Em entrevista, geógrafa Magda Maia discute o papel dos municípios na preparação para El Niño e para outros aspectos da crise climática

Geógrafa, doutora em Desenvolvimento e Meio Ambiente e pós-doutoranda pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Magda Maia acumula uma trajetória de destaque na gestão pública e no planejamento territorial.
Criadora do framework Sustentabilidade 4.0 e fundadora do think tank Beeosfera, a pesquisadora traz na bagagem a coordenação de planos estratégicos como o Fortaleza 2040 e o Ceará 2050, além de atuar como professora da Unifor e presidenta da Associação Profissional dos Geógrafos do Estado do Ceará (Aprogeo-CE).
Em entrevista exclusiva, Magda faz um alerta severo sobre a urgência de respostas imediatas frente às projeções globais, como a possibilidade de um super El Niño em 2026/2027.
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Diante da severidade dos cenários para o Brasil – em especial a combinação de secas severas e precipitações extremas no Nordeste -, a cientista defende que a prioridade absoluta dos municípios deve ser a criação imediata de planos de contingência, instrumento essencial para salvar vidas antes mesmo da implementação de estratégias estruturais de adaptação e resiliência de longo prazo.
Para além da gestão pública municipal, a pesquisadora defende a necessidade de engajar o setor produtivo e a sociedade em uma transição ecológica profunda e regenerativa. Ela ressalta a urgência de as empresas superarem métricas superficiais de ESG para adotar compromissos com a segurança hídrica – como o conceito Water Positive – e a valorização dos serviços ecossistêmicos.
Por fim, ao evocar o conceito de “florestania”, Magda convoca cada cidadão a desconstruir a visão de separação entre humanidade e meio ambiente e assumir a regeneração cotidiana do modo de vida como condição indispensável para a manutenção da própria existência.

Maristela Crispim – Na sua visão, de que forma a natureza tem dado os sinais mais alarmantes da Crise Climática?
Magda Maia – Podemos dizer que os sinais mais alarmantes são aqueles que deixaram de ser exceção para se tornar recorrentes, a exemplo de enchentes, secas prolongadas, ondas de calor extremo e incêndios florestais.
Estes eventos sempre fizeram parte da dinâmica natural do Planeta, contudo, atualmente ocorrem com maior frequência e intensidade, produzindo impactos humanos, econômicos e ambientais cada vez mais severos.

No Brasil, basta observarmos os acontecimentos mais recentes. Em 2023, a Amazônia registrou uma das secas mais severas de sua história recente, comprometendo o abastecimento de comunidades, a navegabilidade dos rios e o funcionamento dos ecossistemas. No ano seguinte, as enchentes no Rio Grande do Sul afetaram mais de 2,3 milhões de pessoas e se consolidaram como o maior desastre climático já registrado no Estado.
Entretanto, vale a pena chamar atenção também para sinais menos perceptíveis pela população, mas que revelam a profundidade da crise climática, a exemplo das mortes associadas ao calor extremo, que nem sempre são registradas como causa principal dos óbitos, do aumento do preço dos alimentos e da ocorrência de fenômenos meteorológicos incomuns em determinadas regiões, como episódios de granizo em áreas do Nordeste.

Nesse contexto, uma revisão sistemática publicada pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) em 2025, reunindo 88 estudos científicos sobre os impactos das mudanças climáticas na produção de alimentos no Brasil, concluiu que a tendência é de redução da produtividade agrícola, aumento de pragas e doenças, maior risco de perdas de safras e, como consequência, aumento da insegurança alimentar e da pressão sobre os preços dos alimentos.
Esses impactos tendem a afetar de forma mais intensa as populações de menor renda, tornando a crise climática também um desafio social e econômico, para além da dimensão ambiental.
MC – Organizações como a NOAA e o Copernicus já alertam para um super El Niño em 2026/2027. O que a Ciência nos diz sobre a gravidade desse evento que se aproxima?
MM – Antes de tudo, considero importante esclarecer que a classificação “super El Niño” não corresponde a uma categoria científica oficial, mas a uma expressão utilizada para comunicar eventos excepcionalmente intensos.
Conforme explicou recentemente o climatologista Alexandre Costa, vivemos inclusive um momento de revisão na forma como esse fenômeno é mensurado, uma vez que os índices tradicionais foram desenvolvidos a partir de médias históricas construídas para um planeta significativamente mais frio do que o atual. Essa discussão é extremamente importante para a climatologia e demonstra que as próprias ferramentas de monitoramento precisam evoluir diante das mudanças climáticas.

Entretanto, do ponto de vista do planejamento territorial, considero que o termo “super” pode ser perfeitamente aplicado quando pensamos na dimensão dos impactos. Isso porque não estamos lidando apenas com um planeta mais quente, mas também com cidades que cresceram de forma acelerada e, em muitos casos, eliminaram indiscriminadamente os ecossistemas responsáveis por amortecer eventos extremos.
Canalizamos rios, impermeabilizamos extensas áreas urbanas, ocupamos planícies de inundação, reduzimos a cobertura vegetal e continuamos expandindo as cidades sem incorporar a variável climática ao planejamento urbano. Como consequência, um mesmo volume de chuva ou um mesmo período de estiagem tende hoje a produzir impactos muito superiores aos registrados há algumas décadas.

Sob essa perspectiva, independentemente da classificação adotada pelos modelos climáticos, o que exige maior atenção é a capacidade de resposta dos territórios. Os fenômenos climáticos continuarão ocorrendo, porém seus impactos dependerão cada vez mais da forma como ocupamos e planejamos nossas cidades.
É nesse contexto que a Geografia e o planejamento territorial deixam de representar apenas instrumentos de ordenamento urbano para assumir um papel estratégico na adaptação às mudanças climáticas.
MC – Olhando para o nosso mapa, quais são os cenários mais críticos previstos para o Brasil e, especificamente, para o Nordeste?
MM – O Brasil deverá experimentar impactos bastante distintos entre suas regiões, uma vez que o El Niño altera a circulação atmosférica e, consequentemente, modifica a distribuição das chuvas no território nacional.
De maneira geral, as projeções mais recentes apontam para um cenário de redução das precipitações na Amazônia e em grande parte do Nordeste, ao mesmo tempo em que a região Sul permanece mais suscetível à ocorrência de chuvas acima da média e seus respectivos desdobramentos, como enchentes, enxurradas e movimentos de massa.

O Sudeste, por sua vez, tende a apresentar um comportamento mais heterogêneo, com áreas que poderão registrar aumento das chuvas, enquanto outras poderão enfrentar períodos de estiagem e veranicos, e isso evidenciar que os impactos mesmo quando ocorrem em uma mesma região podem ser bastante incertos.
No caso da Amazônia, a preocupação vai muito além da redução das chuvas, uma vez que as estiagens prolongadas reduzem os níveis dos rios, que por sua vez comprometem o abastecimento de comunidades ribeirinhas, dificultam a logística regional e aumentam significativamente o risco de incêndios florestais.
Contudo, vale ressaltar que a importância da Amazônia extrapola seus próprios limites geográficos: grande parte da umidade produzida pela floresta é transportada pelos chamados rios voadores, contribuindo para o regime de chuvas em diferentes regiões do País, especialmente no Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

Ou seja, sob uma perspectiva sistêmica, alterações no funcionamento desse ecossistema ampliam riscos que deixam de ser apenas regionais para repercutir sobre a produção agrícola, a disponibilidade hídrica e a segurança climática em escala nacional e, em alguma medida, global.
Para o Nordeste, o cenário exige atenção especial em razão da combinação entre precipitações abaixo da média e temperaturas acima do padrão climatológico. Essa condição intensifica a evaporação, reduz a umidade do solo e acelera a perda de água armazenada em açudes e pequenos reservatórios, produzindo impactos diretos sobre o abastecimento humano, a agricultura e a pecuária.
Trata-se de uma realidade particularmente preocupante para o Semiárido brasileiro, onde a irregularidade das chuvas sempre esteve presente, mas tende a se tornar ainda mais acentuada em um contexto de mudanças climáticas, exigindo planos de contingência, planos de adaptação e resiliência, além de novos modelos de gestão da água pensada para períodos cada vez mais prolongados de escassez hídrica.
Em um cenário de mudanças climáticas, é também importante esclarecer que uma previsão de chuvas abaixo da média não significa ausência de chuva. Pelo contrário, um dos efeitos mais preocupantes das mudanças climáticas é exatamente a irregularidade da precipitação.
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Ou seja, podemos ter longos períodos de estiagem interrompidos por chuvas extremamente intensas em poucas horas, suficientes para provocar enchentes e enxurradas, mas insuficientes para garantir a recarga dos reservatórios e dos aquíferos, por exemplo.
Sob a perspectiva da gestão territorial, o Nordeste apresenta um dos cenários mais desafiadores da atualidade, pois exige que os municípios se preparem simultaneamente para lidar com a escassez hídrica e com eventos extremos de inundação.
MC – Como geógrafa, qual é o seu principal conselho – ou urgência – para que os municípios brasileiros se adaptem a esse agravamento?
MM – Como geógrafa, preciso ir direto ao ponto: é urgente que todos os municípios brasileiros possuam um plano de contingência antes mesmo de elaborar um plano de adaptação climática, porque, embora ambos sejam fundamentais, possuem objetivos distintos.
Enquanto o plano de contingência estabelece como o município deverá agir antes, durante e imediatamente após um evento extremo, reduzindo riscos à população, o plano de adaptação envolve uma transformação estrutural do território, preparando a cidade para conviver com uma nova realidade climática nas próximas décadas.
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Essa preparação deve seguir as diretrizes da Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (Lei Nº 12.608/2012), que estabelece a prevenção e a redução de riscos como princípios da gestão territorial, enquanto o Plano Clima reforça a necessidade de incorporar a adaptação climática ao planejamento dos municípios.
Esse plano de contingência precisa partir de um profundo conhecimento do território e é importante mencionar que não existe um modelo único para todos os municípios brasileiros, uma vez que os riscos variam de acordo com a geografia local.
Uma cidade litorânea e de geografia predominantemente plana, como Fortaleza, por exemplo, deve priorizar cenários relacionados a chuvas extremas, alagamentos, avanço do nível do mar, erosão costeira, ilhas de calor e períodos prolongados de estiagem.

Já um município localizado no sertão deve preparar-se simultaneamente para secas prolongadas e para chuvas extremamente intensas e concentradas, capazes de provocar enxurradas e enchentes em poucas horas.
Embora isso possa parecer contraditório em um primeiro momento, trata-se de um comportamento cada vez mais frequente em um contexto de mudanças climáticas, marcado pela irregularidade da precipitação.
Tanto o plano de contingência quanto o plano de adaptação precisam estar fundamentados em um mapeamento técnico do território, identificando áreas suscetíveis a inundações, movimentos de massa, processos erosivos, ilhas de calor, avanço do mar e demais vulnerabilidades ambientais.

Esse tipo de diagnóstico integra as atribuições profissionais da Geografia e constitui uma das principais bases para definição de rotas de fuga, áreas de abrigo, sistemas de alerta, protocolos de evacuação e estratégias de comunicação com a população.
Paralelamente, considero igualmente importante investir em educação ambiental, estimulando uma cultura de percepção de riscos que permita às próprias comunidades reconhecer sinais da natureza e compreender como agir diante de situações de emergência.
Nos municípios sujeitos a longos períodos de seca, as medidas de contingência também precisam contemplar campanhas permanentes de uso racional da água, ampliação da capacidade de armazenamento, proteção de nascentes e áreas de recarga aquífera, além de investimentos em tecnologias inovadoras de captação e armazenamento hídrico.
No contexto das secas, torna-se igualmente necessário ampliar o debate sobre tecnologias alternativas de obtenção de água
Essas ações exigem atuação integrada entre municípios, estados e União, considerando que a segurança hídrica deixou de ser uma pauta exclusivamente regional para assumir caráter estratégico para o desenvolvimento do País.
Ainda no contexto das secas, torna-se igualmente necessário ampliar o debate sobre tecnologias alternativas de obtenção de água. O armazenamento das chuvas continuará sendo estratégico, porém tende a se tornar insuficiente diante de um cenário caracterizado por precipitações cada vez mais irregulares e por uma atmosfera mais quente, que aumenta a demanda evaporativa.
Isso exige investimentos em novas soluções tecnológicas, incluindo sistemas de captação de água atmosférica inspirados em estratégias já desenvolvidas pela própria natureza, ampliação do reúso de água, proteção das áreas de recarga aquífera e fortalecimento da gestão integrada dos recursos hídricos.

Paralelamente às medidas de contingência, os municípios precisarão desenvolver planos de adaptação e resiliência baseados em estudos aprofundados da realidade ambiental, ecológica, social e econômica de cada território, associados à projeção de cenários climáticos futuros.
Nesse contexto, organismos internacionais como o IPCC, a IUCN e a ONU-Habitat vêm recomendando a ampliação das chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que consistem na utilização dos próprios processos ecológicos, como infraestrutura ecológica para aumentar a resiliência das cidades.
Isso inclui, por exemplo, a recuperação de rios, lagoas e áreas úmidas, a restauração da vegetação nativa, a arborização urbana em larga escala, a substituição gradual de superfícies impermeáveis por pavimentos drenantes e a criação de corredores verdes capazes de reduzir ilhas de calor, aumentar a infiltração da água no solo e amortecer eventos extremos.
MC – E quanto ao setor produtivo? Quais devem ser as estratégias prioritárias para conciliar economia e a transição ecológica necessária?
MM – Já passou da hora de o setor produtivo relegar a sustentabilidade e a adaptação climática a uma pauta secundária ou restringi-las à obtenção de certificações e à dimensão estritamente financeira do ESG.
A crise climática exige uma mudança mais profunda na forma como as empresas compreendem sua relação com a natureza, pois toda atividade econômica depende, em maior ou menor grau, da disponibilidade de matéria-prima, água e energia.

Em outras palavras, não existe economia sem ecologia e, portanto, proteger os ecossistemas deixou de ser apenas uma responsabilidade socioambiental para se tornar uma estratégia de continuidade dos próprios negócios.
Sob essa perspectiva, as mudanças climáticas representam um risco crescente para as cadeias produtivas, uma vez que comprometem a disponibilidade de recursos naturais, aumentam a frequência de interrupções logísticas, elevam custos operacionais e reduzem a previsibilidade necessária ao planejamento empresarial.
Quando esses impactos são associados ao uso predatório da biodiversidade, à degradação dos solos, à redução da disponibilidade hídrica e à perda dos serviços ecossistêmicos, deixa de existir uma separação entre risco ambiental e risco econômico.
Não existe economia sem ecologia
Por essa razão, considero que no período de transição que estamos vivendo as empresas deverão incorporar uma agenda mais ampla do que aquela tradicionalmente adotada pelos processos de licenciamento ambiental.
A preservação e a compensação ambiental continuarão sendo importantes, porém já não são suficientes diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, sendo necessário incorporar estratégias capazes de aumentar a resiliência dos próprios sistemas produtivos.
Uma dessas estratégias consiste na adoção do conceito de Water Positive, que propõe que empresas devolvam à natureza, em qualidade e quantidade, um volume de água igual ou superior àquele utilizado em suas operações.

Isso pode ocorrer por meio da restauração de nascentes, recuperação de matas ciliares, proteção de áreas de recarga aquífera, ampliação do reuso de água e investimentos em infraestrutura natural.
Além de reduzir riscos relacionados ao abastecimento, essas iniciativas fortalecem a segurança hídrica das regiões onde as empresas estão inseridas, gerando benefícios compartilhados para o setor produtivo e para a sociedade.
É importante também reconhecer o valor econômico dos serviços ecossistêmicos, uma vez que processos como polinização, regulação climática, formação dos solos, produção de água e controle biológico de pragas sustentam atividades produtivas inteiras, embora frequentemente permaneçam invisíveis nas decisões empresariais.

Por fim, considero que a inovação ocupará um papel central nessa transição, especialmente no que se refere:
- à ampliação da eficiência energética;
- à utilização de fontes renováveis;
- ao desenvolvimento de soluções baseadas na natureza;
- à biomimética;
- à bioeconomia; e
- à incorporação da inteligência artificial (regenerativa) ao planejamento ambiental, representando oportunidades para que as empresas aumentem sua competitividade ao mesmo tempo em que fortalecem sua capacidade de adaptação às mudanças climáticas.
A sustentabilidade e adaptação climática, portanto, não deverão ser compreendidas como um custo adicional, mas como um investimento na resiliência dos negócios em um planeta cujos limites ecológicos se tornam cada vez mais evidentes.
MC – Como nós, individualmente, podemos restabelecer nossa conexão com a natureza para ir além da mitigação e caminhar rumo a uma real regeneração?
MM – Imagine se todos nós tivéssemos sido ecoalfabetizados na escola ou, pelo menos, tivéssemos recebido uma educação verdadeiramente sistêmica, capaz de nos mostrar, desde cedo, que tudo o que fazemos repercute sobre o sistema planetário e que tudo o que acontece no Planeta também repercute em nossas vidas.
Muito provavelmente formaríamos empresários, governantes e representantes institucionais com uma compreensão muito mais consistente sobre sustentabilidade e, consequentemente, teríamos decisões públicas e privadas muito mais alinhadas com a manutenção da vida.

Ocorre que fomos educados dentro de uma lógica de separação. Edgar Morin utiliza o conceito de imprinting cultural para explicar como determinadas formas de pensar são incorporadas ao longo da vida e passam a orientar nossa maneira de interpretar a realidade, entre elas a ideia de que o ser humano ocupa uma posição separada, ou mesmo superior, em relação à natureza.
É nessa base que, a meu ver, precisamos promover uma profunda reconexão, reconhecendo que somos natureza e que a nossa existência depende integralmente do funcionamento dos ecossistemas.
Assumir que somos natureza não constitui um discurso ambientalista, mas uma oportunidade de rever a forma como produzimos, consumimos, ocupamos as cidades, utilizamos a água, geramos energia e estabelecemos nossas relações com todas as formas de vida.
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Quando essa compreensão se torna parte da nossa consciência, a sustentabilidade deixa de ser um tema restrito às políticas públicas ou às empresas e passa a orientar as escolhas cotidianas de cada cidadão.
Essa reconexão pode começar pela leitura de uma entrevista como esta, pode nascer de uma caminhada em um ambiente natural, pode surgir quando decidimos ouvir o que a Ciência vem demonstrando sobre as mudanças climáticas ou, simplesmente, quando passamos a observar a natureza com mais atenção.
A partir daí, acredito que a regeneração acontece como um processo contínuo, envolvendo a regeneração do próprio modo de vida, das relações humanas, da forma como participamos da comunidade e também da maneira como exercemos nossa cidadania, acompanhando as decisões públicas, cobrando planos de contingência e adaptação climática e contribuindo para tornar nossas cidades mais saudáveis e resilientes.

Gosto muito da expressão “florestania”, utilizada por Ailton Krenak, porque ela amplia o próprio significado de cidadania ao reconhecer que pertencemos a uma comunidade de vida muito maior do que aquela formada apenas pelos seres humanos.
Quando compreendemos esse pertencimento, deixamos de agir motivados exclusivamente pelos nossos interesses imediatos e passamos a reconhecer que cuidar da natureza significa, antes de tudo, cuidar das condições que tornam possível a nossa própria existência e a das futuras gerações. Acredito que é dessa mudança de mentalidade que nasce uma sociedade verdadeiramente regenerativa.


