Na Bahia, coral invasor vira base para salvar coral-de-fogo

Trabalho de monitoramento e restauração coralínea em Itaparica (BA) passa por implantação de colônias, manejo de espécie invasora e educação ambiental

Fotografia subaquática em close de um coral-de-fogo (Millepora alcicornis) em seu habitat natural. A estrutura ramificada de cor amarelada e marrom destaca-se contra o fundo azul profundo do oceano.
Hidrocoral-de-fogo em Chapeirão Faca-cega, na Bahia | Foto: Marcelo Visentini Kitahara. Hidrocoral-de-fogo (imagem). Banco de imagens Cifonauta. Disponível em: https://cifonauta.cebimar.usp.br/media/13153/ Acessado em: 2026-05-03

Nem só de golfinhos, baleias e peixes das mais diversas espécies vive o ecossistema marinho. Lá no fundo do mar, onde os olhos não alcançam, estão o que podemos considerar “termômetros” importantes da saúde do Oceano: os corais.

E é para protegê-los que o Projeto Mares, iniciativa da Organização Socioambientalista PRÓ-MAR, acaba de retomar suas atividades em prol da restauração coralínea na Ilha de Itaparica. O nome em tupi significa “cerca feita de pedras”, fazendo referência direta aos recifes de corais que contornam a Ilha, próxima a Salvador (BA), e que funcionam como barreira natural contra as ondas.

Um mergulhador, utilizando máscara e snorkel, emerge da água segurando com uma mão enluvada um exemplar de coral-de-fogo. Ele veste a camiseta azul do projeto de conservação marinha sob um céu com nuvens esparsas.
Zé Pescador, como é conhecido José Roberto Pinto, é coordenador geral do Projeto Mares | Foto: Nelson Brito Jr.

Nesta nova fase do Projeto, que será executada ao longo de quatro anos e prevê o cultivo e a implantação de 5 mil colônias da espécie Millepora alcicornis, popularmente conhecida como coral-de-fogo, o Mares amplia sua atuação ao fortalecer a integração entre ciência e comunidade por meio da abordagem de ciência cidadã, envolvendo diretamente moradores nas ações de monitoramento e restauração.

Como parte desse processo, já estão previstos cursos formativos com início no mês de maio, voltados tanto à qualificação técnica em restauração de corais quanto à formação de gestores e educadores para atuação em Educação Ambiental.

A retomada, com a continuidade da parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, ocorre depois de atividades intensas em 2023 e 2024. Nesse período, além do monitoramento e da restauração coralínea em uma área de 1,5 km² no Recife das Pinaúnas, com o cultivo e a implantação de mais de 1,6 mil colônias, também foram realizadas ações contínuas de Educação Ambiental.

Mais corais, mais biodiversidade

O coordenador geral do Projeto Mares, José Roberto Pinto, conhecido como Zé Pescador, recebeu a equipe de reportagem da Eco Nordeste na sede do PRÓ-MAR e falou, enquanto voltava de um mergulho segurando em uma das mãos um coral restaurado, sobre a relevância desse trabalho: “Itaparica já tem naturalmente esses corais que prestam um grande serviço ecossistêmico, e que pode envolver também a comunidade local, para que ela possa ter renda a partir da conservação”.

Ele explica que o coral fornece abrigo e alimentação para diversos crustáceos, moluscos e peixes. “Você vê isso em cada colônia de coral, quando você coloca no recife, o peixinho já fica ali, já toma conta, aquilo traz o alimento para ele”, descreve.

Leia também: Abrolhos: candidatura à Unesco reforça agenda 30×30

“Além de fortalecer a biodiversidade, tem o sequestro de carbono, a redução dos efeitos dos gases do efeito estufa, porque boa parte do carbono é dissolvido no mar e os corais retiram esse carbono que está dissolvido no Oceano. O coral é um sumidouro muito importante do carbono”, completa. 

A tridimensionalidade, em formato que parece uma árvore, é uma das características marcantes da Millepora alcicornis. Quem explica sobre essa e outras curiosidades da espécie, uma das mais sensíveis à crise climática, é o coordenador científico do Projeto Mares, o biólogo e doutor em Ecologia, Ricardo Miranda:

Perigos que vêm de fora

Ao contrário do que muitos podem pensar, corais não são plantas, mas animais, e enfrentam muitas ameaças. Entre elas, estão:

  • Problemas de saneamento básico que levam o esgoto para o mar
  • Alterações climáticas com aumento da temperatura do Oceano, que provocam o branqueamento e a morte dos corais
  • Presença de espécies invasoras transportadas pela navegação, incrustadas em embarcações
Ricardo Miranda, vestindo camiseta azul do "Projeto Mares", está agachado em uma área externa arenosa, analisando atentamente uma grande quantidade de estruturas de corais e colônias de organismos marinhos dispostas no chão à sua frente.
Ricardo Miranda é coordenador científico do Projeto Mares, o biólogo e doutor em Ecologia | Foto: Nelson Brito Jr.

Até mesmo a proliferação excessiva de algas pode prejudicar os corais. Por isso, o controle de algas, bem como a retirada das espécies exóticas, são algumas das ações de manutenção dos recifes do coral-de-fogo em Itaparica. 

Problema que virou solução 

O coordenador científico Ricardo Miranda explica que o Projeto Mares começou fazendo ações para controle desses corais invasores, especialmente o chamado coral-sol (Tubastraea spp.). No entanto, surgiu o questionamento de como destinar esse material, devolvendo-o para o mar de alguma forma.

As estruturas dos esqueletos dos corais são úteis para o Oceano, porque sequestram carbono, então é importante a gente manter esse material (do coral invasor) no mar de alguma forma, mas não vivo, para não ameaçar os corais nativos”, aponta. “Então, uma forma foi utilizar essa matéria-prima para retornar ao mar servindo de base para a sementeira dos corais nativos. Ou seja, é transformar o problema em uma solução.” 

No vídeo a seguir, ele mostra na prática essa metodologia, resultado da experimentação exitosa do Zé Pescador:

O fundo do mar não é lixeira

Outra ameaça que não pode ser ignorada é o excesso de lixo que vai parar no fundo do mar. De fraldas a pneus, são muitos os objetos descartados que poluem o Oceano. 

Na passagem para acompanhar as atividades do Projeto Mares, em Itaparica (BA), a equipe da Eco Nordeste viu de perto o lixo recolhido em mais uma limpeza de mar e praia, promovida pela Organização Socioambientalista PRÓ-MAR. 

Em parte de uma manhã, foram retirados 155 kg de resíduos. O volume costuma ser ainda maior após grande movimentação de pessoas nas praias, como é comum em feriadões. 

Três voluntários do "Projeto Mares" realizam a limpeza de uma praia. Eles estão sob uma tenda, separando uma grande pilha de resíduos plásticos, garrafas de vidro e entulhos coletados da areia.
Em uma manhã, a limpeza de praia retirou 155 quilos de lixo em Itaparica | Foto: Nelson Brito Jr.

Entre os materiais recolhidos, garrafas de vidro e PET, tampinhas, canudos e outros plásticos, além de solas de chinelos e tecidos, evidenciando a presença de resíduos de uso cotidiano descartados de forma inadequada. 

Geraldo Fonseca, coordenador de Educação Ambiental do Projeto Mares, é categórico ao dizer que “80% do que a gente recolhe com as equipes em ações assim são de plástico”.

Sobre a importância de envolver a comunidade, em especial as crianças e os adolescentes em ações desse tipo, diz que precisamos falar “da Economia Azul, das famílias que sobrevivem do mar. Além de falar para não poluir e sobre a importância de protegermos o oceano e sua biodiversidade, abordamos as relações com o mar, que passa por moradores da região, pescadores, marisqueiras, povo de santo e turistas, por exemplo”.

Quer a apoiar a Eco Nordeste?

Seja um apoiador mensal ou assine nossa newsletter abaixo: