O Semiárido brasileiro, as savanas africanas e as estepes da Ásia central provam que são componentes de uma engrenagem geopolítica de sobrevivência global

Ulaanbaatar (Mongólia). Carlos Magno, sertanejo por essência e paraibano-pernambucano por trajetória, percorre os corredores da COP17 com uma missão que carrega o peso e a vitalidade de duas décadas de atuação: ele leva o bioma Caatinga “debaixo do braço” para apresentá-lo ao mundo.
Representante do Centro Sabiá e da Plataforma Semiáridos – uma rede que articula organizações em zonas áridas por toda a América Latina -, Magno personifica a transição de um paradigma histórico.
Durante o painel “Drylands, Big Solutions”, ele provocou uma ruptura com a imagem arcaica de que as terras secas são sinônimos de vazio, fome ou ausência. Para ele, o estigma do “não” – “não chove, não tem gente, não tem vida” – precisa ceder espaço para o reconhecimento de um território que, embora não negue seus desafios climáticos, é um celeiro de tecnologias sociais e potências produtivas que o mundo agora começa a redescobrir.
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Essa narrativa de potencialidade não se limita às fronteiras brasileiras, mas se expande em uma teia global que revela o que Magno descreve como uma “conexão quase biológica” entre os povos das terras secas. Segundo ele, o território atua como um mestre severo e generoso, moldando o modo de vida e a interação com a natureza de forma análoga, independentemente da distância geográfica.
Essa simbiose ficou evidente com a presença de vozes como a de Ghasala Fai Mohamed,, jovem de Burkina Faso dedicada à documentação dos saberes tradicionais das mulheres africanas sobre plantas medicinais (Associação Tin Hinan), e de Nyan-Ochir Gankhuyag, camponês indígena fundador e diretor executivo da Federação Nacional de Grupos de Usuários de Pastagens da Mongólia(MNFPUG), que atua no uso racional e sustentável das pastagens estépicas.

A análise de Magno converge para a ideia de que a rigidez climática desses biomas forja soluções que, embora diversas em suas aplicações, compartilham a mesma matriz de adaptação e inteligência territorial.
No centro dessa articulação internacional, o protagonismo juvenil brasileiro emergiu com vigor por meio da fala de Sival Fiuza, da comunidade rural tradicional Porta da Serra, em Serra Talhada, Pernambuco. Representando a Rede de Juventude Semiárida da América Latina, Fiuza apresentou o que se pode chamar de um paradoxo produtivo da resiliência.
Enquanto o líder mongol Yam defendia a mobilidade como a ferramenta essencial para a vida em suas terras, Fiusa reiterava a luta pela permanência e pelo enraizamento no sertão.
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Embora pareçam direções opostas, ambas as estratégias representam as duas faces de uma mesma moeda geopolítica, como enfatizou Magno: a adaptação absoluta às condições do território. Para Fiuza, dar visibilidade a uma região frequentemente invisibilizada é um ato de resistência que coloca a juventude no epicentro do debate sobre a preservação da vida e o combate à desertificação.
A Agroecologia, nesse cenário, é elevada de uma técnica de cultivo para uma sofisticada tecnologia de combate direto às mudanças climáticas e à degradação da terra. Conforme detalhou o jovem multiplicador, a Agroecologia não pode ser limitada à subsistência; ela é a infraestrutura necessária para a restauração ambiental.

Por meio dos Sistemas Agroflorestais (SAFs), as comunidades conseguem regenerar a Caatinga enquanto produzem alimentos e criam um ciclo de sustentabilidade que é disseminado pela Comissão de Jovens Multiplicadores de Agroecologia. Sob a assessoria do Centro Sabiá, essa comissão funciona como o sistema nervoso central da disseminação de conhecimento que garante que a inovação nasça e permaneça na base do território, escalando soluções que podem ser replicadas globalmente.
A convergência de saberes compartilhada na COP 17 reforça que as lutas travadas no Semiárido brasileiro, nas savanas africanas ou nas estepes da Ásia central não são esforços isolados, mas sim componentes de uma engrenagem geopolítica de sobrevivência global.
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A Plataforma Semiáridos, ao conectar esses biomas na América Latina, demonstra que a construção de futuros para as populações das terras secas depende dessa conectividade e do reconhecimento de que as soluções geradas nesses territórios possuem escala e urgência planetária.
Ao final, a mensagem de Magno e Fiuza é um manifesto de força coletiva: longe de serem espaços de escassez, as terras secas são centros de inovação e sabedoria que oferecem respostas vitais para o equilíbrio do Planeta e provam que a esperança caminha junto à técnica e ao pertencimento territorial.
* A jornalista Maristela Crispim viajou a Ulaanbaatar com o apoio do Instituto ClimaInfo e da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA)


