Grande rio com águas turvas em meio a vegetação verde. No leito do rio há uma canoa azul e um homem pescando, sob um céu azul
Com sua nascente em meio ao Cerrado, o Rio São Francisco sofre com a degradação do bioma | Foto: Alice Sales

“O Cerrado é essencial para o provimento do Rio São Francisco. Cerca de 70% da água que corre na bacia hidrográfica do Velho Chico vem desse ecossistema”. O alerta é de Yuri Salmona, diretor do Instituto Cerrados, ONG dedicada à conservação do bioma. O geógrafo complementa: “É importante ter atenção especial para a região do Oeste da Bahia. Essa área tem por debaixo o Aquífero Urucuia, que é uma estrutura que armazena um grande volume de água que contribui para a vazão de diferentes rios, inclusive o São Francisco. Essa área tem sido velozmente ocupada pela agricultura, em atividades do agronegócio para exportação de commodities, especialmente a soja”.

Conhecido pelos povos originários como Opará (que significa Rio Mar, na língua dos indígenas), o Rio São Francisco é uma das maiores riquezas naturais que percorre o Nordeste. O grande rio, que nasce em Minas Gerais, corresponde a 8% do território nacional e possui extensão de 2.863 km. Antes de desaguar no oceano, na divisa entre os estados de Alagoas e Sergipe, a bacia hidrográfica do Velho Chico se estende por 505 municípios, em seis estados brasileiros (Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe).

Tão vasta quanto o seu percurso de águas, é a sua relevância socioeconômica. O Velho Chico abriga a natureza de três importantes biomas: Cerrado, Caatinga e fragmentos de Mata Atlântica. Além disso, é fonte de água, renda e energia para incontáveis populações nordestinas. Contudo, essa grande riqueza corre perigo. Entre os inúmeros fatores relacionados à degradação do Rio São Francisco e seus afluentes, o desmatamento dos biomas é uma dessas causas que põe em risco a segurança hídrica de toda uma região.

Considerado o berço das águas, o Cerrado, bioma onde nasce o Rio São Francisco, abriga as nascentes das três maiores bacias hidrográficas do País (Amazônica/Tocantins, Prata e  São Francisco). O importante aquífero existente no bioma vem sofrendo perdas significativas e crescentes na medida em que a derrubada de matas nativas para a produção de carnes e grãos avança no Cerrado, o que inclui as atividades da fronteira agrícola entre os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, denominada Matopiba.

Segundo Yuri Salmona, atualmente, um quarto do território brasileiro é coberto pelo bioma Cerrado, e 50% dessa área já foi desmatada. Desse percentual desmatado, 98% tiveram com causa atividades agropecuárias.

Desmatamento e mudanças climáticas

Em um estudo realizado pelo geógrafo, que resultou em sua tese de doutorado, foram avaliados e comparados os impactos do desmatamento e das mudanças climáticas nas vazões de 81 rios do bioma Cerrado. A pesquisa apontou que os impactos diretos do desmatamento em larga escala para a produção de grãos impactaram mais significativamente as vazões dos rios do que os efeitos das mudanças climáticas. A maioria das mudanças observadas (56,7%) foram atribuídas às alterações no uso e cobertura da terra.

A pesquisa conclui que os efeitos do desmatamento associados às mudanças climáticas causarão grave descontinuidade do fluxo de muitos rios e afetará drasticamente a produção agrícola, a geração de energia elétrica e o abastecimento de água durante as estações secas no Cerrado e nas regiões que dependem da água gerada nesse bioma.

Salmona considera que seria possível ter determinadas áreas do Cerrado para pastagens, mas o modelo atual não pensa em reaproveitar o que foi desmatado e utilizado. De acordo com o pesquisador, esses grãos estão sendo plantados em áreas gigantescas, em propriedades que costumam ser maiores que 10 mil hectares de monocultura. Essas plantações dependem de irrigação, justamente no período mais crítico de secas e não há um monitoramento adequado para o uso da água.

Esse mesmo grande volume de água usado para a irrigação das plantações, falta para as comunidades ribeirinhas, o que gera uma série de conflitos, conhecidos como a guerra da água. “Isso é uma realidade muito clara na Bacia do Rio Corrente, na Bacia do Rio Grande, do Arrojado e outras do Oeste da Bahia. Os municípios de São Desidério, Cocos, Jaborandi e Barreiras comumente têm conflitos por água”.

Comunidades Tradicionais

Muitas dessas populações afetadas no Oeste da Bahia são comunidades tradicionais de fecho e fundo de pasto. “São pessoas que vivem na beira de rios que são afluentes do São  Francisco, como Arrojado, Formoso e Corrente. Os rios dessa região contribuem com uma porcentagem significativa da água do Rio São Francisco”, destaca Isabel Figueiredo, coordenadora do Programa Cerrado e Caatinga do Instituto Sociedade, População e Natureza, instituição que apoia essas comunidades que sofrem pressões.

Segundo a pesquisadora, tais populações têm sofrido impactos diretos do avanço do agronegócio, como apropriação indevida dos seus territórios tradicionalmente ocupados, violência e intimidação por parte dos grileiros de terras e das empresas de segurança privada das fazendas. Além disso, sofrem com a diminuição da vazão dos rios e a contaminação das águas, com a exploração sem controle dos cursos d’água para irrigação em pivôs centrais e o uso indiscriminado de agrotóxicos.

“Essas comunidades têm se organizado para buscar apoio da cooperação internacional para que possam investir em formação, articulação política, assessoria jurídica e comunicação. Elas têm investido muito em proteção dos seus territórios, recuperação de áreas degradadas e manejo do fogo, visando aprimorar o manejo sustentável das suas áreas, assim como em agroecologia”, explica.

Projeto ma.to.pi.ba.

Este conteúdo faz parte do Projeto ma.to.pi.ba., uma ação multimídia da Eco Nordeste, com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). Com início em janeiro de 2024, traz matérias, reportagens, podcasts, webstories e newsletters que lançam sobre a região do Matopiba um olhar para além do agronegócio. Ao mesmo tempo em que aborda os problemas socioambientais, a iniciativa multimídia aponta experiências que têm dado certo na região, na linha editorial de jornalismo de soluções adotada pela Eco Nordeste.

O projeto é executado por uma equipe premiada composta pelas repórteres Alice Sales e  Camila Aguiar, com edição da jornalista Verônica Falcão e coordenação geral da jornalista Maristela Crispim. Líliam Cunha assume a Assessoria de Comunicação, Flávia P. Gurgel é responsável pelo design; Isabelli Fernandes, edição de podcasts; e Andréia Vitório faz o gerenciamento das redes sociais.

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