
Rodrigo Tremembé é artista visual, curador e designer de moda indígena, graduado em Geografia pela Faculdade Nossa Senhora de Lourdes. Indígena do Povo Tremembé, da aldeia Córrego João Pereira, que fica em Itarema, Ceará e vem construindo uma trajetória que atravessa arte, território, memória e política.
Seu trabalho circula entre exposições, projetos curatoriais e moda autoral, com foco na valorização de saberes ancestrais, na ocupação indígena dos espaços institucionais da arte também.
Já teve obras apresentadas na Bienal Révélations, em Paris, e atualmente está ingressando no mestrado em artes pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), o primeiro indígena a acessar esse programa após 10 anos de criação.
Maristela Crispim – Você sempre quis seguir a carreira artística ou foi algo que foi sendo construído ao longo das suas vivências?
Rodrigo Tremembé – Eu não diria que escolhi seguir a carreira artística porque, no contexto indígena, a arte faz parte da nossa existência. A gente não se descobre artista ao longo da vida porque a gente já cresce dentro disso.
Desde criança, na aldeia, a gente se pinta, faz grafismo no corpo, aprende a lidar com materiais, com artesanato, com símbolos. E isso tudo já é linguagem, já é uma forma de criação. E a escola indígena também tem um papel forte nesse processo. Ela não separa a arte de vida.
Não foi uma escolha no sentido tradicional, a arte sempre esteve comigo
Rodrigo Tremembé
A gente aprende desenhando, cantando, observando, repetindo gestos. O que acontece é que, em determinado momento, quando a gente passa a circular fora da aldeia, esses modos de fazer ganham um nome: arte, artista, carreira artística. Tudo isso são termos que para nós, em contexto de aldeia, são novos porque eles já estão intrínsecos na nossa existência.
Não foi uma escolha no sentido tradicional, a arte sempre esteve comigo. O que eu fiz foi reconhecer isso dentro da sociedade e transformar essa vivência em trabalho, pesquisa e também posicionamento.
MC – Você tem conseguido colocar as lutas dos Povos Indígenas no seu trabalho e alcançado o impacto desejado?
RT – Eu tenho tentado sim alcançar esse impacto, mas com consciência do chão de onde a gente pisa.
A sociedade em que a gente vive ainda é profundamente marcada pela base colonialista e isso, de certo modo, impõe limites, impõe ruídos e também existência. Não é sempre fazer um trabalho indígena circular sem que ele seja exotizado, esvaziado, tratado como algo folclórico. Mas mesmo assim, eu consigo colocar algo dos povos indígenas no centro do meu trabalho.
Ela aparece quando fala da diversidade dos povos, quando afirma que não existe um indígena único, quando trago um olhar político, de resistência e de permanência. Meu trabalho fala de território, de corpo, de memória, de continuidade e ele confronta também com a ideia de que o indígena pertence ao passado.

Além disso, acredito que seja importante dizer que o impacto nem sempre é imediato ou de certo modo mensurável. Às vezes, ele acontece no deslocamento do olhar de quem vê. A pergunta que fica, no incômodo que se cria.
O simples fato de um corpo indígena ocupar espaços institucionais da arte, por exemplo, de ocupar espaços da moda, da academia, já é em si um gesto político. Estar nesses lugares criando a partir dos nossos próprios termos também é uma forma de lutar.
MC – Como você tem conciliado a valorização da cultura ancestral com as exigências de mercado e da academia?
RT – Eu acredito que conciliar esses campos é um exercício constante de negociação e também de limite. A cultura ancestral não é algo que eu moldo para caber no mercado ou na academia, porque ela vem de antes.
O que eu faço é escolher com cuidado o que pode circular, como pode circular e em quais condições. Nem tudo é traduzível, nem tudo precisa ser explicado, na verdade. No mercado, o desafio é não deixar que a cultura vire produto esvaziado.
E por isso eu trabalho com tempo, com processos, com autoria também e com algo que valorize o fazer de forma mais devagar. Eu acredito que é sobre não atender tendências, é sobre afirmar um modo de fazer que carrega história, território e também a responsabilidade coletiva.
Leia mais: Precisamos conhecer, entender, apoiar e dar visibilidade aos povos indígenas
Na academia, eu acredito que o esforço é parecido. Eu não vou entrar abrindo mão dos meus saberes para vestir um discurso que não me pertence. Eu vou tentar tensionar a academia, provocar outras formas de pensar, de escrever e de pesquisar.
Eu acredito que estar nesse espaço como indígena é também disputar metodologia, linguagem e principalmente legitimidade de conhecimento. E, no fim, a conciliação acontece quando eu entendo que nem o mercado, nem a academia, são centros absolutos.
Eles são, na verdade, espaços de passagem. O que sustenta o meu trabalho sempre vai continuar sendo a ancestralidade, a escuta dos mais velhos e o compromisso do meu povo. É isso que orienta as escolhas que eu faço.

MC – Como foi a sua experiência internacional?
RT – A minha experiência internacional foi muito marcante. No ano passado, eu estive em Paris apresentando duas obras no Grand Palais, durante a Bienal Révélations, ao lado de outros cinco artistas nordestinos. E eu era o único artista indígena brasileiro naquele espaço. Para mim, isso já diz muito. O mais importante dessa experiência foi o lugar de protagonismo.
Não era alguém falando por nós, eu estava ali presente falando da minha cultura, a partir do meu próprio olhar e da minha própria vivência. Eu fui convidado, tive espaço de fala na Bienal. Eu pude apresentar meu trabalho, minha trajetória. Isso tudo sem mediação e isso mostra que algo está mudando, ainda que lentamente.
Também foi uma experiência que me fez refletir muito. Estar na França e visitar museus cheios de obras que foram roubadas ou retiradas de outros povos e territórios escancara o colonialismo de forma muito concreta. E esse contraste entre valorização cultural e apropriação histórica é impossível de ignorar.
Leia mais: Tremembé dão exemplo de gestão territorial
Apesar disso, eu saí dessa experiência com sentimento de responsabilidade e de gratidão. Estar naquele espaço, resultado da luta de muita gente que veio antes de mim, e poder levar o olhar do Brasil e dos povos originários para um evento internacional, falando em primeira pessoa, foi uma experiência potente e com certeza muito necessária.
MC – Como você percebe a recepção do seu trabalho nos diferentes locais por onde tem exposto?
RT – De modo geral, a recepção do meu trabalho tem sido muito positiva nos diferentes lugares por onde eu tenho exposto. Eu percebo o interesse real das pessoas em aprender mais sobre os povos indígenas, especialmente sobre a realidade dos povos do Nordeste, que ainda são muito invisibilizados. Muita gente chega sem informação e sai com outra percepção, entendendo que existem povos diversos, vivos e em constante luta por seus territórios e direitos.
O que mais me fortalece é a recepção dentro do meu próprio povo, das minhas lideranças
Rodrigo Tremembé
Existe também um retorno forte no campo educativo. O trabalho acaba abrindo conversas sobre demarcação de território, sobre resistência, autonomia dos povos e sobre como essas questões continuam tão atuais. E não é só uma questão de experiência estética, é também um espaço de aprendizado e de escuta principalmente.
Mas, sem dúvida, o que mais me fortalece é a recepção dentro do meu próprio povo, das minhas lideranças, a minha aldeia reconhecendo e acolhendo o meu trabalho, reconhecendo nessa forma de criar um valor e entendendo que ele conecta gerações, que é algo importante para o nosso povo. Me deixa bastante animado.
Esse reconhecimento mostra que o trabalho não se afasta da comunidade, que ele cumpre um papel dentro da nossa existência como povo, fortalece a nossa autonomia e também a nossa memória coletiva.
MC – Quais são as suas expectativas para esta nova fase acadêmica?
RT – A minha expectativa para essa nova fase na academia é muito forte e também muito antiga. A área da arte sempre fez parte do que eu queria para a minha vida. Desde pequeno, antes mesmo de conhecer a escrita, eu já desenhava. A minha primeira experiência com arte foi no chão da aldeia. Eu desenhava com dedo, com graveto, criando grafismos e inventando mundos.

O desenho era minha forma de pensar e de existir. Entrar no Mestrado em Artes é para mim uma forma de reconhecer que esses espaços também são possíveis para nós, povos indígenas. A academia não precisa ser vista como algo distante ou inacessível.
É um lugar onde a gente pode acessar conhecimentos que muitas vezes estão fora da aldeia, aprender com eles e principalmente levar esses saberes de volta, fortalecer a comunidade, incentivar novas gerações a acreditar na educação diferenciada, acreditar também na arte, na nossa forma própria de chegar ao mundo.
Eu também espero contribuir com a academia levando uma epistemologia ancestral e originária, uma forma de pensar, de criar, de pesquisar, que não separa o corpo, o território, a memória e também o conhecimento.
Acredito que essa troca pode provocar a academia a se rever e ao mesmo tempo abrir caminho para que outras juventudes indígenas ocupem esse espaço com mais confiança também.
Leia mais: Povos indígenas denunciam avanço de petróleo e gás no Nordeste
MC – Algum projeto novo que você possa compartilhar com a gente?
RT – Atualmente eu estou envolvido em alguns projetos que são importantes. Um deles é a curadoria em artes para a Galeria da Liberdade, que eu estou desenvolvendo junto com Suzenalson Kanindé e Nyela Jenipapo, outros dois indígenas cearenses que estão fazendo essa curadoria junto comigo para uma exposição que reúne artistas de povos indígenas do Ceará e que propõe uma reflexão sobre ditaduras, existências e lutas dos povos indígenas cearenses tanto no passado quanto na atualidade.
Também estou em processo de criação de uma exposição individual no Sobrado Dr. José Lourenço, com abertura prevista para abril. É um trabalho que aprofunda questões que venho pesquisando há algum tempo em relação com a moda, com os tecidos, com o vestir.
Desde que eu comecei os meus processos criativos na moda, é algo que eu venho almejando: ocupar esse espaço
Rodrigo Tremembé
E além isso, eu estou desenvolvendo uma coleção autoral de moda indígena para um evento que vai ter aqui no Ceará, cujo nome eu não posso ainda divulgar, mas é um projeto muito especial que representa um sonho muito importante para mim.
No sentido de que, desde que eu comecei os meus processos criativos na moda, é algo que eu venho almejando: ocupar esse espaço e que esse ano eu vou ter a oportunidade de ocupar.
Outro projeto que está em andamento é a produção de um filme sobre o meu povo, que foi contemplado pelo Edital da Penab (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura), que acompanha a história, a trajetória do filho do nosso Pajé, o processo de transição para assumir esse papel, após a partida do nosso Pajé para a Encantaria. É um trabalho que dialoga diretamente com a espiritualidade, com a continuidade e com a memória coletiva.


