Por Yara Peres
Colaboradora

Ilustração: Gaga Rangelov

Olá, eu sou o mundo de 2020! Eu venho mudando com tanta rapidez até aqui que nem eu mesmo estou acreditando! Eu me sinto tão diferente de outros tempos… Eu realmente sou um planeta diferente. Mas eu vou explicar para vocês porque eu me sinto realmente estranho neste ano.

Sinto que algo dentro de mim parou. Literalmente parou. Eu até convivo bem com os mais de sete bilhões de humanos que fazem parte da minha estrutura “corporal”, apesar de eles não me darem o devido sossego faz tempo. Aliás, agora eu me sinto como há muito tempo eu não me sentia. Tenho um palpite de que esses humanos podem finalmente estar pensando em melhorar nossa relação. Minha atmosfera brilha!

Na verdade, acho que eu adoro me iludir. Essa sensação foi só mais uma ilusão. Quando eu imaginei que a humanidade que habita em mim estava verdadeiramente buscando melhorias para a minha saúde, eu percebi que estava enganado. Não era isso. É um vírus!

Sim, amigos, sabemos que eu sempre tenho enfermidades. Meus pulmões estão um colapso… São manchas de óleo nas minhas águas do Atlântico, plástico, plástico e mais plástico sufocando minhas águas! Sem falar que minha biodiversidade está em súplica com tanto desmatamento… Ufa!

Nas áreas em que eu mais preciso de proteção, porque elas me mantém vivo, eu vejo líderes de nações que patrocinam a destruição! Pasmem! Também sou obrigado a acompanhar um genocídio aos meus povos originários, que são como meus anticorpos, sabe? Eles estão comigo há milênios e tentam até hoje proteger as minhas terras. Eles são poucos, apesar da ajuda de outros povos de bem, ainda assim são poucos. Bem poucos hoje.

Mas esse vírus que atua em toda a minha circunferência global me fez, pela primeira vez, não me sentir tão mal com uma enfermidade. Isso porque ele atinge com força e sem escolhas a humanidade que habita em mim. Eu já entendi que elas só precisam esperar. Parar. Por um tempo estar só em suas casas. E agradeçam por terem uma casa! O vírus é invisível e tem ceifado vidas. Vidas que eu gosto. Vidas que me completam!

E junto a essa dor de perder um pouco de mim a cada existência humana arrebatada nunca me senti tão leve! Meu ar está mais limpo, meus animais correm pelos vilarejos sem medo e chegam até às cidades. Como posso me sentir melhor com tudo o que está acontecendo?! Eu sei que muita gente tem conflitos internos. É normal. Ainda sim, eu sei que tudo isso vai passar.

Apesar dessa mescla de sensação de alegria e dor, só consigo pensar neles. Eu preciso deles em mim! E é esse sentimento que a humanidade precisa entender. Cuidar do próximo é cuidar de você mesmo. Eu não vou desistir de vocês. Mesmo que cogitem mudar para um planeta B, haja o que houver, eu sempre terei a esperança de que a humanidade vai encontrar o equilíbrio na nossa relação. Eu estou aqui. Sentindo-me leve, mas com uma dor no peito. Ame e viva! Somos resiliência!

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