Marcha das Mulheres expõe violência e exalta direito à vida

Uma multidão densa, composta majoritariamente por mulheres, caminha em direção à câmera, ocupando toda a extensão da via ladeada por prédios baixos e fiação elétrica. O grupo exibe uma identidade visual vibrante, com muitas participantes vestindo camisetas lilases e empunhando bandeiras roxas e brancas que flutuam sobre a massa. Para se protegerem do sol forte, diversas mulheres utilizam sombrinhas coloridas, criando um mosaico de cores que se mistura aos cartazes de reivindicação. Ao fundo, um trio elétrico. Tudo sob um céu claro com poucas nuvens
A 17ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia ocupa as ruas de Remígio (PB) neste dia 12 de março de 2026 | Foto: Maristela Crispim

O Planalto da Borborema é uma região de terras altas no Nordeste brasileiro que se estende por Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Este imponente relevo age como uma barreira que retém a umidade, influencia o clima seco do Sertão e o frescor do Agreste e do Brejo. É neste cenário, no território paraibano, que se ergue um movimento que cresce há quase duas décadas.

Pelo 17º ano consecutivo, a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia ocupa as ruas de Remígio (PB). Testemunhar a força feminina em defesa da vida em seu sentido mais amplo – pela integridade das mulheres e pela preservação da Caatinga – é um ato de resistência.

O movimento deste 12 de março demonstrou que vozes unidas ecoam mais longe contra a violência de gênero e as violações de direitos. A Agroecologia surge como um poderoso instrumento de manutenção da vida e empoderamento feminino.

As mulheres marcham contra todo tipo de abuso, incluindo as pseudo soluções para a crise climática que favorecem interesses corporativos, mercantilizam bens comuns e destroem o bioma. Em vez disso, a Marcha defende a agricultura familiar agroecológica, que respeita os territórios e os modos de vida tradicionais.

A Marcha

Em primeiro plano, uma mulher branca de cabelos castanhos cacheados e longos, usa óculos de sol grandes e redondos e segura um microfone preto, falando com expressão entusiasmada. Ela veste a camiseta lilás onde se lê "Mulheres em defesa da Borborema", e tem uma pequena tatuagem no braço esquerdo com o símbolo de uma mão e a palavra "Não". Ela está posicionada no alto de um carro de som, cujas barras pretas aparecem na parte inferior da imagem. Ao fundo, a rua está tomada por uma multidão de pessoas, bandeiras roxas e carros, sob a luz intensa do sol
Gizelda Beserra conta como as mulheres foram se empoderando a partir da participação no movimento | Foto: Maristela Crispim

Gizelda Beserra, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Remígio e uma das coordenadoras do evento, conta que a iniciativa nasceu dentro do Movimento de Mulheres Camponesas do Sindicato.

“Surgiu por questões que percebemos ao ir para as reuniões nas comunidades. Primeiro, só quem aparecia eram os homens; as mulheres só surgiam na hora de servir o café. Daí, fizemos um processo de mobilização para trazer visibilidade ao trabalho feminino”, recorda.

Para que a família passasse a notar o papel da mulher na propriedade e no arredor de casa, dois temas centrais foram usados como porta de entrada: os fundos rotativos solidários e as plantas medicinais. “Eram temas que os maridos ‘deixavam’ as mulheres saírem de casa para discutir. Nas reuniões, aproveitamos para introduzir, de forma sutil, o tema da violência. E elas começaram a fazer os relatos”, explica Gizelda.

O que começou com 350 mulheres em uma parceria com o Fórum dos Assentados, transformou-se em um marco regional. “Hoje estamos na 17ª marcha, e mobilizamos entre 5.000 e 6.000 mulheres”, orgulha-se.

A Agroecologia

Uma barraca de feira agroecológica exibe uma diversidade de produtos frescos e artesanais sob uma cobertura de lona. Em destaque, sobre uma mesa forrada com plástico verde, estão empilhadas pencas de bananas verdes e maduras, abacates grandes, maxixes e potes de vidro contendo doces ou grãos, além de garrafas térmicas e recipientes de plástico. Atrás da banca, três pessoas aguardam: à esquerda, uma mulher de touca branca e óculos; ao centro, um jovem de moletom bege; e à direita, uma mulher de camiseta rosa e colete branco. Ao fundo, em uma praça pavimentada com paralelepípedos e palmeiras, vê-se um letreiro turístico branco com a inscrição parcial "REMÍGIO" e um coração, próximo a um pequeno lago, sob um céu claro e ensolarado
A Agroecologia é considerada como sinônimo de vida para as mulheres da Agricultura Familiar | Foto: Maristela Crispim

Para Gizelda, Agroecologia é sinônimo de autonomia, segurança e auto sustentabilidade: “é dizer que estamos presentes, fortes, fazendo agricultura e que somos parte essencial desse processo. É um saber que transmitimos para nossos filhos”.

Durante a preparação para o evento deste ano, reuniões comunitárias em Remígio levantaram preocupações sobre as mudanças climáticas e a concentração de terras. “Relataram que não sabem mais quando começa o inverno e sofrem com o calor intenso. Além disso, quem tem dinheiro está comprando terras para lazer ou pecuária extensiva, usando veneno para matar o mato e criar pasto”, alerta.

Ela ressalta que o enfraquecimento da agricultura no campo atinge primeiro as mulheres, muitas vezes empurradas para as periferias das cidades: “as mulheres que permanecem no sítio fazendo Agroecologia conseguem viver em uma situação muito melhor de sustentabilidade e harmonia”.

As ‘renováveis’

Mulher retratada em plano médio, falando ao microfone com um semblante sério e decidido. Ela é parda, de cabelos pretos presos com um lenço roxo, e veste a camiseta lilás da marcha com os dizeres "Mulheres em defesa da Borborema Agroecológica". Está posicionada em um palco, sob um teto escuro. Ao fundo, à direita, observa-se parte de um painel ilustrado que retrata cenários de degradação ambiental, como queimadas e o uso de drones em áreas desmatadas
Adivana fala sobre o assédio que o Assentamento Queimadas vem sofrendo por parte de empresas de energia renovável | Foto: Maristela Crispim

Adivana Aguiar Almeida, presidente da Associação dos Produtores do Assentamento Queimadas, traz um alerta sobre o avanço de grandes empreendimentos de energia renovável no território.

“As empresas abordam as pessoas individualmente. Eu, como liderança, fui procurada e disse não. Não apoio o que vem destruir a natureza e a nossa Caatinga. Nossa área de assentamento serve para produzir e preservar, não para entregar a projetos que só fortalecem as empresas”, pontua. Adivana defende que as comunidades precisam, sim, de energia limpa, mas de forma descentralizada, que ajude as mulheres em seus próprios canteiros e produções.

Ela reforça a importância da resistência coletiva contra a pressão de usinas eólicas em áreas de reserva ao conclamar as mulheres para marcharem unidas: “não vão na conversa bonita de quem chega na comunidade. Escutem suas lideranças. A Agroecologia é o fortalecimento desse elo entre nós”.

E encerra com um chamado à união e a lutar contra o veneno e a opressão: “minha família é quem está na luta. Somos todos uma grande rede para garantir o direito de falar, de ir e vir, e de ser respeitada”.

A Violência

A foto em close de mulher de pele madura, traços negros e cabelos curtos e grisalhos levemente cacheados. Ela usa óculos de armação escura e fala ao microfone, que segura próximo à boca com uma expressão de seriedade e foco, veste uma camiseta de tom lilás, cor símbolo. O fundo da imagem está levemente desfocado, revelando a rua movimentada com diversas pessoas, prédios urbanos e uma bandeira vermelha à esquerda, indicando que ela está discursando durante movimento sob a luz direta do sol
Roselita destaca a importância da mudança de postura por parte dos homens para reduzir a violência de gênero | Foto: Maristela Crispim

“A violência contra as mulheres virou uma epidemia no Brasil. E isso é muito grave”, afirma Roselita Vitor Albuquerque, assentada e coordenadora do Polo da Borborema, que promove a Marcha, ao encerrar a caminhada sobre o carro de som.

Roselita enfatiza que a luta não pode ser só das mulheres: “os homens precisam assumir outra postura. Não podemos viver em um país onde as mulheres não têm o direito de viver porque decidiram sair de relacionamentos abusivos. Precisamos de políticas públicas efetivas e que os agressores paguem por seus crimes”.

A ciranda

A foto registra uma apresentação cultural vibrante de uma mulher negra idosa de presença majestosa, que canta com um microfone vermelho na mão. Ela veste um traje exuberante e volumoso, com camadas de babados em tecidos africanos coloridos em tons de amarelo, laranja, azul e rosa, além de um turbante combinando e diversos colares de contas brancas e douradas. Ao seu redor, músicos a acompanham: à esquerda, um homem toca uma caixa de metal, e à direita, um homem de cabelos estilo black power e camisa vermelha toca um surdo azul decorado com a imagem de uma mulher negra. O cenário ao fundo é um painel lúdico e colorido que remete a uma cozinha rústica com utensílios domésticos desenhados
Lia de Itamaracá contagia a multidão com a sua ciranda que encerra a marcha | Foto: Maristela Crispim

No fim de tudo, no alto dos seus 82 anos, 10 só de Marcha, a dançarina, compositora e cantora de ciranda pernambucana Lia de Itamaracá conduz uma grande ciranda de exaltação à vida, um encerramento apoteótico para mais um grande momento de demonstração da força feminina nordestina.

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