Co-fundadora do Instituto Pró-Silvestre, a advogada cearense Karine Montenegro preencheu uma lacuna na proteção da fauna silvestre do Ceará. No primeiro episódio da série especial Protetoras da Caatinga, conheça a trajetória e o trabalho de Karine pela defesa dos animais silvestres

A cearense Karine Montenegro, 41, tem certeza que o universo compactua com as escolhas e com os acasos. Nascida no dia 8 de março, o Dia Internacional das Mulheres, foi justamente da garra feminina que a advogada ambientalista e animalista co-fundou o Instituto Pró-Silvestre (IPS), organização não governamental cearense focada em resgatar, reabilitar e soltar animais silvestres, a maioria vítima do tráfico.
Com mais de 5 mil animais amparados, o IPS transformou o cenário de resgate animal no Ceará em uma época escassa. Em 2018, o Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ceará (Cetas-CE), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), estava fechado para reforma. Enquanto isso, o tráfico seguia na ativa, e as delegacias se viam na posição de dar aos traficantes o documento de fiel depositário dos animais, por não ter para onde destiná-los após a apreensão.
“Aquilo, para mim, era facilitar a vida de um traficante”, recorda Karine. Da indignação de duas mulheres, ela e Eliziane Holanda, que na época era inspetora bióloga da Polícia Civil do Ceará (PC-CE), surgiu a ideia de criar uma rede de amparo própria, que em poucos anos seria o IPS.
Conheça a trajetória da advogada dos animais silvestres na série especial da Eco Nordeste, Protetoras da Caatinga:

Catalina Leite – Em geral, quando se fala em Direito, o Direito Ambiental e o Animalista não são os primeiros que vêm à mente. Como foi que você entrou nesse mundo da proteção da Caatinga?
Karine Montenegro – Eu sempre soube que eu ia trabalhar com bicho, sempre. Minha vida toda, desde criança, eu sou fissurada em animal. Mas eu também sempre amei a Lei. Então, na época do meu vestibular, fiquei muito em dúvida: se eu ia pelo meu amor à Lei, com o Direito, ou se eu ia pelo meu amor animal, com a Medicina Veterinária.
Eu optei por Direito, já pensando que eu iria defender o animal em vida livre por meio do Direito, entendeu? Eu sabia que não ia ser de imediato, porque a gente sabe que o Direito Ambiental e o Direito Animalístico não são muito bem valorizados.
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Então, fui pro ramo empresarial, peguei também muita causa trabalhista… Mas quando eu vi que já conseguia abrir o meu escritório, já estava na Comissão de Direitos dos Animais da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), eu defini que era o momento de começar.
Rapidamente – e parece que quando você escolhe, o universo de alguma forma compactua pela sua escolha – surgiu a necessidade de uma ONG aqui no Estado de Ceará, voltada para os animais silvestres, porque até então não tinha. As que tinham eram para animais específicos, ameaçados de extinção. E o Ibama estava com o Cetas fechado nessa época, em 2018.
No primeiro momento, eu não pensei em fundar uma ONG, mas em fazer um movimento, que foi iniciado por um falcão. Eu moro num local mais perto de natureza, e no jardim do condomínio caiu um filhote de falcão-quiriquiri (Falco sparverius). E aí os condôminos pegaram o filhote e levaram para mim. E ali foi o que me despertou.

Um falcoeiro, chamado Sanjay Veiga, me ensinou a reabilitar esse falcão. Primeiro ele tentou que eu fizesse a mãe dele o aceitar de volta, mas ela o derrubou mais duas vezes; o rejeitou total. E aí ele disse que eu teria que reabilitar.
Isso foi em 2020, a reabilitação durou uns três meses. Aí eu já estava muito imersa, os biólogos começaram a me apresentar como é que estava o quadro dos animais silvestres no Ceará inteiro, eu comecei a me aprofundar muito, na OAB, na questão do tráfico de animais silvestres e comecei a ir para a feira da Parangaba como espiã, literalmente.
Depois do falcão, eu não consegui mais me aquietar. Comecei a ter contato com a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA) e a trazer vários casos de tráfico de animais silvestres; não só da Feira da Parangaba, mas outros que eu achava na internet, e ali começou um movimento.
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Mas eu vi que não estava sendo suficiente. Já tinha uma tradição nas delegacias de que, como o Ibama estava com o Cetas fechado, os bichos do tráfico eram apreendidos, mas deixavam o traficante como depositário fiel dos bichos. Para mim, isso era facilitar a vida de um traficante.
CL – Mas o Instituto Pró-Silvestre surgiu de uma conversa entre você e a Eliziane Holanda, que na época era inspetora bióloga da Polícia Civil do Ceará, certo?
KM – Foi. Nessa época, ela atuava na DPMA. Ela tinha uma identificação de causa muito maior comigo, daí ficamos revoltada juntas e decidimos criar nossa própria rede de amparo aos silvestres.

Começamos a selecionar pessoas e eu fui atrás de um veterinário que atuasse com silvestres. É muito raro no Brasil, mas no Ceará é mais raro ainda. Na época, só tinha uma clínica de animal silvestre no Ceará inteiro, a Clínica Bicho do Mato. Eu fui lá na cara lisa e falei com o dono, o Marcelo Jucá. Ele topou.
Depois fui chamando mais gente, inclusive o Gabriel Biologia (biólogo e vereador de Fortaleza pelo Psol-CE). Chegou um momento que estávamos com uns 11 integrantes mais ou menos. Os anos de 2020 e 2021 foram inteiros só recebendo animal, reabilitando da maneira que dava. A clínica do Marcelo se tornou o “Ibama” (risos). Chegava lá e ele dizia: “meu Deus do céu! Eu não tenho espaço pros meus os clientes. Só tem bicho que vocês trazem”. Eu disse: “Marcelo, segura as pontas, vai dar certo”.
Antes de tudo isso, é importante dizer como advogada, houve um aparato legal. Eu primeiro pedi uma autorização da Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema), na época o secretário era o Arthur Bruno, para poder a gente fazer esse manejo. Eu lembro como se fosse hoje, ele quase se emocionou.
Na hora, ele disse assim: “Eu não sei se eu assino essa autorização aqui emocionado pelo bem-estar que vocês estão fazendo aos animais ou pela coragem que vocês estão tendo de se meter nessa loucura”. Ele mesmo disse.
CL – O fato de o IPS ter surgido de uma conversa de duas mulheres é muito simbólico, na verdade. Como a sua experiência como mulher influencia o seu trabalho na proteção da fauna?
KM – Eu costumo dizer que a mulher, e isso é histórico, é um faz tudo e sempre foi muito subjugada. Eu acho que, nesse papel que eu me encontro hoje, eu me sinto muito realizada porque eu consegui sair desse subjugamento.
Geralmente, as mulheres ficam em segundo plano. No primeiro plano, quem está assinando geralmente é, infelizmente, um homem. Não estou dizendo que é um homem mau, mas muitas vezes o plano é feito por uma, duas, três mulheres por trás, mas quem está à frente aparecendo é um homem. E nesse movimento, que se transformou em uma ONG, mas que extrapolou isso, acabou fortalecendo muito a força da mulher.
“Quando eu vejo essas vitórias, eu não vejo a Karine. Eu vejo a mulher”
Karine Montenegro
Se não fosse mulher, o IPS não existia. Foi conversa de duas mulheres ali. Se não fosse mulher, não estávamos no Plano de Ação Nacional (PAN) das Aves da Caatinga, sem medo de errar. Fui eu que corri atrás.
E é bem interessante porque, olha só como as coisas foram rápidas: em 2022 fundamos o IPS, ainda em 2022 fomos para o PAN das Aves e em 2023 fundou-se, no Ceará, a primeira Secretaria da Proteção Animal (Sepa-CE), com a primeira célula de animal silvestre da história do Estado.
Nunca nenhum órgão teve uma célula específica de animal silvestre no Ceará. Tem uma coisa global, meio ambiente envolve tudo, com o Ibama e a Sema. Mas uma célula exclusiva de proteção à fauna silvestre, nunca teve. E a primeira coordenadora dessa célula convidada fui eu. Então, mais um gol para a mulher. Porque quando eu vejo essas vitórias, eu não vejo a Karine, eu vejo a mulher.
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E daí já veio o primeiro Plano de Ação Territorial do Estado de Ceará, o PAT Sertões, fruto da célula de animais silvestres da Sepa. O PAT já está com várias mulheres líderes. Eu interpreto que é só o começo da história. Eu acho que está sendo uma história muito bonita que está sendo contada.
CL – E nesse processo de reabilitação e de soltura, a sua percepção sobre a Caatinga mudou de alguma maneira?
KM – Mudou totalmente. Totalmente, porque uma vez que reabilitamos silvestres até a aptidão para soltura – e eu falo aqui como instituições, tanto o IPS, quanto a Sepa -, na hora da soltura temos que entrar no miolo da Caatinga. Temos que conhecer de perto o que é a Caatinga que a gente só conhecia em livros. E ali vemos uma beleza surreal.
“Eu acho que a mulher é a Caatinga”
Karine Montenegro
Sério! Tem lugares que eu vou na Caatinga que eu digo: “não. Isso é Mata Atlântica”, mas não é. É Caatinga. É realmente o único bioma exclusivamente brasileiro, e é uma joia rara.
Vemos a sabedoria da Caatinga, se quisermos, dá para fazer muita poesia dessa realidade que é a Caatinga, essa força. Principalmente tratando como mulher. Eu acho que a mulher é a Caatinga.
Porque a Caatinga seca, se esvazia de água, fica sem o verde. Mas quando chove a primeira chuvinha, o primeiro pingo, ela já fica toda verde. É diferente de uma mata que não é Caatinga, que uma vez que ela fica seca, para se recuperar é muito tempo. A Caatinga, não, ela fica branca por saber, por resiliência.
“Com um pingo de água, a Caatinga floresce; com um pingo de direito que você dá a uma mulher, você vê o tanto de fruto que ela dá”
Karine Montenegro
Ela armazena toda a sua água ali nas raízes e fica resistindo, até a primeira chuvinha; bem mulher mesmo. Depois de tantos anos sem poder votar, sem poder falar. Quantos anos a mulher passou com seus direitos usurpados… E ainda hoje. Nunca se viu o nível de feminicídio como o que hoje se vê, e não é à toa, e nem é coincidência, porque hoje a mulher tem voz e vez, e isso irrita demais.
A resiliência que a Caatinga guarda em si, eu vejo muito a mulher nisso. E aí, com um pingo de água, ela floresce; com um pingo de direito, de voz que você dá a uma mulher, você vê o tanto de fruto que ela dá. É sem fim.
Hoje, eu realmente sou muito mais apaixonada pela Caatinga do que antes. Porque eu vivo na pele. Quando vamos fazer muitas solturas, passamos de dois, três meses às vezes imersos na Caatinga. E é muito bonito estar ali, fazer parte.

Eu sou nordestina da gema, mas eu só me senti mesmo fazendo parte do meu Nordeste quando eu passei os meus dias ali, imersa na Caatinga. Ali eu digo: Sou sertaneja mesmo.
É muito bonito de se ver. Quando você está lá dentro, você está beneficiando aquela Caatinga, e você tem que beneficiar, porque infelizmente ela é muito maltratada. Muito desvalorizada ainda. As pessoas ainda continuam com essa mentalidade de que a Caatinga é nada. Só tem seca, não tem verde…
CL – De que forma o Direito contribui no teu exercício no IPS, e ao mesmo tempo, como a reabilitação de fauna influencia a tua atuação como advogada?

KM – Nossa! Influencia totalmente. Uma das características boas do advogado é ser um grande articulador. E tem dois perfis de advogado: o peticionante, que fica só no escritório peticionando, e o audiencista, que peticiona, mas vai para o tribunal. E o tribunal é literalmente uma guerra.
E aí eu utilizei muito dessa habilidade. Eu passei anos trabalhando como audiencista de empresas e toda essa bagagem, que até então aparentemente não ia servir de nada para minha causa ambiental, serviu muito, porque todos os patrocinadores hoje que eu consegui foi por causa dessa articulação. O IPS só sobrevive por causa dos patrocinadores, que eu só consegui por causa da articulação, que eu aprendi no direito. É impressionante como a vida segue os propósitos.
E eu não me vejo em outro local; aliás, se eu fosse bióloga, eu não tinha fundado a ONG. Eu fundei a ONG porque eu fui atrás de saber a problemática que fez o Cetas fechar. Quando eu fui conhecer o tráfico, aquilo me revoltou contra aquele crime. E eu, por ser uma advogada revoltada contra crimes, fiz alguma coisa para combatê-lo.
Se eu fosse bióloga, eu não ia ter esse pensamento. Tenho certeza. E isso não é desmerecendo os biólogos, é porque isso é pensamento de advogado, que odeia crime, e é doido querendo combater crime.
CL – Você já se arriscou de alguma forma neste trabalho?
KM – Eu fiz loucura, já. Fui para uma soltura, vi um caçador e eu fui para cima dele. Não de bater, mas fui dar voz de prisão. Eu fui com as armas que eu tinha na época: um carro do governo do meu lado.
Por outro lado, a presença no campo também mudou minha forma de advogar. Acontece que a gente é ser humano e não podemos negar que a gente só ama o que vê. Um dia, a gente estava numa audiência sobre atropelamento de fauna e eu estava ali pela Sepa, mas como advogada.
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Todos os órgãos falaram, cada um deu suas colocações e suas argumentações… E quando chegou para mim – e eu vivo vendo animais atropelados no sertão, eu sei da problemática e da solução óbvia -, eu comecei a falar quase como uma metralhadora.
Disse que o atropelamento de fauna no ponto que a audiência estava focando acontece porque foi dada licença ambiental para uma empresa que construiu a estrada e não foi dado condicionante. Isso aqui tem que ter passagem de fauna, não adianta só botar equipamento tirando fotos com o sensor, tem que ter a passagem de fauna, isso é para ser a obrigação da empresa que está lucrando com aquilo.
Quando eu finalizei, a promotora olhou para o meu chefe e disse: “secretário, na próxima audiência o senhor não precisa vir, mas essa bióloga tem que vir”. Bióloga! (risos) Eu disse: “sou advogada, mas atuo no local”, e ela sem acreditar. Então, se eu não fosse uma advogada de campo, isso não aconteceria.
Se eu estivesse vendo só uma foto de uma revista, até me revoltaria, mas não com aquela propriedade que me revolta quando vejo um bicho atropelado bestamente. Acontece que eu estou no campo. Eu consigo ver, aí eu consigo amar.


