Conheça Ulaanbaatar, sede da COP17 da Desertificação

Com 77% das terras afetadas pela degradação, a capital mais fria do mundo vira o epicentro das decisões ambientais da ONU no Ano Internacional das Pastagens

Vista aérea de uma cidade moderna com grandes avenidas, veículos, praça central, prédios clássicos e um arranha-céu espelhado em formato de vela, com montanhas ao fundo.
Centro de Ulã Bator, capital da Mongólia, onde ocorrerá a COP17 da Desertificação | Foto: Zazaa Mongolia

A capital da Mongólia, Ulaanbaatar, prepara-se para os holofotes globais ao sediar a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17 da Desertificação) em 2026. Cidade de contrastes profundos, onde a tradição nômade milenar encontra a arquitetura da era soviética e o dinamismo de uma metrópole moderna, Ulaanbaatar será o epicentro de decisões cruciais sob o tema Restaurar a Terra. Restaurar a Esperança.

“A visão ocidental da Mongólia infelizmente é muito mínima. Mas quem se aprofunda, verá que é um povo incrível, batalhador e com uma cultura bem enraizada”, afirma o autor do livro De Genghis Khan à Mongólia atual: A herança Mongol, o geógrafo Yuriy J L Gonçalves.

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Fundador da página Histórias do Mundo, cujo Instagram tem 354 mil seguidores, ele destaca que, apesar da sua população se concentrar na capital, em outros pontos do país ainda há criação dos cavalos mongóis, uma espécie diferente do que vemos no Ocidente.

“A Mongólia ficou muito conhecida pela série da Netflix Marco Polo e também pelo seu passado de império. Hoje ela é bastante dependente do gás russo e da China”, descreve Yuriy. “Existe também toda uma história por trás que menciono em mais detalhes no livro. O povo mongol lutou muito, enfrentou impérios milenares e sobreviveu no tempo”.

Da cidade nômade
ao ‘Herói Vermelho’

Fundada em 1639, a cidade nem sempre esteve onde se encontra hoje. Originalmente chamada de Örgöö (Urga), ela nasceu como um centro monástico budista móvel. Ao longo de sua história, a capital mudou de localização 28 vezes, com cada local sendo escolhido cerimonialmente, até se estabelecer definitivamente na localização atual em 1778.

Grupo de mulheres posando ao ar livre vestindo trajes tradicionais mongóis coloridos, com túnicas detalhadas e adereços elaborados na cabeça.
Trajes tradicionais mongóis durante um “mini-Naadam” — uma demonstração de música, dança, arco e flecha, luta e equitação — em um campo nos arredores de Ulaanbaatar, na Mongólia | Foto: EUA / Domínio Público

Durante séculos, foi uma cidade sagrada e residência do “Buda Vivo”. Em 1924, após a revolução que instituiu a República Popular da Mongólia, a cidade foi renomeada para Ulaanbaatar, “Herói Vermelho” na língua mongol. 

A história recente da capital é marcada pela influência soviética, visível nos blocos de apartamentos e no planejamento urbano das décadas de 1950 a 1980, e pela transição para a democracia em 1990.

A Geografia e o
desafio do clima extremo

Localizada a uma altitude de cerca de 1.350 metros no Vale do Rio Tuul, Ulaanbaatar detém o título de capital nacional mais fria do mundo, com uma temperatura média anual de aproximadamente 0 °C.

Imagem de satélite mostrando uma área urbana estabelecida ao longo de um vale, cercada por relevo montanhoso e vegetação.
Imagem de satélite de Ulaanbaatar | Foto: European Space Agency

O clima é rigoroso, classificado como semiárido frio. No inverno, as temperaturas podem despencar para impressionantes −42 °C, enquanto no verão podem atingir picos de 39 °C. 

A cidade está situada em uma zona de permafrost esporádico (solo permanentemente congelado), o que exige técnicas especiais de construção para evitar que edifícios e estradas afundem durante o degelo nos meses mais quentes.

Luta contra a poluição

Como sede de uma conferência ambiental de alto nível como a COP17, Ulaanbaatar enfrenta seus próprios desafios críticos. A poluição do ar é um problema severo, especialmente no inverno. 

Por estar em um vale cercado por montanhas, o ar frio e poluído fica retido sobre a cidade. As principais fontes de emissão são os fogões a carvão usados para aquecimento e cozinha em áreas residenciais periféricas e as usinas de energia locais.

A COP17 e a agenda
de transformação
da Mongólia

A escolha de Ulaanbaatar para sediar a COP17 destaca um país na linha de frente da degradação ambiental, onde cerca de 77% das terras já são afetadas pela desertificação.  

A conferência contará com segmentos de alto nível, incluindo uma Cúpula de Chefes de Estado, em 23 de agosto, e dias temáticos dedicados a Finanças, Água, Terra e Pessoa, e Sistemas Alimentares.

Uma mulher em trajes tradicionais mongóis e adereço na cabeça está montada em um camelo no deserto, sob a luz do sol. Ao fundo, veem-se dunas de areia e um céu azul sem nuvens.
COP17 de Desertificação ocorre entre os dias 17 e 28 de agosto, em Ulaanbaatar, capital da Mongólia | Foto: UNCCD / Divulgação

A Mongólia apresentará iniciativas ambiciosas como o legado da conferência:

  • Iniciativa Principal de Pastagens: em 2026, o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, o país liderará esforços para proteger esses ecossistemas que cobrem metade da superfície terrestre;
  • Movimento “Bilhões de Árvores”: um compromisso nacional para plantar um bilhão de árvores até 2030 para combater a degradação;
  • Infraestrutura de IA Verde: o uso do clima frio de Ulaanbaatar para centros de dados com baixo consumo de água e energia renovável;
  • Business4Land: Engajamento do setor privado para fechar a lacuna de financiamento na restauração de terras.

O povo e a sociedade

Os blocos de apartamentos da era socialista construídos entre 1960 e 1985 convivem com arranha-céus modernos e distritos periféricos de gers (tendas tradicionais), o que reflete o crescimento explosivo de uma cidade que agora abriga cerca de 1,3 milhão de pessoas, quase metade da população total do país.

Fachada curva de um prédio com grandes colunas brancas, paredes amarelas e vermelhas, topo com cúpula azul e letreiro em caracteres cirílicos e tradicionais.
Prédio principal da Universidade Nacional da Mongólia | Foto: UNM / Divulgação

Esse crescimento acelerado trouxe desafios sociais e de infraestrutura, com a expansão de novos blocos de apartamentos e bairros periféricos que transformaram a paisagem urbana. Ulaanbaatar é também o centro educacional do país, e abriga seis grandes universidades públicas, incluindo a Universidade Nacional da Mongólia.

Entre a Rússia e a China

Estrategicamente posicionada entre as duas superpotências, a Mongólia reflete influências de ambos os vizinhos. Historicamente, Ulaanbaatar prosperou como um ponto vital na rota de comércio de chá entre a Rússia e a China. 

Hoje, a cidade é conectada a essas nações pela ferrovia Transmongoliana, que a interliga ao sistema ferroviário da Rússia (via Transiberiana) e da China. A presença diplomática é forte, com inúmeras embaixadas e parcerias com cidades-irmãs como Pequim e Seul.

Tradição e modernidade

A cultura de Ulaanbaatar é rica e preservada em museus e templos. O Mosteiro Gandantegchinlen, com sua estátua de ouro de 26,5 metros de altura, é uma das atrações mais famosas e sobreviveu aos expurgos religiosos do século XX.

Outros pontos de interesse cultural incluem:

  • Palácio de Inverno do Bogd Khan, um museu dedicado ao último monarca da Mongólia;
  • Museu de História Natural, famoso por seus fósseis de dinossauros encontrados no deserto de Gobi;
  • Memorial Zaisan, localizado em uma colina ao sul, oferece uma vista panorâmica de toda a cidade e homenageia a amizade mongol-soviética;
  • Naadam, festival tradicional que celebra esportes nômades (luta livre, arco e flecha e corrida de cavalos), um dos momentos mais vibrantes da vida social da cidade, realizado anualmente no verão, especificamente entre os dias 11 e 13 de julho.

O símbolo oficial da cidade é a Garuda (Khangarid), uma figura mitológica que segura uma chave em sua mão direita, simbolizando prosperidade, e uma flor de lótus na esquerda, para indicar paz e pureza, refletindo as aspirações de uma capital que busca equilibrar o passado heróico com um futuro sustentável.

*Com informações da Wikipedia

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