Sertão Monumental é testemunho da história da Terra

Com o maior campo de inselbergs do mundo, Quixadá e Quixeramobim avançam na criação de Geoparque para transformar a paisagem em motor de desenvolvimento sustentável e turismo científico

Fotografia aérea destaca duas imensas formações de rocha granítica escura e acinzentada que emergem verticalmente da paisagem. As rochas possuem texturas rugosas, com fendas profundas e marcas de erosão milenar, sendo parcialmente cobertas por uma vegetação rasteira e arbustos verdes que crescem em suas encostas e na base. Entre os dois grandes blocos de pedra, estende-se um vale de mata verde densa, e ao fundo, sob um céu claro com nuvens brancas e esparsas, avista-se o contorno de uma cidade pequena e outras silhuetas de montanhas distantes
Inselberg (do alemão “ilha de montanha”) é uma elevação rochosa isolada, como um monólito ou grupo de rochas, que se destaca em uma paisagem mais plana e desgastada, como uma ilha no mar, sendo comum em regiões tropicais e subtropicais, como o Sertão Nordestino | Foto: Rubson Maia

No coração do Ceará, o que muitos vêem apenas como “pedras” no caminho do pasto é, na verdade, um livro aberto sobre a evolução do Planeta. Por abrigar o mais representativo campo de inselbergs (monólitos) do mundo, os municípios de Quixadá e Quixeramobim avançam no projeto de criação do Geoparque Sertão Monumental, iniciativa que busca  reconhecimento internacional. O objetivo é converter a beleza cênica do Sertão Central em um modelo de desenvolvimento sustentável que, diferente de uma unidade de conservação tradicional, foca na valorização da Geodiversidade. Ao unir ciência, esportes de aventura e preservação, o projeto pretende dar um novo sentido econômico e cultural ao território, e consolidar o Geoturismo como força motriz da região.

Rubson Maia, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), informa que a paisagem da região é composta por formas de relevo denominadas Inselbergs, conhecidas popularmente como monólitos. “Do ponto de vista científico, eles trazem informações acerca da história da Terra, do clima, da evolução da paisagem do Planeta. Por esse motivo eles são importantes, precisam ser preservados, conservados e utilizados em um modelo de desenvolvimento sustentável que considere o Geoturismo como seu principal propulsor”, informa o pesquisador.

A foto mostra um homem de pele clara, cabelos escuros e levemente ondulados, barba e bigode bem aparados, enquadrado em primeiro plano, olhando diretamente para a câmera com expressão séria e concentrada. Ele veste uma camiseta escura. Ao fundo, há uma paisagem natural de aparência semiárida, com grandes formações rochosas, vegetação baixa e seca, além de algumas plantas espinhosas presas às rochas. A luz do sol, aparentemente no fim da tarde, ilumina o rosto e as pedras, criando tons quentes e sombras suaves, enquanto o horizonte revela um terreno irregular e árido, típico de áreas do interior nordestino
Rubson Maia é professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e integra o Comitê Científico do Geoparque Sertão Monumental | Foto: Arquivo Pessoal

Conforme Rubson, o Geoparque não é uma entidade jurídica, não dentro da legislação brasileira. Inclusive, a área já é uma Unidade de Conservação, um Monumento Natural. “O Geoparque é um projeto de desenvolvimento sustentável com base na valorização da Geodiversidade”, reforça.

“Todo mundo conhece a Biodiversidade. Mas a Geodiversidade as pessoas não conhecem. É a diversidade associada às paisagens, ao palco onde a vida acontece. São as falésias, as dunas, as montanhas, os vales, as planícies e as depressões. Este espaço onde ocorre a vida, ele é tão importante quanto a vida”, sintetiza Rubson.

O que muda

Foto de uma paisagem ampla dominada por grandes formações rochosas isoladas, com paredes íngremes e superfícies claras, emergindo de um manto verde de vegetação densa. Entre as rochas, a mata cobre encostas e vales, criando contraste entre o cinza das pedras e o verde intenso das árvores e arbustos. Ao fundo, o relevo se abre em planícies e serras mais distantes, sob um céu carregado de nuvens escuras, que anunciam chuva. Na parte inferior da cena, pequenas casas de telhado alaranjado aparecem encaixadas no pé das montanhas, reforçando a escala monumental das rochas e a integração entre presença humana e paisagem natural
Na região há formas de relevo muito interessantes, algumas levam ao fenômeno psicológico no qual o cérebro percebe padrões significativos, como formas familiares, a Pareidolia, como é o caso da famosa Pedra da Galinha Choca, em Quixadá | Foto: Luís Carlos Bastos Freitas

“Com a criação do Geoparque, vai sendo trabalhada no território uma dimensão de valoração desses espaços, seja por meio dos esportes de aventura que já existem lá, mas valoração pela sua importância científica no cenário internacional. E seu caráter estético porque são paisagens muito bonitas, de altíssima beleza cênica e de um caráter muito particular que não acontece de forma muito comum no Planeta”, detalha o pesquisador.

Ele acrescenta que o tipo de turismo, além dos esportes de aventura, é o turismo associado ao trekking, às trilhas, ao ciclismo e ao turismo de contemplação. “As pessoas vão para fazer um trekking e podem contemplar um entardecer com aquelas paisagens belíssimas de rochas expostas, com formas de relevo muito interessantes, algumas delas com fenômeno da Pareidolia (onde se vê diferentes formas, como uma cabeça de um leão, de um macaco, uma galinha). É um Geoturismo voltado para a contemplação da paisagem”, ressalta.

Rubson afirma que a criação do Geoparque é importante porque ele muda a concepção do que são aquelas rochas: “As rochas vão assumir grande relevância naquele aspecto em particular porque elas formam relevos muito bonitos. Mas são rochas graníticas, as mais comuns que existem. Para nossa sorte, têm baixo potencial comercial como rocha ornamental. A importância é sobretudo paisagística, associada às formas de relevo”.

Atualmente, um grupo de trabalho criado oficialmente por Portaria do Governo do Estado do Ceará, formado por várias instituições, discute todo mês estratégias de promoção no território, de ações que viabilizem a consolidação desse projeto de Geoparque num futuro breve. Participam universidades, as duas prefeituras com participação muito ativa e outros, como Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), órgãos estaduais e federais.

Diferencial econômico

Foto de uma paisagem ampla do semiárido, marcada por grandes formações rochosas isoladas — enormes blocos de pedra arredondados — que se erguem sobre uma vegetação baixa e esparsa, em tons de verde e marrom. No primeiro plano, uma barragem curva contém um reservatório de água azulada, contrastando com a aridez ao redor, enquanto uma rocha monumental se impõe logo acima do lago. Ao fundo, sucessivas fileiras de inselbergs se espalham pelo horizonte, criando um relevo dramático e fragmentado, com pequenas áreas urbanas quase imperceptíveis entre as pedras. O céu claro amplia a sensação de vastidão e ressalta o encontro entre água, rocha e caatinga
Além de mostrar ao mundo a importância e beleza dos inselbergs, o trabalho inclui mudar a cultura local sobre eles e o potencial para o desenvolvimento de uma nova economia regional | Foto: Rubson Maia

O pesquisador enfatiza a importância de internacionalizar mais a área por meio da ciência, mostrar para o Planeta para ajudar a promovê-la como um sítio de morfologia granítica, provavelmente o mais representativo do mundo. E também promover no território essa incorporação dos inselbergs de forma mais forte na cultura.

“Às vezes a pessoa tem dentro de um terreno uma exposição daquela, um inselberg, e acha que aquilo ali é só pedra e que, se não tivesse aquelas pedras seria melhor porque seria uma área de pasto, por exemplo. Mas aquela paisagem é um diferencial e ele só vai perceber que é um diferencial competitivo quando ver que as pessoas estão vindo visitar. E isso já vem acontecendo. É uma mudança que está acontecendo paulatinamente”.

Histórico

Foto de um homem em primeiro plano, com cabelos escuros e lisos, usando óculos escuros e camiseta azul, fotografando a si mesmo diante de uma paisagem natural exuberante. Ele está apoiado em um parapeito de concreto, possivelmente de uma ponte ou mirante. Ao fundo, estende-se um vale coberto por densa vegetação verde, com encostas de morros e montanhas sucessivas recobertas por floresta. Um curso d’água sinuoso aparece ao fundo, parcialmente visível entre as árvores, e o céu claro, com poucas nuvens
Luís Carlos Bastos Freitas, geólogo e pesquisador do Serviço Geológico do Brasil, tem dedicado sua atuação à Geodiversidade, aos geoparques | Foto: Arquivo pessoal

Luís Carlos Bastos Freitas, geólogo e pesquisador do Serviço Geológico do Brasil, tem dedicado sua atuação à Geodiversidade, aos geoparques, à prevenção de desastres naturais e ao uso do conhecimento geocientífico como ferramenta para o desenvolvimento territorial sustentável e a valorização dos territórios brasileiros.

Ele destaca que o Projeto Geoparque Sertão Monumental teve início por iniciativa do Serviço Geológico do Brasil (SGB), por volta de 2010, ainda como um projeto institucional vinculado ao Programa Geoparques do Brasil. Naquela fase inicial, recebeu o nome simbólico de “Vale Monumental”.

Sua execução efetiva ocorreu em 2019, quando passou a adotar o nome definitivo Sertão Monumental, a partir de uma parceria entre o SGB, a UFC e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Ceará (IFCE) – Campus Quixadá. O projeto contou ainda com a colaboração de outras instituições na elaboração do relatório técnico, como a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema), o Museu de Pré-História de Itapipoca (Muphi) e a Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Outras propostas

O Programa Geoparques, concebido pelo Serviço Geológico do Brasil e alinhado aos princípios estabelecidos pelos Geoparques Globais da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), segundo Luís Carlos, desempenhou um papel importante no estímulo à criação de geoparques em território nacional.

Ao todo, essa iniciativa resultou em 25 propostas, fruto da colaboração de diversas instituições, fundamentadas na premissa essencial de identificar, levantar, descrever, inventariar, diagnosticar e promover a ampla divulgação de áreas com potencial para se tornarem geoparques.

O pesquisador explica que, em determinados casos, essa ação catalisadora ocorreu por meio de parcerias ou com o respaldo de entidades governamentais ou privadas, especialmente universidades, que compartilham interesses alinhados às comunidades locais. Dentre as áreas contempladas por essa iniciativa, destaca-se o Projeto Geoparque Sertão Monumental.

Ele informa, ainda, que atualmente, o projeto não é mais institucional do Serviço Geológico do Brasil, mas conduzido por diversas instituições, principalmente aquelas com atuação direta no território. No entanto, o SGB continua presente como instituição colaboradora e integrante do Comitê Científico.

A estrutura organizacional do Projeto Geoparque Sertão Monumental é atualmente liderada pelo Grupo de Trabalho (GT-GSM) e composta pelos Comitês Executivo e Científico, além das instituições colaboradoras. O Comitê Executivo é encabeçado pelas prefeituras municipais de Quixadá e Quixeramobim, pelo IFCE e pela Sema.

Conta também com a participação de diversas outras instituições, como Secretaria da Cultura do Ceará (Secult Ceará), Secretaria do Turismo do Ceará (Setur Ceará), Secretaria de Estado de Educação do Ceará (Seduc Ceará), Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente (Caomace) do MPCE, Instituto Dragão do Mar (IDM) e Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Ceará (Sebrae-CE).

O Comitê Científico, por sua vez, é constituído por pesquisadores de diversas instituições de pesquisa, incluindo SGB, UFC, Uece, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), IFCE e Geopark Araripe.

Processo

Segundo Luís Carlos, a constituição de um Geoparque é um processo complexo e de longa duração. A primeira etapa refere-se à relevância do território, que deve possuir importância geocientífica internacional. Esse requisito já foi atendido, uma vez que a área abriga o maior e mais diversificado campo de inselbergs do mundo. A segunda etapa foi a criação do Grupo de Trabalho, responsável por subsidiar a constituição dos Comitês Científico e Executivo.

A etapa seguinte será a definição de uma estrutura de gestão para o Geoparque. Alguns geoparques, por exemplo, são geridos por consórcios intermunicipais. Após essa definição, terá início o processo de submissão, que dura, em média, de três a quatro anos.

Esse processo envolve, no primeiro ano, o envio de uma carta de intenção à Unesco; no ano seguinte, a entrega de um dossiê detalhado sobre o território; e, no terceiro ano, a visita de dois avaliadores de campo da Unesco, que percorrem o território por alguns dias. “O resultado definitivo da chancela é divulgado apenas no ano seguinte à visita de avaliação”, resume.

Segundo suas informações, o principal desafio tem sido a definição de um modelo de gestão que se adeque às especificidades do território. E, neste momento, falta exatamente definir a estrutura de gestão e iniciar o processo de submissão.

O Serviço Geológico do Brasil (SGB), anteriormente conhecido como CPRM, é uma empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), cuja missão é gerar e disseminar conhecimento geocientífico para apoiar o desenvolvimento sustentável do País por meio do mapeamento de recursos minerais, hídricos e energéticos, análise de riscos geológicos (como desastres naturais), e promoção da geociência em geral, visando a qualidade de vida e a economia nacional.

Geoparques no Nordeste

O Nordeste do Brasil possui dois geoparques reconhecidos pela Unesco: o Geoparque Araripe (Ceará) e o Geoparque Seridó (Rio Grande do Norte), além de outros projetos em desenvolvimento, como o Geoparque Sertão Monumental (Ceará).

O Geoparque Araripe, no sul do Ceará, foi o primeiro geoparque das Américas e do Brasil a receber o reconhecimento da Unesco, abrange seis municípios da região do Cariri (Barbalha, Crato, Juazeiro do Norte, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri). A área possui uma rica diversidade paleontológica e geológica, incluindo a maior jazida fossilífera do mundo em Santana do Cariri.

Geoparque Seridó (Rio Grande do Norte) foi reconhecido pela Unesco em abril de 2022. Está situado no sertão potiguar e envolve seis municípios (Acari, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Currais Novos, Lagoa Nova e Parelhas). A região destaca-se pelo seu patrimônio geológico, que inclui cânions, açudes históricos, a nascente do Rio Potengi, além de um patrimônio cultural e natural significativo.

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