No Dia da Caatinga, convidamos animais endêmicos para compartilhar suas rotinas e como eles se relacionam com o único bioma totalmente brasileiro

Sou raro. Pra ser mais preciso, em meio a essa vastidão de um planeta inteiro, você só poderá me encontrar no Brasil. Mas veja bem, não é em qualquer lugar do Brasil: sou essencialmente nordestino. Lá de onde floresce toda a diversidade do bioma Caatinga, embora em algumas vezes também possa ser encontrado no Cerrado.
Evito áreas de florestas densas, gosto mais das savanas, como a Caatinga arbustiva. E, pelos registros históricos, posso ser visto na natureza dos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Sergipe e Tocantins. Nunca mais fui visto no estado do Rio Grande do Norte, o que leva os cientistas a acreditarem que fui extinto por aquelas bandas.
Sou conhecido popularmente como tatu-bola-do-nordeste (Tolypeutes tricinctus) por um motivo especial: sou capaz de me enrolar como uma bola. Essa é uma poderosa estratégia de defesa. Ninguém pode me machucar quando estou envolto em minha dura carapaça, formada por pequenas placas justapostas que me protege contra choques mecânicos, incluindo ataques de predadores vorazes.
Ah! E tem mais uma particularidade a meu respeito: os padrões de disposição das placas que recobrem a minha testa funcionam como uma impressão digital. Cada indivíduo da minha espécie possui um padrão único dessas placas, o que nos torna seres ainda mais singulares.
Tenho hábito locomotor semifossorial, ou seja, tenho membros curtos e robustos, garras alongadas e escavo tocas, usadas para cuidar da minha prole e regular a temperatura do meu corpo.
Até um dia desses acreditava-se que eu era um dos únicos tatus que não escavavam tocas e utilizava aquelas escavadas por outras espécies, mas no ano de 2016 a ciência confirmou o contrário. Sou mesmo surpreendente, não é mesmo?
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Quando resolvo sair da minha toca, gosto de passear entre o fim da tarde e a primeira metade da noite. Esses são os meus horários favoritos para sentir o mundo lá fora e ir em busca de formigas, cupins, besouros e aranhas, meus alimentos favoritos.
Costumo produzir um ou dois filhotes por ninhada. O tempo de gestação dos meus filhotinhos ainda não foi monitorado em ambiente natural.

Contudo, um estudo realizado pelo cientista Rodolfo Magalhães, biólogo do Instituto Tamanduá que se dedica à pesquisas sobre a minha espécie, sobre o conhecimento ecológico de moradores da comunidade rural de Sumidouro, na Bahia, sugere que posso passar até 120 dias gestando minha prole.
Embora eu seja um mamífero tipicamente solitário, vários machos podem competir pelo acesso às fêmeas em período reprodutivo, podendo ocorrer disputas bastante acirradas, nas quais machos maiores tendem a ter mais sucesso no namoro.
Posso me reproduzir tanto na estação seca quanto na chuvosa, sugerindo que não tenho comportamento sazonal para a reprodução. Ainda não é do conhecimento dos humanos por quanto tempo posso viver, mas há registros de que um indivíduo em cativeiro viveu por mais de 17 anos.
Ameaças
Por mais que eu seja um bichinho simpático e interessante, a vida não tem sido fácil e a luta pela minha sobrevivência é necessária. Atualmente estou ameaçado de extinção sob a categoria Vulnerável de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) e o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima.
Passei cerca de 20 anos sem ser registrado na natureza até que fui redescoberto nos anos 1980. Ufa! Que alívio! Mas desde então, tenho sido continuamente classificado como ameaçado de extinção.

Sofro principalmente por que os humanos me caçam. É muito triste pensar que corro o risco de um dia sair da minha toca para buscar alimentos e acabar indo parar na panela. O que será dos meus filhotes?
Às vezes, acabo, sim, sendo alimento para os humanos, que são frequentemente flagrados em autos de infração no Nordeste do Brasil, e já fui bastante comercializado em mercados de caça nos anos 1980, na mesma região. Também tenho a minha existência ameaçada pela perda do meu lar para agropecuária e produção de energia eólica e solar.
“O hábito de se enrolar como uma bola quando se sentem ameaçados e permanecerem imóveis nessa posição facilita a sua captura. Portanto, mesmo quando não são os principais alvos de caça, acabam sendo capturados oportunisticamente, aumentando sua vulnerabilidade a essa prática”, destaca Rodolfo Magalhães.
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O cientista ressalta que um estudo no qual participou mostra que, nos últimos 30 anos, 76% das áreas mais adequadas para a minha espécie foram convertidas para uso dos seres humanos, sobretudo em cultivo agrícolas e pastagens. Contudo, a expansão de empreendimentos de produção de energia eólica e solar no Nordeste do Brasil também tem resultado em perda do meu hábitat, especialmente na última década.
“O tatu-bola-do-Nordeste é uma espécie rara, pois apresenta número de indivíduos relativamente baixo ao longo da sua distribuição, a qual também é relativamente pequena, centrada no Nordeste do Brasil”, comenta.

“Contudo, o tatu-bola parece estar se tornando cada vez mais raro devido à atividade humana. A espécie pode atingir altas densidades populacionais (indivíduos / área) em paisagens não sujeitas a alta pressão de caça e perda de hábitat, e extinções locais têm sido registradas ao longo da sua distribuição”, pondera Magalhães.
Símbolo de proteção da Caatinga
No ano de 2014, uma campanha encabeçada pela Associação Caatinga, instituição que luta pela conservação da minha espécie e do meu habitat, me elegeu como mascote da Copa do Mundo, realizada no Brasil. Fui batizado de “Fuleco” e me tornei um pouco mais conhecido por esse Brasil afora.
Para além de mascote do Mundial de 2014, posso perfeitamente ser considerado uma espécie bandeira do bioma Caatinga. Quer dizer que os humanos me consideram uma espécie que simboliza a conservação do bioma que me serve de casa e de todas as suas outras formas de vida. Isso porque, para que eu exista na Caatinga, todo um ecossistema ao meu redor precisa estar em equilíbrio. Além disso, por eu ser um habitante típico da mata branca, também posso ser um ótimo exemplo de espécie adaptada ao clima Semiárido.

“Tanto o tatu-bola-do-Nordeste quanto a Caatinga são historicamente negligenciados em esforços de pesquisa e conservação. Logo, o incentivo à conservação do tatu-bola também representa estímulo à conservação da Caatinga. Além disso, é uma espécie tradicionalmente importante para a sobrevivência e cultura das comunidades humanas no bioma que detêm amplo conhecimento sobre a espécie. Ao mesmo tempo, pode ser uma espécie popular nessas comunidades, o que favorece o engajamento delas em ações locais para a conservação da espécie e da Caatinga de modo geral”, reforça Rodolfo Magalhães.
Iniciativas de conservação
Duas iniciativas no Nordeste do Brasil têm promovido a conservação de populações de vida livre da minha espécie e do meu habitat.
O projeto ECP Tatu-bola, realizado pelo Instituto Tamanduá, implementa ações de conservação da espécie, como o monitoramento do tamanho populacional e a conscientização sobre estado de conservação entre moradores de comunidades locais. O projeto conta com participação ativa das comunidades em todas as suas etapas, desde planejamento de atividades até a condução delas.

Também sou amigo do pessoal da Associação Caatinga, uma Organização Social (OS) responsável por conduzir atividades voltadas à conservação e restauração da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos da Caatinga. Entre essas ações estão o apoio à criação de áreas protegidas privadas e a produção e plantio de mudas nativas para restauração ecológica, com foco na conservação da minha espécie.
Além disso, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ligado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), coordena, desde 2014, planos de ação nacionais para conservação de espécies ameaçadas de extinção que me incluem. O plano é responsável por delinear as ações prioritárias para conservação da minha espécie, com a contribuição de profissionais e organizações, além de coordenar a produção de materiais com orientações para o manejo apropriado dessas espécies.


