O Cânion do Poti, elo entre Ceará e Piauí, é um monumento de beleza histórica, geológica e ambiental, mas enfrenta o desafio de conter o turismo predatório

Conexão natural entre o sertão do Ceará e as terras piauienses, o Cânion do Poti rompeu as escarpas da Ibiapaba e tornou-se um monumento de beleza cênica arrebatadora, um testemunho de um dos processos da História da Terra. No entanto, o que antes era um santuário protegido pelo isolamento geográfico e pelo difícil acesso, hoje tanto pode atrair o interesse científico quanto os riscos do turismo predatório, que avança por todas as partes do Planeta.
A singularidade do Poti começa em sua própria gênese. Enquanto a maioria dos rios segue um curso previsível, o Rio Poti desafia a lógica. O pesquisador Rubson Maia, professor de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que a formação é o resultado de um fenômeno geológico espetacular. “Ele nasce no sertão do Ceará, rompe a borda da escarpa da Ibiapaba e atravessa para o lado do Piauí. Nessa travessia, ele desenvolve o cânion”, descreve.

Segundo ele, não foi a força da água que escavou rochas moles, mas sim a inteligência da natureza em aproveitar falhas pré-existentes: “Ali são rochas extremamente resistentes. Tinha muita densidade de fratura e essas fraturas foram se conectando, permitindo o fluxo da água por meio delas. Na medida em que a água erodiu, os blocos colapsaram, formando o que vemos hoje”.
Essa arquitetura natural serviu de abrigo e rota para formas de vida que hoje só existem no registro fóssil e para povos que deixaram sua marca no arenito. Gilson Miranda, biólogo e gestor da Reserva Natural Serra das Almas, mantida pela Associação Caatinga (AC), enfatiza que a experiência no cânion é um mergulho no tempo:
“Toda a parte geológica é um importantíssimo registro histórico que remonta à pré-história. Temos icnofósseis de animais que viviam ali e as gravuras rupestres que são riquezas inestimáveis”. Ele revela ainda que novas descobertas continuam surgindo, indicando que o local foi habitado por diversos povos ao longo dos tempos.

Entretanto, o tom de encantamento de Miranda rapidamente dá lugar à preocupação. O biólogo é testemunha ocular da degradação causada pela falta de consciência de quem agora chega com facilidade ao local. “O Parque está enfrentando um problema seríssimo. As pessoas estão indo conhecer, mas ainda não há ordenamento. Algumas deixam resíduos, outras picham”, lamenta.
O risco à integridade do cânion não vem apenas do vandalismo direto, mas também das grandes intervenções estruturais na região. A futura Barragem de Fronteiras, no lado cearense, embora vista como essencial para o abastecimento de água em uma região árida, impõe desafios ambientais significativos.
Miranda alerta para o impacto na fauna: “Vai impedir o fluxo gênico de animais. Todos os que vinham daquela região e chegavam à Serra das Almas não conseguirão mais”.
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Para conter o avanço dessas ameaças, a criação de Unidades de Conservação (UCs) tornou-se a principal linha de defesa. Recentemente, o esforço conjunto entre entidades e o poder público resultou na criação de cinco novas UCs no Ceará, com o apoio do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre).
Entre elas, a Área de Proteção Ambiental (APA) Serras da Caatinga (66.387,38 ha) e o Monumento Natural (Mona) Furna dos Ossos (60,37 ha), além da APA Serras de Irauçuba (4.966,24 ha), a Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) Pontal da Serra da Ibiapaba (6.134,39 ha) e o Refúgio de Vida Silvestre (Revis) Picos da Caatinga (2.181,77 ha). Estas áreas, regulamentadas por decretos estaduais no fim de 2025, visam criar uma barreira legal contra o desmatamento e as queimadas na região.

Samuel Portela, coordenador de Conservação da Biodiversidade da Associação Caatinga, reforça que a proteção é estratégica, especialmente para espécies ameaçadas, como o tatu-bola.
“O Parque Estadual do Cânion do Rio Poti possui alta biodiversidade e relevância hídrica, mas sua importância contrasta com as vulnerabilidades, como os impactos antrópicos e a fragilidade na gestão. O ordenamento do uso público é essencial para garantir a conservação a longo prazo”, defende Portela.

Do lado piauiense, o governo estadual tenta equilibrar a balança entre preservação e economia por meio do “Pacto pela Economia”. Em dezembro passado, o titular da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh-PI), Feliphe Araújo, visitou a região.
Na ocasião, ele detalhou que o município de Buriti dos Montes foi escolhido para potencializar o ecoturismo: “queremos envolver a comunidade local com hotéis, guias e agências. A ideia é transformar o potencial em produto, mas com diagnóstico e plano de ação”. Os números confirmam a urgência dessa gestão: a visitação saltou de 1.200 pessoas em 2023 para 1.800 apenas no primeiro semestre de 2025.

Olavo Júnior, prefeito de Buriti dos Montes, reconhece que os desafios são proporcionais ao potencial: “Estamos buscando desenvolver o Município e potencializar áreas que estavam paradas. O investimento privado, como um hotel de R$ 20 milhões, mostra que o turismo vale a pena. Agora, lutamos pelo acesso asfáltico para potencializar ainda mais”.
Guias como Jair do Cânion é um dos que conseguem, ao mesmo tempo, explorar o potencial turístico e promover educação ambiental. Nativo da região, formado em Geografia e colaborador eventual da Associação Caatinga, ele reconhece que os desafios existem, mas trabalha dia a dia para divulgar o destino como algo verdadeiramente transformador para as pessoas que têm o privilégio de conhecer o lugar.
Parceria estratégica
A Associação Caatinga e o Instituto Alok uniram forças para lançar o projeto “Ecoturismo e Desenvolvimento na Caatinga”, iniciativa que visa promover a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável em comunidades do Semiárido brasileiro. Com duração de 25 meses, o projeto será desenvolvido nos municípios de Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI), no entorno da Reserva Natural Serra das Almas, unidade de conservação de 6.285 hectares gerida pela AC desde 2000.
Realizado por meio do Programa Planeta Verde, do Instituto Alok, com o apoio do Fundo Comunitário da Airbnb, o projeto beneficiará diretamente 380 pessoas por meio de ações que envolvem ecoturismo, educação ambiental, valorização cultural e geração de renda baseada na sociobiodiversidade.
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A iniciativa articula estratégias que fortalecem a proteção ambiental e melhoram a qualidade de vida das comunidades locais. Entre as ações previstas estão a implantação de infraestrutura de visitação, como a construção de um mirante em uma das trilhas da Serra das Almas, e a criação de um roteiro ecoturístico regional que conecta atrativos naturais, culturais e comunitários do território.
Alok, que fez show, em Teresina, no dia 25 de abril, reafirma seu compromisso com a transformação social e ambiental. Para ele, a apresentação em Teresina foi a oportunidade ideal para dar visibilidade ao bioma exclusivamente brasileiro. “Estou muito animado para o show em Teresina e poder anunciar essa parceria. É uma iniciativa que gera consciência ambiental e também renda, fortalecendo o ecoturismo como alternativa econômica e de proteção da natureza”, afirmou o artista e filantropo.


