Pesquisadora abriu campanha de financiamento coletivo para documentar o pioneirismo de Maria Portela Veloso e outras anciãs da cajuína

Ao falar de cajuína, a memória da jornalista Sara Almeida Campos viaja para a imagem do avô. Seu José de Almeida Costa, como bom piauiense, era fã da bebida e tinha um ritual: procurar apenas os rótulos com nomes femininos.
No Piauí, onde o processo de feitura da cajuína foi reconhecido, em 2009, como patrimônio imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o protagonismo no preparo da bebida sempre foi das mulheres. Uma tradição familiar metódica, com o mesmo nível de cuidado e requinte do vinho.

Da percepção da importância da cajuína para o piauiense e do papel feminino na história do produto, restou em Sara a dúvida: quem foram as pioneiras da cajuína?
É o que a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) tenta responder no livro e no documentário Cajuína: substantivo feminino. Para seguir com a pesquisa, ela criou uma campanha de financiamento coletivo, com meta de 60 mil reais. O valor vai custear o processo de pesquisa, de produção, de impressão e de publicação do conteúdo.
O objetivo de Sara é preservar a memória de Maria Portela Veloso e outras anciãs da cajuína, a partir de “um mapa das artesãs da cajuína na zona rural e na cidade de Valença do Piauí”. “É preciso apresentar dados atualizados sobre essas mulheres e celebrá-las”, destaca.
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Beber cajuína é um ritual
“É importante dizer que a cajuína não foi criada por ninguém, porque ela é herança indígena”, frisa Sara Almeida Campos. “Os tabajara e os tremembé são apenas dois exemplos de povos indígenas que fazem o cauim, uma bebida de mandioca ou de caju, na qual as mulheres mastigam os pedaços do tubérculo ou do pseudofruto e cospem num pote de barro (para fermentar)”, descreve.
“E essa bebida é ritualística, ou seja, em celebrações, em rituais de passagem, em eventos importantes, é consumido o cauím até os dias de hoje.”
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Quando o saber-fazer do cauim encontra as famílias de descendência portuguesa e o conhecimento da produção de bebidas etílicas europeias, surge a cajuína em si. No entanto, ela é muito mais do que algo de beber; antes de tudo, ela representa um ritual.

No artigo “A cajuína em dois momentos do processo de modernização do Piauí”, publicado na Revista de Economia Agrícola, as antropólogas May Waddington Telles Ribeiro e Maria do Carmo Veloso (esta é uma das entrevistadas no documentário de Sara) apontam a cajuína como “inscrita nos rituais e etiqueta de hospitalidade piauiense”.
“É ofertada com cerimônia, gelada e em copos de vidro, aos visitantes, nas antessalas e varandas das casas. O gesto aparentemente prosaico é sempre acompanhado de um momento de descanso e transição entre o calor de ‘fora’ e a sombra de ‘dentro’ da casa, no qual a familiarização com o novo ambiente ocorre”, descrevem.
“A conversa sobre a cajuína degustada implica comparação com outras e, na maioria das vezes, termina com elogios e manifestações discretas de orgulho por parte da produtora. Cada cajuína reúne um conjunto de características que o consumidor conhece e comenta, discorrendo sobre as diferenças quanto à doçura, cor, cristalinidade, leveza ou densidade que derivam tanto do tipo de caju usado como de modificações nas técnicas de uma determinada produtora de um ano para o outro.”
Antes da cerimônia domiciliar, entra a produção em si. As mulheres usavam o excedente da produção do caju para produzir a cajuína, em um processo extremamente cuidadoso, como detalhado por Sara:
- os cajus são coletados de madrugada, para que o calor excessivo não fermente o pseudofruto;
- eles são descastanhados com barbante;
- são lavados de duas a três vezes;
- então, são prensados, momento em que sai o sumo do caju;
- logo, o sumo vai para um recipiente, onde ocorre a separação do tanino usando-se uma gelatina incolor. O tanino é responsável pelo travoso do caju;
- o suco do caju é filtrado com coadores de pano de algodão. É nesse momento que obtêm-se a água do caju, cristalina;
- a água do caju é envasada;
- por fim, o envasado é levado ao banho maria, momento no qual os açúcares são caramelizados.
“A cajuína tem tanta importância e detalhes quanto o vinho”, reforça a pesquisadora. “Cada cajuína tem um sabor muito particular, e produzir cajuína exige um trabalho muitas vezes exclusivo.”
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As pioneiras da cajuína
Mesmo a produção da cajuína tendo protagonismo feminino e piauiense, entra na história um homem cearense. Em 1908, o escritor e farmacêutico Rodolpho Teóphilo patenteia o nome “cajuína”, na justificativa de que algumas pessoas estariam imitando-o.
“Podemos falar que ele foi importante para divulgar a cajuína, para aplicar técnicas como o banho-maria na feitura dela — temos registro disso. Mas ele patenteou algo que já existia”, defende Sara. Isso porque, em 1879, uma personagem crucial para a popularização da cajuína chega à Valença do Piauí: Laura Soares.
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Foi nesse ano que dona Laura mudou-se de Oeiras, na época capital do Piauí, para Valença, já com o conhecimento de feitura da cajuína. “Ela já fazia cajuína com um nome de cajuína em 1879”, aponta Sara. Com ela, estava a filha Maria Portela Veloso, conhecida carinhosamente como dona Maricas, a grande pioneira da narrativa da pesquisadora.

Foi ela a primeira a comercializar e rotular a cajuína, entre 1920 e 1930, espalhando o refresco para além da divisa piauiense, levando a cajuína para estados como Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.
“Ela foi uma mulher muito à frente do tempo dela, em pensar em rotular a cajuína destacando o nome da cidade, o território”, rememora Sara. “E naquela época não existia gráfica no estado do Piauí, então o marido da dona Maria, o Clóovis Veloso, caixeiro-viajante, foi o responsável por ir até a gráfica Royal em Fortaleza para criar o rótulo e depois voltar pro Piauí. Isso explica também esse conflito entre Piauí e Ceará sobre quem inventou a cajuína.”

A relevância de Maria Portela Veloso vai além da bebida, já que ela tornou-se uma mobilizadora social do município. “Ela entrou em contato com o presidente da época para que abrisse uma estrada que hoje é muito importante em Valença do Piauí”, exemplifica a pesquisadora.
“O pessoal de Valença admirava muito a cajuína (dela), diziam que era saborosa”, relata Solange Portela, neta de dona Maricas, em entrevista à Sara Campos. “Era referência nacional, através dos caminhoneiros. Os caminhoneiros passavam aqui, a dindinha vendia as cajuína e eles levavam para outros estados do País.”

Além de Maria Portela Veloso, o material também contempla a trajetória de mulheres rurais como Regina Lúcia Soares Barbosa, responsável pela Cajuína São Francisco, Helena Maria Rodrigues de Amorim (Cajuína Dona Júlia), Maria José da Silva Freitas (Cajuína Dona Júlia) e Silmara de Souza Bezerra Oliveira (Cajuína Suita).
Trabalhadoras rurais
e o êxodo
Segundo Sara, o papel das mulheres rurais na continuidade e salvaguarda da tradição secular é mantido nos bastidores. Fazer cajuína sempre foi uma função feminina, com a adesão dos homens apenas quando o processo foi industrializado em grande escala. Recolocar o protagonismo das mulheres como destaque da cajuína é uma forma de valorizar o trabalho e o produto.
Por outro lado, há o desafio da sucessão. Assim como outros trabalhos artesanais nordestinos, da pesca às artesanias com bioprodutos, os filhos de produtoras e produtores de cajuína também estão perdendo o interesse em manter o trabalho dos pais.

“A questão sucessória na produção de cajuína artesanal tem sofrido esses desafios, até porque produzir cajuína exige uma dedicação grande, muitas vezes exclusiva dessas pessoas”, concorda a pesquisadora. “Agora, um ponto importante na produção de cajuína é que ela não dá prejuízo. Muito pelo contrário, eu vejo que muitas artesãs da cajuína melhoraram de vida, conseguiram reformar a casa, conseguiram trocar de carro, conseguiram viajar.”
“Então a cajuína é um negócio que te dá um retorno financeiro, mas eu diria que é necessário evitar o êxodo rural desses jovens e dessas jovens, oportunizando novos mercados, um comércio talvez mais preparado para a venda da cajuína”, analisa Sara.

Nesse sentido, ela defende políticas públicas exclusivas para a cajuína, capazes de atender às demandas específicas do caju. Entre elas, a logística.
“O estado do Ceará já conseguiu transpor essa questão dentro da indústria. Hoje em dia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, é muito mais fácil encontrar uma cajuína do Ceará do que uma cajuína do Piauí”, comenta. “Então eu diria que, nesse aspecto de comercialização, o Piauí tem muito que aprender com o Ceará.”
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Como apoiar o documentário
Cajuína: substantivo feminino
A campanha no site Benfeitoria vai até dia 16 de agosto e funciona no modelo de metas estendidas. Apoiadores de todo o Brasil podem colaborar financeiramente em troca de recompensas exclusivas, como exemplares do livro, ecobags e agradecimentos no documentário.
As doações podem ser feitas via PIX ou cartão de crédito e possuem diferentes faixas de colaboração que variam entre 35 e 800 reais.
Qualquer pessoa física ou empresa pode se tornar um benfeitor do projeto. As doações podem ser feitas de forma rápida e segura através do QR Code oficial da campanha ou diretamente pelo link na plataforma Benfeitoria.
Acesse o site da campanha para averiguar os tipos de apoios e brindes relacionados.


