Na Reserva Biológica do Gurupi e no Território Indígena Governador, no Maranhão, brigadistas relatam o enfrentamento ao preconceito, à maternidade solo e ao avanço do fogo na Amazônia maranhense

Eram seis da manhã quando Dayana Silva e Ranielle Silva, brigadistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), se preparavam para mais um dia de trabalho na Reserva Biológica do Gurupi (Rebio Gurupi), com cabelos impecavelmente arrumados, maquiagem e sorriso largo no rosto. Horas depois, as duas estavam ao lado de Noé de Melo, chefe do esquadrão, empunhando uma motosserra para remover uma árvore caída que bloqueava o caminho até a trilha. A cena resume o tema desta reportagem: mulheres que romperam a expectativa sobre quem pode enfrentar o fogo na Amazônia.
Na Reserva Biológica do Gurupi e no Território Indígena Governador, ambos no Maranhão, atuam mulheres que escolheram um trabalho física e mentalmente exigente: combater incêndios florestais em plena Amazônia. Carregam bombas costais, abrem trilhas, permanecem por semanas em bases isoladas e, ao voltar para casa, encontram tempo e força para exercer outro papel igualmente desafiador: a maternidade, muitas vezes vivida sozinhas. A Eco Nordeste esteve nos dois territórios, a convite do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), e ouviu quatro dessas mulheres.
A primeira brigadista
indígena do Maranhão

Foi em uma área de reflorestamento do Território Indígena Governador que Thalia Gavião Pyhcohp Catiji falou, com orgulho, sobre ter se tornado, há oito anos, a primeira brigadista indígena do Maranhão. Segundo ela, a visão do próprio povo, na época, era de que brigadista era uma função exclusivamente masculina: “aí eu pensei: não, brigadista também é para mulher”, contou. Enfrentando o preconceito, decidiu participar sozinha do processo seletivo para mostrar que também era capaz.
Hoje, Thalia chefia a brigada do povo Gavião e não está mais só. A equipe conta com quatro mulheres, incluindo ela, além de uma brigada comunitária feminina formada por voluntárias. A Eco Nordeste optou por não entrevistar as demais integrantes da brigada Gavião em respeito ao momento de luto vivido pela comunidade após a perda de um familiar. Thalia contou ainda que, pouco depois de ingressar na brigada, Celiana Krikati, do povo de mesmo nome, também se tornou brigadista, um sinal de que outras mulheres passaram a ocupar esse espaço.
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O conhecimento sobre o fogo chegou à vida de Thalia muito antes de qualquer treinamento oficial. Ela lembra que o aprendizado começou ainda na infância, ao lado da avó: “antes de fazer o fogo é preciso observar o combustível, entender como fazer da maneira certa. Nossos antepassados sabiam encontrar na mata os materiais naturais que facilitavam fazer fogo”. Foi também com a avó que aprendeu outra lição, desta vez sobre ser mulher: “Ela ensinou para nós que precisávamos fazer o dobro para sermos reconhecidas. Antigamente a mulher era muito rebaixada, não podia fazer nada”.
Entre os desafios enfrentados até chegar à posição que ocupa hoje, Thalia destaca a maternidade. Quando o primeiro filho nasceu, ela era mãe solo e precisou escolher entre permanecer com o bebê ou trabalhar para sustentá-lo. Optou pelo trabalho e deixou o menino aos cuidados da própria mãe. “Eu praticamente não acompanhei o crescimento dele”. Com o nascimento do segundo filho, a rotina mudou. Hoje, o marido divide os cuidados com as crianças, embora as viagens continuem longas. “O coração continua apertado, mas fico mais tranquila porque sei que eles estão bem cuidados”, afirma. O filho mais velho, hoje com 14 anos, e o caçula, de cinco, já disseram que, quando crescerem, querem ser iguais à mãe.
Da brigada à gestão do fogo

Se Thalia abriu caminho dentro da própria etnia, Michelle Duarte construiu sua trajetória em outro contexto. Técnica ambiental da Rebio Gurupi e ponto focal do Manejo Integrado do Fogo (MIF) na unidade, ela começou como brigadista no Instituto Brasília Ambiental (Ibram). No esquadrão em que atuava, eram apenas ela e outra colega entre nove homens.
Michelle diz que teve sorte. O grupo sempre a respeitou, mas lembra que esse respeito foi construído desde o primeiro dia: “desde o início deixamos claro que queríamos aprender de verdade, que não queríamos nenhum tratamento diferente só por sermos mulheres. Pedimos que não aliviassem para nós”. Um episódio, no entanto, ficou marcado. Durante um incêndio de grandes proporções, um brigadista de outra unidade perguntou se poderia carregar a bomba costal dela. Michelle respondeu na hora: “se você vai carregar minha bomba costal, o que eu vim fazer aqui? Qual é o meu papel nesse combate?”.

Hoje, como gestora do fogo na Rebio Gurupi, Michelle afirma que encontrou na atividade a profissão que escolheu para a vida: “a gente acaba se apaixonando pelo fogo”. O que a move, segundo ela, é a preservação ambiental: “é proteger o que a gente sabe que é importante para todos. Não é importante só para a gente, é importante para as próximas gerações também”.
O maior desafio de sua trajetória, no entanto, não veio do fogo nem da convivência em um ambiente majoritariamente masculino. Veio da maternidade. Mãe solo de duas filhas, Michelle construiu, longe da família, no Maranhão, a rede de apoio que sustenta sua rotina. “O mais difícil não é trabalhar em um ambiente com muitos homens. O mais difícil é a maternidade”. Emocionada, ela lembra de quando a filha mais nova verbalizou o que sentia com as ausências da mãe: “mãe, eu odeio o seu trabalho”. “Isso dói muito”, admite Michelle. “Eu sempre respondo que amo o meu trabalho, mas amo também ser sua mãe e que vamos encontrar um equilíbrio”. Hoje, abre mão de viagens profissionalmente importantes para permanecer mais tempo com as filhas.
Uma nova geração de brigadistas

Dayana Silva e Ranielle Silva chegaram à brigada do ICMBio há cerca de um ano, vindas de lugares muito diferentes da floresta. Dayana havia trabalhado como bombeira civil, mas em ambiente urbano, e nunca tinha atuado em mata fechada. Ranielle veio do Piauí e trabalhava como frentista em um posto de combustível. Pelo pouco tempo de atuação, nenhuma das duas enfrentou ainda um combate a incêndio florestal. Mas, com o Super El Niño se aproximando, ambas afirmam estar preparadas física e psicologicamente para o que pode vir.
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Perguntada sobre qual foi o maior obstáculo por ser mulher, Dayana respondeu que nenhum. Afirmou que manuseia os mesmos equipamentos utilizados pelos homens e que, até então, nunca encontrou uma atividade que não conseguisse realizar. Orgulhosa, afirma: “uma mulher, nos dias de hoje, para exercer um trabalho braçal como esse, é muito difícil. Graças a Deus, até hoje a gente está dando conta”.
A maternidade também foi um desafio para Dayana. Mãe de dois adolescentes, ela conta que, no início, a maior preocupação era deixar os filhos em casa durante os períodos em que permanecia na base. Com o tempo, a rotina ficou mais tranquila graças ao apoio da mãe, que cuida dos meninos durante as escalas, e à possibilidade de manter contato frequente pela internet disponível nas bases da brigada. “Hoje está super tranquilo”, resume.

Ranielle fala da profissão com mais cautela. Reconhece que ainda encontra dificuldade para manusear alguns equipamentos, mas faz questão de dizer que isso nunca representou uma limitação. Ela atribui ao chefe de esquadrão, Noé de Melo, a paciência de ensinar sem pressa e de transmitir os conhecimentos necessários para o trabalho.
Ao falar sobre a importância da profissão, Ranielle interrompeu a resposta por alguns segundos, emocionada. Mãe de um menino de sete anos, contou que uma das mudanças que a brigada trouxe para dentro de casa foi a forma de conversar com o filho sobre o fogo. “Ele ama fogo”, disse. É a partir da experiência na brigada que ela tenta explicar ao menino que fogo não é brincadeira.

As trajetórias de Thalia, Michelle, Dayana e Ranielle retratam diferentes momentos da presença feminina nas brigadas que atuam na Amazônia maranhense. Enquanto algumas precisaram romper barreiras para ocupar espaços historicamente masculinos, outras iniciaram a carreira em equipes onde competência e preparo técnico definem o trabalho. Em comum, carregam a responsabilidade de proteger a floresta sem abrir mão de outros papéis, como o da maternidade, e ajudam a abrir caminho para que outras mulheres também se reconheçam nesse trabalho.
*Esta é a segunda reportagem de uma série de três sobre a imersão da Eco Nordeste na Amazônia maranhense.


