Mapa coletivo reúne mais de 700 marcas do garimpo na Chapada

Cada ponto no mapa digital contém fotos e informações. Juntas, as marcas contam uma história escondida, mas nunca esquecida

Homem de chapéu dentro de uma construção histórica de pedras sob uma enorme rocha saliente
O garimpeiro e artesão Nino diante da Toca de Laudelino, abrigo construído sob a formação rochosa de Campo Alegre, em Lençóis. Segundo o registro, o local foi abandonado por volta de 1962. Foto de janeiro de 2004 | Foto: Acervo Fundação Chapada Diamantina

Há cerca de 40 anos, antes mesmo dos celulares, da internet e do GPS, Roy Funch, 77 anos, começou a percorrer trilhas das serras da Chapada Diamantina, na Bahia. Seus guias eram homens, na maioria negros, que viviam a busca diária por um diamante. 

“O que mais chamou minha atenção foi a natureza e os garimpeiros”, lembra Roy, com sotaque estadunidense, sobre aquele período. “Eu só andava com eles, sabia os nomes de cada um, muito não são mais vivos”, recorda o biólogo que veio para o Brasil na década de 1970.

O trabalho de Roy na Chapada Diamantina uniu pesquisa, conservação e conhecimento do território. Ele participou das articulações que antecederam a criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina, em 1985, e tornou-se o primeiro diretor da unidade. Décadas depois, parte daquele trabalho de campo deu origem ao mapa arqueológico interativo, inicialmente dedicado aos vestígios do garimpo manual de diamantes.

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Um mapa de
dois tempos

“Inicialmente, meu objetivo era só fazer um mapa da serra. Os garimpeiros que eu conhecia ajudaram e comecei a botar os nomes. Depois que o GPS ficou disponível, andava o parque e o projeto cresceu. Até que eu achei que tinha informações suficientes para fazer uma coisa melhor, um mapa mais preciso. No papel seria inviável, era muita informação. No digital se tornou possível”, relata Roy.

O mapa e sua legenda explicativa estão disponíveis gratuitamente no site da Fundação Chapada Diamantina exclusivamente na versão digital.

Dois homens em pé e um sentado junto a uma antiga parede de pedras empilhadas na base de um paredão rochoso.
O garimpeiro Vadinho (ao centro) diante das estruturas de pedra da Toca de Benedito, em Gobira, ao sul de Mucugê, em 2002 | Foto: Acervo Fundação Chapada Diamantina

Funciona em qualquer dispositivo que tenha instalado o Google Maps. Esse recurso permite visualizar os pontos em cores diferentes, cada cor é um tipo de achado arqueológico do garimpo, todos nomeados conforme o acervo da organização sem fins lucrativos.

No mapa, ao clicar no ponto de localização, o usuário pode ver mais fotos e acessar informações detalhadas, como altura e largura dos locais, tudo isso em português e inglês.

Confira o mapa:

O organizador ainda mantém o projeto aberto a sugestões com um formulário online. Roy modera sozinho as novas fotos feitas com a geolocalização ativa. “Esse tipo de uso da tecnologia combinada é positivo para a Chapada, serve para conscientizar sobre o nosso patrimônio”, afirma.


Turismo para
conhecer a história

O garimpo na Chapada Diamantina começou em 1844 com a descoberta de diamantes em Mucugê, transformando a região baiana em um dos maiores pólos mundiais de pedras preciosas e dando origem a cidades históricas como Lençóis e Andaraí.

Durante cerca de 150 anos, foi o garimpo que moldou a cultura, a arquitetura e a economia local, atraindo milhares de aventureiros até entrar em declínio, devido à escassez das pedras e à concorrência com o mercado internacional.

Homem em pé no portal de ruínas históricas construídas com pedras sobrepostas cercadas por vegetação
João da Gia junto às antigas estruturas de pedra no Córrego das Bicas, em Piçarras, Lençóis, na Chapada Diamantina, em 2002 | Foto: Acervo Fundação Chapada Diamantina

A extração foi oficialmente proibida em 1996, após a criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina, pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com o objetivo de proteger a diversa e desconhecida fauna, flora e funga bem como as nascentes de importantes rios da Bahia dos graves riscos e danos de poluição e contaminação relacionados diretamente com atividade do garimpo.

Em 2023, essa luta ganhou novos contornos com a disputa em torno da delimitação de uma área de proteção ambiental mais ampliada, abrangendo também a Serra da Chapadinha, que foi decretada como área protegida pelo Governo da Bahia em 2026.

Nesses 30 anos, o Parque Nacional da Chapada Diamantina se transformou em um dos principais destinos de turismo de natureza e turismo de conhecimento do Brasil, onde as antigas trilhas, grutas e vilas de garimpeiros hoje são um atrativo para visitantes do mundo todo.

De acordo com o Guia de Viagem Chapada Diamantina, principal referência de informações turísticas dessa região, o mapeamento aponta para uma diversidade maior de experiências de viagem.

“O turismo de conhecimento é um dos tipos de roteiro da Chapada Diamantina. Aqui a pessoa viajante e curiosa vai encontrar um território vasto e encantador. Um mapa como esse tem centenas de motivos para preservar e conservar esses territórios tão ricos”, comenta Branca Resende, diretora geral do Guia de Viagem Chapada Diamantina.


Um mapa que
conecta gerações

Homem de chapéu e roupa escura agachado ao lado de uma estrutura de pedras empilhadas sob uma grande formação rochosa.
Roy Funch em uma de suas incursões, em uma toca de garimpeiro do Córrego da Mandassaia, município de Lençóis | Foto: Acervo Fundação Chapada Diamantina

Aos poucos, o conhecimento do mapa começa a retornar para quem vive no território. A condutora de turismo Bárbara Nicole, 26 anos, passou a consultar o mapa para conhecer melhor os lugares pelos quais já conduzia visitantes no Parque e em outras áreas da Chapada Diamantina.

Bárbara é nativa de Lençóis e trabalha como guia desde 2017. “Meu avô foi garimpeiro, então essa história sempre fez parte da minha família e da minha relação com a Chapada. Para mim, esse mapa é quase um relicário dessa história”, conta.

Como guia pela empresa Fora da Trilha, ela percorre muitos desses lugares e encontra na trilha as marcas do antigo garimpo cartografado: as tocas, as ruínas e outros vestígios. “Na Cachoeira do Sossego, Parque da Muritiba e no Mixila, isso aparece bastante”, explica a guia de turismo.

Quatro pessoas sorriem para uma selfie em um mirante rochoso com uma cachoeira e poção ao fundo.
Bárbara Nicole em condução de grupo de viajantes no mirante da Cachoeira do Sossego, em Lençóis. Esse passeio dura 4 horas (ida e volta) e cruza com locais de garimpo ao longo da trilha | Foto: Acervo / Fora da Trilha

Assim, para quem trabalha como guia ou condutor, uma estrutura de pedra encontrada durante uma caminhada pode deixar de ser apenas parte da paisagem e ganhar contexto histórico.

“Acho interessante usar esse mapa como uma ferramenta para contar histórias durante as caminhadas. Em vez de olhar a Chapada Diamantina somente como um lugar de cachoeiras e paisagens bonitas, conseguimos mostrar também as marcas deixadas pelo ciclo do garimpo e entender um pouco melhor como esse território foi ocupado e transformado”, argumenta Bárbara.

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Vale lembrar para os visitantes que um mapa não substitui o conhecimento de quem percorre essas trilhas. O mapa oferece mais uma camada de informação via GPS que permite outra experiência de interatividade com os territórios no entorno do Parque Nacional Chapada Diamantina.

O que começou com caminhadas fotografando, medindo e anotando caminhos, tocas, casas de pedra, pontes e outras marcas humanas, agora ganha a forma com um mapa de memórias do garimpo que o tempo não apagou.

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