Roselita Vitor: “A agricultura é que tem salvado esse planeta”

Neste segundo episódio do especial Protetoras da Caatinga, a agricultora e militante do movimento de mulheres do Polo da Borborema defende o papel da agricultura familiar sustentável para a proteção da vida e da cultura no campo

A imagem apresenta um plano médio e de perfil de uma mulher negra de pele clara, identificada como Roselita Vitor, falando ou cantando com entusiasmo em um microfone preto que segura com a mão direita. Ela tem uma expressão decidida, com a boca aberta, e usa óculos de armação escura, um colar de contas pretas e um turbante azul com estampas de flores bege, amarrado com um nó frontal. Roselita veste uma camiseta de cor fúcsia vibrante. Ao fundo, levemente desfocada, aparece outra mulher com vestimentas de cores semelhantes, também segurando um microfone, sugerindo um evento público ou manifestação ao ar livre sob um céu azul com nuvens esparsas e árvores ao redor
Roselita Vitor Albuquerque é uma mulher negra agricultora, assentada e coordenadora do Polo da Borborema | Foto: Acervo pessoal

A Borborema é uma região formada por 13 municípios, no agreste da Paraíba, fortemente marcada pela presença da agricultura familiar. É dessa região que surgiram movimentos como as Ligas Camponesas, anterior à Ditadura Militar, e massacrado por esta, e que já reivindicavam direitos básicos para as mulheres em homens trabalhadores rurais. 

É lá também que vive e milita Roselita Vitor Albuquerque, mulher negra agricultora, assentada e coordenadora do Polo da Borborema, organização que, dentre outras ações, promove anualmente a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, um dos maiores eventos organizados por mulheres rurais no País. 

A marcha é um espaço de mobilização, anúncio e denúncia. Nos últimos anos, o evento tem sido incisivo sobre os impactos negativos das usinas solares e eólicas nas comunidades rurais, como o adoecimento da população e até a expulsão de famílias dos territórios. 

Para o segundo episódio do especial Protetoras da Caatinga, em alusão ao Mês Internacional das Mulheres, conversamos com Roselita sobre os diversos papéis das mulheres da proteção do bioma Caatinga, sobre a Agroecologia para a manutenção da Biodiversidade no campo e sobre a proteção das diversas culturas rurais, ameaçadas continuamente pelos grandes latifúndios e modelo de produção agroexportador.

A imagem mostra, em primeiro plano à esquerda, o rosto sorridente de uma mulher negra de cabelos cacheados e escuros, vestindo uma blusa clara e brincos de penas brancas. Ela está posicionada no que parece ser a parte superior de um carro de som vermelho, onde se veem papéis e equipamentos de áudio. Ao fundo, sob a luz do dia, uma longa multidão caminha por uma estrada de terra em uma área rural com vegetação rasteira e árvores esparsas. Muitas pessoas vestem camisetas lilás e carregam bandeiras brancas e roxas, além de guarda-chuvas coloridos para se protegerem do sol, criando uma linha sinuosa que se estende até o horizonte.
A organização Polo da Borborema promove anualmente a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, um dos maiores eventos organizados por mulheres rurais no país | Foto: Acervo pessoal

Rose Serafim – Qual é o papel das mulheres agricultoras na manutenção da biodiversidade da Caatinga?

Roselita Vitor – Eu penso que as agricultoras sempre carregaram consigo muitas das plantas, que servem de remédio. Já vi várias histórias das mulheres que usam a aroeira ou a cinza da Jurema para curar feridas. Quando a gente fala das plantas e dos animais, traz muitas histórias das plantas da Caatinga que estão lá e que tem várias serventias e muito saber dessas mulheres.

E essa dimensão desse saber eu acho que as mulheres sempre carregaram. Além disso, as plantas medicinais também têm algo muito profundo de conhecimento. Eu acho que é muito bonita essa relação.

A gente não pensa só no lucro. A gente quer ter renda, mas também quer sentir essas plantas, nessa relação de saúde e bem-estar

Roselita Vitor

Muito do que a gente tem da Caatinga, muitos dos saberes que a gente tem são a expressão do povo negro no Semiárido brasileiro, vem dessa raiz africana, dessa raiz indígena. E eu acho que hoje é que a gente consegue perceber.

Fomos desmistificando algumas coisas, como o umbu que antes era visto como uma planta que era para os tempos de fome, reconhecê-lo como uma planta nutritiva que é originária da Caatinga, do Nordeste, que assim como ela guarda água para sobreviver e que se mistura com as histórias das mulheres que resistiram por tanto tempo a tanta desigualdade.

Acho que a gente consegue ver essa dimensão quando vê a Caatinga sendo atacada, nesses últimos anos mais ainda. Porque quando a gente está olhando para essas falsas soluções sobre as energias renováveis, a partir dos empreendimentos eólicos, a partir das usinas solares e que a gente vê a Caatinga sendo retirada, é como se a gente fosse perdendo um pouco de nós também junto.

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E eu digo isso porque eu sou assentada da reforma agrária, sou neta e sou filha de agricultores sem terra. Vivi minha infância na roça e depois, quando eu tinha 12 anos, o patrão do meu pai vendeu a terra e a gente tinha que sair de lá e a gente saiu. Mas essa referência nunca saiu de mim. Faz 20 anos que eu moro numa área de assentamento e reforma agrária, área ocupada pelo Movimento Sem Terra (MST) aqui no território. E como é bonito ver essa Caatinga.

Eu adoro andar dentro do mato, olhando as plantas da Caatinga, com pé de juazeiro e como ele está em plena seca tão bonito, tão forte ali. Isso é como se fosse uma inspiração para gente, para a gente resistir aos ataques à Caatinga. 

O que é sentar de tarde debaixo do pé de umbuzeiro na frente de casa? Tem um significado tão grande. Não é só alimento, é uma relação também cultural, é um bem-estar. Eu acho que nós mulheres sentimos mais isso. Porque vamos para além do que é econômico, vamos também para aquilo que é saúde, que é relação recíproca. A gente analisa a natureza feminina e as plantas da Caatinga.

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Quando a gente hoje tem marchado em defesa da Caatinga, contra esse processo de retirada, é porque a gente sente muito isso. Imagine não ter uma paisagem de um pé de umbuzeiro, de um pé de jurema, de um pé de facheiro, quando você olha da sua janela.

O capital não vê isso, porque ele só pensa no lucro mesmo. Mas a gente não pensa só no lucro, a gente quer viver, a gente quer ter renda, mas a gente também quer ver essa paisagem. A gente também quer sentir essas plantas, nessa relação de saúde e bem-estar e desse saber que é tão forte. É um pouco desse movimento de mulheres que tem se colocado nessa defesa da Caatinga e dizer que a gente quer energia renovável, sim, mas não retirando a Caatinga.

Rose – O Polo da Borborema e os movimentos de agricultoras e agricultores têm denunciado muito o modelo de energias renováveis que vem sendo implantado no Brasil. Em especial, nos territórios rurais. Qual o modelo que vocês consideram melhor?

A imagem apresenta Roselita Vitor em plano médio, vista de perfil, enquanto discursa com vigor em um microfone preto. Ela é uma mulher negra de pele clara, usa óculos de grau de armação escura, um colar de contas pretas e um turbante azul com estampas florais bege, finalizado com um nó central. Veste uma camiseta de cor fúcsia vibrante que traz a ilustração de uma mulher e dizeres na parte inferior. Com a mão esquerda, ela segura algumas folhas de papel, possivelmente um manifesto ou roteiro. Ao fundo, uma segunda mulher com vestimenta semelhante também segura um microfone, indicando uma ação conjunta. O cenário é ao ar livre, com árvores e um céu azul com nuvens brancas, sugerindo um evento de mobilização social ou política.
Roselita Vitor | Foto: Acervo pessoal

Roselita – Essa tem sido a luta das últimas quatro marchas [das Mulheres]. A gente tem a marchado pela vida das mulheres e pela Agroecologia, que nasce nesse território que hoje mobiliza 6 mil mulheres rurais na semana do 8 de março. Essa expressão da marcha, ela nasce da importância da construção da Agroecologia, da convivência.  É afirmar o que a gente quer enquanto modelo de agricultura, de bem-viver para as mulheres e denunciar também as formas de violação.

Quando a gente fala Energia Renovável Sim, Mas Não Assim, estamos dizendo que queremos energia renovável, o planeta precisa. Nós, enquanto seres humanos, precisamos de uma outra fonte renovável.

Mas a gente não quer uma produção de energia que exclua as mulheres, que deixe as mulheres mais pobres. Não queremos um modelo de energia que retire as pessoas do seu território, do seu lugar. E é isso que a gente tem visto em vários lugares desse Semiárido brasileiro.

Primeiro porque aprendemos que no Semiárido brasileiro podemos descentralizar a água. A gente democratizou a água no Semiárido para as populações rurais. Então, também podemos democratizar a energia. Energia que seja produzida pelas famílias, que seja inclusiva, que as famílias tenham autonomia, inclusive, de fazer as placas.

Nessa nossa 17ª marcha, nós vamos ter o lançamento do programa 1 Milhão de Tetos Solares para o Semiárido. Que começa neste ano em quatro estados do Nordeste: Paraíba, Pernambuco, Piauí e Minas Gerais. 

A imagem mostra mulher de pé em um palco, falando ao microfone durante um evento formal. Ela é uma mulher negra de pele clara, com cabelos curtos e grisalhos, usa óculos de grau redondos, um vestido preto com estampa floral branca e vermelha, e um bracelete largo no pulso direito. Ao fundo, um grande painel digital vermelho exibe o título "VII Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores", decorado com ilustrações coloridas de um bode, um cacto e uma figura mítica indígena, além de logotipos do Congresso Brasileiro de Agroecologia e um QR Code. Roselita segura o microfone com a mão esquerda enquanto gesticula com a direita, apresentando uma expressão serena e comunicativa, em um ambiente iluminado por uma estrutura de tenda branca ao fundo
Na edição de 2026, marcada para o dia 12 de março, as mulheres vão anunciar a chegada do Programa 1 Milhão de Cisternas, promovido pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) | Foto: Acervo pessoal

A Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) construiu esse projeto que vai ser muito importante para mostrar não só para o Semiárido, mas para o mundo que é possível a gente produzir energia para nossas casas, é possível ter energia renovável para fortalecer a produção agroecológica e de convivência com o Semiárido e podemos até pode vender o excedente para uma empresa, por exemplo.

Mas o que acontece com esse outro modelo? É um modelo em que a energia não fica na comunidade, a comunidade não se beneficia da energia gerada pelas grandes usinas solares e pelos parques eólicos. As famílias não tem custo barato da energia, ainda é muito caro para as famílias agricultoras. Então, que energia é essa? Para onde é que ela vai?

E ela está alimentando um projeto político. A gente sabe que, no Semiárido brasileiro, as empresas, na sua maioria, são internacionais, usando e explorando as famílias agricultoras de forma abusiva, produzindo muito e investindo muito pouco e tendo retorno alto e as famílias não sabem nem que energia é essa, quanto que produz, além dos problemas de saúde, principalmente que as mulheres enfrentam no Semiárido.

A gente tem experiências que apontam um caminho inclusivo, respeitoso à natureza com a participação das mulheres, das famílias agricultoras

Roselita Vitor

O que a marcha aponta é um modelo de produção de energia que a gente entende que é inclusivo, o que gera autonomia das famílias. Porque as famílias vão confeccionar as placas, a juventude, as mulheres, a baixo custo, inclusive estamos estudando como é que a gente confecciona a placa, que tenha menos impacto ambiental, por exemplo, e que as famílias tenham autonomia.

E essa experiência nasce da experiência de Monte Santo na Bahia, onde uma Escola Família Agrícola tem já um modelo de produção de energia que abastece a escola, abastece a casa de polpa da comunidade e ainda os alunos aprendem a fazer as placas solares para as suas famílias.

A gente está nessa marcha muito feliz, inclusive, recebendo com muita alegria o lançamento desse programa pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), e que a gente entende que é fruto dessas várias lutas do Semiárido. Eu acho que o Semiárido mais uma vez sai na frente dizendo: “é possível”. E a gente tem experiências que apontam um caminho inclusivo, respeitoso à natureza com a participação das mulheres, das famílias agricultoras.

A imagem mostra a construção da base de uma cisterna em um terreno escavado de terra clara e arenosa. No centro de uma grande cavidade circular, três homens trabalham na montagem de uma estrutura de ferro: dois deles estão agachados e um está de pé, vestindo uma camisa vermelha de mangas compridas e chapéu de abas largas, segurando vergalhões verticais. A base no chão é formada por uma grade metálica em formato radial e concêntrico, lembrando uma teia de aranha gigante, sobre a terra batida e nivelada. A cena, capturada de um ângulo superior, evidencia o trabalho manual e técnico envolvido na infraestrutura hídrica em áreas rurais.
Construção de Cisterna Enxurrada, em Lagoa do Xavier, RN | Foto: Mickaelly Moreira/ASA

Rose – Eu queria que você falasse sobre as cisternas e da importância de políticas públicas de convivência com o Semiárido no Brasil.

Roselita – A cisterna é fruto da experimentação de um agricultor chamado Nel, que vem do sertão de Sergipe e que constrói, inventa essa tecnologia que vai ser, por muitos anos, uma das tecnologias mais importantes de democratização de água no Semiárido, mas também de autonomia das famílias agricultoras.

E como ela ainda é tão forte! A gente ainda tem uma demanda de 350 mil famílias no Semiárido que não têm acesso à primeira água, à cisterna de 16 mil litros para beber e cozinhar.

E a gente tem em torno de 260 mil que necessitam de cisterna de segunda água para a produção de alimentos. Estou dizendo em torno de 260 mil porque a gente tem um problema que é da terra. Para a construção da cisterna, para a produção de alimentos, precisa de espaço. E eu acho que esse é um grande desafio que a gente tem no Semiárido.

A imagem mostra um homem trabalhando no acabamento externo da cúpula de uma cisterna de placas. Ele está curvado para a frente, vestindo uma camiseta rosa de mangas compridas, calça de sarja clara e botas de borracha bege. Com a mão direita, ele utiliza uma trincha grossa para aplicar uma camada de cal branca sobre a superfície curva e cinzenta de cimento, visando a impermeabilização e a proteção térmica da estrutura. Ao lado dele, sobre a cúpula, há um balde metálico com resíduos da tinta branca. Ao fundo, vê-se um monte de areia clara, vegetação verde e o telhado de uma construção, indicando que a obra ocorre em um ambiente rural sob a luz forte do sol.
Construção de Cisterna Enxurrada, em Lagoa do Xavier, RN | Foto: Mickaelly Moreira/ASA

Mas eu queria dizer que a cisterna não só é a água, ela também gerou muito conhecimento nas famílias agricultoras. Porque foi entendendo que a desigualdade que a gente vivia há 30 anos, 40 anos atrás, não era uma desigualdade por acaso, era falta de uma política pública decente que pudesse chegar às famílias, chegar lá no pé da serra onde a família mora. Então, eu acho que essa cisterna tem um significado muito grande.

E eu acho que uma outra lição e aprendizado que temos e estamos falando muito nisso também é o conselho. É dessa relação com as da sociedade civil com o governo. Porque uma política que nasce das famílias agricultoras, dos territórios, ela pode dar muitos frutos se ela tiver essa relação forte construída entre a sociedade civil e o governo.

A gente não pode pensar numa política pública sem a participação da sociedade. Eu acho que ela não teria o mesmo valor, ela não teria o mesmo sabor que tem o programa Cisternas hoje, porque ela enraizou muita coisa. Ela contribuiu para que as mulheres no Semiárido se auto afirmassem enquanto agricultoras experimentadoras, com valor, com conhecimento. Então, a gente se reinventa num cenário brasileiro. 

Temos outras políticas que convergem para essa situação de tirar essas famílias da invisibilidade, do sofrimento, como o Bolsa Família, e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). 

Eu vi matérias recentes que falam que 30% dos beneficiários do programa Cisterna deixaram Bolsa Família. E por que deixaram Bolsa Família? Porque umas se integraram a redes de feiras agroecológicas no seu município, passaram a produzir, levar o excedente para feira agroecológica, ou passaram a vender o excesso da sua produção aos vizinhos e terão a sua renda. E começaram a acessar o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)ne o PAA, por exemplo.

A Agroecologia não é uma relação só do valor econômico, mas também das relações recíprocas das famílias agricultoras

Roselita Vitor

Investir numa política é investir nas pessoas, é construir dignidade para as famílias do Semiárido. A gente tinha uma história muito marcada pela desumanidade, pela saída das pessoas, e como que a gente acertou? Construindo políticas que fazem as pessoas ficarem. A diminuição do êxodo rural. A gente sabe que isso tem um impacto muito grande. O programa de Cisternas tem esse grande valor.

Rose – Como é o modelo agroecológico que a sua organização defende, a agricultura familiar agroecológica?

Roselita – A Agroecologia não é somente uma produção sem veneno. Eu estou aqui militando no território da Borborema já desde 1993 na Agroecologia. Hoje, a gente tem vários frutos desse processo. Temos 14 feiras agroecológicas nesse território, cinco quitandas agroecológicas e uma rede de agricultores e agricultoras guardiãs das sementes. Temos 1.200 mulheres iniciando seus produtos nas suas cozinhas. E o que é isso? É fruto de uma relação recíproca, de uma relação solidária das famílias com a terra. 

Esta fotografia em plano aberto e perspectiva aérea revela uma paisagem exuberante do semiárido brasileiro, destacando a convivência harmoniosa entre a infraestrutura hídrica e a natureza. No centro inferior, uma cisterna de placas circular com cúpula branca destaca-se no terreno, conectada a um amplo calçadão de cimento em declive no primeiro plano, projetado para captar a água da chuva. Ao lado, encontra-se uma casa de campo simples com telhado de barro, antena parabólica e um carro branco estacionado no quintal. A propriedade é cercada por uma densa vegetação verde que cobre morros ondulados ao fundo, onde um rio serpenteia pelo vale sob um céu azul vibrante, repleto de nuvens brancas e volumosas, simbolizando a segurança hídrica e a resistência da agricultura familiar.
Comunidade agrícola em Aroeiras, PB | Foto: Ricardo Araújo / ASA

Porque aquela família que produz o alimento também arboriza a sua propriedade, faz a gestão da água, guarda as sementes crioulas que já vêm dos seus antepassados e se mantém hoje produzindo, partilhando com os vizinhos, fortalecendo redes de agricultores e agricultoras guardiãs das sementes.

Então, a Agroecologia é essa outra relação, não é uma relação só do valor econômico, mas é também das relações recíprocas das famílias agricultoras.

Eu sou uma guardiã da semente, mas eu não tô só pensando em mim. Como é que eu faço para que aquela outra comunidade também seja uma comunidade guardiã da semente, para que ela não fique dependente da semente da indústria? 

Quando a gente apaga esse saber ancestral, a gente vai se perdendo também

Roselita Vitor

A gente tem uma campanha, que hoje não é só uma campanha do Polo, ela já está na Asa Paraíba e outras redes, que é Não Planto Transgênico Para Não Apagar Minha História.

Porque quando a gente apaga esse saber ancestral, o conhecimento sobre as sementes, do manejo das nossas roças, a gente vai se perdendo também. A Agroecologia também é esse valor cultural que se expressa na organização das famílias agricultoras.

Eu planto uma semente que não carrega em si só urgências para multiplicar, ela carrega a história da minha avó, do meu avô, do meu pai. Ela carrega também essa história da diversidade.

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Não é à toa que os agricultores que fazem a agroecologia, não só aqui no Polo, mas em vários lugares do Semiárido brasileiro, em outros lugares do Brasil, não plantam só uma variedade. Eles plantam várias, várias sementes de milho, de fava, de feijão.

E tem um significado muito grande, que é a soberania, a segurança alimentar e nutricional. Se você plantar uma semente, der uma seca e aquela semente não for resistente, você perde tudo. Mas se você planta várias, você planta aquela que é mais rápida e se der mais chuva, colhe logo. Você planta outra que é mais tardia, se demorar a chuva, ela vai dar. E assim é a sabedoria do nosso povo. 

Se a gente perde isso, a gente perde autonomia, cultura, o sabor que a gente carrega; porque o alimento não é só algo que a gente come, a gente também carrega a história dele.

Esta imagem captura uma plenária vibrante durante um encontro de agricultores experimentadores. Em um auditório lotado, a cena é dominada por dezenas de pessoas, homens e mulheres de diversas idades, que expressam entusiasmo e união. Muitas delas estão com os punhos erguidos e expressões de quem entoa um grito de guerra ou canção coletiva. A maioria veste camisetas brancas ou amarelas com logotipos do evento e da ASA (Articulação Semiárido Brasileiro), além de bonés brancos e crachás de identificação pendurados no pescoço. Em destaque no centro, duas mulheres negras de óculos cantam com fervor, simbolizando a força da liderança feminina no campo. O ambiente é de mobilização social, refletindo um momento de decisão política ou celebração de conquistas da agricultura familiar.
Plenária do primeiro dia do 3º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores, em 2013, na Paraíba | Foto: Ana Lira / Arquivo ASA

Se tem uma coisa que eu gosto muito, é de um café da manhã com macaxeira e manteiga da terra, porque essa lembrança vem desde quando eu era criança no sítio que mamãe fazia o nosso café. A gente tinha que ir para a escola e ficava aquele monte de menino ao redor da mesa, esperando aquele café para tomar com macaxeira e manteiga da terra.

Então, essa é uma relação muito forte que as pessoas têm. Se eu perder isso, a gente perde muita coisa de nós também, não é só a natureza que perde. Nós também perdemos. Perde essa história, perde essa relação com alimento, com a cultura de fazer agricultura.

Rose – Você acredita que essa relação de convivência dos agricultores e das agricultoras com o Semiárido, com a Catinga, possibilita, por exemplo, lidar com problemas como a desertificação? 

Roselita – Eu vejo que a gente tem muita experiência para dar. Eu lembro que a minha mãe saía muito de casa para ir buscar lenha no mato várias vezes durante a semana. E muitas outras mulheres também, às vezes ia um grupo de mulheres. 

A imagem retrata uma paisagem árida com solo avermelhado e vegetação rasteira, sob um céu azul vibrante com nuvens brancas
Área em avançado processo de desertificação em São João do Cariri, na Paraíba | Foto: Camila de Almeida

A gente depois foi descobrindo tecnologias sociais tão importantes, como o fogão ecológico. Com ele você não precisa ir na mata buscar e tirar nada. Você poda as suas gliricidias, poda seus pés de juazeiro e ali já é lenha que você consegue cozinhar num fogão que não faz fumaça, que não prejudica a saúde, inclusive das mulheres, porque são elas ainda na sua maioria que cuidam na comida, dos afazeres de casa.

Na realidade, hoje ainda, mesmo que tenha homens que fazem, na maioria são as mulheres. Ter um fogão ecológico sem fumaça que cozinha mais rápido é uma coisa fantástica. A gente vai descobrindo essas coisas.

E a gente vai entendendo que não pode ficar nessa luta contra a natureza, pois ela é nossa parceira. 

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Mas a gente sabe que, na maior parte desse processo [de desertificação], quem faz são os grandes latifundiários. Que inclusive têm desmatado e que têm influenciado a desertificação com a pecuária extensiva, com o modelo do agronegócio, do veneno, do desmatamento para monoculturas. Eu acho que a agricultura familiar, a Agroecologia dá muito para a natureza.

A gente vai numa propriedade de uma agricultora e vê como ali tem tanta coisa ao mesmo tempo, às vezes no hectare de terra. O quanto tem de diversidade de plantas forrageiras, de plantas nativas, e o quanto isso é tão importante. Essa cultura do desmatamento veio muito dos grandes latifúndios que desmatavam para criar gado.

Eu moro numa área de assentamento que já foi fazenda. Lá em casa você não vê minha casa, você só vê a árvore, porque choveu e tudo enfolhou. Tem ipê, tem oiti, tem juazeiro, cajueiro… Temos uma área que a gente não trabalha, que tem muita jurema e, às vezes, um vizinho chega: “Tu não quer me dar essa jurema para eu tirar, não?” Mas por que a jurema tem que ser tirada? Deixa a bichinha lá. Qual é o problema? 

Esta fotografia registra um momento de celebração e mística durante um encontro de agricultores experimentadores. No centro de um amplo salão de piso brilhante, uma instalação simbólica se destaca: uma rede de pesca aberta em formato de cone, sustentada por fitas coloridas (azuis e amarelas) que descem do teto até o chão, onde se espalham fitas vermelhas e papéis com mensagens escritas. Ao redor dessa estrutura central, dezenas de homens e mulheres formam uma grande ciranda, de mãos dadas, simbolizando união e cooperação. Os participantes vestem roupas casuais e bonés, e ao fundo à direita, veem-se bandeirinhas coloridas de festa junina, reforçando o caráter cultural e comunitário do evento. A cena transmite um forte sentido de identidade coletiva e a importância dos rituais simbólicos na luta pela agroecologia.
3º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores, em 2013, na Paraíba | Foto: Ana Lira / Arquivo ASA

A gente não usa essa área. A gente já criou os animais, mas hoje a gente não cria mais. Tem a nossa área de roçado, que é separada. E qual o problema da jurema ficar lá?

Essa coisa de só ficar na natureza o que dá dinheiro, e o que não dá se retira, é uma cultura que nunca foi da agricultura familiar. Nunca foi da cultura indígena, quilombola. Ela é espelhada no grande latifúndio, que desmatou muito para a criação [de animais].

Eu acho que a agroecologia nos faz repensar essas coisas que vêm de outras histórias de trabalhadores que eram escravizados nas fazendas e não tinham terra, então também não conseguiam pensar o seu lugar em uma outra relação.

Várias mulheres de raças e idades diferentes, reunidas em marcha, segurando uma faixa com os dizeres em roxo "Marcha pela vida das mulheres e pela agroecologia"
Com capacidade de atrair milhares de agricultoras dos 13 municípios que integram o Polo da Borborema, além de mulheres de outros territórios do Semiárido paraibano e estados vizinhos, a Marcha é um grande palco no qual se problematizam assuntos importantes para o bem-estar das famílias camponesas | Foto: AS-PTA

Mas hoje a gente tem muitos agricultores e agricultoras em vários lugares do Semiárido que estão construindo conhecimento e que têm uma biodiversidade sagrada no seu lugar de vivência.

A agricultura familiar não pode ser responsável por tudo que está acontecendo no Planeta hoje. Porque quem mais desmata, quem mais tem terra é o latifúndio, é o agroexportador, que quer ganhar a todo custo, é a partir da pecuária extensiva, a partir da monocultura e, no Semiárido recente, as energias renováveis a partir das empresas. Mas é a agricultura que tem salvado esse planeta. A agricultura familiar, agroecológica. E só ela acho que pode salvar Não vejo qual é o outro caminho sem ser pela Agroecologia.

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