O que os indígenas do Nordeste ensinam sobre vida e esperança

A imagem captura um momento afetuoso e geracional do povo Tremembé, onde uma mulher indígena carrega uma criança pequena no colo em meio a uma trilha cercada por vegetação tropical exuberante. Ambas utilizam cocares de penas claras e trajes tradicionais, como a saia de fibra natural, além de ostentarem a pintura facial vermelha de urucum cruzando as bochechas, simbolizando a continuidade da identidade cultural. Enquanto a mulher sorri com ternura, a criança olha diretamente para a câmera com uma expressão serena e curiosa, destacando-se sob a luz solar que filtra através das folhas. A composição, rica em tons de verde e iluminada pelo sol, transmite uma poderosa mensagem de preservação, cuidado materno e o florescimento das tradições ancestrais nas novas gerações.
O Nordeste concentra mais de 528 mil indígenas, sendo uma das regiões com maior presença indígena no Brasil | Foto: PGTA Tremembé / Beto Oliveira

Entre a Caatinga e os territórios indígenas, existem formas de vida, cuidado e escuta que apontam caminhos urgentes para o presente e o amanhã.

Abril chega, e, com ele, uma enxurrada de conteúdos sobre os povos indígenas. Ao longo do ano, o que mais vemos são notícias de violência, disputas e ameaças aos territórios.

Essa realidade existe, ela é dura, e precisa ser enfrentada. Mas ela não é tudo.

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Segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, o Brasil tem cerca de 1,7 milhão de indígenas. Deles, o Nordeste concentra mais de 528 mil pessoas, sendo uma das regiões com maior presença indígena no País. São centenas de povos, histórias e formas de existir que seguem vivas, apesar de séculos de apagamento.

Mesmo assim, essa presença ainda é pouco reconhecida, e muitas vezes, só aparece quando associada à dor. Existe, porém, algo que raramente ganha espaço: a esperança que nasce e se sustenta dentro dos territórios indígenas do Nordeste.

Uma esperança que também brota da Caatinga.

A imagem apresenta dois integrantes do povo indígena Tremembé em um momento de profunda conexão espiritual e celebração em meio a uma vegetação densa e ensolarada. À esquerda, um homem mais velho, de tronco nu e adornado com colares típicos, segura um maracá (chocalho) em uma das mãos; à direita, uma mulher com uma veste floral mantém os olhos fechados em um semblante de serenidade. Ambos estão de pé, usando cocares de penas imponentes e com os braços erguidos, unindo as mãos ao centro em um gesto de união e força. O ângulo da foto, de baixo para cima, destaca as figuras contra o céu azul e a folhagem verde, transmitindo uma sensação de resistência, ancestralidade e harmonia com a natureza.
Os Povos Indígenas da Caatinga aprenderam, ao longo do tempo, que a vida não se resume ao que é dito pelos humanos | Foto: PGTA Tremembé / Beto Oliveira

Por muito tempo, a Caatinga foi reduzida à ideia de seca, escassez e pobreza. Um território visto a partir da falta, e não da potência. Essa leitura apaga não só o bioma, mas também os povos que o habitam.

Mas a Caatinga é rica: rica em biodiversidade, em saberes, em cultura. E rica em formas de escutar o mundo.

Os Povos Indígenas da Caatinga aprenderam, ao longo do tempo, que a vida não se resume ao que é dito pelos humanos.

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Como lembra a jornalista indígena catingueira Raquel Kariri, não são apenas as pessoas que falam. Os não humanos também têm voz: falam os animais, falam os insetos, falam as águas. Fala o céu. Falam as plantas.

Escutar tudo isso é parte fundamental de um modo de existir.

Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos que os territórios indígenas oferecem: uma escuta ampliada, que não separa humanidade e natureza, nem coloca o ser humano acima de tudo.

Esta imagem retrata uma jovem indígena Tremembé em um momento de profunda introspecção e reverência, posicionada entre os troncos robustos de uma árvore antiga. Ela veste um top de crochê e um cocar adornado com penas brancas, pretas e vermelhas, destacando-se pela marcante pintura facial em urucum que cobre a área dos olhos. Com os olhos suavemente fechados e o rosto voltado para cima, ela estende os braços em direção à câmera, criando uma perspectiva que convida o espectador para o seu espaço sagrado. A composição utiliza o enquadramento natural dos galhos texturizados para focar na expressão de serenidade da jovem, simbolizando uma conexão visceral entre a nova geração e a força da ancestralidade que emana da natureza.
A educação indígena não aponta um único caminho, ela amplia possibilidades. Permite ocupar novos espaços, quando desejado, mas também valoriza a permanência | Foto: PGTA Tremembé / Beto Oliveira

Há uma inteligência profunda nisso. Uma inteligência que orienta formas de produzir alimento, de cuidar da saúde, de respeitar os ciclos da terra e de sustentar a vida sem destruí-la. Porque, apesar de tudo, seguimos construindo.

Construindo maneiras de viver em equilíbrio com o território, fortalecendo a cultura alimentar, mantendo vivas as práticas de medicina tradicional e cultivando relações baseadas no cuidado coletivo.

A educação indígena tem papel central nesse processo. Não apenas como acesso à escola, mas como formação de sujeitos que compreendem o mundo a partir dessas relações.

São jovens que crescem aprendendo que viver não é competir. Que existir não é acumular. Que futuro não se constrói sozinho. E que há dignidade em permanecer.

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A educação indígena não aponta um único caminho, ela amplia possibilidades. Permite ocupar novos espaços, quando desejado, mas também valoriza a permanência, o vínculo com a terra, o trabalho comunitário e a continuidade dos modos de vida. Porque permanecer no território também é projeto de futuro.

Enquanto grande parte do debate ambiental no Brasil se concentra na Amazônia, a Caatinga segue sendo invisibilizada. Mas ela pulsa, e pulsa através dos povos que a habitam.

Há, nesses territórios, uma outra forma de imaginar o mundo, baseada na coletividade, no cuidado e na partilha.

A fotografia captura um momento lúdico e poético de duas crianças em silhueta, correndo e brincando nas águas rasas de uma lagoa ou braço de mar durante o pôr do sol. O cenário é marcado por um céu dramático em tons de dourado, laranja e violeta, que se reflete de forma quase perfeita na superfície espelhada da água, criando uma continuidade visual entre o céu e a terra. Ao fundo, as dunas e a vegetação rasteira formam uma moldura escura contra o horizonte iluminado, enquanto o movimento das crianças gera ondulações suaves na água, reforçando uma atmosfera de liberdade, infância e integração com a natureza exuberante do território Tremembé.
Há outras formas de escutar, de construir futuro. E que essas formas já existem, vivas, nos territórios indígenas do Nordeste | Foto: PGTA Tremembé / Beto Oliveira

Entre muitos povos indígenas do Nordeste, isso também se manifesta nos rituais. O Toré, e, no caso do Povo Tremembé, o torém, é uma dessas expressões.

Um ritual em círculo. E o círculo ensina. Nele, ninguém está acima. Ninguém está à frente. Todos ocupam o mesmo lugar. Corpos que se movem juntos. Vozes que se fortalecem juntas. Pés descalços tocando a terra.

À medida que o canto cresce, ele ecoa, e é nesse eco coletivo que a força aparece. Talvez seja isso que abril deveria nos fazer enxergar. Que há outras formas de existir. Há outras formas de escutar, de construir futuro. E que essas formas já existem, vivas, nos territórios indígenas do Nordeste.

Neste mês, mais do que celebrar ou lamentar, é preciso aprender. Aprender a escutar. Não apenas uns aos outros, mas também o mundo que nos cerca. Porque a esperança, para os povos indígenas, não é promessa. Ela é prática. E talvez seja exatamente isso que o mundo mais precise agora.

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