Os insetos são vendidos vivos a pescadores turistas em busca do peixe pacu-caranha. A atividade reforça o orçamento familiar e revela interações ecológicas e questões legais sob essa prática de pesca amadora

Quando as mangueiras começam a ser tomadas por gafanhotos no período que se segue às primeiras chuvas, o telefone de Jacó costuma tocar com frequência. Jardineiro em Serra do Ramalho, município localizado no extremo oeste da Bahia, ele usa redes para apanhar no alto das árvores e utiliza uma pequena rede acoplada na extremidade de uma longa vara. É assim que ele apanha os insetos vivos camuflados na folhagem.
Jacó de Souza, 38 anos, é um jardineiro conhecido por ter o faro para encontrar gafanhotos, atua nas horas vagas sob a demanda dos pescadores, realizando as capturas apenas quando chegam as encomendas. O público que busca a isca é composto por frequentadores de Serra do Ramalho e, sobretudo, por visitantes vindos de diversas cidades de Minas Gerais.
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Em vez do simples descarte do manejo agrícola, os animais coletados ganham destino em caixas de papelão ou garrafas plásticas. A alta resistência dos animais facilita mantê-los vivos por dias até o local de pesca, a poucos quilômetros, onde vão se tornar isca de pescadores.
Este inseto pertence à família dos acridídeos, popularmente conhecidos como gafanhotos-verdes de pastagem. Na Ecologia da Caatinga e do Cerrado, esses organismos desempenham papéis fundamentais ao acelerar a decomposição vegetal, enriquecer o solo com nitrogênio e servir de alimento para aves, anfíbios e répteis.

Em vez do simples descarte do manejo agrícola, os animais coletados ganham destino em caixas de papelão ou garrafas plásticas. A alta resistência dos animais facilita mantê-los vivos por dias até o local de pesca, a poucos quilômetros, onde vão se tornar isca de pescadores.
Este inseto pertence à família dos acridídeos, popularmente conhecidos como gafanhotos-verdes de pastagem. Na Ecologia da Caatinga e do Cerrado, esses organismos desempenham papéis fundamentais ao acelerar a decomposição vegetal, enriquecer o solo com nitrogênio e servir de alimento para aves, anfíbios e répteis.

A descoberta da isca viva
Fundado a partir de projetos de colonização agrícola na década de 1970, Serra do Ramalho consolidou sua economia sobre três pilares: agricultura irrigada, pecuária e pesca. A proximidade com o Rio São Francisco favorece a produção de frutas, hortaliças e grãos, enquanto extensas áreas de pastagens sustentam rebanhos bovinos distribuídos pelos assentamentos rurais.
A atividade surgiu da oportunidade de transformar o incômodo das pragas em utilidade para quem frequenta o rio. No rancho mantido por Fabiano Rocha, 35 anos, às margens do Rio São Francisco, a procura pelos insetos virou rotina ao longo da temporada de pesca. Fabiano conta que a descoberta da eficácia dessa isca é recente, fruto da observação direta dos animais capturados no local.
“Um cliente abriu o peixe para tratar e encontrou os gafanhotos na barriga dele. A gente achou inusitado, porque o pacu-caranha aqui é conhecido como porco do rio, come de tudo, mas gafanhoto era novidade. Na semana seguinte, comentei isso com outros clientes e um deles falou que, na cidade onde ele costumava pescar, uma das iscas principais era justamente o gafanhoto”, relata o momento em que percebeu o potencial do inseto.

A informação circulou rapidamente nas redes de contatos da região: “Falei para o pessoal no grupo do WhatsApp que estava pegando com gafanhoto no anzol. Um levou, testou e pegou; outro levou e pegou também. Virou essa febre na região toda [desde junho]. Em questão de dois a três meses, já se espalhou pelas cidades vizinhas e todo mundo passou a usar”, detalha Fabiano.
Sobre a comercialização, Fabiano atua como intermediário entre quem captura e quem pesca: “Eu não vendo o gafanhoto nem outras iscas. Tenho o contato de quem vende e repasso para os meus clientes, alguns até de Minas Gerais, ou então eu ligo para o pessoal entregar a encomenda direto aqui no rancho para os pescadores testarem”, conta o pescador amador.
Como a ‘moda do gafanhoto’
ganhou fama
A expansão dessa nova modalidade de pesca acompanha o próprio crescimento do turismo de pesca amadora em Serra do Ramalho e municípios vizinhos. A relação de Fabiano com a pescaria começou durante a pandemia da covid-19. Conforme ele mesmo relembra: “no período de pandemia não tinha para onde sair, então o local mais apropriado que tinha era a gente ir para a beira do rio pescar”.
O hábito pessoal evoluiu para o empreendimento, com a compra de terrenos, barcos e a construção de um rancho. A iniciativa movimentou a economia regional. Antes restrito a poucas opções de hospedagem, o município conta atualmente com cerca de 15 ranchos estruturados para receber visitantes, a maioria de cidades de Minas Gerais que fazem divisa com o lado oeste da Bahia.

A apanha artesanal com rede no alto da vegetação, voltada estritamente para atender pedidos pontuais, apresenta impacto ambiental reduzido, funcionando como um controle mecânico de pragas sem necessidade de defensivos químicos.
A capacidade de sobrevivência desses exemplares em caixas de papelão e garrafas perfuradas demonstra a alta resistência desse inseto. Durante o período seco, os ovos permanecem enterrados no solo em estado de dormência, eclodindo em massa com as primeiras chuvas, em junho. Para manter a qualidade da isca viva até a entrega aos pescadores, os coletores fornecem folhas frescas das próprias mangueiras de onde são apanhados entre julho e agosto.
Na Bahia, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) segue essa diretriz nacional dos crimes ambientais: enquanto a caça e o comércio ilegal de animais nativos geram punições graves, o controle de surtos que atacam plantações é permitido, desde que siga as normas técnicas de manejo. Pequenas coletas esporádicas não costumam ser alvo de fiscalização, mas qualquer atividade em grande escala ou com fins comerciais exige uma licença ou uma autorização ambiental para não ser considerada crime.
O problema da pesca de pacu-caranha
O destino do inseto é servir de isca para o pacu-caranha, uma espécie originária da Bacia do Prata que acabou introduzida na Bacia do São Francisco por meio de povoamentos e tanques de piscicultura a partir de 1980. Por possuir porte grande e comportamento onívoro voraz, a presença desse peixe gera efeitos diversos no ecossistema aquático.

“As pesquisas sobre espécies aquáticas exóticas na Bacia do São Francisco têm concluído que as introduções, causadas por escape em cultivos e por transposições, tendem a promover homogeneização biótica, com poucas espécies generalistas substituindo a fauna original. O caso do pacu-caranha ainda não tem estudos conhecidos que quantifiquem seus impactos na bacia. As evidências disponíveis se restringem à sua presença no Baixo São Francisco, o que recomenda monitoramento”, avalia Igor da Mata, professor de Engenharia da Pesca da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
O pacu-caranha compete diretamente por sementes, frutos e insetos com peixes nativos do Rio São Francisco, como o pacu-nativo e os piaus. Por outro lado, sua grande aceitação entre os praticantes da pesca amadora traz um efeito positivo para a economia do turismo.
A pesca amadora tem uma cota de acordo com a portaria do Ibama. A lei diz que cada pessoa pode pescar e guardar várias unidades até atingir o limite de peso permitido (10 kg em rios ou 15 kg no mar) e, se fisgar aquele peixão, tem o direito de levá-lo para casa como um bônus, mesmo que o peso total seja ultrapassado.
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“O pacu-caranha hoje é uma espécie plenamente estabelecida que ocorre desde a jusante [abaixo] da usina de Três Marias (Minas Gerais), no Alto São Francisco. Para a pesca amadora no Médio São Francisco ela tem sido um dos carros-chefe que tem trazido pescadores de várias partes do Brasil, tanto pela abundância quanto pela falta de fiscalização ambiental. A pouca fiscalização que existe foca na pesca comercial e deixa a amadora de lado. Isso cria uma brecha para o descumprimento sistemático da cota de pesca nesse trecho do São Francisco”, explica Daniel Crepaldi, analista ambiental do Ibama – Minas Gerais.
De inseto praga à inseto isca, de peixe introduzido à peixe atrativo. A transformação desses dois animais em fonte de renda pelo turismo revela como uma descoberta simples de um pescador difundida pelo WhatsApp pode gerar um novo circuito de pesca amadora que tem movimentado a economia local e interrompido o ciclo ecológico dos gafanhotos.


