
Entre a Caatinga e os territórios indígenas, existem formas de vida, cuidado e escuta que apontam caminhos urgentes para o presente e o amanhã.
Abril chega, e, com ele, uma enxurrada de conteúdos sobre os povos indígenas. Ao longo do ano, o que mais vemos são notícias de violência, disputas e ameaças aos territórios.
Essa realidade existe, ela é dura, e precisa ser enfrentada. Mas ela não é tudo.
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Segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, o Brasil tem cerca de 1,7 milhão de indígenas. Deles, o Nordeste concentra mais de 528 mil pessoas, sendo uma das regiões com maior presença indígena no País. São centenas de povos, histórias e formas de existir que seguem vivas, apesar de séculos de apagamento.
Mesmo assim, essa presença ainda é pouco reconhecida, e muitas vezes, só aparece quando associada à dor. Existe, porém, algo que raramente ganha espaço: a esperança que nasce e se sustenta dentro dos territórios indígenas do Nordeste.
Uma esperança que também brota da Caatinga.

Por muito tempo, a Caatinga foi reduzida à ideia de seca, escassez e pobreza. Um território visto a partir da falta, e não da potência. Essa leitura apaga não só o bioma, mas também os povos que o habitam.
Mas a Caatinga é rica: rica em biodiversidade, em saberes, em cultura. E rica em formas de escutar o mundo.
Os Povos Indígenas da Caatinga aprenderam, ao longo do tempo, que a vida não se resume ao que é dito pelos humanos.
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Como lembra a jornalista indígena catingueira Raquel Kariri, não são apenas as pessoas que falam. Os não humanos também têm voz: falam os animais, falam os insetos, falam as águas. Fala o céu. Falam as plantas.
Escutar tudo isso é parte fundamental de um modo de existir.
Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos que os territórios indígenas oferecem: uma escuta ampliada, que não separa humanidade e natureza, nem coloca o ser humano acima de tudo.

Há uma inteligência profunda nisso. Uma inteligência que orienta formas de produzir alimento, de cuidar da saúde, de respeitar os ciclos da terra e de sustentar a vida sem destruí-la. Porque, apesar de tudo, seguimos construindo.
Construindo maneiras de viver em equilíbrio com o território, fortalecendo a cultura alimentar, mantendo vivas as práticas de medicina tradicional e cultivando relações baseadas no cuidado coletivo.
A educação indígena tem papel central nesse processo. Não apenas como acesso à escola, mas como formação de sujeitos que compreendem o mundo a partir dessas relações.
São jovens que crescem aprendendo que viver não é competir. Que existir não é acumular. Que futuro não se constrói sozinho. E que há dignidade em permanecer.
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A educação indígena não aponta um único caminho, ela amplia possibilidades. Permite ocupar novos espaços, quando desejado, mas também valoriza a permanência, o vínculo com a terra, o trabalho comunitário e a continuidade dos modos de vida. Porque permanecer no território também é projeto de futuro.
Enquanto grande parte do debate ambiental no Brasil se concentra na Amazônia, a Caatinga segue sendo invisibilizada. Mas ela pulsa, e pulsa através dos povos que a habitam.
Há, nesses territórios, uma outra forma de imaginar o mundo, baseada na coletividade, no cuidado e na partilha.

Entre muitos povos indígenas do Nordeste, isso também se manifesta nos rituais. O Toré, e, no caso do Povo Tremembé, o torém, é uma dessas expressões.
Um ritual em círculo. E o círculo ensina. Nele, ninguém está acima. Ninguém está à frente. Todos ocupam o mesmo lugar. Corpos que se movem juntos. Vozes que se fortalecem juntas. Pés descalços tocando a terra.
À medida que o canto cresce, ele ecoa, e é nesse eco coletivo que a força aparece. Talvez seja isso que abril deveria nos fazer enxergar. Que há outras formas de existir. Há outras formas de escutar, de construir futuro. E que essas formas já existem, vivas, nos territórios indígenas do Nordeste.
Neste mês, mais do que celebrar ou lamentar, é preciso aprender. Aprender a escutar. Não apenas uns aos outros, mas também o mundo que nos cerca. Porque a esperança, para os povos indígenas, não é promessa. Ela é prática. E talvez seja exatamente isso que o mundo mais precise agora.


