprios e com identidades que precisam ser respeitadas. “A gente tá tão habituado à morte, que não existe mais o espanto (de se deparar com essas imagens).”

“Quando a gente vai escavar um indivíduo, a gente tem que ter um cuidado diferente, um respeito a mais nessa escavação”, pontua o arqueólogo. Nisto, adiciona-se outra camada: essas pessoas, por mais antigas que sejam, são parentes e familiares dos que ainda vivem nos territórios.
Eles mesmo, aliás, seguem ligados às gerações seguintes pelos “umbigos da própria terra”, como descreve Gleidison ao detalhar a cosmologia Karão Jaguaribaras. “A morte não representa um fim, mas uma continuidade da vida e das relações”, conta. Confira o relato na íntegra no fim da matéria.
“A descoberta despertou sentimentos muito diversos (na comunidade)”, relembra Gleidison. “Por um lado, existe o interesse em compreender melhor nossa própria história e conhecer aspectos da vida dos nossos ancestrais. Por outro, há um profundo respeito pelos locais de sepultamento, que para nós é sagrado.”
“Na perspectiva Karão Jaguaribaras, esses lugares não são depósitos de vestígios arqueológicos. São espaços onde nossos parentes continuam presentes em outra forma de existência. Sempre que um sepultamento ancestral é escavado, sentimos que algo muito sensível está sendo tocado, inclusive em nossa espiritualidade.”
Dessa forma, a exposição de vestígios humanos precisa ser cuidadosa e envolve muita reflexão. Na prática, museus ao redor do mundo desenvolvem diversas estratégias para atender ao debate.
Em alguns, eles ficam em gavetas fechadas, ao invés de expostos às claras. Em outros, as salas com corpos humanos são mais escuras e até convidam os visitantes a evitarem fotos. A ideia é criar espaços que estimulem a privacidade, o respeito e o cuidado ao tratar aqueles ancestrais.

Ao mesmo tempo, esses exemplos estão longe de serem a resposta final para o debate ético sobre a exposição de vestígios humanos. Do ponto de vista de Igor, o Brasil ainda precisa avançar muito no assunto. “Existe um gradiente muito complexo entre difundir (aquele conhecimento) e a ultra-espetacularização da morte”, frisa.
“E, às vezes, esses vestígios viram uma espécie de troféu”, critica o pesquisador. “Há até um dizer dos indígenas sobre isso: ‘Quando um arqueólogo escava um cemitério, ele vira um doutor’.”

Segundo Gleidison, a posição das comunidades indígenas é de preservar os locais sempre que possível, evitando intervenções. Por outro lado, nos casos das pesquisas serem realizadas, elas devem ocorrer em diálogo permanente com os povos indígenas, respeitando os protocolos culturais e espirituais, “buscando reduzir ao máximo os impactos cosmológicos”.
“Esse tipo de pesquisa, quando realizada com ética, participação indígena e respeito às nossas formas de compreender o mundo, contribui para a produção científica e reparação histórica”, destaca. “Ela ajuda a reconstruir narrativas sobre nossa trajetória, fortalecendo a memória de um povo que continua vivendo no mesmo território onde seus ancestrais foram cultivados.”
Na voz de Gleidison:
a cosmologia
Karão Jaguaribaras
Apesar de a historiografia oficial da região, durante muito tempo, ter invisibilizado nossa presença, o povo Karão Jaguaribaras habita esse território há muitos séculos.
Nossa memória coletiva, somada a documentos produzidos por cronistas e historiadores, registra episódios de contato, resistência e permanência, como as narrativas sobre o guerreiro Baturité e os longos conflitos ocorridos entre os séculos XVII e XVIII, que marcaram a perda gradual do controle de parte do nosso território.
Por isso, os chamados “sítios arqueológicos” não representam, para nós, um passado distante ou uma civilização desaparecida. Eles são vestígios da história de um povo que continua vivo. São lugares que conectam nossos ancestrais às gerações atuais e futuras.

Nossa relação com esses espaços passa pela cosmologia Karão Jaguaribaras. Compreendemos nosso povo como uma grande árvore chamada Yorém, da qual tod@s fazemos parte.
Ao longo da vida, amadurecemos e deixamos nossas Pingoró (nossas sementes, nossos filhos), garantindo a continuidade da vida e das gerações. Quando encerramos esta encarnação, nosso corpo é colocado em um útero de barro e cultivado no seio da Mãe Terra, retornando às raízes dessa grande árvore e fortalecendo os vínculos que unem ancestrais, vivos e aqueles que ainda virão.
Assim, voltamos às raízes dessa grande árvore, permanecendo ligados às gerações seguintes pelos umbigos da própria terra.

Embora nossas práticas funerárias tenham sofrido transformações ao longo dos séculos em razão dos processos coloniais e hegemônicos, esse entendimento permanece vivo. Ainda hoje realizamos anualmente a Celebração das Pingoró, reafirmando que a morte não representa um fim, mas uma continuidade da vida e das relações.
Mesmo diante de inúmeros processos de expulsão e violência histórica, continuamos vivendo em aldeias localizadas nas proximidades do sítio arqueológico do Evaristo, inclusive no mesmo município onde ocorreu a escavação.
Como sempre aconteceu ao longo da nossa história, seguimos transitando por esse território, mantendo vivas nossas relações espirituais, culturais e afetivas com esses lugares.



