A mídia farmacêutica e o desprezo pelos saberes populares

O que uma propaganda de medicamento, uma política pública e o nome popular de uma planta revelam sobre as diferentes formas de cuidar

Artigo de opinião assinado por Raquel Assunção Oliveira, comunicóloga; Ana Gretel Echazú Böschemeier, antropóloga; e Semirames do Nascimento Silva, engenheira agrônoma

Composição com xícara de chá fumegante, pote grande de mel, fatias de limão, raiz de gengibre inteira e fatiada organizada sobre a mesa.
O autocuidado, os cuidados familiares e comunitários e os diferentes saberes terapêuticos formam a base cotidiana dos sistemas de cuidado | Foto: Lusynda / Pexels

Em 2026, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) completa duas décadas. Instituída na Portaria GM/MS nº 971, de 3 de maio de 2006, a PNPIC é um marco para as políticas públicas brasileiras, tanto em relação à forma como foi construída, quanto pelo que propõe.

Sua elaboração contou com participação social e incorporou debates realizados em conferências de saúde anteriores que já buscavam ampliar o conceito do cuidado. Ela reconhece e incorpora no Sistema Único de Saúde (SUS) práticas integrativas e complementares voltadas à promoção, prevenção e recuperação da saúde, incluindo diretrizes específicas para plantas medicinais e fitoterapia.

Também em 2006, o Decreto no 5.813/2006 instituiu a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), que determina a promoção e o reconhecimento das práticas populares de uso de plantas medicinais e remédios caseiros, valorizando sistemas de conhecimento diversos.

Uma xícara de chá transparente com fatias de limão em fundo branco, acompanhada de pedaços de gengibre e metades de limão siciliano
A OMS estima que entre 70% e 90% das decisões de cuidado ocorrem no setor popular | Foto: Katja B / Pexels

O autocuidado, os cuidados familiares e comunitários e os diferentes saberes terapêuticos formam a base cotidiana dos sistemas de cuidado. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS, 2012; 2019; 2022) representa o autocuidado na base da pirâmide assistencial e, apoiando-se na antropologia médica, estima que entre 70% e 90% das decisões de cuidado ocorrem no setor popular.

Complementarmente, desde a Declaração de Alma-Ata, de 1978, a atenção primária é concebida a partir da participação, da autonomia individual e comunitária e do reconhecimento dos recursos e praticantes locais (OMS, 1978), princípios expressos na construção do Sistema Único de Saúde brasileiro.

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Todos esses marcos, resoluções e políticas partem de algumas compreensões em comum. Primeiro, que o cuidado em saúde não se resume ao medicamento industrial. Segundo, que pensar a saúde vai além do combate à doença já instalada, pois envolve também prevenir agravos e promover saúde. Sinalizam, por fim, o reconhecimento institucional de práticas e saberes que já circulavam socialmente. O que iremos debater neste texto relaciona-se precisamente com isso.

Isso porque, apesar da sua importância no dia a dia das pessoas, e desses avanços institucionais, o reconhecimento de diferentes saberes e práticas de cuidado convivem com representações que os desqualificam.


“Não é hora de
improvisar com
receitas caseiras”? 

Nesse contexto, chama atenção um comercial disponibilizado neste ano, em 2026, no canal de YouTube da empresa Vick. Intitulada “Vick Pyrena: Alívio 3 em 1”, a peça publicitária audiovisual retrata a cena descrita a seguir:

“A gripe chegou em casa com você?” É ouvindo essa pergunta que acompanhamos um homem adulto chegar em casa demonstrando desconforto pelos sintomas de gripe, “cobrindo” o espirro com o auxílio de um lenço e pondo a mão próximo à garganta. 

Ele reúne sobre a mesa três alimentos: mel, limões e gengibres. Uma mulher, que podemos intuir ser uma familiar, está sentada usando o notebook e, após apresentar preocupação com o estado do homem, afasta da mesa o trio de alimentos enquanto ouvimos a frase “não é hora de improvisar com aquelas receitas caseiras”. 

Na sequência, ela entrega ao homem um sachê do medicamento Vick Pyrena. O homem, ao tomar o chá, aparece sereno, segurando uma caneca com a marca, ao mesmo tempo em que uma luz azul “emana” dele. 

A questão aqui não é simplesmente discutir a eficácia do medicamento anunciado, mas observar como a publicidade do produto apresenta a relação entre diferentes formas de cuidado. 

Na cena, a afirmação “não é hora de improvisar com aquelas receitas caseiras”, ao mesmo tempo que contrapõe o Vick Pyrena a uma alternativa de tratamento, reduzindo-as discursivamente à noção de improviso, contribui para desqualificar um universo mais amplo de práticas de cuidado, legitimadas pelas práticas integrativas defendidas pelo próprio sistema público de saúde brasileiro.

Quando uma prática é apresentada como “improviso”, enquanto o medicamento industrial aparece como solução adequada, não está sendo feita apenas uma comparação entre produtos. Está sendo apresentada também uma hierarquia entre distintos modos de cuidar, por meio da qual há uma representação depreciativa de práticas de cuidado (no caso, o uso de limão, gengibre e mel) para valorizar o produto anunciado.

Nesse debate, vale retomar o Código do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que, no Anexo I, refere-se especificamente aos “Produtos Farmacêuticos Isentos de Prescrição”. O artigo 6º informa que a publicidade dessa categoria de produtos “não conterá afirmações injuriosas às atividades dos profissionais de saúde ou ao valor de cuidados ou tratamentos destes”.

De modo complementar, a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 96/2008 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao estabelecer regras para a propaganda de medicamentos, indica no artigo 26º que é vedada à propaganda e publicidade de medicamentos isentos de prescrição “sugerir que o medicamento é a única alternativa de tratamento e/ou fazer crer que são supérfluos os hábitos de vida saudáveis e/ou a consulta ao médico”. 


Limão, gengibre e mel

Cada um dos três alimentos apresentados no vídeo carregam histórias e proporcionam cuidados em saúde que merecem ser destacados. O limão faz parte de diferentes repertórios populares de cuidado e seu uso tradicional aparece documentado tanto em estudos etnobotânicos contemporâneos, como em livros históricos. 

Foto em plano detalhe destacando a textura da casca de vários limões-taiti bem verdes.
O limão faz parte de diferentes repertórios populares de cuidado | Foto: liza sigareva / Pexels

Já em 1918, o cearense Juvenal Galeno, guardadas as devidas licenças poéticas, escrevia poemas acerca dos usos populares do alimento, e que envolviam cuidados contra o escorbuto e laringite, por exemplo. Ou seja, o que aparece no comercial como parte de uma “receita caseira” possui uma história de uso e de transmissão de conhecimentos que antecede a própria publicidade.

O mesmo vale para o gengibre. De nome científico Zingiber officinale, o gengibre é uma das 71 espécies de plantas presentes na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (ReniSUS), elaborada pelo Ministério da Saúde. 

Close-up com foco nas texturas e nós de raízes de gengibre.
O gengibre é uma das 71 espécies de plantas presentes na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (ReniSUS) | Foto: Engin Akyurt / Pexels

A presença dele na listagem não significa que todo uso doméstico da planta seja automaticamente seguro ou indicado para qualquer situação, mas que o gengibre está entre as espécies reconhecidas pelo poder público como de interesse para o desenvolvimento de pesquisas e políticas relacionadas às plantas medicinais e aos fitoterápicos.

Com o mel, a relação com as políticas públicas é ainda mais direta. A PNPIC contempla a “apiterapia”, prática integrativa que utiliza produtos vindos das abelhas, como mel, própolis, pólen, geleia real e apitoxina para finalidades relacionadas à promoção da saúde.


Quem decide o
que conta como
conhecimento válido?

Nada disso quer dizer que limão, gengibre e mel devam ser tratados como equivalentes a um medicamento, nem que qualquer preparação feita em casa seja necessariamente segura ou eficaz.

O ponto é mais simples: os três ingredientes usados na publicidade para representar o “improviso” pertencem a repertórios de alimentação, cuidado, conhecimento e práticas de saúde que possuem histórias próprias. Quem decide o que é conhecimento quando ele é produzido longe dos laboratórios e das grandes instituições, mas em uma casa, uma feira, uma comunidade rural ou um território tradicional?

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Há, ainda, uma ironia difícil de ignorar: no Brasil, a planta Mentha arvensis L. var. Piperascens Holmes, a “menta japonesa” ou “hortelã-do-brasil”, tem “vique” como um dos seus nomes vulgares, ou populares, e apresenta aroma mentolado e refrescante, característica da pomada descongestionante comercializada pela marca. 

A denominação evidencia o entrelaçamento entre os usos populares e os repertórios farmacêuticos que circulam socialmente. 

Do ponto de vista etnobotânico, conhecimentos relacionados ao reconhecimento, cultivo, preparo e uso de espécies vegetais para fins de cuidado constituem sistemas de conhecimento construídos e transmitidos socialmente, muitas vezes entre gerações, e integram o repertório cultural de diferentes comunidades e grupos sociais.

Muda de planta verde com folhas bem delineadas crescendo diretamente no solo.
Muda de hortelã-japonesa ou hortelã do-brasil, também conhecida como ou “vique” | Foto: Semirames Silva

É particularmente irônico, portanto, que uma marca cujo próprio nome integra o universo popular de uma planta medicinal desqualifique outras práticas de cuidado como “receitas caseiras” ou “improviso”.

Além disso, sabe-se que o próprio medicamento anunciado é consumido após a dissolução do conteúdo do sachê em água quente, assumindo a forma de uma bebida que, na experiência cotidiana dos(as) brasileiros(as), se aproxima justamente daquilo que o anúncio procura desqualificar como “receita caseira” a ser evitada em prol do consumo do medicamento.


Cuidar também é
reconhecer saberes 

Ao completar 20 anos, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares nos lembra que o cuidado em saúde não se resume a uma única forma de conhecimento. Ao contrário, é plural e dinâmica, incorporando práticas como apiterapia, meditação, quiropraxia, shantala e yoga, para citar apenas algumas.

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Portanto, a questão colocada pela propaganda ultrapassa a oposição entre medicamento e receita caseira, nos permitindo questionar quem tem autoridade para nomear uma prática como cuidado, conhecimento ou tratamento, e quem pode pode classificá-la como “improviso”.

É aí que entra um conceito valioso, o de justiça epistêmica: o direito de diferentes pessoas e grupos terem seus conhecimentos reconhecidos. No campo da saúde, isso significa olhar para os saberes construídos não somente nos laboratórios e nas instituições, como para os conhecimentos transmitidos entre gerações, que permanecem vivos por meio da sabedoria dos mais velhos.

A imagem captura um momento afetuoso e geracional do povo Tremembé, onde uma mulher indígena carrega uma criança pequena no colo em meio a uma trilha cercada por vegetação tropical exuberante. Ambas utilizam cocares de penas claras e trajes tradicionais, como a saia de fibra natural, além de ostentarem a pintura facial vermelha de urucum cruzando as bochechas, simbolizando a continuidade da identidade cultural. Enquanto a mulher sorri com ternura, a criança olha diretamente para a câmera com uma expressão serena e curiosa, destacando-se sob a luz solar que filtra através das folhas. A composição, rica em tons de verde e iluminada pelo sol, transmite uma poderosa mensagem de preservação, cuidado materno e o florescimento das tradições ancestrais nas novas gerações.
O Nordeste concentra mais de 528 mil indígenas, sendo uma das regiões com maior presença indígena no Brasil | Foto: PGTA Tremembé / Beto Oliveira

No Nordeste, região que, como em outras partes do país, os conhecimentos sobre plantas, alimentação e formas de cuidado em saúde fazem parte de comunidades rurais, tradicionais e urbanas, essa discussão ganha uma dimensão territorial. São saberes construídos na experiência e transmitidos entre gerações em diálogo com as plantas disponíveis em cada lugar.

Talvez esse seja um dos sentidos dos 20 anos da PNPIC: lembrar que cuidar também é reconhecer as diferentes formas de produzir conhecimento sobre a saúde.


Referências
bibliográficas

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Sobre as autoras

Raquel Assunção Oliveira

Comunicóloga potiguar e doutora em Estudos da Mídia. Pesquisadora no Instituto Nacional do Semiárido (Insa), unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), na área de Gestão da Informação e Popularização da Ciência.  E-mail: assuncaoraqueloliveira@gmail.com

Ana Gretel Echazú Böschemeier 

Antropóloga (MsC, PhD) e Pesquisadora na Fiocruz Brasília, com pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Docente colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Políticas de Saúde da Escola de Governo da Fiocruz Brasília. Líder do grupo de pesquisa DGP/CNPq “Boas Práticas pela Justiça Epistêmica” e colaboradora no grupo de pesquisa “Angicos – Educação Popular em Saúde”. Membro do Comitê de Direitos Humanos da International Union of Anthropological and Ethnological Studies. E-mail: gretigre@gmail.com

Semirames do Nascimento Silva 

Tecnóloga em Agroecologia e Engenheira Agrônoma com doutorado em Engenharia Agrícola. Especialista nas áreas de Fitotecnia, Agricultura Orgânica e Docência no Ensino Superior, com estágio pós-doutoral realizado via CNPq/UFCG/UFPB. Pesquisadora Adjunta I do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – Lotada no Instituto Nacional do Semiárido, atuando na área de Produção Vegetal (Etnobotânica e Plantas Medicinais). E-mail: semirames.agroecologia@gmail.com

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