A equipe de reportagem da Eco Nordeste esteve na porção maranhense do Matopiba e conheceu iniciativas que, na contramão da devastação causada pelo agronegócio,  buscam contribuir para a conservação dos recursos naturais da região. O Projeto Terra, idealizado pelo artista balsense Deusamar Santos, é uma dessas iniciativas de solução.

A partir do Porto das Caraíbas, no Rio Balsas, utilizado no início do Século XX para dar melhor acesso às fazendas dos municípios vizinhos, surgiram os comércios que originaram o pequeno arruado. O vilarejo se expandiu e hoje é o município de Balsas, no Sul do Maranhão. Ainda na década de 1970, migrantes sulistas chegaram ao lugar com a aposta de que a região era um lugar próspero para plantar e colher. Assim começou a história de uma das maiores potências do agronegócio maranhense, hoje responsável pelo terceiro maior Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, atrás somente de São Luís e Imperatriz, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Junto com a modernização e o crescimento pujante do agronegócio na região, vieram as mudanças que puderam ser observadas e sentidas pelas pessoas que viviam no lugar. “O primeiro impacto foi cultural. Imagina um casal na faixa de seus 75 anos,  vindo do interior, passando pela cidade, puxando seu jumentinho com a carga em cima, se deparando com uma colheitadeira enorme dessas, sem saberem o que é. O povo não compreendia, não sabiam se aquilo era bom ou ruim”, relembra Deusamar Santos, cantor, compositor e historiador balsense, que acompanhou parte dessas mudanças. 

Motivado pelas questões sociais e ambientais trazidas com a expansão do agronegócio em sua cidade, Deusamar Santos idealizou o Projeto Terra, um espetáculo que há mais de 20 anos contribui com a Educação Ambiental por meio da música e da poesia. O projeto tem como público alvo educadores, estudantes e lideranças comunitárias. Inicialmente o espetáculo esteve destinado às escolas e comunidades de cidades que margeiam o Rio Balsas e seus afluentes, mas já se expandiu para outras regiões do Brasil. 

O projeto também contemplou os 18 municípios margeados pelo Rio Itapecuru, um dos mais importantes do Maranhão, que nasce na região e é responsável por abastecer 75% da população da capital São Luís e outras cidades da região leste e norte do Maranhão.

Foto colorida de plateia de crianças sentadas diante de um homem pardo, de boina marrom e óculos de grau falando ao microfone tendo pendurado ao corpo um violão e estando diante de uma partitura apoiada sobre suporte
Deusamar Santos faz uso da poesia e da música para passar mensagem de conservação do Cerrado ao público jovem de Balsas (MA) | Foto: Acervo Pessoal

A ideia é que o Espetáculo Terra chegue principalmente a regiões onde a natureza sofre com o desmatamento e degradação, supere o grande desafio que é alcançar lugares mais isolados, distantes e carentes de ações de conservação do meio ambiente. Além das músicas que levam o público a refletir sobre a importância de proteger os recursos naturais, o show conta com poesias e contos populares, dá espaço para as poesias caboclas e sertanejas. 

“Desenvolvemos uma metodologia e aí o trabalho começou a acontecer em escolas ribeirinhas. A gente faz todo o cronograma discutido com as secretarias de Educação, com as escolas, com a direção das escolas. A gente desce desde a nascente do Rio até a sua foz, passando por todas as escolas que margeiam o rio. Incentivamos os alunos e professores a fazerem pesquisas sobre as problemáticas ambientais daquele lugar. No final, os estudantes apresentam os resultados de suas pesquisas e a gente contribui nessa dinâmica com as músicas”. 

Como resultado do projeto, Deusamar lançou um disco intitulado “Terra”, com 18 músicas e toadas inspiradas na natureza, compostas durante um período de 20 anos, dentro de um contexto de agressão à biodiversidade local. Um livro de Educação Ambiental também foi lançado pelo artista, na busca de contribuir para a formação de ideias e soluções para os problemas ambientais da região, além de  oficinas oferecidas às comunidades para a compreensão da metodologia do livro.

“É a forma de a gente dar uma contribuição, de dar um grito para tentar sensibilizar as pessoas sobre o que acontece. No início, quando o agronegócio chegou, foi mais trágico, porque era uma coisa muito primitiva. Chegavam e desmatavam tudo, passavam por cima até dos cemitérios das comunidades. O contato do povo com a terra era diferente. Havia uma convivência muito mais orgânica e harmoniosa com a natureza. Para nós, foi uma agressão muito grande com o nosso Cerrado, com nossos frutos e animais. O povo dessa região se sentia parte de tudo, mas essas mudanças tornaram a população mais distante dessa convivência com a natureza e com a terra”, reflete.  

Apesar disso, o artista relembra que as primeiras composições do projeto Terra vieram junto com um movimento da população voltado para as questões ecológicas e vários grupos foram criados em defesa do Rio Balsas e do Meio Ambiente. “Aqui morou conosco um missionário da Igreja que ajudou demais criando movimentos assim de resistência. A cada ano, eu era convidado a falar e motivado a compor alguma música sobre o tema ambiental. Não havia a intenção de fazer disso um projeto, mas o espetáculo é fruto desse percurso”.

Ao exercer o ativismo ambiental por meio de sua arte, Deusamar sente que, ao longo do tempo, também perdeu alguns espaços como artista: “depois que você expõe essas coisas na rádio e na TV, o público passa a te identificar com isso. Ninguém me disse nada, mas eu fui perdendo todo esse outro lado. Para minha sobrevivência, esse foi um momento muito difícil. Acho que isso foi uma reação. Nas cidades do interior, sobreviver de MPB já é muito difícil, sobreviver de MPB regionalista é ainda mais difícil. Agora, imagina quando apareço no rádio ou TV cantando essas coisas”.

E completa: “As pessoas e o sistema têm medo das suas ideias. Passam a lhe conhecer e a conhecer o jeito que você pensa, quais seriam suas ações, então o sistema não precisa fazer muita coisa para lhe esfriar, mas apesar disso, sou muito feliz . Toda dificuldade que te impõem é boa porque te fortalece”.

Projeto ma.to.pi.ba.

Este conteúdo faz parte do Projeto ma.to.pi.ba., uma ação multimídia da Eco Nordeste, com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). Com início em janeiro de 2024, traz matérias, reportagens, podcasts, webstories e newsletters que lançam sobre a região do Matopiba um olhar para além do agronegócio. Ao mesmo tempo em que aborda os problemas socioambientais, a iniciativa aponta experiências que têm dado certo na região, na linha editorial de jornalismo de soluções adotada pela Eco Nordeste.

O projeto é executado por uma equipe premiada composta pelas repórteres Alice Sales e  Camila Aguiar, com edição da jornalista Verônica Falcão e coordenação geral da jornalista Maristela Crispim. Líliam Cunha assume a Assessoria de Comunicação, Flávia P. Gurgel é responsável pelo design; Isabelli Fernandes, edição de podcasts, e Andréia Vitório faz o gerenciamento das redes sociais.

O Matopiba tem 73 milhões de hectares em três biomas: Cerrado ( 66,5 milhões de hectares, o equivalente a 91% da área); Amazônia (5,3 milhões de hectares correspondentes a 7,3%); e Caatinga (1,2 milhão de hectares que ocupam 1,7%). Reconhecida como área de franca expansão agropecuária pelo Governo Federal desde 2015, o Matopiba é uma porteira aberta para a devastação da Amazônia.

Denominado com as sílabas iniciais dos quatro estados que abrange – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o Matopiba inclui 337 municípios e é apontado desde os anos 1980 como um celeiro mundial de commodities. Sobre a vegetação nativa e populações tradicionais desses três Estados do Nordeste e um do Norte avançam plantações de soja, milho e algodão.

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