Entenda o que é desertificação e como combatê-la

Entenda o que é a desertificação, processo de degradação do solo em áreas secas causado pela ação humana e pelas mudanças climáticas

A imagem da desertificação é esta: solo compactado ou arenoso, em a capacidade de reter árvores e arbustos. A imagem de chão rachado, erroneamente atribuída à desertificação, corresponde ao período da seca | Foto: Camila de Almeida

A desertificação é um processo multifatorial de degradação do solo que ocorre exclusivamente em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas. Essa degradação ocorre após o uso inadequado do solo por atividades humanas, como o desmatamento, as práticas agropecuárias predatórias e o uso inadequado dos recursos hídricos. O cenário é, então, impulsionado pelas mudanças climáticas.

O processo ocorre de forma rápida em regiões secas porque os recursos hídricos já são naturalmente escassos e os solos frequentemente são frágeis, o que amplifica os efeitos da degradação do solo. É diferente do que ocorre em regiões tropicais e temperadas, onde a degradação pode ser mais lenta e facilita intervenções corretivas.

Foto aérea de área em avançado estado de desertificação com uma estrada cortando a paisagem de chão avermelhado com pequenos arbustos verdes
São João do Cariri é uma das regiões da Paraíba onde o processo de desertificação avança mais rapidamente | Foto: Camila de Almeida

Na desertificação, o solo perde funções e qualidades essenciais, como:

  • capacidade de reter água e nutrientes;
  • capacidade de sustentar a vegetação;
  • capacidade produtiva e de fertilidade;
  • resistência à erosão;
  • capacidade de regulação de ciclos biológicos.

Dessa forma, as áreas desertificadas, nas qual o solo fica compactado ou arenoso, ficam especialmente vulneráveis à erosão do solo, o que também está diretamente relacionado ao assoreamento de corpos hídricos. Isso porque, ao perder a capacidade de reter água, a terra é totalmente arrastada pelas chuvas, desembocando em rios e lagos.

À direita da foto, um homem magro, de calça jeans, camisa de botões azul e chapéu de palha de aba larga observa uma pequena arvore atrofiada e retorcida como um bonsai num terreno acidentado com solo avermelhado e escassa cobertura vegetal. Acima, céu azul com nuvens brancas
Morador de São João do Cariri, o professor Nivaldo Maracajá Filho mostra área em processo de desertificação | Foto: Camila de Almeida

Segundo o Boletim Temático sobre Desertificação, do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e órgãos parceiros, cerca de 18% do território brasileiro está sujeito ao processo de desertificação, boa parte localizada na região Nordeste. Essas áreas são chamadas de Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD) e Entorno.

Quem são os mais afetados
pela desertificação

Nas ASD e Entorno, vivem aproximadamente 39 milhões de pessoas. Nos primeiros vinte anos do século XXI, o território suscetível à desertificação expandiu 170 mil km², alcançando regiões onde tradicionalmente encontram-se biomas úmidos, como a Mata Atlântica e o Pantanal

Em 2020, o norte do Rio de Janeiro e o Mato Grosso do Sul foram classificados como ASD. Isso ocorre porque regiões úmidas estão sendo transformadas em áreas com característica de terras secas, em um processo chamado aridificação.

Foto de terreno em avançado estado de desertificação com solo vermelho, plantas retorcidas com raízes expostas e grandes buracos. Há um homem caminhando de costas. Ele usa calça jeans, camisa de manga comprida e um chapéu de palha com abas largas
Poucas espécies sobrevivem num solo empobrecido. Algumas vão ficando atrofiadas até desaparecerem de vez | Foto: Camila de Almeida

O Insa destaca que as comunidades indígenas, quilombolas e agricultores familiares são especialmente vulneráveis à desertificação, “pois dependem diretamente da terra não apenas para sua subsistência econômica, mas também para a preservação de seus modos de vida, conhecimentos tradicionais e práticas culturais”.

No Brasil, 6,6 mil km² de territórios quilombolas (20,7% do total) e 5,6 mil km² de territórios indígenas (0,5% do total) estão localizados nas ASD e Entorno. É sabido que as taxas de conservação nessas localidades são altas, mas a expansão do processo de desertificação ameaça-os. 

O Insa atribui a pressão às “frequentes invasões para exploração ilegal de madeira, garimpo, agropecuária extensiva e a grilagem de terras”. “Essas alterações, que muitas vezes ocorrem sem o consentimento das comunidades, contribuem para o desmatamento e o uso inadequado do solo intensificando a desertificação.”

Terreno de terra vermelha desmatado com vegetação rala ao fundo sob céu azul com nuvens brancas
O principal motor de avanço sobre a vegetação nativa foi a agropecuária, que ganhou 6,7% de território, ou 5,7 milhões de hectares | Foto: Camila de Almeida

Dessa forma, ao prejudicar a produtividade dos solos e a sobrevivência da biodiversidade relacionada, a desertificação afeta: 

  • a segurança alimentar;
  • a economia rural; 
  • a qualidade de vida das populações locais;
  • a resiliência e existência de biomas relacionados, principalmente a Caatinga.

Como combater a desertificação

O Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil) é o responsável por um conjunto de ações voltadas para enfrentar os desafios da desertificação, degradação da terra e dos efeitos da seca no Brasil.

O PAB-Brasil trabalha não apenas estratégias de combate à desertificação focadas no manejo do solo, mas também em ações para a governança social, a melhoria de condições de vida das comunidades e o fomento a pesquisas científicas. 

Foto de painéis solares em meio a vegetação com uma torre metálica ao fundo e sob céu azul com nuvens brancas
Entre as estratégias de combate à desertificação, entra a redução de desigualdades das comunidades e a garantia de autonomia das famílias; entre as ações, está a produção de energia renovável descentralizada | Foto: Camila de Almeida

De forma geral, a desertificação pode ser combatida com estratégias como:

  • redução do desmatamento;
  • criação de unidades de conservação; 
  • estímulo ao manejo sustentável e à agroecologia, como com quintais produtivos;
  • tecnologias sociais, como água de reuso, fogões ecoeficientes, cisternas e minhocários;
  • intervenções físicas, como como barragens subterrâneas (para retenção de água), barramentos de pedra, terraceamento, sulcamento, escarificação do solo e aplicação de material orgânico e serrapilheira;
  • restauração de áreas afetadas;
  • ampliação de saneamento básico nas comunidades;
  • redução da desigualdade e ampliação de serviços educacionais nas comunidades;
  • estímulo econômico para conservação.

Para determinar as áreas prioritárias de atuação, o governo brasileiro vai além do critério climático baseado no Índice de Aridez inferior a 0,65. Ele considera, principalmente, os municípios incluídos no bioma Caatinga — por ser um marcador biológico natural de regiões secas no Brasil — e a delimitação oficial do Semiárido brasileiro, estabelecida pela Sudene (Resoluções Condel no 150/2021 e n° 176/2024). 

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Plano de ação brasileiro de combate à desertificação e mitigação dos efeitos da seca [recurso eletrônico]. Brasília, DF: MMA, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/povos-e-comunidades-tradicionais/pab-brasil.pdf. Acesso em: 9 maio 2026.

INSTITUTO NACIONAL DO SEMIÁRIDO (INSA). Boletim Temático Desertificação. Campina Grande: INSA, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/insa/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes-do-insa/desertificacao/boletim-tematico-desertificacao/view. Acesso em: 9 maio 2026.

Últimas sobre desertificação
na Eco Nordeste

Quer a apoiar a Eco Nordeste?

Seja um apoiador mensal ou assine nossa newsletter abaixo: