Entrei no Falkor, conheci o ROV e digo: o Oceano é um só

A repórter Andréia Vitória conta como foi a experiência de três dias durante workshop de jornalismo científico e Oceano, em Fortaleza (CE)

Equipe reunida no cais ao lado da imponente estrutura lateral do navio de pesquisa oceanográfica com a inscrição "Schmidt Ocean Institute".
No Porto de Fortaleza, acessei o mais importante navio de pesquisa marítima do planeta ao lado de colegas jornalistas e comunicadores científicos durante evento do Earth Journalism Network para qualificar a cobertura oceânica no Brasil | Foto: Hannah Nolan

Saí de Salvador, na Bahia, vendo o mar pela janela. Pouco mais de duas horas depois, de novo ele, agora já cearense. E foi justamente o Oceano que me trouxe a Fortaleza, mais precisamente para o Workshop de Jornalismo Científico sobre o Oceano, do Earth Journalism Network (EJN), que começaria no dia seguinte, 15 de setembro.

Neste ano completo 21 anos de Jornalismo profissional, muitos deles dedicados à agenda ambiental. Sempre com o sentimento de que o Oceano é muito a minha praia. E foi esse sentimento oceânico que me inundou durante os dias do evento, de 15 a 17 de setembro, na capital do Ceará. 

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Lá compreendi melhor as implicações de termos um Oceano único, acessei o Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, conheci e até encostei em um ROV (Remotely Operated Vehicle, ou Veículo Operado Remotamente) e entendi que o interesse sobre o fundo do mar é algo que precisa chegar à superfície. 

De volta à Bahia, mergulhada nos conhecimentos do Workshop, divido com os leitores da Eco Nordeste um pouco do que vi e vivi nesta viagem, que já é um divisor de águas na minha formação jornalística.


O Oceano e você,
tudo a ver

Como transformar um Oceano aparentemente distante em território jornalístico, cívico e local? 

Este questionamento trouxe à tona a necessidade de aproximarmos o Oceano da sociedade. Ele é o grande regulador do clima do planeta, sem dizer que compõe cerca de 70% de todo o globo. Isso por si só já seria motivo suficiente. 

Vista aérea de uma praia com ondas suaves. Em primeiro plano, vegetação verde com mandacarus destaca-se contra o mar esverdeado.
Foto de apoio ilustrativo. O Oceano está no centro de discussões ambientais, e também econômicas, geopolíticas, sociais e culturais | Foto: Maristela Crispim

Mas a verdade é que existem várias outras razões para colocarmos o Oceano no centro de discussões ambientais, e também econômicas, geopolíticas, sociais e culturais. E isso vale para quem está na costa, mas também para quem mora longe dela. O caminho para comunicar essa realidade passa por conectar contextos globais a realidades locais.

Um dos desafios da nossa profissão é que a superfície do Oceano parece sempre a mesma. Mas é abaixo dela, e cada vez mais no fundo, que o futuro do planeta está sendo decidido. E é preciso tornar visível o que está escondido sob a superfície.


Oceano no singular

O ponto de partida do Workshop foi a compreensão de que “o Oceano é um único sistema fluido, globalmente interconectado”.

“Correntes, calor, carbono, nutrientes, organismos e poluentes atravessam fronteiras políticas e bacias oceânicas”, impactando todo o ecossistema marinho e também a vida fora do Oceano. 

O pesquisador Roberto Christofoletti ministrando uma palestra ao lado de uma tela de projeção que lista diversas áreas de estudo sobre a conservação das ciências do mar (como Oceanografia, Biodiversidade, Conservação marinha, Economia azul, entre outras).
Um mesmo oceano, diferentes formas de abordar, mostrou o pesquisador em Ciências do Mar, Ronaldo Christofoletti | Foto: Maristela Crispim

O impacto do que ocorre no Oceano alcança até quem nunca viu o mar de perto. As dinâmicas oceanográficas que geram o Super El Niño e seus extremos meteorológicos provam essa conexão.

Em meio à crise climática, o conceito de deslocamento referencial, que prevê que cada geração pode encarar um Oceano já degradado como “normal”, impõe mais um desafio para a cobertura jornalística.

O caminho, vimos, passa pela memória ecológica, combinando relatos de pescadores, séries históricas, imagens, dados e marcas na paisagem para recuperar a verdadeira dimensão da transformação do Oceano – além de seus impactos e possíveis soluções. 


Navio Falkor (too)

Subindo a escada que dava acesso ao navio do Schmidt Ocean Institute, me dei conta de que aquela experiência era apoteótica: entrar no maior e mais importante navio de pesquisas marítimas do planeta. 

Famosa por suas navegações e expedições pelo mundo, a embarcação reúne uma estrutura completa voltada para a pesquisa e o convívio científico. É a casa e o lar de pesquisadores que, por longas temporadas, dormem e acordam no próprio local de trabalho.

Carlos Fonseca, um dos brasileiros da tripulação, explicou melhor sobre o espaço de controle do Falkor (too):

Reparou no vídeo? Este é Falkor, personagem que dá nome ao navio.

Um dragão de crochê branco (mascote em referência ao personagem Falkor) pousado próximo à janela do painel da embarcação, com a vista do mar ao fundo.
Falkor, o famoso dragão da sorte e um dos personagens marcantes do clássico A História Sem Fim, dá nome ao navio e ganhou uma versão decorativa para marcar presença em todas as navegações | Foto: Maristela Crispim

Almoçamos à bordo com a tripulação, em um refeitório self-service que reúne cozinha (com acesso restrito à equipe), copa e a área de buffet. 

Havia também uma geladeira para bebidas como sucos e refrigerantes e máquinas de café sobre um balcão que me lembrou bastante o de um hotel, além de pães e gavetas identificadas com etiquetas, algumas delas escritas “candies”, com chocolates e balas. 

Após a refeição, separamos os resíduos nas lixeiras de reciclagem e entregamos pratos, talheres e copos ao responsável pela higienização.

O assunto do almoço? A incrível experiência de conhecer de perto a “Nasa” dos mares, como destacou uma colega jornalista que esteve conosco.


ROV SuBastian e
o fundo do mar

Me vi sem conseguir tirar o sorriso do rosto. Tudo ali era magnético. Assim era também o ROV SuBastian, veículo subaquático operado remotamente com capacidade para mergulhar até 4.500 metros de profundidade. 

Grupo de pesquisadores e membros da equipe sorrindo e acenando em frente ao robô submarino (ROV - Remotely Operated Vehicle) SuBastian, de cor amarela, a bordo da embarcação.
Jornalistas e comunicadores que participaram do Workshop, em frente ao Remotely Operated Vehicle (ROV SuBastian), robô submarino do navio de pesquisas marítimas Falkor (too), único no mundo | Foto: Kristen Kusek

O SuBastian mede 3,1 m x 2,1 m x 1,9 m; aproximadamente o mesmo tamanho de uma minivan. São mais de 3 toneladas e muita ciência por trás deste exemplar único e específico para pesquisa, diferente da versão comercial de outros navios. 

Marcelo Gaspar, piloto de ROV Internacional que integra a equipe do Schmidt Ocean Institute, responsável por operar esta máquina, conversou com a gente e destacou alguns diferenciais deste equipamento de pesquisa.

O ROV conta com diversas câmeras de vídeo que permitem monitorar em tempo real o que acontece no fundo do Oceano. 

Gaspar também mostrou um pouco do funcionamento do ROV, que leva o nome de SuBastian para homenagear o personagem Bastian, do livro A História Sem Fim, acrescido do prefixo “sub-“, de submersível.

Visitar o Falkor (too) e participar do Workshop depois de ter produzido um conteúdo sobre os Montes Oceânicos, para a Eco Nordeste, foi uma feliz coincidência.  

Já cheguei mais desperta para o fundo do mar que, apesar de ser essencial para o clima, vem sofrendo forte pressão de exploração mineral, ao passo que a pesquisa corre em outro tempo e faltam dados até mesmo para melhor conhecer e conservar. 

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Com menos de 20% do leito marinho mapeado e mais de 55% de sua superfície explorada pela pesca industrial, precisamos encarar o fato de que as maiores histórias ambientais do planeta ocorrem fora do alcance dos nossos olhos, apesar de causarem impactos diretos.

Voltei para Salvador com isso em mente. E também com uma vontade gigantesca de rever A História Sem Fim.

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